5 Discussion
5.2 Discussion of main findings
As reflexões desenvolvidas no desenrolar de nosso percurso permitiram- nos entender a necessidade da ação argumentativa no processo de mediação pedagógica, na atividade de discussão de histórias. Por meio da análise dos episódios de discussão de histórias, foi possível compreender a relevância de procedimentos argumentativos na ação docente dirigida à apreensão do texto literário pela criança. Em tal processo, o professor assume sua função de mediador de leitura, lançando mão de estratégias de persuasão e de convencimento, no sentido de propiciar e intensificar a adesão da criança acerca do que é lido e discutido.
Postulamos que os procedimentos de mediação da professora- pesquisadora constituíram-se de suma importância no desenvolvimento das habilidades de leitura das crianças, tanto no que diz respeito à operação de previsão quanto à recepção estética das histórias de literatura infantil.
Faz-se necessário salientar que as conclusões ora evidenciadas não se restringem a estas páginas, haja vista serem resultantes de observações que empreendemos no curso da reflexão sobre os episódios de discussão de histórias apresentados nos capítulos de análise, nos quais pudemos visualizar a ação argumentativa da mediação docente.
Constatamos a importância de a mediação pedagógica na atividade de discussão de histórias ser de natureza argumentativa, no sentido de estimular a argumentação construída pela própria criança sobre as reações e as respostas que o texto lhe provocou, assim como os conflitos sociocognitivos resultantes do ouvir e discutir as respostas de seus pares.
Por essa razão, afirmamos que o professor que recorre a procedimentos argumentativos em sua mediação aguça a imaginação das crianças, estimula a cognição na compreensão do texto literário como instrumento de informação e experiência estética, promove o diálogo em sala de aula, favorece o compartilhamento de respostas e de dúvidas na apreensão do texto e potencializa, sobretudo, o movimento de (re)estruturação do pensamento a partir do instante em que incentiva a criança a expor e a justificar suas opiniões.
Tal argumento permite-nos afirmar o quanto é necessária a sistematização da atividade de discussão de histórias no trabalho pedagógico com a linguagem, principalmente em experiências com a literatura infantil. A abordagem do texto na atividade de discussão não diminui, em absoluto, o prazer da criança, mas propicia o prolongamento do que é lido em atos de imaginação e reflexão.
Em nosso estudo, também ficou constatada a eficácia da proposição de perguntas como estratégia de mediação pedagógica central na construção compartilhada de significados entre os membros inseridos no processo de interlocução. A proposição de perguntas foi estratégia não só constitutiva do exercício da dúvida e da progressão do diálogo, mas também suscitadora de divergências e resoluções de conflitos sociocognitivos durante as discussões. Mediante as perguntas de tipos distintos encaminhadas pela professora- pesquisadora, pudemos constatar a importância do questionamento ao
desenvolvimento assistido, em outros termos, à potencialização do nível de desenvolvimento proximal. Tal constatação nos leva a afirmar que por meio de perguntas podemos fazer avançar o conhecimento da criança. Assim considerando, endossamos a relação ensino-aprendizagem pautada na co-criação do saber.
O estudo dos indícios de argumentação na mediação pedagógica na atividade de discussão de histórias revelou-nos como o professor pode desencadear o processo de interação leitor-texto e continuar nele intervindo. Durante o período em que se desenvolveram as aulas, as crianças tiveram contato com a literatura infantil, experimentaram possibilidades de ensino da leitura, como a contação e o reconto de histórias, e, mediante a prática da discussão de histórias, incluíram-se em uma comunidade de leitores, com o direito de socializar respostas ou reações provocadas pelo texto, partilhar idéias entre pares, recorrendo aos movimentos de aprovação, refutação ou concessão. Esse processo de prolongamento da relação texto-leitor tornou presente a linguagem do imaginário nas falas das crianças, que expressaram dúvidas, certezas e expectativas na transição do real e do ficcional por meio dos personagens e das tramas narrativas que lhes foram contadas.
Os aportes teóricos a que recorremos em nosso estudo nos auxiliaram a entender melhor a ação docente em conjunto com a atividade das crianças no processo de mediação pedagógica na atividade de discussão de histórias. A psicologia interacionista evidenciou o papel do professor como mediador, considerando-se a zona de desenvolvimento proximal e a perspectiva de aprendizagem compartilhada no processo de apreensão do texto literário.
