Para Lüdke e André (1986) a análise de dados qualitativos é um processo criativo que exige rigor intelectual e muita dedicação. Não existe uma forma melhor ou mais correta de tratá-los. O que se exige, sim, são a sistematização e a coerência do esquema escolhido com o que se pretende no estudo. Para desenvolver a análise dos dados, construí um quadro de categorias, as quais acrescentei observações/comentários sobre possíveis relações com a questão da pesquisa. O propósito foi instrumentalizar a análise de conceitos que emergiram mediante as entrevistas, as análises dos relatórios e as observações. Significou “trabalhar” todo o material coletado durante a pesquisa.
A tarefa de análise implica, num primeiro momento, a organização de todo o material, dividindo-o em partes, relacionando essas partes e procurando identificar tendências e padrões relevantes. Num segundo momento, essas tendências e padrões são reavaliados, buscando-se relações e interferências num nível de abstração mais elevado. (LÜDKE; ANDRÉ, 1986, p. 53).
O critério adotado para a definição das categorias de nossas fontes foram as informações a partir das vozes dos acadêmicos, como reflexão de sua prática na extensão universitária.
Concluída a transcrição das entrevistas, procedeu-se a ATD, que “pode ser compreendida como um processo auto-organizado de produção de novas compreensões” (MORAES e GALIAZZI, 2011, p.12), relacionando os fenômenos examinados e articulando-os com o referencial teórico e os propósitos da pesquisa.
De acordo com os autores Moraes e Galiazzi (2011), a ATD é um ciclo composto por três momentos, constituídos como elementos principais. É um exercício contínuo de produzir e expressar sentidos: a desmontagem dos textos ou unitarização, sendo os detalhes examinados e fragmentados para constituir unidades específicas e enunciados referentes aos fenômenos estudados; o estabelecimento de relações ou categorização, construindo as relações entre as unidades de base, fazendo as combinações e classificando-as em categorias; e, a captação do novo emergente, em que a nova compreensão é comunicada e validada.
Conforme os mesmos autores (2011, p.14), para a desmontagem dos textos ou a desconstrução e unitarização do “corpus”21, é necessário fazer uma leitura e retirar
os diversos sentidos de um mesmo texto, pois “todo o texto possibilita uma multiplicidade de leituras”. A ATD permite ao pesquisador atribuir sentidos e significados, “ainda que, seguidamente, dentro de determinados grupos, possam ocorrer interpretações semelhantes, um texto sempre possibilita construir múltiplos significados”, pois vai depender das leituras, do conhecimento e dos pressupostos teóricos de cada pesquisador.
Nessa fase, o pesquisador foca-se nos detalhes e nas partes que compõem o texto e decide em que medida o fragmenta. Dessa desconstrução surgem as unidades de análise, identificadas em função de um sentido aos propósitos da pesquisa.
No segundo momento do ciclo de análise, são estabelecidas as relações das unidades anteriormente construídas com os fenômenos investigados, proporcionando novas compreensões. Consiste em um processo de auto-organização, possibilitando a categorização. “Um conjunto de categorias é válido quando é capaz de propiciar uma nova compreensão sobre os fenômenos pesquisados” (MORAES; GALIAZZI, 2011, p. 26).
E o terceiro momento, conforme os autores, consiste na comunicação dessa nova compreensão, assim como de sua crítica e validação. Resulta desse processo o
21 Conjunto de documentos que representa as informações da pesquisa e para a obtenção de resultados válidos
metatexto, que representa “um esforço em explicitar a compreensão que se apresenta como produto de uma nova combinação dos elementos construídos ao longo dos passos anteriores” (MORAES; GALIAZZI, 2011, p.12).
Moraes e Galiazzi (2011) ressaltam que a intensidade de envolvimento nos materiais de análise, bem como os pressupostos teóricos e epistemológicos, que o pesquisador adota ao longo de seu estudo, vão definir a qualidade e a originalidade das produções escritas.
As categorias que emergiram da análise das entrevistas são apresentadas na seção seguinte.
7 ANÁLISE DOS DADOS: AS MUITAS VOZES DESTA HISTÓRIA
O filósofo odeia o poeta Porque escuta sério, para e rima Corta a linha do pensamento Do filósofo que raciocina O primeiro vem costurando E o segundo, bordando em cima. (GUEDES, 2015).22
De acordo com o objetivo desta dissertação, de investigar a contribuição da prática de contação de histórias em projetos de extensão universitária para a formação do acadêmico extensionistas, nas próximas páginas, apresento as conversas de muitas vozes, dos interlocutores, das observações, dos relatórios e dos teóricos, com as quais busquei dialogar para responder à questão: como a vivência do acadêmico extensionista no projeto Conta Mais influenciou a sua formação?
Lembro novamente que, dos cinco interlocutores entrevistados, três estudaram somente em escola pública, e dois, em escola pública e particular antes de entrarem na Universidade. São três jovens acadêmicos do sexo feminino e dois do masculino, que entraram no projeto de extensão com média de 20 anos e todos se encontravam no primeiro semestre do curso. Atualmente, um já é formado em Ciências Sociais e egresso da UFRGS. Dois trocaram de curso depois do projeto, foram para Pedagogia e para Publicidade e Propaganda; e dois continuam no seu curso de origem Artes Visuais e Design Visual.
Uma das últimas perguntas do roteiro de entrevistas foi qual pseudônimo que o acadêmico gostaria de usar para identificar-se nesta pesquisa. A sugestão era de que fosse o nome de um personagem da literatura, não obrigatoriamente de uma história que contou no projeto de extensão. No decorrer da entrevista, enquanto eu escutava atenta a história, impregnada pelo que ouvia, questionava-me: qual personagem seria escolhido e por quê?
Diante disso, no momento, apresento apenas os pseudônimos, deixando as justificativas de suas escolhas para mais adiante. Talvez eu queira oportunizar o mesmo exercício ao leitor deste texto.
Os pseudônimos são Anansi, Fred, Onilda, Pandora e Rumpelstiltskin. As histórias em que esses personagens fazem parte encontram-se no final desta
dissertação nos anexos de C a G. Optei por reproduzir as que encontrei na Internet por questão de direito autoral. As que não encontrei, apresento a sinopse da editora.