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A tessitura dos códigos em um texto não é dada sem certa organização. Tal como posto na leitura barthesiana, embora o conjunto de códigos padrões de narração que formam um texto não componha propriamente uma estrutura (mas, sim, uma

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miríade de estruturações), isso não significa que ele não se mova a partir de um determinado sistema organizativo. Em todo texto, há sempre certo movimento de alternância entre o fluxo e o fragmento, de forma que os códigos padrões de narração podem ser pensados a partir de um determinado arranjo hierárquico, de uma urdidura cujas partes não possuem a mesma relevância ou função no todo.

O próprio Barthes, ao comparar as estruturações narrativas de um texto a uma partitura musical, impõe certa organização aos códigos dispersos uma vez que a alguns códigos, de acordo com sua metáfora, pode ser atribuída uma função tonal correspondente à melodia e à harmonia (notadamente as sequências proiarética e hermenêutica) enquanto a outros pode ser atribuída uma função análoga aos metais e às percussões, uma vez que eles impõem sua presença de forma irregular (no sentido de não sujeito à sucessão temporal das ações), mas marcante no texto.

A metáfora do tecido, usada posteriormente, também sugere a organização de estruturas dispersas (os próprios códigos) que irão se ordenar em um todo organizado sujeito a articulações plurais, tais como os fios que compõem os lençóis60.

Não se trata mais de uma organização análoga ao sistema da língua, como sugeriam os seus estudos vinculados à análise estrutural da narrativa, mas sim, a um sistema organizativo que mostra as possibilidades de estruturações do texto a partir do conjunto possível de combinações de seus códigos narrativos.

Para a análise da história da narrativa da reportagem em revista, esse é um dos aspectos que também devem ser levados em consideração. Nas revistas analisadas, é possível observar que, de uma maneira geral, embora possam ser encontrados diversos códigos na composição narrativa das reportagens, nem todos possuem o mesmo nível hierárquico. Alguns códigos são mais centrais na escrita do texto, funcionando como pontos nodais de narração, e se repetem em todos os textos escritos. Outros aspectos formais, contudo, embora apareçam com uma frequência bastante considerável, funcionam como elementos estéticos que não necessariamente se repetem em todas as reportagens e funcionam como ampliadores de um núcleo central da narrativa.

60 Mesmo em sua fase estruturalista, a hierarquização e a especialização das formas que compõem a

narrativa já era uma preocupação tipicamente barthesiana, como pode ser visto a partir da distinção que o autor propõe entre as funções cardinais e as funções catálises – a primeira, composta pelos elementos sem os quais uma estória não poderia ser contada e a segunda, às expansões que a estória sofre em relação a esse núcleo central. Se comparados à sua fase pós-estruturalista, especialmente em S/Z, é possível notar que esses elementos irão compor o código proiarético. A preocupação, portanto, se desloca para outros elementos formais da composição das estórias.

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Ora, para que possamos lidar com essa questão, é necessário esmiuçarmos alguns adendos de ordem metodológica.

Ao invés da metáfora barthesiana da partitura ou do tecido, optamos por utilizar, no presente trabalho, a analogia matemática do interruptor, uma vez que ela nos ajuda na visualização das combinações dos códigos narrativos em uma multiplicidade de “todos organizados” que podem ser formados em cada regime histórico de narrativa, conforme mostraremos a seguir.

De acordo com Daghlia (2011, p. 18), chama-se de interruptor, nos estudos matemáticos, “o dispositivo ligado a um ponto do circuito elétrico, que pode assumir um ou dois estados: fechado ou aberto”. A representação gráfica dos interruptores, portanto, se dá a partir do seguinte esquema:

Uma vez que esse processo busca denotar a noção de que “quando fechado, o interruptor permite que a corrente passe através do ponto e, enquanto aberto, nenhuma corrente passa pelo ponto” (DAGLIA, 2011, p. 18), o que, afinal, podemos assumir que esteja “ligado” ou “desligado” quando pensamos em termos da estruturação narrativa de uma reportagem?

