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Não, porque o rapaz que o Carlos Medeiros queria colocar, que depois se tonou muito meu amigo também, Cân­ dido Álvaro de Gouveia, não foi trabalhar lá. Eu fazia o foro criminal e o civil também, de vez em quando. Mas não inha maior interesse para o jonal.

Naquele ano de 1930, pouco tempo depois de eu co­ meçar, haveria dois grandes julgamentos. Um, do lldefonso Simões Lopes, em que se sentava também no banco dos réus seu ho, Luís Simões Lopes. A história havia começado com um incidente entre o Luís e o Sousa Filho, deputado por Pernambuco, denro do recinto da Câmara dos Deputados, em tono do debate que estava se desenrondo naquela hora sobre a sucessão presidencial: de m lado, a candidatura de Júlio Pres­ tes, escolhido pelo presidente da República, Washington Luís, e do ouro, a candidatura de Getúlio Vargas. Desse incidente re­ sultou que ° lldefonso achou que o Luís estava sendo agredido pelo Sousa Filho - dizia-se

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e ele usava um punhal-, e ai­ rou e matou o Sousa Filho. De modo que foi m fato de muita repercussão. No mesmo dia desse crime, 26 de dezem­ bro de 1929, houve m ouro, também de grande repercussão: Slvia Serafim hibau matou, na redação d'A

C iica,

que perten­ cia ao jonalista Mário Rodrigues, o Ilho dele, Roberto

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Rodrigues, irmão de Nelson Rodrigues. Esses processos esta- vam preparados para serem julgados pelo júri.

Naquela altura eu

estava mais familiarizado com o Figueiredo Pimentel, que, apesar de me ter recebido com irriação, se tornou um amigo, um protetor. Depois, ele me con­ vidou para ir para a

Gazeta de Notícias,

A

Nação;

para os vários lugares onde ia trabalhar, me levava. Sobrevieram esses dois jul­ gamentos grandes, e no dia do pimeiro deles, que foi o do Simões Lopes, recebi a credencial do

Diário de Noíias.

Esive com Pimentel e ele me disse: "Você faz a primeira parte - chegada do acusado, interrogatóio . ..

" A

noite é que viria o de­

bate, em que falariam o promotor e o advogado de defesa. "Para a segunda etapa, vou mandar um redator mais experi­ mentado." Era um redator mais anigo, que fazia também a par­ te jurídica, chamado Eduardo Bahoutb. Depois foi procurador da República.

Muito bem. Julgamento marcado, i para á na hora certa - naquele tempo o júi funcionava realmente na hora. Ao meio-dia em ponto O juiz Magarinos Torres abriu a sessão, sen­

m no banco dos réus Ildefonso Simões Lopes e Luís Simões Lopes, que era co-réu no processo - não acusado do homicí­ dio, mas do incidente anterior-, e comecei a preparar a repor­ tagem. Fiz realmente um minucioso rabalho de todas as ocor­ rências até as seis, sete horas a noite. Fui para o jonal para levar aquela primeira parte ao Figueiredo Pimentel. Ele começou a ler, me deu grau dez pelo que eu inha feito até então e me incumbiu de coninuar durante a noite. í assisi ao debate. Fa­ lou, como advogado principal do Ildefonso Simões Lopes, o

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velho Evaisto de Morais. Foi uma das úlimas grandes defesas que ele fez no júri. E eu iquei fascinado por aquilo! Achei que encontrava i o meu caminho. O júri foi até de madrugada, eu

redigindo as coisas, preparando tudo ... Acho que o

Diário de

Noícias

foi o único jonal que noiciou no dia seguinte o resula-

A ESCOLA DA VIDA

do daquele julgamento - o réu foi absolvido - já com os detalhes, com rudo. E isso me crdenciou muito para o meu fururo no jonal.

