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5. Findings

5.7. Discussion of Results

Dentre as gramáticas escolhidas para fazerem parte deste estudo, decidiu-se também utilizar a gramática descritiva de Perini, que possui, segundo o próprio autor, uma ênfase na sintaxe e semântica da oração para se entender como são vistas, nesse tipo de gramática, as questões da classificação, de deslocamento/flutuação de classes e como é dada a diferenciação entre as subclasses de substantivos. Na Gramática do Português Brasileiro, Perini inicia seu texto discutindo a função dos estudos gramaticais, diferenciando a gramática do português falado das gramáticas tradicionais, elencando uma série de questionamentos.

O primeiro questionamento diz respeito à visão utópica de que saber gramática significaria saber escrever bem. O autor afirma que, sendo a gramática uma disciplina científica, assim como outras ciências, torna-se um conhecimento importantíssimo para o cidadão do séc. XXI. Entretanto, ele ressalta que “[...] esperar do estudo de gramática que leve alguém a ler ou escrever melhor é como esperar do estudo da fisiologia que melhore a digestão das pessoas.” (PERINI, 2010, p.18). Ele deixa claro, como argumentação contrária a esta visão utópica, que o estudo da gramática oferece uma visão ampla a respeito do funcionamento da língua, mas esse não se esgota na gramática.

Outro questionamento elencado por Perini (2010) é a dualidade português padrão versus português falado e que este é descartado pelas gramáticas

24 Não obstante mantenha a mesma estrutura classificatória das gramáticas anteriores e também se

tradicionais e que seu objetivo seria refletir a respeito da língua que se fala no Brasil, estudando a língua como, de fato, é.

Ainda rebatendo preceitos que seriam das gramáticas tradicionais, o autor assegura que na gramática em questão, o objetivo do estudo seria descritivo e não prescritivo, pois esta não prescreve formas variantes como erradas. Perini se atém, em sua perspectiva, a uma visão científica, focando-se na realidade da língua. Outro aspecto que, para ele, também é relevante é a questão de conceitos novos e noções gramaticais novas para se poder, de forma mais adequada, descrever os fenômenos da língua. O autor afirma que “[...] os conceitos da gramática tradicional são em sua maioria inadequados. Eles precisam ser substituídos por outros que não são do conhecimento geral” (PERINI, 2010, p.21) por ser uma disciplina científica.

Perini, em seus questionamentos, nega que as gramáticas trariam a descrição completa da língua. O autor observa que a complexidade da língua impede que isso aconteça, demonstrando que há muitas questões como a discussão de classes de palavras e outras análises sintáticas que estão em pauta em muitas teorias linguísticas ainda sem respostas definitivas. Isso porque a língua e a linguística vivem em pleno desenvolvimento, portanto, ele propõe para seu estudo descritivo uma nova nomenclatura aos fenômenos gramaticais diante da insuficiência de categorias e inadequação conceitual da gramática tradicional. No entanto, como ele mesmo afirma, não há como se distanciar muito do que já foi proposto pela Nomenclatura Gramatical Brasileira.

Ao iniciar a apresentação de como seria feita a classificação gramatical, de acordo com a perspectiva de estudo descritiva do português falado, o autor faz algumas considerações teóricas, diferenciando classe de função, por discordar da forma como são feitas as classificações nas gramáticas tradicionais. Uma das divergências é o modo como se classifica, pois “[...] a classificação das formas é tratada de maneira bastante inadequada nas gramáticas tradicionais” (PERINI, 2010, p.289). Outra discordância seria em relação à explicação de mudança de classe devido ao contexto, uma vez que para certas gramáticas alguns termos de “[...] determinada classe “funcionam” como se pertencessem à outra classe em determinado contexto” (PERINI, 2010, p.290). Essas duas disssonâncias são pontuadas por Perini uma vez que, de acordo com a sua classificação, a função sintática é dada em relação sintagmática, a qual se define por contextos; e a classe é dada em relação paradigmática, a qual seria definida somente fora do contexto e

por um conjunto de termos que tem um mesmo potencial funcional25e não podem “funcionar” como a classe determinada pela gramática tradicional, nem pertencer a ela.

