Neste ponto, introduzimos a ideia de perpetuidade da distopia. Fazemo-lo, em primeira instância, através do fenómeno da violência urbana. Os anos 70 parecem ver esta realidade proliferar um pouco por todo o lado, como bem observamos no cinema da altura, em filmes como Taxi Driver ou Dirty Harry. A justiça parece falir, o estado de direito fica em risco. É deste modo que o super-herói, surgido nos anos 30, ganha agora uma nova dimensão: mais negra, mais problemática, mais violenta, e o seu estatuto, consequentemen- te, parece vacilar, entre o zelador consciencioso e o vigilante implacável. Como sonho, num céu messiânico, temos a espera de um líder, de um guia, de um justiceiro que venha direcionar o futuro, restaurar a retidão, harmoni- zar as tensões. Nos anos 30 e 40 era a grande guerra que pedia um salvador. Nos anos 70 e 80 era essa espécie de guerra urbana agudizada. Antes, o
fuhrer chegava a Nuremberga de avião, descia das nuvens como o chefe sal-
vador, o guia restaurador; Superman chegava de Krypton, de um mundo extra-terreno, galáctico: duas atualizações, em vetores morais opostos, do messianismo milenar. Agora, nos anos 80, os super-heróis vivem num lim- bo de incerteza moral, algures entre o bem e o mal, entre o heroísmo e a vilania, mais anti-heróis do que heróis, mais executores do que zeladores. Ainda figuras crísticas (basta atentar na similitude entre as representações de Cristo na história da pintura e muitas capas de super-heróis, em plano
picado, descendo das nuvens), mas com traços diabólicos (basta atentar nos esgares de raiva e destempero de muitas cenas de comics).
Humanos aperfeiçoados pelo engenho ou pela natureza, como Batman ou Daredevil, vingadores aperfeiçoados pela tecnologia ou pela ciência, como Iron Man ou Hulk, mutantes eXponenciados como Wolverine ou Cyclops, deuses emancipados de Asgard ou do Olimpo, como Thor ou Wonder Woman, vivem uma luta constante, ininterrupta, perpétua, contra as mais diversas ameaças distópicas, e contra cataclismos e tiranos, antes de mais. E vêem o seu papel e o seu estatuto questionados, de uma forma que pode ser resumida na questão antiga de Juvenal, recuperada em Watchmen por Alan Moore: quis custodiet ipsos custodes? (who watches the watchmen? / quem guarda os guardas?). É este o centro narrativo nevrálgico daquela obra de Moore, mas também, de forma mais alusiva, de Days of Future Past,
The Dark Knight Returns e V for Vendetta. É o dilema moral do vigilantismo
e do providencialismo que surge sublinhado, essa espécie de perigo discri- cionário que vem investir a luz utópica e translúcida do super-herói com uma sombra de insolência distópica. São os limites do poder e da violência que se insinuam no debate sobre a política do super-heroísmo ou o super- -heroísmo como política. E os limites da autoridade: os mutantes de Days
of Future Past são vistos como uma ameaça, e contra eles são lançados os
robots Sentinelas que os caçam e exterminam; em The Dark Knight Returns, para contrariar a ação de Batman, o governo norte-americano envia o maior de todos os super-heróis, Superman, de modo a detê-lo; em V for Vendetta, o herói anarquista age contra a ditadura instaurada e por isso é persegui- do; em Watchmen, os super-heróis são banidos por decreto governamental. Tradicionalmente tidos como zeladores ou salvadores, os super-heróis tor- nam-se, como se vê, uma ameaça, um perigo social e político. Sendo eles guardadores, são também guardados.
É precisamente nesta encruzilhada que se situa a figura do anti-herói, ponto de maior tensão entre o bem e o mal, os meios e os fins. O anti-herói tornou- -se nos tempos mais recentes o tipo de personagem fulcral na narrativa
contemporânea, de forma bem evidente na ficção televisiva, mas possuindo um longo historial na banda desenhada de super-heróis. Aliás, e num apon- tamento histórico sobre um facto muitas vezes ignorado, mas elucidativo, o maior de todos os super-heróis, Superman, é no seu momento originário, antes de Joe Shuster e Jerry Siegel lhe darem a caraterização definitiva, um super-vilão, o que, quase emblematicamente, sinaliza desde o início esse limiar de ambiguidade que atravessa o super-herói enquanto figura moral e política.
A obra que talvez melhor apresente este espectro moral no qual as figuras (super ou anti) heróicas se podem distribuir será Watchmen. Alan Moore propõe uma galeria de personagens que se estendem de um ao outro ex- tremo do espectro: Dr. Manathan seria o típico super-herói todo-poderoso, invulnerável e bondoso; Nite Owl seria o herói discreto, humano, senti- mental, consciencioso; Rorschach o típico anti-herói, implacável nos meios, intransigente nos fins; Comedian aproxima-se do vilão usual, alheio à empatia e com excesso de ego; Ozymandias seria o super-vilão, capaz de engendrar um plano avassalador de domínio planetário. Mas esta categori- zação é provisória e vive muito do regime de aparências: Dr Manathan em todo o seu poder e esplendor é um perigo latente, e torna-se o pretexto da conspiração de Ozymandias, conspiração perpetrada, sob a aparência de inclemente mal, em nome de um bem maior – e desse modo, o super-vilão torna-se super-herói.
Mas talvez o caso mais interessante e complexo nesta tensão muitas vezes latente e em alguns casos manifesta entre bem e mal, herói e vilão, que perpassa a figura do anti-herói seja o de V for Vendetta. V, o protagonista, um humano exponenciado no seu intelecto e na sua destreza, ferido na inte- gridade e humanidade, é um anjo vingador em busca, simultaneamente, do apaziguamento pessoal e do desmantelamento de uma ditadura; justiceiro ou terrorista, libertador ou anarquista? O próprio símbolo, genial intuição semiótica de Alan Moore e David Lloyd, o “V” de vendetta que não é mais do que o “A” de anarquia invertido, contém em si toda a complexidade da justiça heroica.
É nesta tensão entre heroísmo e vilania, bem e mal, força e violência, justiça e justicialismo, zelo e vigilância que se encontra no anti-herói que podemos vislumbrar a porosidade concetual e metafísica do sublime: de um a outro dos extremos a distância é menor do que se imagina e, num qualquer mo- mento de aguda decisão, os extremos podem mesmo tocar-se: do pathos (da paixão) à (socio ou psico) patologia vai apenas um passo. O sublime neste caso encontra-se para lá do bem e do mal ou mesmo entre o bem e o mal – o que, no final de contas, vem a dar no mesmo.