Questions Experiment (GQE)
3.4 Discussion of Results
O padre diretor espiritual nos ofereceu seu projeto para a dimensão espiritual para o ano de 2005, que vamos transcrever e comentar em seguida. O texto traz a lista das atividades espirituais cultivadas no seminário teológico, reflexões espirituais e propõe um programa prático que visa configurar o seminarista (futuro presbítero) a Jesus Cristo Sacerdote, Profeta e Pastor. Esse documento de circulação interna expressa o clima e a perspectiva espiritual predominante no seminário teológico, de acordo com nossas observações no estabelecimento.
1. O que já existe? Eucaristia diária, Liturgia das Horas (“Laudes” e
Vésperas), terço (uma vez por mês), Hora Santa (duas vezes por mês), Via- Sacra (na quaresma), celebração penitencial (duas vezes por ano), tarde de espiritualidade (duas vezes por ano), Ceia Judaica, retiro espiritual (uma vez por ano), retiro de quaresma, estágio pastoral nas paróquias, direção espiritual com encontros pessoais de orientação, encontros de formação espiritual por grupos diocesanos ou por turmas, disciplinas acadêmicas de espiritualidade, disciplinas acadêmicas inter-relacionadas à espiritualidade.
2. Como melhorar o que já existe? 3. Reflexão.
3.1 A espiritualidade cristã é uma identificação com a pessoa de Jesus Cristo. Identificação que insere o cristão no mistério da Trindade. Jesus é o caminho que conduz ao Pai, pelo Espírito Santo. Ele é o modelo de espiritualidade.
3.2 A espiritualidade cristã é o resultado da acolhida da palavra do Senhor. Essa experiência tem uma relação íntima com o carisma recebido. Nesse sentido, a espiritualidade do presbítero é a vivência da própria identidade sacerdotal. A sua espiritualidade brota da identificação com Cristo em seu ser e em sua ação.
8 A Vida Religiosa Consagrada tem procurado rever a teologia e a prática dos votos de pobreza, castidade e
obediência, questionando os modelos tradicionalmente intimistas, espiritualizantes e autoritários de funcionamento da vida institucional religiosa (LOSADA et al., 1999; KEARNS, 2002; PEREIRA, 2004, 2005; ANJOS, 2004; LIBANIO, 2005a).
3.3 Jesus Cristo é o caminho da espiritualidade sacerdotal. Ele é o Filho de Deus, Sacerdote Eterno, modelo no ministério do culto. É a Palavra encarnada do Pai, Profeta, modelo do ministério da Palavra. É o irmão dos homens, Pastor, modelo de serviço e caridade. O presbítero tem uma relação especial com Jesus Cristo, de cujo tríplice múnus participa. A sua espiritualidade nasce da sua configuração a Cristo Sacerdote, Profeta e Pastor. Ele é sacramento de Cristo Sacerdote, dispensador dos ministérios divinos; de Cristo Profeta, pregador da Palavra; de Cristo Pastor, guia do povo de Deus, homem da caridade.
3.4 “A formação espiritual constitui o coração que unifica e vivifica o “ser padre” e o “agir do padre.” (PDV, 45). A etapa da teologia deveria ser o momento de aprofundar a experiência de comunhão com o Cristo, Bom Pastor e de maior preparação para o exercício do ministério presbiteral (Estudos da CNBB, nº. 83, Metodologia do processo formativo: a formação presbiteral na Igreja do Brasil). Segundo o mesmo documento, é muito importante que o futuro padre integre espiritualidade, teologia e liturgia, cultue a vida interior, o silêncio, a oração pessoal e a vivência sacramental.
4. Programa de espiritualidade.
4.1 Na configuração do futuro presbítero a Jesus Cristo Sacerdote. A
identidade do presbítero deriva da participação específica no sacerdócio de Cristo. Ele é na Igreja e para a Igreja imagem real, viva e transparente de Cristo, Sumo e Eterno Sacerdote.
