Rosi trilhou o caminho inverso da maior parte de minhas entrevistadas. Enquanto muitas querem se especializar em outros ramos da estética e trabalhar com atividades que dêem mais visibilidade como cabelos e maquiagem, Rosi deixou de ser cabeleireira para se tornar
depiladora. De início, tornou-se depiladora por insistência da dona do salão onde trabalhava. Começou depilando as clientes do salão, tomou gosto pelo ofício e mergulhou no mundo da depilação. Como não quis mais trabalhar como cabeleireira, pediu demissão e ingressou em uma empresa que comercializa cera e instrumentos para depilação. Lá, sua função foi ministrar cursos para clientes e depiladores, participando de congressos e jornadas técnicas. Depois de quatro anos, Rosi decidiu que queria “botar a mão na massa” novamente e voltou a ser depiladora.
Rosi tem trinta e três anos e é uma mulher muito bonita, casada e tem três filhas: de doze, quatorze e dezesseis anos. Depila todas as três. Rosi mora em Caxias e tem que tomar três ônibus para chegar ao trabalho em Botafogo. Apesar de demorar quase duas horas na ida e duas na volta para casa, ela não se arrepende da escolha de largar o trabalho na empresa, pois ama depilar.
O horário de Rosi é do meio dia às dezenove horas. Mesmo sendo o horário de almoço o de maior movimento, ela não precisa chegar com muita antecedência, pois é rápida. Não precisa de muito tempo para se preparar. Hoje, excepcionalmente, Rosi chega com um pouco mais de antecedência. Ela ainda tem que arrumar sua cabine antes de começar a atender. No dia anterior, já passava das dezenove e trinta quando deixou o instituto. Para não chegar tarde demais em casa, deixou para arrumar suas coisas no dia seguinte. Imprevistos costumam acontecer, e ela não se importa se, às vezes, tem que trabalhar até um pouco mais tarde. Ainda mais quando é
para depilar a dona do instituto, como foi o caso ontem. Ela já estava se preparando para ir embora quando a dona do instituto ligou dizendo que iria sair do centro da cidade às pressas para ser depilada por Rosi. Fazia questão de que Rosi fosse a depiladora. E, mesmo estando próximo ao horário de ir para casa, Rosi a atendeu com muito prazer. Afinal, quem não teria orgulho em saber que é a profissional preferida da chefe?
Quando Rosi chega ao instituto já vê algumas clientes aguardando na sala de espera. Ela se dirige aos fundos do sobrado onde troca algumas poucas palavras com suas colegas, veste o uniforme, arruma a cabine e se dirige à recepção. Não quer perder tempo. Sabe que agilidade é essencial neste serviço, principalmente neste horário. As clientes têm pouco tempo e, além de depilar, ainda pretendem almoçar. Além disso, quanto mais clientes depilar, maior será seu salário. Então, mão à obra. O dia será cheio, mas recompensador.
Rosi depila diversas clientes, algumas de preferência, outras não. Não importa. Ela própria não tem preferência por nenhuma cliente. Trata todas da mesma forma. É educada, gentil, cuidadosa e, acima de tudo, profissional. Quando as clientes querem falar sobre seus problemas na cabine, Rosi não se aprofunda neles e tampouco fala sobre os seus. Algumas clientes conversam, outras não. Rosi apenas acompanha. Assim que sai da cabine, sequer se recorda exatamente sobre o que conversaram. Quando reclamam da vida, Rosi procura ser atenciosa, mas não dá margem à cumplicidade. E quando abordam algum assunto íntimo, Rosi rapidamente desconversa. Fala sobre a temperatura da cera e “quebra o assunto”. Não acha certo que a cabine de depilação vire um confessionário. Ela é depiladora, nada além disso. “A partir do momento em que você entra na cabine, você tem que ser profissional”. Este é seu lema, o qual ela repete como um mantra.
Rosi não gosta de que as “coisas se misturem”. Clientes não são amigas. Com clientes não brinca ou fala de sua vida particular, como faz com amigas. Com as clientes, Rosi é profissional: “esquece a Rosi que está lá fora, a partir desse momento é a Rosi profissional que está lá dentro.”
