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9. DISCUSSION

9.4 Discussion of the methodological approaches

Roberto Freitas16

Resumo: Esse texto trata sobre reflexões feitas a partir de relações possíveis entre: a utilização da dança como linguagem em processos de ensino e de aprendizagem; o processo de criação da obra coreográfica “No toque do tambor” (2011), do autor desse; e o vídeo/texto “O perigo de uma única história” (2009), de Chimamanda Adichie. A referida coreografia foi criada com membros do Corpo~Cordão – grupo de dança formado com alunos/as da Escola Municipal João Porfírio de Lima Cordão (2005), em Teresina – Piauí. Naquela escola a dança é utilizada como meio na busca de se atingir uma educação integral de crianças e jovens. Depoimentos de mulheres que vivenciaram o processo de criação e/ou dançaram aquela obra coreográfica, denotam que jovens afrodescendentes ressignificaram suas histórias de vida, suas próprias auto/aceitações, principalmente no que concerne a marcadores estéticos de uma mulher negra, como por exemplo, o cabelo. Será que aquele processo criativo trabalhou com ideias que estereotipam uma única história sobre pessoas afrodescendentes? Adichie alerta para os perigos de se construir uma imagem estereotipada de pessoas e/ou lugares, pensamento onde não se teria interpretações variadas de um mesmo dado. A dança enquanto linguagem tem seus próprios caminhos, um fazer-dizer próprio que constitui em si mesmo um ato político, em todas as suas dimensões, tal qual a ética e a estética. Um processo de criação em dança por si só já utiliza caminhos diferentes para exprimir determinada ideia, ou seja, cria suas próprias histórias, multiplica as possibilidades, mas, dependendo do olhar de quem cria, pode sim estereotipar uma visão única e discriminadora. Nesse sentido talvez seja melhor pensar em processos colaborativos, caminho pelo qual se compartilha opiniões, levando em conta múltiplos atravessamentos, que surgem de várias histórias, várias pessoas.

16Artista da dança. Integrante do Observatório da Juventude (OBJUVE/UFPI-2017). Fundador/Coordenador do Cordão Grupo de Dança. Mestre em Artes Cênicas (PPG-CEN/UnB-2017). Idealizador e coordenador de projetos como: “Educação se faz com Arte” (2006 e 2008) e “Estação Cordão de Cultura” (2014-2015). Autor do livro “OUSADIA - vinte anos de história do Balé da Cidade de Teresina” (2014), dentre outras publicações. Email: [email protected]

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Palavras-Chave: Dança; Processos de Criação; Única História; Afrodescendência.

Eu sou artista da dança há 27 anos, 17 deles dedicados, dentre outras atividades e instâncias, à educação básica na rede pública municipal de ensino de Teresina – Piauí. Há 14 anos venho trabalhando na Escola Municipal João Porfírio de Lima Cordão, que aqui chamarei de Escola Cordão (como é mais conhecida), em prol do pensamento de que a dança constitui um potente meio educativo, uma linguagem (MARQUES, 2010) que compõe processos de ensino e de aprendizagem podendo aliar-se à educação, formal ou informal, no intuito de atingir um desenvolvimento pleno na formação de cidadão/ãs, sendo esse último um objetivo da própria constituição brasileira em seu artigo 205 (BRASIL, 2013). A partir desse pensamento, após um ano de experiências com aulas de educação física escolar focadas em atividades rítmicas para conhecimento do corpo e da dança, criei em 2005 o Cordão Grupo de Dança, hoje chamado Corpo~Cordão17, por meio do qual tenho

17Binômio criado na pesquisa de mestrado do autor desse, intitulada: Corpo~Cordão: cartografias de jovens dançantes em Teresina – Piauí, que

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vivenciado vários atravessamentos que se influenciam mutuamente, várias histórias que se ligam e tecem uma rede de pensamentos que provocam fazeres nas áreas: artística, educativa e de processos de inclusão; na própria vida. Nessa trajetória, dentre as inúmeras obras artísticas que foram pesquisadas, criadas e apresentadas/performadas, uma se destaca pelo motivo provocador de sua criação, que foi a valorização da beleza da mulher afrodescendente, assunto que, naquele e em outros momentos da história da escola e do grupo, mostrou-se de enorme necessidade frente à realidade que era exposta por algumas alunas em relação à sua afrodescendência, tal como o modo que utilizavam seus cabelos.