Essa representação gráfica é interessante porque nos permite estabelecer uma relação entre os códigos centrais que compõem uma estruturação narrativa e aqueles que aparecem na estória de forma suplementar e menos frequente, estabelecendo uma hierarquia e uma organização para os diversos códigos padrões de narração que podem ser encontrados em um determinado regime histórico da reportagem em revista. É essa distinção que nos ajudará a delinear os dois polos opostos dos interruptores.

De um lado do interruptor, podemos encontrar o que chamaremos, no presente trabalho, de matriz da narrativa. Ela será composta pelo conjunto de códigos que, em uma determinada revista, desenha os elementos obrigatórios do relato: um conjunto de

a POSSIBILIDADE 01 – ABERTO: POSSIBILIDADE 02 – FECHADO: a

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códigos que caracteriza a publicação em questão e que forma o seu cerne narrativo, a sua forma própria e específica de contar estórias. A matriz narrativa, portanto, será formada pelos códigos principais de um determinado sistema narrativo, ligado a uma época histórica específica.

O outro lado do interruptor, por sua vez, se seguirmos adiante com a comparação, será formado por um outro conjunto de códigos narrativos, que chamaremos aqui de códigos suplementares. Por código suplementar, iremos nos referir aos códigos padrões de narração que se juntam a essa matriz narrativa, fornecendo um suplemento estético a ela, completando-a. Trata-se de códigos que não necessariamente aparecem em todas as reportagens (embora estejam presentes em um grande número delas) e fornecem as capacidades combinatórias de um determinado regime narrativo historicamente marcado.

Se postos de acordo com o esquema gráfico anteriormente aludido, teríamos a seguinte representação imagética da relação entre esses dois conjuntos de códigos:

Por esta representação gráfica, é possível entrever a matriz narrativa como um elemento obrigatório nos regimes narrativos (se tomados sob a perspectiva de que eles representam a relação dos códigos padrões de narração em seu conjunto) e os códigos suplementares como códigos padrões de narração que, embora estejam pressupostos em um dado regime narrativo historicamente marcado da reportagem, podem estar presentes ou não em um dado texto em particular (a partir do princípio do “ligado” ou “desligado”), deixando entrever mesmo as capacidades combinatórias possíveis.

CÓDIGOS SUPLEMENTARES MATRIZ DA NARRATIVA CÓDIGOS SUPLEMENTARES MATRIZ DA NARRATIVA Variação 01 Variação 02

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Esse modelo é interessante uma vez que deixa entrever quais são os códigos padrões de narração que sempre estarão presentes nas reportagens que compõem um determinado regime narrativo de narração e quais são aqueles que se destacam como elementos que, embora pertencentes a um campo de possibilidades, são optativos. Ele é também é bastante útil, em um segundo aspecto, na medida em que explicita as possibilidades de combinação de códigos padrões de narração em cada regime histórico de reportagem – de forma que insere o próprio fato de que nem todas as reportagens de um mesmo período histórico são exatamente iguais em seus pressupostos metodológicos.

Uma vez que esses dois polos representam conjuntos de códigos, eles devem ser representados levando-se em consideração os elementos que os compõem, bem como as possibilidades combinatórias pressupostas pelos modos “abertos” ou “fechados” de suas ligações. Dessa forma, se, a título de exemplo, estivéssemos diante de um regime narrativo composto por quatro códigos padrões de narração distintos, sendo um deles formador da matriz narrativa e três deles componentes dos códigos suplementares, o esquema gráfico de suas relações se desenvolve para o seguinte modelo:

A figura acima representa o regime de códigos padrões referente ao exemplo dado. A esse regime padrão, contudo, acrescentam-se, ainda, todas as possibilidades combinatórias de “aberto” ou “fechado” que os códigos suplementares podem ter em relação à matriz da narrativa. Dessa forma, para o exemplo dado, teríamos os seguintes conjuntos de possibilidades de combinatórias dentro desse regime narrativo:

CÓDIGO 01 CÓDIGO 03

CÓDIGO 04

Matriz da Narrativa Códigos Suplementares

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É importante lembrar que esse quadro de variações é válido apenas na medida em que estabelece as combinatórias entre um conjunto fixo de códigos que formam a matriz da narrativa e códigos suplementares que podem aparecer ou não a partir do mecanismo “aberto” ou “fechado”. Dentro do eixo da matriz da narrativa, portanto, as possibilidades combinatórias não se alteram. É apenas no que diz respeito aos códigos suplementares que a mudança pode ser observada, se seguirmos os pressupostos desse modelo teórico-metodológico.