Meios para uma espiritualidade na dimensão sacerdotal.
a) Oração pessoal. “A base de todo e qualquer meio de espiritualidade cristã, como a vida que lhe dá sentido, deve estar numa autêntica experiência de Deus, em Cristo.” (Estudos da CNBB, Espiritualidade presbiteral hoje). O futuro presbítero precisa aprender a cultivar e aprofundar uma relação existencial com o Senhor, através da oração pessoal. A oração e a vida interior são exigências para o padre, em razão do seu ministério apostólico e em razão da sua especial consagração. ATIVIDADES: incentivar a oração pessoal, a vida interior, o silêncio, a meditação; métodos de oração; leitura espiritual e hagiográfica; retiros; tardes de espiritualidade; Horas Santas; Via-Sacra, retiro de quaresma. b) A Eucaristia. A Eucaristia é o principal meio e fim, coração e centro do ministério sacerdotal. O padre é o homem da Eucaristia. Nela encontra seu refúgio e seu melhor repouso. É fundamental que os futuros presbíteros cultuem a comunhão com o Senhor, participando “diariamente na celebração eucarística, de modo que depois assumam como regra de sua vida sacerdotal esta celebração cotidiana” (PDV, 48). “O clima espiritual de um seminário revela-se pela participação na eucaristia” (Pe. Celito Moro). ATIVIDADES: celebração diária da Eucaristia, formação sobre o valor, a necessidade e as diversas dimensões da Eucaristia; Horas Santas; integração da disciplina sobre sacramentos com a espiritualidade.
c) Reconciliação. O ministério da reconciliação ocupa um lugar fundamental na vida do presbítero. Ele é apóstolo da graça e do perdão. Exerce o ministério da reconciliação de tal maneira que todos possam ver em seu rosto a face do Bom Pastor. A etapa da formação teológica deve levar o seminarista a descobrir “a beleza e a alegria do sacramento da reconciliação” (Pe. Celito Moro), a necessidade e o valor do perdão, da prática do amor e da conversão. ATIVIDADES: celebração penitencial; formação e educação para a reconciliação, o sentido da misericórdia, a prática da confissão pessoal e do perdão.
d) Liturgia das Horas. É o prolongamento do sacrifício de louvor e de ação de graças que tem na Eucaristia o centro e a fonte sacramental. A Liturgia das Horas “é a oração pública e comum do povo de Deus, sob a
responsabilidade do clero” (Instrução geral sobre a Liturgia das Horas). Daí a necessidade de o seminarista aprender o “modo de rezar da Igreja”. ATIVIDADES: recitação da Liturgia das Horas, formação sobre a espiritualidade da Liturgia das Horas, principalmente dos salmos; integração da liturgia à espiritualidade.
e) Devoção Mariana. O presbítero deve ter Maria como mãe que o conduz a Cristo, que o faz amar a Igreja, que intercede por ele. Maria é modelo e educadora do futuro sacerdote. “Com filial confiança amem e venerem a Bem-Aventurada Virgem Maria que, como mãe, foi dada ao discípulo por Jesus Cristo, enquanto agonizava na cruz” (OT, 8). Na vida espiritual de todo discípulo está presente Maria que, por sua vez, remete a Cristo (Cf. RM, 45-46). “Os futuros presbíteros são chamados a conhecer e a viver Maria nos seus traços... ela deve ser apresentada nos seminários como caminho e garantia de configuração interior do Senhor Jesus e modelo de fé” (Pe. Celito Moro). ATIVIDADES: recitação do rosário, novenas em louvor à Nossa Senhora; formação e educação para a devoção à Maria e à imitação de suas virtudes; valorização das peregrinações, romarias e outras formas de devoção e de desejo de imitação de Maria.
f) Direção espiritual. A direção espiritual e o aconselhamento são valores indispensáveis para o discernimento vocacional. É importante não caminhar sozinho pelos caminhos da vida espiritual. A direção espiritual tem como objetivo ajudar na comunhão com Deus e acompanhar o formando no seu “itinerário espiritual”. ATIVIDADES: presença do diretor espiritual, responsável pela orientação e formação espiritual comunitária e orientação espiritual personalizada; formação da consciência do seminarista; leitura espiritual e hagiográfica; partilha da oração, troca de experiência e revisão de vida.
4.2 Na configuração do futuro presbítero a Jesus Cristo Profeta. O
presbítero é sacramento pessoal de Jesus Cristo Profeta. O Espírito Santo confere aos presbíteros a missão profética de anunciar e explicar a Palavra de Deus. Meios para uma espiritualidade na dimensão profética:
a) A comunhão com a Palavra. O serviço da Palavra é o elemento fundamental do ministério presbiteral. O padre deve ser “homem de palavra”, responsável, integrado, com virtudes cristãs e valores humanos; “homem da Palavra”, ministro e dispensador da Palavra de Deus; “homem ante a Palavra”, como todo bom cristão, ele é também ouvinte e seguidor da Palavra. O futuro presbítero, além do diligente estudo das Sagradas Escrituras, precisa aprender a “procurar Cristo na leitura e meditação diária da Palavra de Deus”. ATIVIDADES: Leitura orante da Bíblia; exercícios de meditação; prática homilética; integração das disciplinas na área bíblica com a espiritualidade.
