Dentre as edições da UFC o “Novos Documentos Universitários”27 publicou uma “Série Avaliação Institucional”. O documento que ora analisamos: “Perfil Socioeconômico e Cultural do Estudante de Graduação da Universidade Federal do Ceará”, é a primeira publicação desta série.
Trata-se da coleta de dados junto aos estudantes de graduação da UFC, realizada como parte de um Projeto do Fórum Nacional de Pró-Reitores de Assuntos Comunitários e Estudantis (FONAPRACE), que visava conhecer a realidade socioeconômica e cultural dos estudantes das IFES para subsidiar políticas de assistência estudantil. A pesquisa foi realizada no segundo semestre de 1996 e publicada na série da UFC, em 1999.
Na UFC, a elaboração ficou a cargo das Pró-Reitorias de Assuntos Estudantis e de Planejamento. Nesta última destacou-se a participação da Coordenadoria de Análise
27 A publicação “Novos documentos Universitários” faz parte do Programa Editorial da Coordenadoria de
Comunicação Social da UFC. O seu conselho editorial é composto pelos professores Ítalo Gurgel (coordenador), Luiz Carlos Fontenele e Willis Santiago Guerra Filho.
Institucional e Avaliação. Os professores Salenilson César de Souza, José Valdeci Biserra e Myrtes Suely C. Rolim foram os organizadores desta atividade. A equipe técnica era composta pelos professores Salenilson César de Souza, José Valdeci Biserra, José Lassance de Castro e Silva, Teobaldo Campos Mesquita e por Myrtes Suely Cavalcante Rolim.
O documento foi dividido em cinco partes: 1) Introdução; 2) Objetivos; 3) Metodologia; 4) Resultados e discussão; 5) Anexos.
Antecedendo a introdução, encontramos uma Apresentação assinada pelo Pró- Reitor de Assuntos Estudantis da UFC, o professor Luiz Carlos Uchoa Saunders, único do grupo a ter participado do processo anterior. No texto é destacada a importância da criação de políticas de assistência estudantil para permitir que os alunos de baixa renda concluam seus cursos, diminuindo o índice de evasão nas IES, em especial as públicas. No âmbito da UFC, a pesquisa permitiria, além de melhorar a assistência estudantil, conhecer os alunos das Instituições.
Na introdução do relatório encontramos menção ao FONAPRACE como idealizador da pesquisa, que contou com a participação de 52 IFES. As informações colhidas serviriam para nortear a atuação da ANDIFES no campo da assistência estudantil.
Na Universidade Federal do Ceará, 668 estudantes dos cursos de Medicina, Farmácia, Enfermagem, Direito, Engenharia Elétrica, Ciências Contábeis, Economia, Administração, História, Matemática, Geografia, Letras, Arquitetura, Engenharia Civil e Estatística, em turmas de início, meio e fim dos respectivos cursos, participaram do levantamento, através de questionário padrão utilizado em todas as IFES (UFC, 1999, p. 1).
Percebemos que, tanto o questionário utilizado quanto a definição da amostra foram unificados para as 52 IFES que participaram deste programa. Ainda na introdução, é feita a ressalva de que os dados contidos no relatório são de caráter quantitativo, sendo apresentadas algumas hipóteses e “conclusões preliminares”, que deveriam ser analisadas de forma criteriosa.
Nos objetivos da pesquisa encontramos um geral, que era o de “traçar o perfil socioeconômico e cultural do estudante de Graduação da Universidade Federal do Ceará, para subsidiar (...) assistência aos estudantes da graduação” (UFC, 1999, p. 2). E, por específicos:
a) desenvolver indicadores que permitam classificar socioeconomicamente os estudantes de graduação da UFC;
b) caracterizar as diferenças socioeconômicas e culturais entre os estudantes de graduação da instituição;
c) traçar o perfil das expectativas profissionais sobre o curso e planos após a formatura dos estudantes de graduação da UFC;
d) dimensionar o uso de equipamentos comunitários e demanda potencial pelos mesmos por parte dos estudantes;
e) investigar hábitos e comportamentos dos estudantes em relação à saúde e ao uso de serviços de saúde;
f) buscar indicadores que possam fundamentar a definição de políticas sociais no âmbito da Universidade Federal do Ceará;
g) fornecer informações que subsidiem a elaboração e/ou implementação de políticas em outras áreas de atuação da universidade Federal do Ceará (UFC, 1999, p. 2).
A metodologia é apresentada a partir da seguinte divisão: 1) Plano amostral; 2) O questionário utilizado; 3) Caracterização socioeconômica: critério ABIPEME, 4) implementação em campo e crítica; 5) Consistência dos dados.