Esse texto trata sobre reflexões feitas a partir de relações possíveis entre a utilização da dança como linguagem em processos de ensino e de aprendizagem – aqui considerando os próprios processos de criação em dança –, o processo de criação da obra coreográfica “no toque do tambor” (2011), do

estudou a influência da dança na composição de vida de jovens em Teresina – Piauí. Defendida no Programa de Pós-Graduação em Artes Cênicas da Universidade de Brasília (PPGCEN/UnB), em 2017.

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autor desse, e o vídeo/texto “o perigo de uma única história” (200918), de Chimamanda Adichie19.

Dança – Movimento – Vida – Educação

Partindo do pensamento de que a menor unidade de uma dança seria um corpo em movimento eu poderia afirmar que todo mundo dança. Todo corpo ao se mover tem um ritmo, desloca-se em certo espaço-tempo, em um fluxo contínuo ou não, intencionalmente ou não, e por ai vai, isso é dança. Não estou aqui considerando uma técnica específica, tal como o balé clássico, estou pensando sobre a arte de viver, digo de dançar, e, se um corpo em movimento pode ser considerado dança, acreditando que não há vida sem movimento, sim, para mim, dançar é viver, e vice-versa. A meu ver, o problema está na forma como cada pessoa utiliza a sua dança, ou seja, seu corpo em movimento, pois ao não se darem conta de sua dança movimentam-se mal, vivem mal. Eu poderia aprofundar essa defesa, mas não é esse o objetivo desse texto, apenas quis dar

18 Ver ROLIM, Marcos. Referência completa ao final desse.

19 Chimamanda Ngozi Adichie é uma escritora e contadora de histórias nigeriana que tem romances traduzidos em mais de 30 idomas.

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pistas, um breve panorama, do que a dança significa para mim, pois, acredito ser importante para o entendimento dessa arte, que está imbricada em nosso viver diário, como um potente meio educativo, e, só para reforçar, busquei a celebre frase de Nietzsche: “Perdido seja para nós aquele dia em que não se dançou nenhuma vez!” (2013).

A dança não tem gênero. Também não tem nacionalidade. Todo povo, toda região, toda sociedade e até mesmo alguns períodos específicos da história da humanidade tem a sua dança. Cada dança tem elementos próprios, uma dança espanhola difere de um samba, que difere de uma dança africana e assim por diante. Ao relacionar algumas possibilidades de danças com as pessoas que as dançam pode- se identificar que cada pessoa tem seu modo peculiar de se mover e, dessa forma, interagir com o mundo. Cada pessoa tem a sua forma de dançar. A pessoa que toma consciência de sua dança percebe/lê o mundo de formas diferentes daquelas que não se percebem em sua condição de interação como o mundo por meio de seu corpo que se move. Será que existe a completa imobilidade?

Dançar, para além de uma atividade rítmica de expressão corporal, é uma forma de ler e escrever no mundo,

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ler para além de passar por cima das palavras, como diria Paulo Freire, ter uma “percepção crítica, interpretação e ‘re-escrita’ do lido” (FREIRE, 1989, p. 14). Tal afirmação me afeta não só como pessoa e como artista, mas principalmente como educador, devido à enorme importância que não só vejo, mas experimento há muitos anos, principalmente em escolas de educação básica, tanto no ensino dito formal quanto em atividades de ensino não formal.