4.3 Na configuração do futuro presbítero a Jesus Cristo Pastor. O
presbítero representa Cristo, Cabeça e Pastor. Ele é guia do povo de Deus. Meios para uma espiritualidade da dimensão pastoral:
a) A comunhão e a fraternidade sacerdotal. A comunhão do presbítero realiza-se antes de tudo com o Pai, origem última de todo o poder; com o Filho, em cuja missão redentora participa; com o Espírito Santo, que lhe dá a força para viver e realizar a caridade pastoral. Da comunhão com a Trindade deriva, para o presbítero, a sua comunhão-relação no interior do mistério da Igreja: com o Papa, com o bispo, do qual é colaborador, com o presbitério e com os leigos. O presbitério diocesano é o lugar da comunhão fraterna, da amizade sacerdotal e da vida comum. A experiência da comunhão fraterna é essencial na vida espiritual do futuro presbítero. A vida comunitária deve ser sustentada pela espiritualidade e ao mesmo tempo alimentar-se dela. Convém àqueles que irão animar e zelar pelas
comunidades aprender e viver a comunhão com a Igreja, com o Papa, com o bispo, com os colegas, com os padres e com todas as pessoas. ATIVIDADES: educação e formação para o trabalho em equipe; promoção de encontros de formação, de espiritualidade e de lazer com os colegas presbíteros da diocese e da classe; equipes de vida e espiritualidade; fazer do estágio pastoral ocasião de educação e formação para a comunhão e a fraternidade.
b) Os conselhos evangélicos. O presbítero diocesano não assume os conselhos como votos, mas como valores evangélicos fundamentais no exercício do seu ministério. A obediência, a castidade e o celibato sacerdotal, assim como a pobreza são expressões da vontade do Pai, em favor do Reino. Decorrem da consagração sacerdotal. O fim imediato dos conselhos evangélicos é o bem da comunidade. A obediência torna-se fruto do amor à Igreja. O celibato sacerdotal é testemunho do radicalismo no seguimento de Cristo e sinal da realidade escatológica. A pobreza é semelhança a Cristo, disponibilidade para servir, liberdade interior e motivação para a caridade pastoral. Jesus Cristo é o modelo de obediência e fidelidade à vontade do Pai; modelo de homem casto e de consagração virginal; modelo de pobreza e de liberdade interior. Convém que o futuro presbítero seja formado e educado para a abertura, a disponibilidade e a generosidade na vocação ministerial que deseja assumir. ATIVIDADES: formar e educar os seminaristas para assumirem a obediência, o celibato e a pobreza com espírito de fé, amor e generosidade; apresentar motivações evangélicas, espirituais e pastorais para a vivência dos conselhos; apresentar a pobreza sacerdotal, o celibato e a obediência em função da caridade pastoral e do apostolado; oferecer indicações e meios para a prática do celibato como dom, em clima de sereno equilíbrio e de progresso espiritual; trabalhar a dimensão afetiva; trabalhar em conjunto com profissionais da área da psicologia.
c) A caridade pastoral. A caridade pastoral é a fonte e a razão de ser das atitudes do presbítero. O que se pede ao sacerdote diocesano é o cuidado pastoral da comunidade. A verdadeira espiritualidade presbiteral brota da sensibilidade, da compaixão e do serviço para com o rebanho. ATIVIDADES: formação espiritual a partir do exercício da vida cristã e da caridade pastoral; fazer do estágio pastoral uma fonte de espiritualidade e de exercício da caridade pastoral; formação para a compaixão, o amor e a solidariedade, principalmente com os pobres.
Depois de esboçar o elenco geral das atividades da dimensão espiritual que são desenvolvidas no cotidiano e ao longo do ano no seminário teológico, é explicado, no projeto para a dimensão espiritual, o que se entende por espiritualidade e, em seguida, é elaborada uma reflexão sobre a espiritualidade no processo de formação do futuro presbítero. Em seguida apresenta-se propriamente um programa de espiritualidade, visando à configuração do seminarista a Jesus Cristo Sacerdote, Profeta e Pastor, buscando indicar atividades práticas em diversas dimensões. É difícil deixar de identificar que na base desse texto está o
documento da Congregação para o Clero (2003) intitulado “O presbítero: pastor e guia da comunidade paroquial”. Esse documento apresenta um perfil sacerdotal bem definido, de tendência bastante tradicional. Certamente o modelo de padre que está sendo proposto no programa desenvolvido pelo diretor espiritual que transcrevemos acima, enquadra-se no denominado “modelo cultual” (COZZENS, 2001, p. 21-33).
