A orientadora da Escola acabou por concordar que, apesar de ter sido necessário dedicar muito tempo à preparação de actividades interessantes, com e sem a utilização das tecnologias, que envolvessem activamente os alunos no processo de ensino/aprendizagem, o resultado foi francamente positivo. Sentiu que proporcionou às estagiárias a possibilidade de testemunhar, durante as suas aulas, o interesse e gosto dos alunos pelas várias actividades desenvolvidas e que isso foi determinante. A estagiária, a propósito do modo como os alunos da sua orientadora trabalhavam nas aulas com o computador, referiu:
Os alunos dela chegam ao 12º ano e não têm qualquer problema em ir para o computador e resolver uma actividade que nunca viram, porque estão habituados a isso.
Para esta estagiária, foi uma experiência absolutamente nova, que se revelou extraordinária. Observou como os alunos se mostravam fortemente motivados, trabalhavam com interesse e como os resultados foram gratificantes para todos.
Comentou ainda a forma de orientação dos alunos nas actividades com recurso à tecnologia:
O que me fascinou é que não é só a questão da actividade e do computador para a resolver, porque não é só a utilização da máquina… É a orientação que se dá ao aluno para ele utilizar a máquina, a forma como ele é levado a descobrir as coisas por si sem pensar que aquilo são coisas de matemática, sem pensar que é um assunto sério, que é uma coisa que de outra forma podia ser horrível de explicar, de abordar e que eles até podiam não gostar, não compreender. Mas que desta forma adoram!
Por seu turno, a orientadora afirmou que, a partir de determinado momento, a estagiária estava muito animada com o que via na sua sala de aula e começou progressivamente a pesquisar actividades, a tentar adaptá-las e a preparar aulas menos expositivas. Começaram a surgir frequentemente actividades com a calculadora gráfica, por vezes com o uso de sensores, nas aulas de 10º ano da estagiária. A calculadora foi inicialmente utilizada para o estudo das funções afim e módulo e, mais tarde, para o estudo da função quadrática recorrendo aos sensores. Nesta turma ainda foram feitas várias actividades recorrendo ao computador, concretamente com o Excel, para o estudo da Estatística.
Na turma de Métodos Quantitativos, até porque os alunos não possuíam esta ferramenta, foi feita uma utilização menos intensiva da calculadora gráfica mas também surgiu nas Probabilidades, no estudo das Funções e na Estatística.
Nas aulas de regências, no 11º ano, as tecnologias foram utilizadas sistematicamente. Em primeiro lugar porque eram alunos da orientadora desde o ano anterior e como tal tinham uma grande familiaridade tanto como o computador como com a calculadora gráfica. Por outro lado as aulas desta turma decorriam habitualmente no Laboratório de Matemática onde todas as ferramentas tecnológicas estavam ao dispor dos alunos. Para além da calculadora gráfica, foram utilizados vários programas de computador ao longo do ano. O Modellus surgiu em actividades de modelação, por exemplo, na representação matemática de repuxos a partir de fotografias da cidade, o Sketchpad na Geometria, o programa Círculo Trigonométrico na Trigonometria. Mas a experiência mais inovadora foi a construção de uma página em Frontpage a que todos os alunos tiveram acesso na sala de aula. Neste ambiente apresentavam várias actividades relacionadas com as Sucessões, uma das quais tinha como objectivo o estudo da evolução de uma população de trutas, onde os alunos tinham de recorrer ao Excel para a sua resolução.
