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A avaliação dos espaços terapêuticos do ginásio de fisioterapia e terapia ocupacional do Centro de Reabilitação Infantil, Natal-RN por meio de uma abordagem multimétodos permitiu a convergência dos resultados entre os instrumentos aplicados, conferindo validade a uma análise qualitativa.

Tendo em vista que o ambiente construído e seu processo de produção e uso devem expressar e interpretar a reação dos usuários de diversas maneiras, para analisar os aspectos qualitativos da iluminação natural no objeto de estudo, a percepção de dois grupos distintos de usuários (especialistas e profissionais) foi considerada. No entanto, nota-se que a satisfação dos profissionais baseia-se em padrões subjetivos, partindo de percepções de ordem cognitiva e afetiva, o que requer uma comparação entre a experiência vivida e critérios subjetivos do usuário.

Esta subjetividade foi evidenciada nas entrevistas estruturadas realizadas com os profissionais. Ao confrontar a avaliação destes em relação à iluminação natural em suas estações de trabalho com o nível de iluminância medido durante a aplicação do instrumento, não foi possível estabelecer uma relação entre ambos (ver Figura 5.55).

A avaliação das especialistas (arquitetas que atuam na área hospitalar) incorporou um olhar crítico sobre o ambiente físico, possibilitando verificar se a satisfação das profissionais (fisioterapeutas e terapeutas ocupacionais) em relação ao ambiente do ginásio estava de acordo com os aspectos técnicos. Quanto aos aspectos funcionais, as técnicas de aproximação com o objeto, que contemplaram entrevistas, checklist e observações, possibilitaram a compreensão do programa de necessidades.

Os resultados da abordagem multimétodos apontam que a avaliação técnica e a opinião dos usuários são informações complementares e necessárias para pesquisas mais abrangentes sobre ambientes terapêuticos. A avaliação dos profissionais foi bastante elucidativa em relação às especificidades de ginásios de reabilitação voltados para o atendimento às crianças portadoras de deficiência física, motora e mental, quanto à qualidade lumínica em espaços terapêuticos destinados à reabilitação infantil em instituições estaduais/ públicas.

As divergências apresentadas na matriz de descobertas refletem as recomendações para esta estratégia de pesquisa, uma vez que diferentes grupos de usuários percebem e avaliam o ambiente construído de maneiras distintas. A aplicação de entrevistas

153 estruturadas demonstrou certa neutralidade na satisfação dos profissionais em relação à ao ambiente construído. De maneira geral, os profissionais avaliaram os parâmetros de qualidade lumínica dos espaços terapêuticos do ginásio como bom. No entanto, a avaliação técnica detectou problemas de cunho técnico e funcional relacionados à implantação, aos sistemas de abertura e sombreamento, as superfícies, ao leiaute e aos equipamentos adotados no ginásio.

O diagnóstico apresentado salienta a importância de se desenvolverem avaliações de desempenho abrangendo os diversos grupos de usuários. Tais resultados corroboram com as considerações de Thomazoni (2009) sobre o projeto para um Estabelecimento de Assistência à Saúde e sua funcionalidade, quando ressalta que embora as funções sejam atendidas, para se estabelecer um projeto de qualidade se faz necessário compreender os grupos distintos de usuários e seus interesses.

Embora os profissionais da saúde sejam uma fonte rica em informações a respeito do ambiente físico hospitalar, nesta pesquisa não houve consenso quanto aos aspectos avaliados. As divergências impossibilitaram a definição de preferências em relação às variáveis de conforto luminoso. A dificuldade encontrada atribui-se ao reduzido universo amostral de 19 profissionais (11 fisioterapeutas e 6 terapeutas ocupacionais), que atuam em estações de trabalho distintas (ver Figura 5.48 , p. 131). Ainda assim, os resultados apontam preferências em relação aos atributos de conforto luminoso avaliados na pesquisa. De acordo com as entrevistas, a privacidade visual é o parâmetro de maior influência para o conforto luminoso e bem estar dos profissionais nos espaços terapêutico.

Ao analisar a relação visual interna, a configuração espacial do ginásio de reabilitação do CRI (com espaços de atendimento coletivos e individualizados) corresponde às expectativas propostas, garantindo (quando necessário) privacidade aos tratamentos mais específicos e proporcionando encontros e interações entre usuários fixos e flutuantes, considerado salutar nos tratamentos de reabilitação. No entanto, durante as observações evidenciou-se que a forma como as estações de trabalho são utilizadas, não corresponde às necessidades dos pacientes e sim à preferência dos profissionais por privacidade ou interação.

O edifício estudado apresenta do ponto de vista funcional, alguns problemas relacionados à adequação dos espaços ao uso previsto. Mesmo após uma reforma (finalizada em junho de 2012) onde os espaços foram adaptados para atender a

154 necessidades específicas, o leiaute das salas não favorece a privacidade necessária para o atendimento de determinadas patologias. A importância da privacidade visual para o tratamento de determinadas patologias também foi mencionada no estudo de Machado (2012) ao constatar que o ambiente externo pode gerar distrações negativas à reabilitação de determinadas patologias. Nesse sentido, recomenda-se a definição de espaços de atendimento individualizado para atividades terapêuticas direcionadas a pacientes com déficit de atenção, autismo e hiperatividade.