Não podemos negar que a dimensão da espiritualidade seja bem cuidada e que se procure oferecer orientação, apoio e instrumentos para a intensificação da espiritualidade dos seminaristas estudantes de teologia. Isso a vida cotidiana no próprio seminário nos deixou bem claro através da observação participante. Nossa hipótese de que a dimensão espiritual era fracamente implementada ou oferecida de modo pouco organizado não se verificou. Pelo contrário, as atividades são intensas e bem cuidadas. As questões problemáticas estão no sentido mesmo dessas práticas.
A perspectiva espiritual que parece implícita no programa do diretor espiritual indicaria uma espiritualidade individual e verticalista, talvez mesmo individualista. Também nos pareceu espiritualizante, basicamente sacramental e cultual. Não há indícios de ser uma espiritualidade encarnada na história, atenta aos problemas da vida social concreta; quando fala dos pobres, é no plano da “caridade pastoral”, não da justiça social, da transformação social. As orientações sobre os conselhos evangélicos de pobreza, castidade e obediência remetem a um padre que está mais para monge do que para sacerdote secular (CONFERÊNCIA NACIONAL DOS BISPOS DO BRASIL, 1995, p. 78-80).
Notamos fortes traços monásticos e conventuais no programa: insistência na importância do silêncio, da oração pessoal, da meditação, de práticas devocionais e da oração da Liturgia das Horas. Podemos afirmar que o modelo monástico oferece a estrutura para a espiritualidade proposta, apesar do padre diocesano ser chamado a uma vocação eminentemente ativa. A oração parece a-histórica e intimista, o mesmo se pode dizer da
Eucaristia, que não parece remeter a uma celebração da vida, mas apenas ao culto ritual. Há um destaque para a configuração do seminarista a Jesus Cristo Sacerdote, Profeta e Pastor que nos parece bastante clericalizante, ao identificar com exclusividade o seminarista com os poderes sacerdotais (cultos e sacramentos), proféticos (anúncio, pregação da Palavra e ensino) e com o senhorio (pastoreio e governo) de Cristo. A vertente cristológica predomina claramente sobre a eclesiológica (Cf. ANTONIAZZI, 2003, p. 118-120).
Termos como “compromisso” , “engajamento”, “transformação social”, “justiça social”, “opção pelos pobres”, estão ausentes do programa e talvez também da mentalidade dos jovens seminaristas e futuros presbíteros. Esse também foi o tom geral das diversas tardes de espiritualidade, momentos de adoração e de várias celebrações das quais tivemos ocasião de participar. Pelo menos no plano do discurso, notamos que os motes da teologia da libertação desapareceram. É pouco provável que o tipo de orientação espiritual oferecido possa levar os seminaristas a serem futuros padres libertadores e engajados em trabalhos de transformação social. No seminário teológico investigado também observamos o que afirma Libanio (2005a, p. 71): “a consciência social e política dos religiosos declina (...) constata-se uma perda da garra no compromisso, um esfriamento do discurso libertador, uma retirada das comunidades inseridas com deslocamento da pastoral social para a litúrgico-sacramental.”
A prática litúrgica que inclui celebrações diárias da eucaristia, os momentos de oração da Liturgia das Horas, de adoração ao Santíssimo Sacramento e outras práticas devocionais comunitárias como a reza do terço, tem seus desafios para os seminaristas, conforme pudemos observar: a rotina nas celebrações cotidianas; a tendência rubricista, conservadora e ritualista; tendências intimistas e subjetivistas; o racionalismo próprio do período acadêmico, que dificulta uma perspectiva mais espiritual, criando dificuldades de fé; a união da fé com a vida, ultrapassando a mera repetição ritual. Os conflitos e dificuldades entre formadores e formandos também repercutem na sua vivência litúrgica de modo
negativo. A participação é obrigatória, mas pode acabar gerando uma adesão superficial que será abandonada assim que possível. Certamente, a vivência da liturgia seria um lugar privilegiado para o cultivo da espiritualidade e da mística cristã.
Uma questão importante nos parece ser a relação entre a dimensão totalitária e disciplinar e a dimensão espiritual no contexto institucional do seminário teológico. Até que ponto as relações de poder são capazes de anular e sabotar a dimensão espiritual? Será que a dimensão espiritual não acaba servindo como uma cobertura ideológica que mascara os aspectos disciplinares da formação sacerdotal institucional? Cremos que quanto mais totalitária e disciplinar uma instituição seja, mais distante e impossibilitada ela estaria de poder se organizar a partir da lógica evangélica.
3.1.12 ETAPAS INSTITUCIONAIS DO SACRAMENTO DA ORDEM NO PERCURSO