Sinto maior afetação ainda quando penso que ainda hoje, ano de 2017, século XXI, a maioria dos sistemas educacionais, principalmente no ensino público, é pautada em estruturas, física e de pensamento, que se preocupam mais em copiar um modelo convencional, homogeneizador, que cada vez mais é confrontado por necessidades educativas da contemporaneidade, do que focar em processos de ensino e de aprendizagem que, dentre outros objetivos, busquem a formação de cidadão/as mais críticos/as e atuantes, principalmente, no que concerne ao respeito à diversidade de necessidades sociais que se apresenta nos tempos atuais. Nessa direção penso como Isabel Marques quando coloca que “nessa linha de raciocínio ‘não fazem sentido’ processos de ensino e

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aprendizagem da dança que não proponham múltiplas leituras críticas com/do mundo” (2010, p. 33 – grifo da autora).

Pensando sobre tais processos e lembrando-me da situação real das crianças, jovens e adultos/as com quem já me relacionei em situações de ensino, reflito sobre a validade de alguns procedimentos conteudistas, adotados em instituições educativas, em detrimento de uma educação para a vida, uma verdadeira percepção/leitura do mundo e seu preparo para lidar com questões que dele/nele se apresentam, em qualquer que seja a categorização das fases da vida. Com relação a fases da vida de uma pessoa também posso afirmar que a dança não tem idade, tem multiplicidades. A dança se constitui de infinitas possibilidades de se conectar a vida nossa de cada dia, e foi por meio dela que me conectei na vida de jovens estudantes da Escola Cordão, no Conjunto Renascença III, zona sudeste de Teresina-Piauí.

Como um toque de tambor

Ao assistir o vídeo de Adichie, que trata sobre o poder que uma única história teria de construir uma imagem estereotipada de pessoas ou lugares, ou seja, uma linha de

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pensamento onde não se teria interpretações variadas de uma mesma informação, fui provocado a pensar sobre o como havia sido feita, pelo Corpo~Cordão, a abordagem das questões relativas à estética da mulher afrodescendente durante o processo de criação da obra coreográfica “No toque do tambor”, em 2011. No vídeo, Adichie fala sobre sua própria trajetória pessoal e profissional, enquanto mulher africana, e suas experiências de vida, incluindo sua passagem enquanto estudante em curso de nível superior nos Estados Unidos da América e toda a reverberação produzida pelo estereótipo criado em torno de uma visão homogeneizadora acerca da localidade e pessoas africanas, praticada pelas pessoas norte- americanas, incluindo sua colega de quarto. Nesse sentido Iulo Alves e Tainá Alves ressaltaram um trecho do discurso de Adichie:

Nessa história única não havia a possibilidade de africanos serem iguais a ela de forma alguma. Nenhuma possibilidade de sentimentos mais complexos do que a pena. Nenhuma possibilidade de conexão como humanos” (ADICHIE apud ALVES; ALVES, 2011, p. 4).

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A cada nova colocação do discurso de Adichie, pronunciado por ocasião do Tecnology, Enterteinment and

Design (TED-2013)20, fui sendo provocado mais e mais a

pensar sobre aquele processo de criação do Corpo~Cordão, pois, naquela época (em 2011), estávamos pesquisando um espetáculo que foi intitulado “Pessoas”, no qual buscávamos identificar formas de reconhecimento e respeito à diversidade de relações inter e intrapessoais que se apresenta na contemporaneidade, tomando por base o pensamento de que cada pessoa é composta por diversas conexões, inúmeras possibilidades, que se apresentam em caminhos múltiplos e cuja imagem, hoje identifico no meu pensamento, me transporta para um rizoma21, uma vida rizomática (FREITAS,

2017).

Dentre as possíveis conexões de minha vida, desde 2005, com a criação do Cordão Grupo de Dança, percebi que eu estava cada vez mais afetando e sendo afetado pelas

20 Série de conferências realizadas na Europa, na Ásia e nas Américas pela fundação Sapling, dos Estados Unidos, sem fins lucrativos.

21 Conceito de Gilles Deleuze e Felix Guattari baseado na estrutura de algumas plantas, para fazer pensar em um sistema epistemológico onde não há uma raiz única e dominante, onde o conhecimento se estrutura sob diferentes pontos de observação e conceitualização, cujos brotos podem ramificar-se em qualquer ponto.