Os resultados apontam que a relação com o exterior proporciona distrações visuais que podem ser positivas ou negativas de acordo com a função e uso dado aos espaços (internos e externos). Na opinião dos terapeutas ocupacionais, o contato visual com o ambiente externo, possibilitado pelas aberturas na fachada nordeste, gera distrações negativas em função dos usos do entorno imediato. Nota-se que as distrações negativas são geradas pela função (estacionamento) e pelos usos (circulação de veículos e pedestres) do ambiente externo. Nesse caso, as aberturas não favorecem o poder restaurador que o contato com a natureza propicia, conforme comprovam os estudos de Kaplan e Kaplan (1989) e Ulrich (1992). No entanto, na opinião dos fisioterapeutas, a distração visual que o contato visual com a paisagem proporciona favorece o bem estar dos pacientes, corroborando com os estudos mencionados acima.

As entrevistas realizadas com os profissionais vão de encontro com os resultados encontrados por Machado (2012) ao investigar as relações entre os ambientes interiores e exteriores de um Centro de Reabilitação Motora, onde conclui que muitos elementos capazes de produzir distrações positivas à grande maioria de pacientes, podem também produzir distrações negativas em terapias direcionadas à reabilitação de pacientes com déficit de atenção. Este resultado ressalta a importância de se considerar as atividades realizadas ao estabelecer atributos de conforto luminoso em ginásio de reabilitação.

Essa constatação corrobora com Lima (2009) que relaciona a influência da luz nos trabalhadores à arquitetura, ao sistema de iluminação, às necessidades humanas, às diferenças pessoais e à tarefa a executar. Desse modo, os aspectos qualitativos da iluminação natural discutidos neste estudo a partir da relação pessoa-ambiente salientam a importância dos sistemas de abertura e sombreamento como elementos que relacionam ambiente interno e externo, controlam a passagem de luz, de ar e de ruídos, além de controlar trocas térmicas.

155 A cidade de Natal está situada na latitude média de 5º45’54”S e possui céu parcialmente encoberto na maior parte dos meses do ano (entre seis e dez meses), portanto, apresenta pouca variação anual no comprimento dos dias e uma grande quantidade de luz solar disponível para uso nas edificações, de modo que soluções projetuais de conforto luminoso devem contemplar sistemas de sombreamento nas fachadas independente de sua orientação.

O estudo constatou que certas escolhas ou estratégias de projeto podem favorecer processos psicológicos e cognitivos. Por isso a implantação de um ginásio de reabilitação infantil deve levar em consideração o ambiente externo como espaço terapêutico. Além de incorporar a natureza ao tratamento, reduzindo o estresse de pacientes, acompanhantes e profissionais, ao incorporar novos usos e funções ao ambiente externo, amplia-se o espaço terapêutico, que deve extrapolar as barreiras físicas, como visto no estudo de caso realizado no SARAH Fortaleza.

O desenvolvimento teórico da pesquisa salienta a importância dos sistemas de abertura para a iluminação natural e para a relação entre ambiente interno e externo.

Apesar da dificuldade em se equacionar os fatores relativos aos condicionamentos climáticos nas decisões da arquitetura hospitalar em climas quentes, os sheds (solução adotada por Lelé na Rede SARAH) favorecem a entrada de luz natural indireta e de vento. No CRI, os baixos valores de iluminância medidos nas estações de trabalho refletem a ausência de aberturas zenitais em espaços profundos e/ou sem aberturas para o exterior.

Ao confrontar a avaliação dos especialistas com a satisfação dos profissionais, constatou-se que as variáveis analisadas constituem aspectos fundamentais para a qualidade ambiental em espaços destinados à reabilitação de crianças e adolescentes. Para ambos, os cuidados com a segurança e bem estar do paciente infantil devem ser priorizados.

A solução adotada para os sistemas de abertura com fechamentos pivotantes na fachada nordeste está entre os elementos mencionados que oferecem risco aos pacientes. Apesar de esta solução criar prateleiras de luz que favorecem a iluminação natural sem que a radiação solar incida de forma direta no ambiente, seu posicionamento na fachada é inadequado (ver Figura 5.25: Corte do espaço coletivo de fisioterapia com destaque para as alturas das aberturas na fachada nordeste do ginásio, objeto de estudo.Figura 5.25). Esse resultando vai de encontro com as recomendações de Rocha (2008), que ressalta que por

156 questões de segurança e de conforto visual do paciente pediátrico as janelas não devem ter alturas acessíveis às crianças, e ao mesmo tempo, não devem privá-las da paisagem exterior.

Nas entrevistas, os profissionais sugerem que fechamentos em vidro tornariam os espaços de atendimento do ginásio mais seguros, sem que o contato visual com o exterior fosse prejudicado. Esta solução foi observada no estudo de referência efetuado no SARAH Fortaleza. No entanto, deve-se atentar que esta solução projetual deve estar associada a sistemas de sombreamento para amenizar possíveis desconfortos no interior do ambiente.