Para a orientadora é importante que os professores tenham consciência da época em que vivem. E acrescentou que temos de estar cientes de que os alunos actuais vivem numa época diferente, em pleno século XXI, rodeados de tecnologia. As motivações e vivências dos alunos de hoje não são as mesmas de há trinta anos atrás e, como tal, defende que os métodos de ensino não podem ser os mesmos do passado. Reconhece que o ensino tradicional pode ter sido adequado a uma época ou que pode resultar numa situação pontual, mas não é adequado aos nossos dias como prática comum. E declarou, a esse respeito:
Eu tenho miúdas na minha turma que vão à Internet pesquisar, informar-se. É nosso dever e obrigação acompanhar os nossos
alunos. Eles gostam das actividades que eu lhes proponho, fazem-nas com gosto. E eu acho que as estagiárias gostaram de ver os alunos assim. Elas falam com os colegas que dão aulas mais expositivas e eles queixam-se dos alunos.
Para esta professora, é impensável que um estagiário possa recusar-se a utilizar as tecnologias nas suas aulas. Percebe que tal situação possa acontecer com um professor com vários anos de serviço que já criou as suas próprias rotinas, reconhecendo que as mesmas se tornam muito difíceis de alterar. Mas, a um professor estagiário, que está a começar a aprender, não admite esta posição pois considera que nesse momento, em que ainda não existem rotinas implantadas, o formando deve estar aberto a todas as sugestões e ideias novas e é isso que espera de um estagiário.
Um dos desafios que a formação inicial deve enfrentar é, inegavelmente, a de proporcionar aos futuros professores novas experiências que os ajudem a questionar a visão tradicional de ensinar Matemática, baseada muitas vezes nas suas experiências como alunos. Ao longo do estágio pedagógico, o futuro professor apoiado pelo orientador deve ser levado a experimentar novas situações que proporcionem actividades ricas e significativas para os seus alunos. O êxito destas experiências pode desempenhar um papel determinante e conduzir a uma mudança na forma de encarar a Matemática e o ensino/aprendizagem desta disciplina. Esta orientadora parece estar absolutamente consciente deste facto, ao encarar o processo da formação inicial como decisivo para levar os professores estagiários a utilizarem as tecnologias. Assim, explicou que, perante o receio ou a recusa de um estagiário em utilizar as tecnologias, actuaria da seguinte forma:
Eu ia insistir com ele, não aceitaria essa resposta. Não acredito que fosse por não concordar com a utilização das tecnologias, porque essa ideia hoje não faz sentido. Só podia dizer isso por não se sentir preparado. Mas se não estava preparado, eu estava lá para o continuar a ajudar.
Apesar de defender a utilização das tecnologias e considerar inadmissível prescindir destas ferramentas, revela muito cuidado na sua utilização, sublinhando que deve ser bem preparada e planificada. Não aceita que as tecnologias sejam utilizadas sem objectivos de aprendizagem, critica a sua utilização pontual e com carácter meramente lúdico, tal como se infere das suas palavras:
Se tu fizeres, uma vez, uma actividade muito engraçada no computador, aquilo vai funcionar para os miúdos como uma brincadeira. Eles nem se apercebem do que podem aprender. Eles encaram aquela actividade como um jogo. A utilização das tecnologias tem que ter um carácter contínuo e toda a actividade deve ser muito bem explorada em termos da Matemática. O aluno tem que ver como é que a Matemática entra ali.
É também muito crítica em relação à utilização das tecnologias feita por grande parte dos professores, afirmando que muitos deles não estão disponíveis para o investimento de tempo que é exigido para uma utilização das tecnologias de acordo com o programa e orientações pedagógicas.
Apesar de todo o trabalho incessante realizado na orientação das suas estagiárias, considera-o incompleto. Gostaria de ter tido mais tempo para partilhar outras ideias e conhecimentos. Esta experiência na prática de orientação foi, para ela, muito recompensadora, pois adora ensinar e partilhar com os outros o que sabe. Reconhece que, nos dias de hoje, é muito difícil encontrar pessoas dispostas a aprender e a trabalhar em grupo. E aquilo que lhe deixa mais saudades é a partilha de experiências em grupo, é o trabalho colectivo em que as três se empenharam.