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questões que envolvia a relação entre a arte da dança, a vida em si e os objetivos educativos da Escola Cordão, mas uma realidade aparecia com mais ênfase, a relação com a comunidade do Renascença III. As questões da vida dos/as jovens alunos/as, bem como da comunidade em geral, ressoavam forte como o toque de um tambor, ou seja, para além de conteúdos programados nas disciplinas curriculares, a vida daquelas pessoas ecoava com outras necessidades, que muitas vezes obrigava os/as educadores/as a terem de cambiar seus caminhos, mudar os processos de ensino que haviam programado. Fico pensando: em educação, como não partir da própria realidade do/a aluno/a, ou pelo menos leva-la em consideração?

Havia 06 anos que o Cordão Grupo de Dança já existia e, em grande parte de suas criações, dávamos preferência por enfocar assuntos que acreditávamos terem necessidade de serem postos em pauta e discutidos, não só pelos alunos/as do

grupo ou da escola, mas também da própria

comunidade/sociedade. Percebi então, na época, que a maior parte das alunas afrodescendentes da escola utilizava algum tipo de creme para baixar o volume de seus cabelos, deixando uma aparência quase como se quisessem que os mesmos

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fossem lisos. Nesse sentido as palavras de Francis Musa Boakari na abertura de seu texto: “Mulheres afrodescendentes de sucesso: confrontando as discriminações brasileiras” (2010) expressam enorme importância no assunto:

Sobre o afrodescendente, o cotidiano brasileiro ensina duas lições: há conquistas em números crescentes deste grupo, e vai haver continuidade das situações discriminatórias e experiências excludentes que a maioria enfrenta. A mais importante destas lições é a presença de mulheres afrodescendentes entre brasileiros de elite. Esta é a lição que precisa ser disseminada com mais vigor! (Ibid., p. 1).

Enquanto afetos que se criam entre mim as questões sobre afrodescendência as palavras de Boakari se unem ao ressente fato de ser uma bela piauiense afrodescende a mulher eleita como Miss Brasil Be Emotion 2017, a bela Monalisa Alcântara. Tais acontecimentos me transportam para o sentimento pelo qual eu fui movido, em 2011, por aquela situação que estava instalada na Escola Cordão e que eu via acontecer no próprio Corpo~Cordão. Na época, comecei a pensar em como interferir na mesma, como fazê-las refletir sobre o assunto de uma forma não impositiva. Caí na real: com dança é claro! Decidi então, convidar 05 jovens dançantes,

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membros do Corpo~Cordão, para uma nova dança, uma nova criação, e propus que utilizássemos como tema a “beleza da mulher negra” (como me referi, na época). Não imagina a tamanha repercussão que tal trabalho conquistaria.

Esse processo de criação foi um momento de grande impacto, pois quando criança é muito difícil aceitar. De certa forma o trabalho trouxe isso. Esse trabalho foi muito importante pra mim, pois me ajudou a ser mais mulher, a me impor em certas situações na vida, explorar uma forma de me sentir bem, à vontade, forte e feliz. Um trabalho instigante que acabou sendo cada vez mais intenso, a cada dia que é dançado. (AGDAYANA PEREIRA DO NASCIMENTO, membro do Corpo~Cordão, em depoimento concedido em agosto de 2017).

Intensidade foi o que não faltou naquele processo. A alegria causada nas alunas como repercussão do convite me fez pensar que elas sentiram-se valorizadas, demonstraram certa euforia tanto pela temática como pela ideia de um novo trabalho, que ainda se constituía em uma coreografia só para meninas. Começaram mesmo a se pronunciar, cada vez mais, como “meninas maravilhosas” ou “mulheres lindas” (expressões que trago na memória). Elas só não imaginavam que durante o processo de criação eu começasse a fazer

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laboratórios de pesquisa para caracterização de figurino, cabelo e maquiagem. Começou a guerra. Enquanto elas chegavam com quilos de creme no cabelo eu exigia que retirassem o creme e dessem volume nos mesmos, justificando que a aparência teria que buscar uma comunicação com a ideia central do trabalho e a própria estética da obra, posicionamento que hoje identifico com certa relação às ideias de Felix Guatarri quando diz que:

