Finalmente, comentamos o pequeno recipiente manual, coberto de pequenas perfurações (Estampa L). A sua inclusão na categoria de “recipientes fechados”, não deixa de ser paradoxal, dado a quantidade de perfurações que possui. Contudo, em termos formais e não funcionais, impunha-se a sua integração nesta Forma.
A história do seu achado foi já exposta no Capítulo 5.1.1., pelo que nos escusamos de a comentar.
Este recipiente encontra-se completo, repleto de pequenas perfurações circulares e dotado de uma pequena asa horizontal. O seu fundo plano revela indícios de exposição a uma chama, sendo de notar o seu perfil completamente “atípico”, de tendência oblíqua, ao invés de vertical. Possui bordo simples e um colo estrangulado.
A existência de pequenos recipientes cobertos de perfurações não constitui uma novidade, sendo, contudo, mais rara a ocorrência de recipientes completos e mais recorrente apenas o achado de alguns fragmentos de bojos perfurados. Ao longo de toda a Idade do Ferro peninsular, diversos tipos de recipientes, geralmente produzidos em
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cerâmica manual e com perfurações circulares, são usualmente conotados com funções diversas, nomeadamente queijeiras (Canales Cerisola, Serrano Pichardo e Llompart Gómez, 2004, p.118), coadores ou filtros (Pellicer Catalán, Escacena Carrasco, Bendala Galán, 1983, p. 129, nº 1655; 174, nº 10 e 11), incensários/queimadores (Canales Cerisola, Serrano Pichardo e Llompart Gómez, 2004, p.118; Beirão et. al., 1985, p. 63; Berrocal-Rangel, 1994a, p. 190-196), “aspergilus” (Beirão et. al., 1985, p. 83, nº 60), ou recipientes usualmente ligados pela investigação, a práticas metalúrgicas (Ruiz Mata, 1989; Arruda, 1999-2000, p. 215 e 216; Fernandez Jurado, 1988-1989, p. 186-188).
Citando apenas alguns exemplos, podemos encontrar a existência de recipientes perfurados desde o Bronze Final, no Cerro Macareno, no século VIII e no século VII (Pellicer Catalán, Escacena Carrasco e Bendala Galán, 1983, p. 169, nº 541; 173, nº 347; 174, nº 10 e 11), até finais do século VI, princípios do V, num pequeno recipiente de pé “anelar” destacado e perfurado, conotado com práticas metalúrgicas (Ruiz Mata e Vallejo Sánchez, 2002, p. 214, nº 22), no Cabezo de San Pedro em Huelva, na fase II datada do século VII (Blázquez Martínez et al., 1979, figura 26, nº 172 e figura 30, nº 265)ou em San Bartolomé de Almonte em Huelva, desde o Bronze Final até ao século VII, onde ocorrem diversos exemplares interpretados como coadores, encontrando-se um deles bastante completo e possuindo decoração por linhas incisas (Ruiz Mata e Fernandez Jurado, 1986, vol. I, p. 175 e 219; Vol II, p. 61, nº 359 e 360; p. 143, nº 967). Ocorrem ainda a nível regional no povoado do Bronze Final do Castro dos Ratinhos, alguns exemplares recolhidos no interior do edifício de arquitectura orientalizante (Berrocal-Rangel e Silva, 2010, p. 194, 211, 289, 301, 320). Já no litoral de Portugal, podemos citar a sua existência em Abul, durante o século VII, (Mayet e Silva, 2000, p. 99, nº 166), ou em Castro Marim (Arruda, 1999-2000, p. 215 e 216).
Já no século V, regista-se a presença de um exemplar com características bastante idênticas às do Cabeço Redondo, em Neves I, interpretado como um ex-voto de figuração representativa de um suídeo (Maia, 2008, p. 358 e 359, figura 3). Observando a peça com atenção, notamos que morfologicamente assemelha-se à peça do Cabeço Redondo, pela sua forma fechada e bordo simples. Contudo, o bordo dobrado para o interior, a ausência da pequena asa horizontal e do fundo plano e o facto de possuir metade do tamanho do exemplar do Cabeço Redondo, apresentam-se como características diferenciadoras.
