O jornalismo, enquanto peça integrante do campo midiático, media as relações entre os fatos e a sociedade, agindo sobre a formação da opinião pública. Assim, Veron (1995 apud PEREIRA JUNIOR, 2006, p.32) considera a mídia informativa como o lugar no qual as sociedades industrializadas produzem a realidade. Trata-se de um fenômeno que vai além do mero reflexo do real.
Representar uma coisa [...] não é com efeito simplesmente duplicá-la, repeti-la ou reproduzi-la; é reconstitui-la, retocá-la, modificar-lhe o texto. A comunicação que se estabelece entre o conceito e a percepção, um penetrando no outro, transformando a substância concreta comum, cria a impressão de ‘realismo’ [...] Essas constelações intelectuais uma vez fixadas nos fazem esquecer que são obra nossa, que tiveram começo e que terão um fim, que sua existência no exterior leva a marca de uma passagem pelo psiquismo individual e social. (MOSCOVICI 1978 apud SÁ, 1996, p.34).
Alsina (2009, p.300) ressalta que “o conceito de representação social nos remete a diversas origens teóricas”. De acordo com Villas Bôas (2004, p. 144), a dificuldade
em conceituá-la se deve ao fato de, por um lado, se tratar de um fenômeno passível de observação e identificação, já por outro, o conceito demanda “uma maior maturidade e desenvolvimento do próprio postulado teórico das representações sociais para que haja uma definição do mesmo”.
De acordo com Sá (1996), trata-se de um fenômeno psicossocial histórico e culturalmente condicionado. As representações são mediadas pela comunicação social, sendo que suas variações são norteadas de acordo com os conjuntos sociais que a elaboram, bem como pelos que a utilizam. Nesse sentido, na perspectiva da psicologia social, a representação evidencia a reintrodução “ao estudo dos modos de conhecimento e dos diversos processos simbólicos na sua relação com as condutas” (ALSINA, 2009, p. 300).
Segundo Jodelet (1989 apud VILLAS BÔAS, p. 143), a representação social é “uma forma de conhecimento, socialmente elaborada e partilhada, que tem um objetivo prático e concorre para a construção de uma realidade comum a um conjunto social”. Em consenso, Doise (1985, p. 246) a considera um princípio gerador de “tomadas de posição ligadas a inserções específicas em um conjunto de relações sociais que organizam os processos simbólicos que intervêm nessas relações”.
Devemos compreender que as representações sociais são constituídas por fatores cognitivos, afetivos e pelas inserções sociais. Dessa maneira, Villas Bôas (2004, p. 143) expõe que, de acordo com Wagner (1998), elas partem do envolvimento entre um conteúdo mental estruturado (cognitivo, avaliativo, efeito e simbólico) e um fenômeno social relevante, tomando, portanto, “a forma de imagens ou metáforas, e que é conscientemente compartilhado com outros membros do grupo social”.
Assim, apreendemos que a representação social atua sobre a percepção do indivíduo ou de um coletivo sobre o seu entorno. No entanto, o papel que ela exerce sobre as condutas sociais e na comunicação não está relacionado simplesmente ao seu compartilhamento pelos membros de um grupo. Trata-se de uma estrutura complexa que parte de paradigmas, os quais podem ser mantidos ou transformados socialmente.
As representações fazem parte das relações sociais, são seus produtos e suas geradoras também. É bom frisar que essas representações são coletivas, não só porque são compartilhadas pelos membros de um grupo, mas porque são elaboradas, mantidas e transformadas socialmente, no seio das relações sociais, e porque também possuem um elo estruturante dessas mesmas relações sociais (SANTAMARÍA, 2002 apud ALSINA, 2009, p. 302)
Há dois mecanismos responsáveis por elaborar o conhecimento representacional. O primeiro é a ancoragem, a qual estabelece que, como uma ancora pode elevar algo do fundo do oceano, um processo psíquico faz emergir uma nova ideia de um pensamento social ou individual pré-existente. Por meio da ancoragem, o sujeito tem a possibilidade de relacionar os metassistemas (regulações sociais) com seu conhecimento prévio, o qual poderá ser refutado ou reforçado. O segundo mecanismo é a objetivação, responsável por moldar um conhecimento até então abstrato, ou seja, os elementos da representação tornam-se uma realidade entendida como natural.
As representações sociais são tanto um processo quanto um produto, são efetivadas pela comunicação e constituídas em um ambiente permeado por variáveis como o pensamento individual, aspectos culturais, sociais e ideológicos.
A relação entre o homem, produtor, e o mundo social, produto dele, é uma relação dialética, isto é, o homem (evidentemente não o homem isolado mas em coletividade) e seu mundo social atuam reciprocamente um sobre o outro. O produtor reage sobre o produto. Em resumo, a sociedade é um produto humano. A sociedade é uma realidade objetiva. O homem é um produto social (BERGER, LUCKMANN 1995 apud PEREIRA JUNIOR, 2006, p.32)
Bock (2008), no entanto, enfatiza que os meios de comunicação não têm controle absoluto sobre a nossa subjetividade. Nessa perspectiva, as notícias podem influenciar pensamentos e atitudes, mas não, necessariamente, determiná-los. De acordo com Sousa (1999), não há nada que garanta que os agentes que intervêm no processo de construção da informação jornalística e de decodificação da notícia sejam fatores que determinem o que o consumidor apreende e entende, assim como nada garante que “o mesmo sentido dado a essas mensagens seja o sentido que lhe é outorgado pelo consumidor”.
Outro aspecto pertinente às representações e fundamental para esta pesquisa é o estereótipo. Este se qualifica como representações sociais, institucionalizadas, reiteradas e reducionistas (FERRÉS, 1998). O estereótipo condiz com uma imagem preconcebida que transita pelo senso comum e que define e limita de forma generalizada determinado grupo de pessoas, coisa ou situação.
[...] Para procurar compreender como os estereótipos influenciam esse processo recorremos aos estudos de FERRÉS (1998). [...] Trata-se de representações porque pressupõem uma visão compartilhada que um
coletivo possui sobre o outro. Reiteradas porque criadas com base numa repetição. A base de rigidez e de reiteração, os estereótipos acabam parecendo naturais; a sua finalidade é, na realidade, que não pareçam formas de discurso e sim formas de realidade. Finalmente, são reducionistas porque transformam uma realidade complexa em algo simples. (PEREIRA JUNIOR, 2006, p.36)
Ciente do que seja estereótipo e seus efeitos, caberá às inferências interpretativas da presente pesquisa verificar se os conteúdos coletados, por meio das representações que carregam, fortalecem ou buscam romper com os estereótipos pertinentes ao Brasil e à Alemanha.