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3 Application: Economy-wide effects of droughts and floods

3.4 Discussion and limitations

em

O Despertar

e

Riacho Doce

“Rowing in Eden – Ah, the Sea! Might I but moor – Tonight –

In Thee!148”

Emily Dickinson

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A infinidade dos possíveis: a água e o feminino

Para a interpretação do(s) significado(s) do elemento água nos romances O

Despertar e Riacho Doce faremos uso de duas abordagens de análise literária que, embora pareçam distintas, oferecem possibilidades interpretativas para adentrarmos na hermenêutica dos textos aqui estudados. Estamos falando da simbologia das águas e da crítica feminista. Enquanto a primeira possibilita uma abordagem de interpretação que penetra no significado cultural e histórico que o elemento água possui; a outra considera as interpretações simbólicas desse elemento às representações do feminino na cultura ocidental, principalmente nas artes literárias. Essas duas ferramentas de análise serão úteis na medida em que os dois romances em estudo nos permitirem utilizá-las, uma vez que, dentro do estudo da literatura, mais importante do que a teoria é o objeto estético. Elas se justificam por dois motivos: a crítica feminista é o cerne de nosso trabalho, dando uma contribuição para entendermos como as relações de gênero são levantadas dentro do texto literário; já o estudo dos símbolos oferece suporte interpretativo para a compreensão das significações imagéticas que a literatura constrói, levando em conta todo um imaginário coletivo.

No que se refere ao estudo dos símbolos como possibilidade teórica, Mircea Eliade afirma que, de modo geral, “o símbolo revela certos aspectos da realidade – os mais profundos – que desafia qualquer outro meio de conhecimento” (1991, p. 8). A afirmativa de Eliade mostra que a teoria do estudo dos símbolos pode ser utilizada como suporte interpretativo para as mais diferentes áreas. No caso particular dos estudos de literatura, as interpretações simbólicas constroem um levante do imaginário cultural que permeia diferentes épocas e contextos. Nesta mesma perspectiva, Chevalier & Gheerbrant mostram que os símbolos “revelam os segredos do inconsciente, conduzem às mais

recônditas molas da ação, abrem o espírito para o desconhecido e o infinito” (2009, p.

XII).

Segundo o Dicionário de símbolos, “[a]s significações simbólicas da água podem reduzir-se a três temas dominantes: fonte de vida, meio de purificação, centro de regenerescência” (CHEVALIER & GHEERBRANT, 2009, p. 15). Enfocando a analogia

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entre as águas e o feminino, o mesmo dicionário mostra que há uma estreita relação de proximidade entre este elemento líquido e o feminino, ao dizer que “[n]as tradições judaica e cristã, a água simboliza, em primeiro lugar, a origem. O mem (M) hebraico simboliza a água sensível: ela é mãe e matriz (útero)” (CHEVALIER & GHEERBRANT, 2009, p. 16). Mas, como ocorre com diferentes símbolos, a água também possui outras significações. Em sentido contrário, este elemento representa, ainda, a morte: “[a] água é fonte de vida e fonte de morte, criadora e destruidora” (CHEVALIER & GHEERBRANT, 2009, p. 16). Embora traga em si essa dupla simbologia, o que parece prevalecer na definição deste elemento, segundo os apontamentos do Dicionário de símbolos, é o seu poder de representar a vida, uma vez que é destacado o seu papel de ser “um símbolo universal de fertilidade e fecundidade” (CHEVALIER & GHEERBRANT, 2009, p. 16), e, por seguinte, o feminino.

Ligando-se a termos como “origem”, “mãe”, “matriz”, “fonte de vida”, “criadora”, “fertilidade” e “fecundidade”, é quase impossível não associar o elemento água ao feminino, uma vez que tais termos também se encontram intimamente ligados ao que o feminino representa nas mais diferentes culturas. Reforçando tal caráter do elemento água, é assim que o Dicionário de símbolos termina o verbete sobre a água referindo-se a uma pesquisa de 1976, mostrando que “[a]s mulheres acima de 25 anos e, sobretudo, as mães, sentem uma relação particular entre a mulher e a água” (CHEVALIER & GHEERBRANT, 2009, p.22).