A partir desse potencial funcional, o autor apresenta as possibilidades classificatórias que se têm quando se pensa em uma rede de classificações e subclassificações cruzadas entre termos que ocupam funções sintagmáticas diferentes. Desse modo, o autor coloca sua opinião referente a uma ampliação classificatória e uma visão que ele determina ser menos distorcida sobre as classes. Ele ressalta que essa rede pode, de forma hipotética, quando sem controle, indicar uma suposta divisão classificatória que chegaria à situação de se haver uma classe para cada palavra, entretanto, essa proliferação de divisões tem um freio automático, que é um conhecimento generalizado que o falante tem a respeito da própria língua.

Esse freio é impulsionado devido às capacidades de comparação, contraste e generalização que o sujeito tem a respeito das estruturas da língua, ignorando certas diferenças, generalizando certas semelhanças. No entanto, o próprio autor afirma que sua proposta está longe de se dizer quantas e quais são as classes de palavras existentes.

Uma vez constatado por Perini que há inconsistências nos nomes das classes gramaticais tradicionais, ele propõe uma nova distinção entre algumas classes, dentre essas as subclasses de substantivos e adjetivos, retomando a tradição gramatical sob a designação nome. Deve-se lembrar que o princípio que rege a reclassificação do autor é o fato de que palavras que ora são classificadas como substantivos, ora como adjetivos e possuem, na verdade, inúmeras propriedades gramaticais – traços (núcleo do sintagma nominal, modificador adverbial) -; não poderiam ser classificadas apenas por dois nomes de classes diferentes, mas sim, deveriam pertencer à classe por ele denominada de nominais, que teria uma série de traços ora coincidentes, ora não tão coincidentes assim, ampliando o quadro de classificação de dois para seis grupos, os quais seriam segundo Perini (2010):

25 Segundo Perini (2010, p.291), o potencial funcional é relativo às funções que as palavras podem

1 - termos que podem ser núcleo do SN26; 2 - aqueles que só podem ser núcleo do SN; 3 - aqueles que podem ocorrer depois do núcleo;

4 - aqueles que podem co-ocorrer com um artigo ou outro determinante; 5 - aquele que pode ocorrer em função adverbial;

6 - aqueles que podem ter gênero inerente.

O exemplo dado pelo autor para explicar a inadequação de se classificar um mesmo termo ora como substantivo, ora como adjetivo é referente ao termo amigo em:

(1) “Meu amigo vai telefonar às oito horas.

(2) Eu sempre prefiro consultar um médico amigo.” (PERINI, 2010, p.291. Grifo nosso.).

Na proposta de Perini, a classificação que deve ser feita não é a do contexto (ora substantivo, ora adjetivo), mas sim a da função que esse termo possui nas duas frases, isto é, em (1) é o núcleo do sintagma nominal (SN) e em (2) é um modificador. Dessa forma, possuem potenciais funcionais diferentes, mas ambos pertencem à classe de nominais.

O autor mostra que as palavras consideradas pelas gramáticas tradicionais como substantivos e adjetivos pertencem a essa classe dos nominais, uma vez que são constituintes imediatos de um SN27. No entanto, essa não seria a única característica dos nominais, nem estes últimos seriam uma classe homogênea, pois adotando a perspectiva de traços, o autor afirma que está à procura de fronteiras das propriedades dos nominais.

Vale ressaltar que Perini tem a intenção de apagar a tensão da classificação de alguns termos como substantivo ou adjetivo, dependendo de um contexto28. Ele faz uma explicação paradigmática da relação de classe e coloca uma nova roupagem classificatória às palavras que pertencem a esse grupo. Denomina assim, que os itens nominais pertencentes especificamente às classes substantivos e

26 SN é sintagma nominal.

27 O autor menciona que intuitivamente faz o recorte segundo o qual nominais são todos os termos

pertencentes ao SN, pois crê que este traço - ser constituinte direto de SN- seja gramaticalmente importante.

adjetivos, fazem parte de um tipo particular de subclasse de nominais que são os nomes29. Uma vez propondo o rompimento com a divisão classificatória tradicional, vê-se que não há espaço, na discussão do autor, para a subclassificação dos substantivos em concretos ou abstratos, pois Perini não se interessa na distinção semântica desses termos, bem como pelo fato, de esta não apresentar nenhuma consequência sintática.