Quanto à estagiária, assegurou que o estágio pedagógico lhe proporcionou uma oportunidade única de se confrontar com uma forma diferente de encarar a Matemática, o ensino/aprendizagem desta disciplina, o papel do professor e a utilização das tecnologias, entre muitos outros aspectos. A orientadora, contudo, admite que as suas ideias não são consensuais e afirma aceitar a existência de outras. Compreende que nem todos os professores as entendam como correctas e considera provável que isso tenha acontecido, inicialmente, com as próprias estagiárias. Acha que o seu método de ensino, bem distinto do tradicional, pode ter provocado um conflito de modelos, isto é, que a existência de um grande desajustamento entre os protótipos que as estagiárias conheciam e aquele que ela representa tenha originado uma certa desorientação. Mas acredita que qualquer pessoa possa ser persuadida a seguir novos modelos:
No início foi um bocado complicado para elas. Elas não estavam à espera, ficaram aflitas e acho que essa situação não se resolveu completamente, embora tenha melhorado ao longo do tempo. Eu tenho pensado se terei conseguido mostrar-lhes como deve ser um professor, pelo menos, como deve ensinar. Também penso no modelo que elas tinham antes, no trabalho que dá ser um professor como
aquele que eu gostava que elas fossem e não sei se elas estarão para isso no futuro. Mas eu tentei...
É sabido que os futuros professores começam por ser condicionados pelos conhecimentos e imagens que adquiriram antes de iniciar a sua formação, tanto no que se refere à natureza Matemática como ao ensino desta disciplina, sobretudo se não tiveram oportunidade de contactar com outros modelos. A própria estagiária confessou que tinha recorrido aos exemplos dos seus antigos professores:
Fui olhando para trás, para os exemplos dos meus professores.
No entanto, verifiquei que, ao longo do ano, a presença desses exemplos foi-se desvanecendo e foi emanando uma nova forma de encarar a Matemática, o ensino/aprendizagem desta disciplina e o papel do professor:
Agora até percebo que tudo isto é muito pessoal e depende da visão do professor. Quando comecei a conhecer a minha orientadora, comecei a acreditar que realmente era possível sobreviver na sociedade de hoje, com valores como seriedade, rectidão, verdade e sinceridade na profissão e não como muitas vezes as pessoas pensam, a profissão só como uma forma de ganhar dinheiro e nada mais. Por isso, posso dizer que ela me influenciou muito, porque me fez acreditar num conjunto de valores. Ela é muito recta naquilo que faz, muito certa daquilo que faz, a sua palavra conta de verdade. Não é do género, eu faço isto e depois não assume compromissos. Ela é uma
pessoa com P grande, de verdade, e fez-me acreditar que eu também podia ser assim um dia.
A orientadora mostrou algumas reservas sobre o facto de ter conseguido levar as suas estagiárias a encararem de forma diferente o papel do professor, dizendo o seguinte:
Não sei se consegui transmitir-lhes aquilo que deve ser um professor, pelo menos aquilo que eu acho que deve ser um professor. Eu acho que o orientador deve tentar levá-los a ver o ensino de uma forma diferente da que eles conhecem, do ensino tradicional. Ao orientador cabe dar uma visão da Escola, do ensino e da disciplina. O orientador deve dar-lhes a conhecer um vasto leque de opções, de modo a que eles escolham aquilo que lhes parece mais adequado. Quando eu penso nos exemplos anteriores que elas tinham…e no trabalho que dá ser um professor como eu gostaria que elas fossem, ou como eu acho que deve ser… dá muito mais trabalho do que aquilo que as pessoas fazem normalmente. E eu não sei se elas estarão para isso no futuro. Gostava que elas tivessem ficado a ser capazes e a pensar que têm que trabalhar toda a vida e que estar sempre abertas a novas ideias, ao que vai aparecendo. Eu tentei transmitir isso, mas não sei se elas...