No seu livro A água e os sonhos, Gaston Bachelard explora a simbologia das águas mostrando que este elemento possui o duplo caráter de representar tanto a morte quanto a vida, como ficou evidenciado anteriormente. Nas palavras do estudioso, “[a] água mistura aqui seus símbolos ambivalentes de nascimento e morte. É uma substância cheia de reminiscências e de devaneios divinatórios” (BACHELARD, 1997, p. 93). Ao explorar o sentido de morte que este elemento carrega, Gaston Bachelard, fazendo uso das palavras de Jung, afirma que:

O desejo do homem [...] é que as sombrias águas da morte se transformem nas águas da vida, que a morte e seu frio abraço sejam o regaço materno, exatamente como o mar, embora tragando o sol, torna a pari-lo em suas profundidades... Nunca a Vida conseguiu acreditar na Morte! (BACHELARD, 1997, p. 75).

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Como fica evidenciado na citação anterior, mesmo no momento em que as águas representam a morte, é a sua ligação com a vida que sobressai. O trecho anterior ainda ressalta a relação entre o feminino e este elemento líquido, quando mostra que o abraço das águas simboliza o “regaço materno”. Essa mesma relação entre o feminino e as águas ainda é explorada em diferentes partes de A água e os sonhos, como fica evidenciado, por exemplo, no seguinte trecho: “A água leva-nos. A água embala-nos. A água adormece- nos. A água devolve-nos a nossa mãe” (BACHELARD, 1997, p. 136).

Numa focalização de um tipo específico de água, o mesmo Dicionário de símbolos apresenta o verbete mar, ressaltando as características apontadas anteriormente. Nas palavras do dicionário, o mar é:

[s]ímbolo da dinâmica da vida. Tudo sai do mar e tudo retorna a ele: lugar dos nascimentos, das transformações e dos renascimentos. Águas em movimento, o mar simboliza um estado transitório entre as possibilidades ainda informes as realidades configuradas, uma situação de ambivalência, que é a de incerteza, de dúvida, de indecisão, e que pode se concluir bem ou mal. Vem daí que o mar é ao mesmo tempo a imagem de vida e a imagem de morte (CHEVALIER & GHEERBRANT, 2009, p. 592) (Sic.).

Estreitando a exploração das águas para um tipo específico, Gaston Bachelard também mostra que o mar possui uma forte ligação com o feminino. Ao focalizar o modo como o mar interage com o ser humano, Bachelard diz: o “[...] canto profundo [do mar] é a voz maternal, a voz de nossa mãe” (BACHELARD, 1997, p. 120).

Podendo ser mote em diferentes literaturas, o tema da água, principalmente a do mar, é um argumento recorrente na cultura ocidental. Explorando a dupla funcionalidade que tal elemento possui, apontada tanto por Jean Chevalier e Alain Gheerbrant como por Gaston Bachelard, a literatura representa a água como metáfora tanto para a vida, como para a morte. Ainda é possível constatar que a literatura faz relações de proximidade entre as representações do feminino e as águas quando utiliza o ambiente líquido como espaço de nascimento e/ou de morte para o feminino. Se para o masculino as águas, em especial as do mar, representam o desconhecido, viagens, terras estrangeiras, perigos e aventuras, constituindo, dessa forma, metáfora de travessia e liame entre dois ou mais mundos, como exemplificam textos como A Odisseia, Os lusíadas, Moby Dick, Lord Jim, entre outros;

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para o feminino elas simbolizam mais especificamente os dois grandes temas da condição

humana – nascimento e morte – quando os textos literários põem a mulher em um

momento de mergulho nas águas. A imersão do feminino no líquido cria uma abertura de interpretação que, dependendo de como é artisticamente usado o mergulho, possibilita uma leitura que vê na submersão do feminino um sentido positivo. Isso porque, segundo o Dicionário de símbolos,

As águas, massa indiferenciada, representando a infinidade dos possíveis, contêm todo o virtual, todo o informal, o germe dos germes, todas as promessas de desenvolvimento, mas também todas as ameaças de reabsorção. Mergulhar nas águas, para delas sair sem se dissolver totalmente, salvo por uma morte simbólica, é retornar às origens, carregar-se de novo num imenso reservatório de energia e nele beber uma força nova: fase passageira de regressão e desintegração, condicionando uma fase progressiva de reintegração e regenerescência” (CHEVALIER & GHEERBRANT, 2009, p. 15).