O autor descreve, então, o funcionamento do SN e menciona as potencialidades dessa subclasse nomes, as quais são muito parecidas com as caracterizações que a gramática tradicional apresenta a respeito dos substantivos concretos, abstratos e dos adjetivos. Ao se observar a relação e caracterização do potencial referencial ou potencial qualificativo30 dessa subclasse, nota-se as semelhanças mencionadas à definição de substantivo concreto trazida pela gramática normativa. Essas equivalências ocorrem principalmente em relação aos aspectos relativos à evocação de uma entidade de mundo (real ou imaginário) ao definir o potencial referencial; bem como a aproximação da definição de substantivos abstratos e adjetivos ao relatar o potencial qualificativo como propriedade ou qualidade atribuída a uma entidade do mundo.

Nota-se que, mesmo não expondo de forma explícita, o autor faz uma grande aproximação entre as características das classes substantivos abstratos e adjetivos, colocando-os como pertencentes a um único grupo. Observa-se que qualidades, estados e sentimentos são propriedades comuns às duas classes. Vê-se assim que o autor rompe a barreira classificatória entre os termos pertencentes a esses dois grupos, como se fossem parte de um único grupo estabilizado e fixo, anulando as diferenças semânticas estabelecidas pelas gramáticas tradicionais, pois para o autor, só há interesse em diferenciar termos em classes distintas se houver consequências sintáticas distintas.

Para explicar a proposta acima referida, Perini faz análise de alguns aspectos e propriedades gramaticais que poderiam tangenciaraspectos dinâmicos da língua estudados pela TOPE, tendo em vista as questões dos traços, potencialidades e

29 Toda descrição da classe nomes é apresentada pelo autor no capítulo 26 de seu livro Moderna Gramática Portuguesa.

30 Para o autor, potencial referencial é a propriedade semântica básica do SN, pois não é possível

fazer referência a uma entidade do mundo (real, imaginária, objeto específico, classe geral ou abstração) a não ser com um SN. Uma vez que o potencial referencial evoca uma entidade do mundo, o potencial qualificativo designa uma propriedade ou qualidade atribuída a esta entidade.

fronteiras, marcando certas flutuações das funções gramaticais. Por outro lado, ao corroborar a sua afirmação de que o contexto muda somente a função e não a classificação do termo, percebe-se um esforço do autor em criar inúmeras classificações e subclassificações para poderem abarcar as exceções às regras, os diferentes contextos sintáticos e as variações semânticas dos termos no SN, colocando os termos mais uma vez em grupos estanques.

Em suma, apesar de demonstrar diferenças da classificação tradicional pelo viés da análise descritiva, aplicando os traços semânticos como fator de determinação de pertencimento a determinada classe ou função, o resultado final não prescinde da classificação estanque. Ao eliminar as classes, ditas tradicionais como substantivos e adjetivos, o autor não proporciona ao leitor uma discussão a respeito da instabilidade do processo de classificação gramatical. Ele simplesmente critica o modelo antigo e propõe, para esse fenômeno de deslizamento ou flutuação de classes, uma nova classificação.

Além disso, como único recurso para que não haja uma proliferação descontrolada de novas classes gramaticais, o autor faz um apelo para um conhecimento intuitivo do sujeito, que seria o conhecimento geral, talvez gramatical, que o falante da língua teria para a delimitação dos tipos de classificações. Entretanto, esse apelo não se mostra eficaz, uma vez que não é intuitivo, mas sim metalinguístico, o qual é aprendido e estudado.