O que importa aqui não é unicamente o confronto com uma nova matéria de expressão, é a constituição de complexos de subjetivação: indivíduo-grupo-máquina-trocas múltiplas que oferecem à pessoa possibilidades diversificadas de recompor uma corporeidade existencial, de sair de seus impasses repetitivos e, de alguma forma, de se ressingularizar. (2013, p. 17). As alunas, durante aquele processo, teriam de buscar singularidades referentes à sua condição de mulheres afrodescendentes o que as obrigou, de certa forma, a encarar seus próprios preconceitos, como se viam e como utilizavam sua aparência que, na maioria das vezes, era pautada em paradigmas de beleza eurocêntricos, tal como os cabelos lisos, daí a utilização dos cremes, com a clara intenção de alongar os mesmos. Talvez aqui esquecendo até a própria condição dos

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cabelos dos nativos brasileiros, os índios, que tem predominância de cabelos lisos, só não são loiros.

Pensando na chamada dança contemporânea, caminho que sempre predominou na trajetória do Corpo~Cordão, embora este se utilizasse de outros pensamentos e linguagens, além de técnicas de dança diferentes, não tínhamos como não instigar a busca de uma ressingularização, pois, como bem o disse Teresa Rocha, “na dança contemporânea, não há senão uma e única verdadeira dança: a de cada um” (2016, p. 44). As pesquisas que se processaram na época em torno do espetáculo “Pessoas”, dentre elas as relativas a obra “No toque do tambor”, provocaram muitos estranhamentos, algumas ressignificações como nos denotam as palavras de Aurialayana Pereira do Nascimento (ex-membro do Corpo~Cordão – irmã de Agdayana).

A experiência de dançar “No toque do tambor” abriu muito minha mente, principalmente na descoberta da minha beleza, pois sou uma mulher de pele escura e cabelos crespos, mas sempre andava com receio de usar os cabelos soltos, então eu usava bem amarrado. Tinha receio de usar uma roupa de cor forte, com medo de não combinar, e com essa coreografia houve uma alerta total, pois ela colocava em prática todos os receios que eu tinha. Ela me

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ajudou a combatê-los. (Depoimento concedido em agosto de 2017).

Durante aquele processo de criação, em meio às discussões/conversas que se integravam ao próprio processo, chegamos à conclusão de que, naquela época, muitas jovens estudantes da Escola Cordão tinham vergonha de assumir a sua afrodescendência, principalmente quando, para elas, o paradigma estético de cabelo bonito era o liso, sob uma visão eurocêntrica. Até que ponto a ideia que aquelas jovens tinham de beleza afrodescendente poderia se encaixar em uma única história, como diz Adichie? Será que imaginavam que a utilização dos cabelos soltos e avolumados fosse algo que chamaria muita a atenção, algo espetacular?

A multiplicidade em pessoa

Após a provocação encontrada no citado vídeo, e enquanto educador, eu fico preocupado em repensar a postura que tive com relação a abordagem feita sobre a aparência de uma pessoa afrodescendente, e acredito ser esta uma prática normal, pois, até às recentes leituras que tenho feito de alguns autores/as africanos e afrodescendentes, antes eu não havia lido

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sobre tais questões, não sabia, por exemplo, sobre a noção de pessoa nas tradições malianas, especificamente das etnias fula e

bambara, nas quais se pensa uma pessoa (maa) e seus diversos aspectos (maaya), como coloca Amadou Hampaté Bâ em seu texto “A noção de pessoa na África Negra” (1981). “[...] maa

ka maaya ka ca a yere kono’ significa: ‘As pessoas da pessoa são múltiplas na pessoa” (Ibid., p. 1). A multiplicidade em pessoa.

Aquela noção de pessoa me chama a atenção, pois sem a conhecer, eu a trazia comigo, acredito que por meio da experiência que eu tive em minha própria vida na qual sempre convivi em meio à diversidade referente a pessoas, em várias questões, inclusive as de etnia, gênero, cor e orientação sexual,