O plano amostral é detalhado tanto na metodologia quanto no anexo 1 do relatório. Consideramos desnecessário repetir essas informações, especialmente por ser uma leitura muito estatística. Para nós, no item metodologia, basta sabermos que se utilizou a “Amostragem por congloremado – Estratificada” (UFC, 1999, p. 3), tendo sido contemplados os 15 cursos já citados, os três turnos de funcionamento da IES, dentre outras. Segundo o documento, isso possibilitaria a generalização dos resultados para a Instituição como um todo. O questionário utilizado foi o mesmo para as 52 IFES que participaram da pesquisa. As principais características desse instrumento são: auto-aplicabilidade; não identificação do respondente; composto por questões gerais, presentes em todas as IFES; não contemplação dos aspectos específicos das instituições; que todas as perguntas fossem passíveis de ser respondidas pelos alunos. Fica claro que esse instrumento tinha por intenção traçar um perfil geral dos alunos das IFES, sem deter-se nas suas particularidades.
Para caracterizar o perfil socioeconômico, utilizou-se do critério da Associação Brasileira de Institutos de Pesquisa em Mercado (ABIPEME), que trabalha informações indiretas, mas de fácil obtenção, possibilitando traçar com certa precisão o perfil socioeconômico dos entrevistados. Trabalha-se, dentre outras, com informações ligadas à capacidade de consumo, conforto familiar e nível de escolaridade do chefe da família. O critério ABIPEME é detalhado no anexo 3 do relatório, bem como são apresentadas informações que respaldam a sua utilização.
No item “implementação em campo e crítica” são apresentadas, sucintamente, informações gerais e técnicas sobre a forma como os dados foram coletados e sistematizados. Na crítica e consistência dos dados o destaque recaiu sobre os dispositivos utilizados para minimizar os erros oriundos do processo de preenchimento dos questionários, bem como de digitação dos dados coletados.
O item “Resultados e discussão” traz informações sobre a organização dos resultados obtidos, bem como algumas reflexões acerca dos mais importantes. “As informações foram cruzadas de acordo com três critérios principais: por curso, por classe socioeconômica e por sexo, tendo-se usado esses critérios isoladamente ou em conjunto, de acordo com o interesse da análise” (UFC, 1999, p. 7). Para apresentar estas informações e reflexões, agruparam-se os resultados em sete categorias: 1) Dados pessoais; 2) Informações sobre a família; 3) Antecedentes escolares; 4) Vida acadêmica atual; 5) Informações sobre o curso e expectativas profissionais; 6) Informações culturais; 7) Informações sobre saúde e atividades físico-esportivas. Por acharmos desnecessário repetir as informações contidas no relatório, não detalharemos cada uma dessas categorias.
Finalizando o relatório, são apresentadas 46 tabelas que sistematizam todos os dados coletados, seguidos por 3 anexos de conteúdo já mencionado.
A primeira reflexão que nos cabe fazer sobre o documento “Perfil socioeconômico e cultural do estudante de graduação da Universidade Federal do Ceará” é que ele não se traduz numa avaliação da instituição UFC, senão de parte dela. No entanto, apesar de não se constituir em uma AI, especialmente de caráter interno, vale como experiência por possibilitar conhecer parte da Instituição, no caso, o perfil dos alunos. Além do mais, o documento inaugura a série de publicações sobre AI na UFC, justificando a sua inserção nesse trabalho.
Analisando o documento percebemos mais uma vez a presença da Pró-Reitoria de Planejamento na elaboração das atividades, especialmente da Coordenadoria de Análise Institucional e Avaliação, endossando a ligação histórica da AI com o planejamento na UFC, por ser esse o órgão responsável por projetar as modificações nas IES.
O estudo com alunos da graduação reforça a ênfase, que todas as AIs apresentadas até aqui, atribuem a este setor das IES. Por ser parte de um programa nacional, e por trabalhar com dados comuns às IFES, fica evidente a dificuldade de perceber questões particulares da UFC. A utilização de dados quantitativos é, em boa dose, associada à necessidade de traçar um perfil nacional dos estudantes de graduação o que, sem dúvida, é facilitado pela tradução das informações em números. E em parte, como resultado das preocupações de programas de avaliação como o ENC, de focar nos estudantes de graduação a qualidade das instituições, a partir de processos de ranqueamento, credenciamento e financiamento.
A grande contribuição que a experiência deixa centra-se na metodologia utilizada, uma vez que ela é detalhada no relatório. Tecnicamente falando, pode contribuir em
muito para as próximas experiências a serem desenvolvidas na UFC.
A questão que fica, a partir da análise do relatório, e que não foi possível de ser respondida, dada a sua magnitude, centra-se na relação avaliação x tomada de decisão. Interessa-nos saber se esses dados subsidiaram uma nova política de assistência ao estudante da UFC e das IFES como um todo.