Na análise walkthrough e na avaliação dos especialistas verificou-se que a modificação dos sistemas de abertura existentes na fachada sudoeste (janelas pivotantes e cobogós altos) contribuiriam para a interação entre ambientes interno e externo, bem como áreas internas e externas subutilizadas. Alterações de usos e fechamentos trariam maior permeabilidade visual com o exterior de forma a produzir distrações positivas nos espaços interno. O leiaute do ginásio contempla espaços com dimensões reduzidas orientados para esta fachada (ver Figura 5.46). A substituição dos fechamentos por portas de correr em vidro tornam esses espaços mais atrativos, como observado no ginásio infantil do SARAH Fortaleza, CE. A fachada SO conta com marquise com 2.70m de largura criada pela circulação coberta que conecta recepção, ginásio e consultórios. Esta solução projetual possibilita a utilização do vidro sem que a fachada fique exposta a incidência de radiação solar direta (ver

Na Figura 5.19 é possível visualizar a máscara de sombra da fachada sudoeste. A marquise com 2.70 m protege a fachada da radiação solar direta nos meses de verão.

Figura 5.19). Ao alterar os acessos a esses espaços, novos usos podem ser contemplados como sala de musicoterapia e jogos eletrônicos sem que o ruído interfira nas atividades realizadas no interior do ginásio de reabilitação. Além disso, esta solução facilitaria o acesso e uso da área verde ajardinada.

A solução modular adotada na concepção do edifício dificulta a adaptação do espaço a novos usos. No ginásio nota-se a sobreposição de funções em alguns ambientes (espaço coletivo de TO – Figura 5.42 e Figura 5.43), a adaptação de espaços para atender a novas funções (depósitos) e a improvisação de mobiliário e equipamentos. O subdimensionamento de alguns ambientes é um problema difícil de ser resolvido em função da rigidez da proposta arquitetônica construtiva. No entanto, a remodelação do

157 leiaute do ginásio juntamente com mudanças nos sistemas de abertura da fachada sudoeste possibilitaria novos usos e funções para esses espaços.

Para as atividades de terapia ocupacional há necessidade de ambientes que possibilitem atividades de integração sensorial. No ginásio do CRI nota-se que os equipamentos utilizados para esse fim (cama elástica e piscina de bolas) estão dispostos no espaço coletivo de fisioterapia junto com outros equipamentos. Durante a APO, não se observou o uso destes equipamentos, de modo que não foi possível inferir sobre a interferência na dinâmica de uso do ginásio.

Em centros de reabilitação, o tratamento em ambientes externos pode contribuir na criação de ambientes capazes de produzir redução de estresse através de distrações positivas. Além disso, ouso de espaços terapêuticos ao ar livre faz parte das recomendações de ambiência proposta pela PNH (BRASIL, 2004). As condições climáticas locais são favoráveis ao uso ambientes ao ar livre. Para isso, as recomendações para construções em clima quente-úmido (sombrear e ventilar) devem ser levadas em consideração. Além de sistemas de sombreamento, o entorno imediato também deve ser considerado, garantindo a privacidade visual necessária às atividades terapêuticas.

No estudo de referência observou-se que elementos visuais lúdicos se restringem ao mobiliário. As paredes com pintura branca ou em concreto armado garantem neutralidade aos espaços de atendimento. Na mesma direção, Machado (2012) sugere locais com menos informações visuais, favorecendo trabalhos com pacientes com déficit de atenção.

No estudo de caso, a APO detectou divergências em relação à seleção de cores das paredes. Na análise walkthrough, este parâmetro foi avaliado negativamente, pelo fato de serem monocromáticas e possuírem refletância média de 60%. Na avaliação dos especialistas, dividiu a opiniões, embora tenha sido bem avaliada pelos profissionais. Vale destacar que a opinião dos profissionais não vai de encontro à bibliografia consultada. Embora a opinião desse grupo na avaliação de desempenho do ambiente construído seja fundamental na garantia do pleno funcionamento dos espaços terapêuticos, certos atributos qualitativos de conforto luminoso carecem de conhecimento técnico para que possam ser avaliados adequadamente.

Ambientes monocromáticos podem causar fadiga visual por reduzir a sensibilidade do olho para determinada cor quando vista esteticamente com considerável intensidade. Embora os profissionais não atentem para essa distorção peculiar da visão, pode-se atribuir

158 a monotonia cromática ocasionada pelas paredes internas, percepções relacionadas à iluminação natural no interior do ginásio (8/19 o consideram escuro). Nesse sentido, destaca-se a importância da iluminação natural no ambiente interno, que se altera ao longo do dia tornando, dinamizando o ambiente construído.

A arquitetura hospitalar atua como um instrumento terapêutico, visto que pode contribuir para o processo de reabilitação. Neste sentido, recomendações de alterações na configuração espacial do ginásio e de seu entorno imediato contribuem para a criação de condições adequadas que permitam a coexistências de atividades distintas e a integração de atividades complementares, visando favorecer o uso dos espaços e o bem estar de seus usuários.