A importância do profissionalismo - a ambigüidade nas relações de trabalho
O profissionalismo é o ponto central na fala e atitude de Rosi. Durante a entrevista, que durou cerca de uma hora, ela não “se abre” comigo. Rosi faz comigo como faz com suas clientes: não se expõe. Diferentemente de suas colegas, Rosi não me conta nenhuma história interessante ou engraçada que já tenha vivido com suas clientes, não me fala de suas preferências,
sentimentos ou perspectivas. Sinto-me, mais uma vez, e mais do que nunca, como mais uma das clientes do instituto.
A questão do profissionalismo não surgiu apenas no relato de Rosi, mas em todas as profissionais entrevistadas. “A gente tem que ser profissional!” É desta forma que o agir de forma profissional aparece na fala das depiladoras: é importante, é necessário. Ser profissional quer dizer estabelecer limites para delimitar o espaço da depiladora e o da cliente em uma relação que frequentemente não tem limites claros. O profissionalismo é um instrumento de trabalho, uma capa protetora contra a “zona de ambiguidade” (DAMATTA, 1987:115)
depiladora que escolhe não utilizar este instrumento está entregue à própria sorte e à mercê das vicissitudes dessa relação.
O serviço de depilação extrapola em diversos momentos os limites de uma relação meramente profissional, que são os de contratação e execução de um serviço. Seja na
identificação, no aprendizado, na troca de favores ou no aconselhamento, o que acontece dentro da cabine está longe de ser distante e impessoal como uma relação profissional poderia ser. Este transbordamento não é exclusivo da relação depiladora-cliente. De um modo geral, as relações de trabalho na sociedade brasileira são marcadas por uma ambiguidade de origem histórica. Do nosso passado escravocrata herdamos uma visão de mundo hierarquizada e uma relação de patronagem entre patrões e empregados, com grandes expectativas de reciprocidade (VELHO, 1996). Segundo Roberto DaMatta (2001), este passado teria embebido “de tal modo as nossas concepções de trabalho e suas relações que até hoje misturamos uma relação puramente econômica com laços pessoais de simpatia e amizade.” (DAMATTA 2001: 32). Com o
crescimento das grandes cidades, valores individualistas foram difundidos suavizando, mas não extinguindo de todo, o sistema tradicional de hierarquia e patronagem (VELHO, 1996). Desta forma, hoje em dia valores individualistas convivem em permanente tensão com uma visão de mundo hierarquizada. Esta convivência aparece na ambigüidade das relações profissionais, onde há grande confusão no entendimento do que sejam os deveres e direitos de patrões e empregados. Esta mistura confundiria o empregado e daria duplo controle (econômico e pessoal) ao
empregador. O caráter ambíguo das relações profissionais frequentemente gera mal entendidos e frustrações, devido às diferenças de expectativas de empregados e empregadores. Em meu estudo da relação de prestação de serviço entre depiladora e cliente, observei que a importância dada ao agir de forma profissional procura justamente evitar tais mal entendidos.
Durante a elaboração deste capítulo, ao navegar pelo Facebook, deparei-me com o seguinte post, que me chamou a atenção: “Minha babá agora tem celular com internet... F$%#@!” 8
Mesmo sabendo que as condições de trabalho da babá diferem enormemente da
prestadora de serviço, pois é contratada, dorme na casa do contratante, participa do cotidiano da família, está em contato direto com o filho da patroa etc., não resisti a utilizá-lo como material de análise.
O post havia sido escrito por uma amiga de uma amiga e, no momento em que o encontrei, já totalizava mais de quinze comentários. Copiei toda a conversa. A maior parte dos comentários era de apenas três ou quatro mães, entre trinta e quarenta anos. Como minha amiga pertence à classe média alta do Rio de Janeiro, supus que as outras mães tivessem o mesmo nível sócio econômico. Os comentários versavam sobre as dificuldades encontradas em lidar com empregadas e babás. Era uma versão eletrônica, congelada na tela do meu computador, de um tipo de conversa que já ouvi diversas vezes em festas de crianças. Este, inclusive parece ser um dos temas preferidos de rodinhas de mães nestas ocasiões: “Babás e empregadas ultrapassam limites, não sabem o “lugar delas”, mas não vivemos sem elas”.