O meu envolvimento pessoal neste estágio e o facto de ter continuado a contactar com esta estagiária, leva-me a crer que esta orientadora se tornou um verdadeiro modelo para a jovem professora. No momento em que realizei a entrevista,
esta estava colocada numa escola básica, a leccionar num horário de substituição. A experiência que vivia então era bem diferente daquela que tinha tido enquanto estagiária:
Na escola não se trabalha em grupo, tenho muita pena de não conhecer todos os colegas do grupo. Só se fez uma reunião de grupo em Setembro, nem sei se vai haver mais alguma. O tipo de ensino que se faz no básico é muito diferente do secundário, mas não tenho pessoas com quem discutir o que faço ou que penso fazer. Sinto tanto a falta de alguém para discutir, para mostrar o que faço… Eu até tenho brilhado junto das estagiárias que são as únicas pessoas que conheço, mas não me adianta muito, eu dou-lhes mais ajuda do que elas me dão a mim.
E vincou a forma como o seu estágio foi decisivo para a ajudar a enfrentar o seu trabalho como professora:
O estágio deu-me meios para a progressão. Eu aprendi a ler o programa e a dizer: eu tenho que fazer isto, isto e isto. Tenho que fazer com que os alunos atinjam estes objectivos. Também aprendi a não depender dos livros ou do manual que os alunos têm. Eu tenho outros exemplos para dar, aprendi a procurar outras coisas e a levar coisas que eles nunca viram. Isso é importante para mim. Eu pesquiso na Internet, já tenho cuidado com as adaptações. Por exemplo, costumo ir ao site do NCTM que tem muitas actividades, foi de lá que
tirei a actividade das probabilidades e a do lago de trutas. Lembro- me de quando mostrei a primeira versão dessa actividade à minha orientadora, estava literalmente igual ao que estava no site, algumas coisas eu nem sonhava para que serviam. Mas a minha orientadora ajudou-me a adaptar o que nós íamos fazer na aula. Espremer, é isso que se tem que fazer, temos que aproveitar o que nos interessa e saber explorar o que lá está. Cada um de nós pode aproveitar uma coisa de acordo com a sua maneira de ver. É necessário adaptar as actividades que encontro à minha maneira de encarar as coisas e aos meus alunos. No estágio aprendi tudo isso…
No meu entender, o sucesso alcançado por esta estagiária devia constituir alento para que a orientadora continuasse a envolver-se nos desafios da formação inicial. Com algum desgosto, constatei que ela se encontrava decepcionada com a formação de professores, em particular, com a formação contínua. No final da entrevista pedi-lhe que fizesse uma pequena reflexão sobre as suas experiências na formação contínua e inicial. Apesar de considerar que na formação inicial se podem alcançar melhores resultados do que na formação contínua, não se sentiu encorajada para continuar. Justificou a sua descrença:
A maioria dos professores que frequentam as acções só lá vai porque precisa dos créditos ou porque gostam de saber o que há de novo, também para aumentarem a sua cultura. Até acham engraçado e interessante o que se faz. Mas poucos são aqueles que vão para a sua escola e experimentam com os seus alunos aquilo que
aprenderam. Continuam a acreditar que os seus métodos antigos são eficazes. E também porque dá muito trabalho mudar. No estágio é diferente, podemos ver os estagiários a utilizarem o que ensinamos e espero que continuem a fazer este tipo de trabalho. Vamos lá ver se elas continuam a fazer aquilo que aprenderam este ano…
Aproveitou, ainda, a nossa conversa para sugerir algumas recomendações que poderiam contribuir para uma maior eficácia do estágio pedagógico: uma melhor preparação dos alunos em Didáctica da Matemática e mais formação na utilização das tecnologias no ensino da Matemática.
É preciso dar tempo. No 4º ano os alunos devem ficar a conhecer o que existe e no estágio começam a trabalhar com os vários materiais e com as tecnologias. É muito difícil fazer isto tudo no mesmo ano. Eu acho que elas conseguiram ficar a conhecer muita coisa, mais do que a utilizar. Mas é natural.