Helen V. Emmitt, ao enfocar o tema do afogamento em três diferentes escritoras –

Eliot, Kate Chopin e Margaret Drabble – aproxima também as águas do feminino, ao

afirmar que:

Afogamento na literatura é gendrado. T. S. Eliot, por exemplo, adverte os homens para ‘temerem a morte pela água’, porque o vórtice do mar é, como uma vagina dentada, uma armadilha para o poder fálico e a paz da mente, e a imagem de Joyce da ‘besta branca do indistinto mar’, do ‘mar escrutinador’, o qual é a ‘grande doce mãe’, ressoa familiarmente com os arquétipos de Jung149 (1993, p. 315).

Nesse jogo simbólico em que o texto literário se apropria metaforicamente do símbolo, o elemento água seria dividido em duas partes que representariam gêneros diferentes: o masculino seria identificado com a parte da superfície da água que o ligaria a espaços sólidos, associando-se à ideia de deslocamento e descoberta; já o feminino seria relacionado com o interior da água, que está associado ao desconhecido, ao obscuro, à morte, e, ao mesmo tempo, ao surgimento, à novidade e à vida. O exemplo máximo, criado pela literatura, dessa posição do feminino diante do elemento líquido são as sereias,

149Drowning in literature is gendered. T. S. Eliot, for instance, warns men to ‘fear death by water’, because the

vortex of the sea is, like the vagina dentata, a snare for phallic power and peace of mind, and Joyce's images of the ‘white breast of the dim sea’, the ‘scrotumtightening sea’, which is ‘a great sweet mother’, resonate familiarly with Jungian archetypes.

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que vivem nas profundezas das águas, atraindo com os seus cantos irresistíveis, os navegadores para a perdição, conforme é descrito por Homero em A Odisseia. Na mesma obra, o masculino, representado pelo herói Ulisses, viaja pela copa das águas, atravessando fronteiras e descobrindo diferentes espaços geográficos.

Seguindo a interpretação feita por Helen V. Emmitt, o masculino usaria a superfície da água para encontrar a sua própria imagem, uma vez que ele se ligaria apenas ao que está na parte superior deste líquido. O caso clássico da contemplação da superfície das águas é o mito de Narciso, sujeito restrito ao ato contemplativo, como tão bem demonstra Ovídio em As metamorfoses (2003). Essa atitude do masculino reforça, simbolicamente, o modo como ele construiu a sua superioridade diante do feminino na história do patriarcalismo. Nas palavras de Helen V. Emmitt:

[á]gua serve para os homens como um espelho narcisístico até eles pularem nela, quando então a água torna-se um feminino devorador, mas para a mulher, que não pode encontrar um espelho que a reflita, o abraço da água oferece auto realização 150 (EMMITT1993, p. 317).

Relacionando o que foi levantado anteriormente com o nosso objeto de estudo, podemos afirmar que Kate Chopin e José Lins do Rego dão continuidade ao imaginário de “tempos imemoriais” (ROSSI, 2010, p. 205), que liga o feminino às águas, uma vez que

O Despertar e Riacho Doce apresentam personagens femininas que têm uma estreita relação com as águas. Nos dois romances, o elemento água influencia o percurso que Edna Pontellier e Edna/Eduarda desenvolvem na narrativa, visto que estes textos mostram as duas surgindo do mar e terminam com estas mulheres nadando, uma nas águas do Golfo do México, em O Despertar, a outra nas águas do litoral alagoano, em Riacho Doce. Ainda, os romances em análise mostram que as protagonistas passam por um processo de intimidade com este elemento líquido que equivale a um momento de autoconhecimento, em O Despertar, e a um momento de completude, em Riacho Doce. Nestas duas narrativas, longe de se constituir apenas como um elemento figurativo, as águas, especificamente as águas do mar, têm papel relevante no drama das personagens centrais em ambas as narrativas.

150 Water serves for men as a narcissistic mirror until they plunge into it, when the water becomes a devouring

female, but for the woman who cannot find a mirror to reflect her, the embrace of the water provides self- fulfillment.

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Com relação à obra de Kate Chopin, a estudiosa americana Elaine Showalter, ao analisar O Despertar, levando em conta o mergulho de Edna Pontellier nas águas do Golfo do México, no artigo intitulado “Tradition and the literary talent: The awakening as a solitary book”, mostra que há uma identificação entre o feminino e as águas, uma vez que o corpo feminino possui muito líquido em si. Nas palavras de Elaine Showalter:

Afogamento, por si só, traz à mente analogias metafóricas entre feminilidade e líquido. Como o corpo feminino é predisposto ao molhado, ao sangue, ao leite, às lágrimas, e ao líquido amniótico, dessa forma, no afogamento a mulher está imersa no elemento orgânico feminino. O afogamento, portanto, se torna a morte literária tradicionalmente feminina151 (SHOWALTER, 1993, p. 186).