Uma participante da conversa dizia que em breve a tal babá pediria o acesso wi-fi da dona do post, enquanto outra declarou que isso já tinha acontecido com ela. Uma outra orientava ironicamente a dona do post a checar se sua babá também não teria conta no Facebook. Afinal, ela poderia estar acompanhando toda aquela conversa. Uma patroa dizia que sua empregada, ao saber que ela viajaria aos Estados Unidos, havia solicitado a compra do enxoval da sua neta. Mas
teria desistido quando a patroa disse que ela deveria lhe dar os dólares. Ao que parece, a empregada queria que ela não só comprasse, mas também pagasse pelo enxoval.
Um dos últimos comentários reconhecia ser essa uma relação “difícil” para ambas as partes, pois demandava uma proximidade muito grande, onde “profissional” e “pessoal” acabavam se misturando. No entanto, as empregadas deveriam saber que se tratava, acima de tudo, de uma relação profissional, e não deveriam ultrapassar o limite do profissionalismo. Devemos nos questionar se podemos atribuir apenas às empregadas a responsabilidade por misturar pessoal com profissional. Afinal, segundo Soares (1999), de acordo com o:
Estereótipo da visão tradicional da empregada doméstica, ela será chamada de você (o tratamento íntimo pessoal), independente de sua idade, e esperar-se-á dela que chame seus patrões de senhor e senhora (...) ela será também a responsável pela iniciação sexual dos meninos da casa (...). Será considerada quase parte da família, sob a condição de reconhecer seu status subalterno, tendo consciência do seu lugar (...) não poderá receber suas próprias visitas, mesmo que passe uma semana inteira na casa onde trabalha. (SOARES, 1999: 233).
Apenas um homem participou da conversa dando a sugestão de que as patroas
dispusessem acesso wi-fi a suas empregadas, porém limitando no próprio modem o período do dia em que elas poderiam usá-lo. Disse ainda que este seria um procedimento muito fácil. Este
post foi solenemente ignorado pelas patroas, permanecendo sem resposta ou sinal de ‘curti’ até o
fim da conversa.
Gostaria de poder disponibilizar na íntegra o conteúdo do post. Mas quando tentei abrir o documento em Word onde havia salvado a conversa, qual não foi a minha surpresa, e tristeza, ao ver que o documento não poderia ser aberto. O Microsoft Office me informava que não poderia abri-lo, pois havia “problemas com seu conteúdo”, afirmação curiosamente pertinente. E quando voltei ao Facebook, para minha infelicidade, a conversa havia sido retirada do mural.
Além do caráter ambíguo deste tipo de relação profissional, também presente na pesquisa com depiladoras, a conversa eletrônica aborda ainda o tema do incômodo que o crescimento do poder aquisitivo das classes populares causa nas classes médias e altas. Este assunto foi muito debatido na época da eleição presidencial no ano de 2010. Na ocasião, alguns defensores da hoje presidente Dilma Roussef interpretaram as críticas feitas à política de distribuição de renda do PT como uma defesa da então atual e desigual estrutura de distribuição de renda. Segundo eles, as classes médias e altas pleiteavam a manutenção desta estrutura, pois ela permite a manutenção do poder nas classes dominantes. Uma eventual transferência de renda acarretaria a transferência, ou a divisão de poder.