A teoria da argumentação foi indispensável para entendermos a mediação pedagógica como processo argumentativo, em que se objetiva obter e intensificar a
adesão das crianças ao texto lido e discutido por meio de procedimentos ou recursos que denotam persuasão e/ou convencimento.
A psicolingüística nos forneceu subsídios tanto para compreendermos a habilidade de previsão como identificarmos os procedimentos argumentativos a que o professor pode recorrer nesse processo, tendo em vista antecipar a interação leitor-texto: ativação de conhecimento de mundo/experiência prévia, ilustrações, argumentos de definição, exercício da dúvida e redefinição de perguntas.
A estética da recepção, por meio dos estudos sobre o efeito estético, fez- nos compreender a importância da argumentação na discussão sobre as respostas e reações motivadas nas crianças pelo texto, bem como nas reações provocadas na convergência ou mesmo divergência de pontos de vista expressos pelos pares, mediante os procedimentos de abordagem de cenas e personagens, de recorrência às ilustrações do livro de literatura infantil, de julgamento de personagens, de estímulo à solução de problemas e do procedimento de releitura.
Evidenciamos também a importância dos estudos da psicologia interacionista na identificação e análise dos conflitos sociocognitivos, em que se destaca, novamente, a relevância da pergunta como fator promotor de desequilíbrios. Nos episódios de discussão analisados, foram mais freqüentes os conflitos com o outro, desencadeados pela divergência de idéias e, na maioria das vezes, resolvidos por meio de retomadas de passagens textuais.
Na apreciação dos procedimentos de mediação a que recorreu a professora-pesquisadora, os quais revelaram indícios de argumentação, foi interessante observar como se articulam condutas e recursos na mediação pedagógica com vistas à discussão do texto literário.
Ressaltamos, de modo mais específico, o uso da ilustração e da releitura visando à argumentação na mediação pedagógica na discussão de histórias. Chamamos a atenção para o fato de que não há menção ao procedimento de releitura nos estudos e pesquisas na área da argumentação. Porém, os dados analisados nos conduzem à compreensão da dimensão argumentativa da releitura, principalmente quanto à confirmação e/ou expansão de sentidos, bem como à adesão ao acordo ficcional proposto pelo texto. A ilustração, por sua vez, como texto de natureza imagética passa a ser percebida em sua dimensão argumentativa, no sentido não apenas de complementar mas até mesmo de expandir o argumento apresentado pelo texto escrito.
Concluímos, também, que as etapas de discussão de pré-contação e de
pós-contação promovem a criança à condição de sujeito falante, de modo a tornar a sala de aula em um espaço de interlocução de e sobre leituras. Decorre desse processo, a capacidade de a criança aprender a organizar melhor seus pensamentos, desenvolver competências fundamentais à vida em comunidade, como saber ouvir, saber discutir acerca do que lhe é apresentado a seu assentimento e ter apreço pela fala do interlocutor.
Em função de termos planejado as aulas nessas duas etapas de discussão, sugerimos que a interação da criança com o texto seja intercalada por essas etapas de discussão, considerando-se os processos de aprendizagem que estas desencadeiam. A discussão de pré-contação suscita o engajamento inicial das crianças na atividade de leitura mediante a elaboração de previsões, promove o desenvolvimento da curiosidade sobre o que será lido ou contado. A discussão de
objeto de reflexão, por delegar o direito de fala às crianças, no sentido de elas discutirem sobre as reações motivadas pelo texto.
É interessante ressaltarmos, por outro lado, que foi com essas etapas de discussão que pudemos visualizar os procedimentos que revelam indícios de argumentação na mediação da professora-pesquisadora durante a atividade de discussão de histórias.
Em suma, com a realização desta tese, constatamos que a discussão de histórias promove o contato mais efetivo do leitor com o texto e dos leitores entre si, em um espaço de leitura compartilhada, em que a formação da comunidade de leitores é possível em razão do apoio mútuo das crianças mediadas pelo professor para atribuir sentidos às histórias contadas. Os resultados evidenciaram, ainda, a relevância da prática da discussão com crianças de educação infantil, de modo a confirmar a emergência de atitudes argumentativas nesse nível de escolarização.
Para que a sistemática desenvolvida em nosso estudo possa repercutir em outras práticas de ensino, é necessário que o professor assuma devidamente o lugar de sujeito leitor e argumentador, no processo de formação de leitor em situação escolar, desde a educação infantil. É preciso também que ele compreenda que a atividade de discussão de histórias deve estar articulada às finalidades de ensino e aprendizagem que, como tais, não dispensam intencionalidade, deliberação e sistematização.
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