Mas não foi Showalter quem primeiro relacionou o feminino às águas, ao abordar, especificamente, o romance de Kate Chopin. Sandra Gilbert, no artigo “The second coming of Aphrodite: Kate Chopin’s fantasy of desire”, de maneira indireta, aproxima o elemento água à personagem principal, ao enfocar Edna Pontellier como uma representação da deusa grega Afrodite, que nasceu nas espumas do mar. Segundo Sandra Gilbert,

Edna Pontellier definitivamente (mesmo que por um momento) ‘torna-se’ a poderosa deusa do amor e das artes em cuja forma ela primeiramente ‘nasceu’ no Golfo próximo a Grand Isle e em cuja imagem ela será suicidamente renascida no mar no final do romance152 (GILBERT, 1983, p. 44).

Enfocando o romance de Kate Chopin, destacando a presença das águas na narrativa, Aparecido Donizete Rossi mostra que “[o] mar e sua essência, a água, são o

verdadeiro espaço de O despertar, um espaço cíclico e líquido, um espaço do feminino” (2010, p. 204)

(grifos do autor). Expandindo as ideias presentes no texto de Sandra Gilbert, Rossi desenvolve uma leitura do romance de Kate Chopin a partir da relação entre os três tópicos destacados por ele: cíclico, líquido e feminino. Segundo o estudioso, “[h]á uma identificação simbólica entre a água, o círculo e o feminino que se reproduz em O despertar

151 Drowning itself brings to mind metaphorical analogies between femininity and liquidity. As the female body is

prone to wetness, blood, milk, tears, and amniotic fluid, so in drowning the woman is immersed in the feminine organic element. Drowning thus becomes the traditionally feminine literary death.

152 Edna Pontellier definitively (if only for a moment) ‘becomes’ the powerful goddess of love and art into whose

shape she was first ‘born’ in the Gulf near Grand Isle and in whose image she will be suicidally borne back into the sea at the novel’s end.

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nos momentos em que Edna entra em contato com o mar” (ROSSI, 2010, p. 204). Ao aproximar água, círculo e feminino, a escritora Kate Chopin poria seu romance em contato com uma criação artística que tem feito uso “dessas três instâncias [...] desde tempos imemoriais” (ROSSI, 2010, p. 205). Pautando-se nas palavras de Bachelard, que afirma que “tudo o que escoa é água; tudo o que escoa participa da natureza da água” (BACHELARD, 1997, p. 121) (grifo do autor), Rossi destaca, como já havia feito Elaine Showalter, a singularidade da mulher ao reter em si diferentes formas de líquido, assegurando, portanto, a relação entre o feminino e a água:

[a] mulher carrega em seu corpo uma grande quantidade de líquido sob várias formas: o leite materno, o sangue menstrual e, especialmente, o líquido amniótico que mantém submersa a vida gerada em seu útero. Leite, sangue e âmnio ligam-se à água pelo princípio da liquidez, por isso são seus símbolos (ROSSI, 2010, p. 205).

Com relação ao romance de José Lins do Rego, Riacho Doce, embora a obra não possua – até onde nossas pesquisas demonstram – uma fortuna crítica que explore o tema aqui proposto – a água como espaço do feminino –, uma vez que, como já foi ressaltado, é tida como obra que foge aos temas mais abordados pelos críticos do escritor, por isso desprestigiada pela crítica, é possível também identificar uma forte presença das águas na evolução da protagonista da narrativa.

Mesmo que de forma superficial, há quem identifique no romance Riacho Doce a ligação entre Edna/Eduarda e a ambientação da costa brasileira, embora não especifique o elemento água como o ambiente propício para o feminino. Chamando atenção para a relação personagem e ambientação, Aurélio Buarque de Holanda afirma que:

A heroína integra-se violentamente, com arrebatado amor, com absoluta paixão, na nova terra. A natureza envolve-a, domina-a, e, sentindo o cheiro dos guagirus, ao sol forte do verão, entregue ao mar, Edna perderá por vezes a consciência de si própria, sentindo-se incorporada na paisagem, como um elemento da natureza [...] Era à paisagem que ela se dava, sem noção de pecado, febrilmente, ardentemente [...] Tudo, no livro, fala dessa fusão do homem com o meio (HOLANDA, 1991, p. 357).