Em minha pesquisa de campo não observei e tampouco abordei este tema, por não ter entrevistado as clientes. Optei por inserir a conversa eletrônica, pois ela exemplifica o caráter ambíguo das relações profissionais que também pude observar nos relatos das minhas
entrevistadas. Ouvi de diversas depiladoras que elas deveriam ser “profissionais acima de tudo”. “Ser profissional” era usado como sendo um grande trunfo, um pré-requisito para a boa
depiladora. E o que significa, na prática, “ser profissional”? Ser profissional significa delimitar espaços e definir papeis, ou seja, não misturar as coisas, cliente não é amiga e ponto. Na prática, a boa profissional não emite opinião sobre a vida e problemas de suas clientes (mesmo quando suas clientes pedem conselhos), e não expõem detalhes de sua própria vida ou conta seus próprios problemas. Por mais que suas clientes façam tudo isso, elas devem permanecer imparciais. Agir de forma profissional confere a segurança de se andar por uma rua larga e iluminada, longe de vielas obscurecidas por desejos e vontades de uma classe dominante que dita as regras do ambiente onde se encontram. Se uma depiladora age de forma profissional, ela
merece o respeito das clientes. Ser profissional é ter ética no lidar. De acordo com Janaína, “a gente tem que ter ética. É a ética que vai fazer as coisas andarem direito”.
Ao questionar minhas entrevistadas sobre a possibilidade de depiladora e clientes se tornarem amigas, surpreendentemente ouvi a unânime resposta: sim. A resposta das depiladoras parece pretender deixar claro que não existem empecilhos para uma amizade acontecer, mas, ao mesmo tempo, apenas Janaína me diz já ter ficado amiga de clientes. Clientes que se tornaram suas amigas são clientes que ligam no Natal ou Ano Novo. As clientes amigas de Janaína são justamente aquelas em cujas vidas ela sabe que fez uma “diferença boa”. São clientes que ela não encontra, não tem contato frequente, mas que ligam em datas comemorativas.
Em seu estudo sobre a amizade, Claudia Rezende (2002) nota que a palavra “amizade” em português significa tanto um sentimento como uma relação. A amizade possível entre cliente e depiladora é muito mais um sentimento que engloba afeição, simpatia e ternura, expressa na lembrança da depiladora em datas comemorativas, do que uma relação. A relação que envolve “práticas de sociabilidade, trocas íntimas e ajuda mútua, e necessita de algum grau de
equivalência ou igualdade entre amigos” tal como vista na sociologia clássica é, inclusive, negada pela depiladora, tomada como inexistente. (2002:1). O conceito de amizade é sustenta-se muito mais com as categorias de “ajuda” e “apoio”, como observado por Heilborn (1984:98).
A ênfase no agir profissionalmente, como disse anteriormente, parece querer evitar eventuais mal entendidos e frustrações decorrentes de uma relação que muitas vezes parece ser mais do que apenas profissional. Para as depiladoras, o comportamento das clientes muitas vezes é considerado imprevisível e incoerente. E, para o seu próprio bem, não se deve confundir pessoal com profissional.
Aqui vêm pessoas sãs e muitas pessoas problemáticas. Uma vez uma cliente minha saiu três vezes pelada de dentro da cabine, porque ela cismou que a virilha dela estava torta e ela só conseguia enxergar quando olhava no espelho do corredor. Era um pelo só e eu tirei. A virilha estava totalmente reta era um fio só, mas eu respeitei o momento dela. Você tem que ter jogo de cintura, tem que ter muita calma. Cliente é cliente. Hoje ela está com você, mas amanhã ela pode não estar. Hoje ela te ama, mas amanhã pode não amar mais. É muito difícil lidar com o ser humano. (Janaína)
Janaína, assim como suas colegas, aprendeu no curso a não entrar na vida da cliente. No curso profissionalizante este é um assunto de extrema importância. As depiladoras aprendem que muitas clientes irão querer contar detalhes de suas vidas, irão se “abrir” com elas. Elas, no
entanto, devem ser “profissionais” acima de tudo. A única publicação que encontrei sobre o ofício da depiladora alerta especificamente sobre a possível confusão entre amizade e desabafo com um profissional. O livro “Depilação – o profissional, a técnica e o mercado de trabalho”, escrito pela jornalista Atenéia Feijó e pela depiladora Isabel Cristina Tafuri Bouças, aborda o tema da seguinte maneira:
Uma depiladora se destaca pelo caráter. Por quê? Porque lida direto com a intimidade do cliente. Ela não pode facilitar. Tem que se dar ao respeito sempre. Com educação, gentileza e, principalmente, com o compromisso da discrição. Nesse aspecto, haja discernimento, porque tem muito cliente que transforma a cabine em confessionário. E aí, de confidência em confidência, olha o perigo de uma grande confusão. Qual? Imaginar o início de uma amizade que, na realidade, não passa de um desabafo de alguém
despreocupado com os ouvidos da depiladora por considerá-la distante de seu convívio social. Desagradável? Nem tanto. É normal, acontece também entre paciente e médico. (2004:23)
Mais do que a orientação do curso profissionalizante, trágicos exemplos têm muito êxito como formas de ensinar a existência do limite entre pessoal e profissional. Importante lembrar que os exemplos de desrespeito dos limites vêm da parte da depiladora, nunca da cliente. Os exemplos negativos são contados sob a forma de “aconteceu com uma amiga da minha irmã” ou “aconteceu com uma conhecida da instrutora do curso”. E são muito parecidos. Uma entrevistada
contou que a amiga de sua irmã, que é manicure, tinha uma cliente que constantemente
reclamava de seu marido. Um dia, a manicure perguntou à cliente porque ela não se separava do tal marido. A cliente se separou, e depois de alguns dias o marido foi ao instituto de depilação e “esculhambou” a depiladora. Em outro exemplo, uma cliente da amiga da instrutora pediu a opinião da depiladora acerca de um determinado assunto pessoal. A depiladora deu sua opinião, mas como esta não estava de acordo com o que a cliente queria ouvir, ela se dirigiu à
administração do salão, mais precisamente, ao chefe da profissional e fez uma reclamação formal a respeito do comportamento da depiladora. Ambos os eventos revelam o caráter hierarquizado da relação. Na percepção da depiladora, a cliente pode falar o que quer, mas não quer ouvir o que não quer. Também, muitas vezes, a reclamação não é feita diretamente à depiladora, mas ao chefe. Ao se dirigir ao chefe, a cliente assume sua posição de superioridade nesta relação
hierarquizada. “A cliente quer que você fale o que ela quer ouvir, por isso não falo nada. Se falar uma coisa que ela não quer ouvir, ela pode nunca mais voltar aqui ou nunca mais querer fazer o serviço comigo”, diz Carla que está na profissão há poucos meses.
As clientes falam, as profissionais não. Ou seja, a relação, que ao observador desatento a princípio parece ser de troca, quando analisada um pouco mais profundamente pode ser um tanto desigual. Seria este desequilíbrio, se é que existe, fruto da diferença de classes? Talvez. A partir da teoria de luta de classes de Marx (2001), a sociedade moderna é uma sociedade que se caracteriza pela distinção de classes e pela subordinação de uma classe à outra. A sociedade moderna, sabemos bem, não é uma sociedade igualitária de indivíduos. E o corte se dá
justamente na questão da propriedade. Uns têm, outros não. E isto torna a sociedade desigual, onde as relações materiais formam a base das relações pessoais. Na relação entre cliente e profissional, em geral, a profissional se mantém calada, ouvindo, palpitando apenas quando
solicitada. Mas o momento não é dela, o foco da conversa não é ela. Quem paga pelo serviço, paga também pelos ouvidos e pela paciência dela.
Não ouvi qualquer tipo de questionamento ou indignação por parte das depiladoras quanto ao comportamento incoerente de suas clientes. Afinal, se elas pedem sugestões e
opiniões, porque a profissional não pode dá-las? Se elas desabafam contando problemas de suas vidas, o que haveria de errado quando a profissional fala o que pensa sobre o assunto? Por mais que eu instigasse as depiladoras a falarem sobre isso, tudo o que ouvi foi que este não era o comportamento adequado de uma “profissional”. Quando a profissional dá um conselho, emite uma opinião, ela está ultrapassando o limite do profissionalismo e se colocando sujeita aos humores de suas clientes. Mas, obviamente, por eu ser muito mais parecida com suas clientes do que com uma colega de trabalho, entendo que não emitiriam suas opiniões acerca desse assunto comigo. Sei que esbarrei no próprio limite do profissionalismo. Limite este que elas não
transporiam comigo.
Os motivos que as depiladoras dão para não dar conselhos são os de que elas não conhecem tão profundamente suas clientes e que as vidas de suas clientes seriam muito