E isso de tal forma que, se mudarmos o exemplo e considerarmos um regime narrativo formado por cinco códigos padrões de narração, sendo dois dos quais formadores da matriz da narrativa e três suplementares, teríamos as seguintes combinatórias possíveis nos regimes de narração:

CÓDIGO 01 CÓDIGO 03 CÓDIGO 04 CÓDIGO 02 Variação 02 Variação 04 Variação 05 Variação 06 Variação 07 Variação 08 CÓDIGO 01 CÓDIGO 03 CÓDIGO 01 CÓDIGO 04 CÓDIGO 02 CÓDIGO 01 CÓDIGO 04 CÓDIGO 03 CÓDIGO 01 CÓDIGO 02 CÓDIGO 01 CÓDIGO 03 CÓDIGO 01 CÓDIGO 04 Matriz da Narrativa Códigos Suplementares CÓDIGO 02 Variação 01 Matriz da Narrativa Códigos Suplementares Variação 03 CÓDIGO 01

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A partir deste quadro é possível entrever quais são os conjuntos de combinações possíveis entre os códigos padronizados de narração: ao passo que as combinações acima são todas possíveis, um arranjo do tipo “código 1 código 3 + código 4 + código 5” não é possível, uma vez que a matriz da narrativa deve permanecer fixa. A aparição facultativa se dá apenas entre os códigos suplementares – a vantagem desse sistema é, justamente, a de deixar entrever essa ordem de relações.

Esses esquemas são aportes metodológicos valiosos para que possamos organizar os códigos padronizados de narração encontrados nas revistas estudadas. No decorrer das análises, no entanto, nós não iremos esmiuçar todas as combinações possíveis para cada um dos códigos devido ao grande número de combinações possíveis: em um regime narrativo que contivesse cinco códigos padrões de narração suplementares, por exemplo, teríamos uma possibilidade de 32 combinações diferentes

CÓDIGO 01 CÓDIGO 04 CÓDIGO 05 CÓDIGO 03 Variação 02 Variação 04 Variação 05 Variação 06 Variação 07 Variação 08 CÓDIGO 04 CÓDIGO 04 CÓDIGO 05 CÓDIGO 03 Matriz da Narrativa Códigos Suplementares CÓDIGO 03 CÓDIGO 02 CÓDIGO 01 CÓDIGO 02 CÓDIGO 05 CÓDIGO 03 CÓDIGO 01 CÓDIGO 02 CÓDIGO 05 CÓDIGO 04 CÓDIGO 01 CÓDIGO 02 CÓDIGO 01 CÓDIGO 02 CÓDIGO 01 CÓDIGO 02 CÓDIGO 01 CÓDIGO 02 Variação 01 Códigos Suplementares Matriz da Narrativa Variação 03 CÓDIGO 01 CÓDIGO 02

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em relação à sua matriz narrativa61; em um regime que contivesse sete códigos de narração suplementares, seriam possíveis 128 combinações diferentes62. Essa, contudo, é uma perspectiva que irá nos nortear neste trabalho.

Mostraremos apenas o regime padrão completo de narração, mas sempre partiremos da assunção de que, a partir dele, se desdobram outras combinações possíveis a partir do mecanismo “aberto / fechado” pressuposto na esquematização posta nos interruptores.

A metáfora dos interruptores é interessante enquanto esquema organizador uma vez que explicita também a miríade de estruturações que podem estar postas em um sistema narrativo – mostra, se preferirmos os termos de Barthes, os plurais possíveis de um texto. É justamente esses plurais narrativos que iremos buscar a partir de agora.