Por fim, na segunda metade do milénio, ocorrem recipientes com uma morfologia completamente distinta do exemplar do Cabeço Redondo, fortemente
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associados ao mundo da II Idade do Ferro do Sudoeste Peninsular, constituindo os conhecidos recipientes “fenestrados” ou queimadores (Fabião, 1998, vol. II, p. 67). Dentro desta Forma geral, ocorrem sub-formas que se assemelham, vagamente e em alguns detalhes morfológicos, ao exemplar do Cabeço Redondo, nomeadamente pela presença de perfurações circulares pequenas e de uma pequena asa (Beirão et al., 1985, p. 65), embora, efectuar uma ligação directa entre estes dois tipos de recipientes, pareça actualmente difícil, pela rara presença de recipientes perfurados no século V, por contraste com a sua presença significativa na segunda metade do milénio, possivelmente indiciadora da chegada ou desenvolvimento de uma tradição cerâmica nova.
Concluindo, face a pequenos fragmentos perfurados, não é de todo fácil poder avançar certezas sobre a que tipo de artefacto, função e cronologia correspondem. O exemplar do Cabeço Redondo, contudo, encontra-se completo e bem preservado, apresentando inegáveis semelhanças com o já referido exemplar de Neves I. As morfologias fechadas destes dois recipientes, com um bordo e colo estreito, afastam-nos dos exemplares do Bronze Final e do período orientalizante, possuidores de diâmetros relativamente abertos, bem como dos queimadores da segunda metade do milénio. Não afirmamos, contudo, que seja impossível que os exemplares de Neves I e do Cabeço Redondo derivem de uma evolução dos recipientes do Bronze Final/período Orientalizante ou das funções a que se destinavam, embora nos faltem dados que permitam confirmar ou afastar qualquer uma das hipóteses.
Tomando uma perspectiva funcionalista activa e afastando a hipótese de as perfurações corresponderem apenas a uma mera decoração, são várias as pistas que parecem apontar o caminho para a função a que se destinava o exemplar do Cabeço Redondo: se por um lado, as perfurações podem existir para deixar escapar algo do interior do recipiente, o facto de o recipiente possuir marcas de fogo na base parece apontar para um queimador de alguma substância que ficasse retida no seu interior. Também a morfologia poderá fornecer algumas pistas, dado a presença de uma pequena asa horizontal, a qual apenas poderá ser entendida como utilizada para o transporte ou para suspender o recipiente, talvez por cima de uma chama, como parecem indicar as marcas de fogo no exterior do fundo. Por outro lado, a sua morfologia oblíqua favorece uma posição inclinada do recipiente, quer este se encontre pendurado pela asa, quer se encontre apoiado na base. Embora possa ser uma posição com um qualquer carácter funcional que favoreça a função de queimador ou incensário, não deixa contudo, de ter algum impacto estético a forma como o recipiente se inclina.
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Por fim, não é possível deixar de comentar a sua manufactura tosca, em cerâmica manual pouco cuidada, semelhante à maioria dos paralelos já referidos. Se se optar por uma visão centrada num possível carácter ritual, não deixa de causar alguma estranheza o pouco (ou nenhum) cuidado empregue na peça, de fabrico absolutamente tosco e grosseiro, sendo de notar que, inclusivamente, algumas das perfurações não foram correctamente realizadas, encontrando-se obstruídas por argila.
Outro tipo de função seria, pois, possível de avançar para a peça. Digamos que, ainda mantendo a mesma função de queimador/incensário, mas afastando qualquer carácter ritual, a função de difundir um determinado odor poderia fazer sentido, numa estrutura habitacional onde se praticariam diversas actividades económicas, de armazenagem, produção e transformação de produtos agrícolas em estado bruto ou transformado. Veja-se a título de exemplo, o caso de La Mata, onde foi identificado um lagar no interior do edifício (Rodríguez Díaz ed., 2004, p. 203). A transformação de certos produtos poderia provocar a emissão de determinados odores desagradáveis, os quais poderiam ser combatidos pela existência de um queimador/incensário de onde emanasse outro tipo de odores. A forma e o fabrico tosco do exemplar do Cabeço Redondo poderiam assim ser compatíveis com uma função ligada a práticas de carácter menos excepcional. Contudo, no estado actual da investigação não é ainda possível confirmar ou afastar liminarmente qualquer uma das hipóteses.
Face ao exposto, devemos aceitar uma cronologia centrada no século V para as peças aqui referidas.