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De forma semelhante, Wilson de A. Lousada mostra que Edna/Eduarda, ao chegar ao litoral do Brasil, sofre uma mudança de personalidade e tem essa mudança provocada pela força da ambientação da narrativa:

Agora a ‘gringa’ é apenas uma mulher, fêmea livre que encontrou o seu caminho e despiu-se de todos os complexos acumulados na adolescente. No entanto, o amor de Edna por Nô, amor feito de puro sensualismo mas de uma grande poesia humana, esconde também em suas fontes secretas uma grande força inconsciente e ignorada – a força da terra (LOUSADA, 1991, p. 363). Explorando a mesma relação entre protagonista e ambientação do litoral brasileiro, José Aderaldo Castello, ao abordar a fuga empreendida pela protagonista de Riacho Doce, destaca o fato de que é nas praias do Brasil que Edna/Eduarda tem a chance de encontrar-se consigo mesma, fugindo de tudo o que a paisagem fria e cinza de seu lugar de origem representa, ao afirmar que “[...] o reencontro de Edna consigo mesma dar-se-ia somente em terras brasileiras, no litoral de Alagoas, na paisagem de Riacho Doce de muita luz e colorido, em contraste com a paisagem cinzenta e fria das origens” (CASTELLO, 2001, p. 153).

Embora não desenvolvam, como o fazem Sandra Gilbert, Elaine Showalter e Aparecido Donizete Rossi com o romance O Despertar, uma relação mais direta entre a protagonista de Riacho Doce e as águas, enfocando uma leitura que, pelo menos, se aproxime dos estudos feministas, uma vez que tais críticos da obra de José Lins não estão preocupados com este tipo de abordagem interpretativa, as falas de Wilson de A. Lousada, Aurélio Buarque de Holanda e José Aderaldo Castello nos permitem entender o “reencontro de Edna consigo mesma”, a “fusão do homem com o meio” e com “a força da terra”, como a fusão entre Edna/Eduarda – o feminino – e as águas que cercam a personagem naquela parte específica do litoral brasileiro. A força exercida pelo elemento água no romance de José Lins do Rego é tão inquestionável que, dentre as três partes que compõem o romance – “Ester”, “Riacho Doce” e “Nô” – é a segunda parte, referente a este líquido, que nomeia o romance. Das três grandes paixões da “galega” sueca, como foi explorado no capítulo anterior, sobressai a que alude às águas, uma vez que para nomear a totalidade da narrativa é escolhida a imagem das águas do lugar aonde Edna/Eduarda veio morar no Brasil, Riacho Doce.

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Levando-se em conta as análises de Sandra Gilbert, Elaine Showalter e Aparecido Donizete Rossi, quanto ao romance de Kate Chopin, e os apontamentos de Wilson de A. Lousada, Aurélio Buarque de Holanda e José Aderaldo Castello, quanto à narrativa de José Lins do Rego, assim como as definições do Dicionário de símbolos de Jean Chevalier e Alain Gheerbrant e os comentários de Gaston Bachelard em A água e os sonhos, nesta parte de nossa análise procuramos investigar as relações que se criam entre as duas protagonistas dos romances O Despertar e Riacho Doce, Edna Pontellier e Edna/Eduarda, e as águas. Como já frisamos anteriormente, o material teórico-crítico que se levanta aqui, como suporte analítico, servirá como apoio à medida que os dois textos assim nos permitirem.

As duas protagonistas desses romances são postas em diferentes cenários – Edna Pontellier: Grand Isle e New Orleans; Edna sueca: o burgo onde nasceu, Estocolmo e Riacho Doce. Mas o ambiente que melhor possibilita a ambas personagens um estado de descoberta e entrega de si próprias é o ambiente líquido, representado pelos dois cenários paradisíacos da narrativa, daí a importância em se entender a relação que se estabelece entre estas mulheres e o líquido que as cinge. Longe de se tornar apenas um elemento narrativo com função de situar e localizar, o ambiente líquido é agente inconteste na trama dos romances. O modo como as personagens percebem a presença do mar e a forma como o narrador utiliza as águas na composição da narrativa, graças ao processo de personificação do mar, que possui características humanas, transformam este elemento da natureza em um personagem central na trama. O mar acaba deixando a função de espaço