Em seguida vinha o julgamento da Slvia llibau. Figueiredo Pimentel era seu amigo, gostava dela. Ela era uma mulher que inha se separado do marido, e isso era uma coisa incomum no Rio de Janiro daquele tempo. A mulher icava sempre suspeita de nào ser uma pessoa correta pelo fato de se ter separado. E ela era jornalista, assinava uma coluna com o pseudônimo de

Peite S ource,

Pequena Fonte. Uma mulher que escrevia em jonal ... Uma mulher que conversava com as pessoas, que levava os seus trabalhos para a redaçào ... Isso rudo fez com que ela fosse vítima da reportagem da

Cíica,

que a apontava como uma mulher livre, uma mulher que nào devía praicar certas ações, que eram censuráveis diante da sociedade muito rigorosa e machista da época. Ela leu a noícia e foi para o jornal com um revôlver pequenino, 22, procurar o dono, o vellio Mário Rodrigues, que não estava. Estava o Roberto, seu ho, que era ilustrador, pintor, desenhista. Tinha sido o ilusra­ dor da noícia. Os dois foram ao gabinete, iveram uma ligeira discussão, e ela deu um iro único. A bala o aingiu no coração e o matou.

Pimentel estava muito interessado nesse julgamento, era até testemunha no caso, a favor dela. E me pediu, antes do julgamento, para eu fazer uma entrevista com o advogado de defesa. Ela foi defendida pelo Clóvís Dunshee de Abranches, irmão da condessa Perira Carneiro, e foi acusada por um ad­ vogado que depois se destacou muito no júi, um pouco mais

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velho que eu, ,Romeiro Neto. Também foi absolvida. i já paricipei mais um pouco como repórter, o que para

m

foi muito importante como airmação.

Naquela época muitas vezes eu também icava fazen­ do plantão no jol. Anamente, os maruinos só fechavam às

duas, três horas da manhã e saíam na rotaiva às quaro, cinco horas. E então havia rdatores que icavam de plantão. Pimentel começou a pedir para eu icar e conversava comigo, me pedia para fazer um tópico. Sabem o que é um tópico? Tópicos são aquelas noícias que anamente todos os jamais inham, e ainda hoje têm, sobre, por exemplo, a falta d'água no Rio de Janeiro, ou o horário dos trens, uma coisa qualquer desse ipo. Há o arigo de fundo, que é o editorial, o pensamento do jornal, e os tópicos, que são opiniões sobre diversos assuntos. De vez em quando o Pimentel dizia: "Faz um tópico í, sobre a falta d'ua." Vocês não alcançaram a época m que a água era diicil. Havia momentos em que se icava semanas sem ter água che­ gando em casa. Fazer esses tópicos, para mim, também foi um aprendizado magníico. Os jornalistas de maior destaque tam­ bém faziam tópicos de matéria políica - a eleição para a Câ­ mara dos Vereadores, um projeto de lei qualquer que esava em andamento e que interessava ao público de modo geral. Havia topiquistas ilustres, como Osório Borba, grande jonalista; Othon Paulino, que depois foi um dos donos d'O

Dia

e d'A

Noíia,

dois jornais de grande circulação; Xavier de Araújo; Nóbrega da Cunha, que era um dos diretores do

Diário de Noí­

ias;

Garcia de Resende. Havia jonalistas de grande nomeada

que faziam tópicos, que eram algo muito importante no corpo do jonal.

A SCOA DO JÚI

Quando comecei a assisir a julgamentos e a fazer a reportagem para o

Diário de Noícias,

me encantei com o júri! Porque o

ji

era realmente uma escola. Dali se irradiava todo o estudo de direito penal para o Brasil inteiro. Ao lado do salão do Tribunal do Júri, que é muito bonito, há um corredor bem largo que se chama Salão dos Passos Perdidos, porque é intera­ mente vazio, não tem bancos nem cadeiras, e as pessoas icam vagando e se enconrando por i. Aquele Salão dos Passos Per-

A ESCOLA DA VIDA

didos era reqüentado pelos randes cistas da época, por todos os estudiosos do direito penal: o velho Evaristo,

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agarinosTorrs, RobertoLira, Mário Bulhões Pedreira,Jor- ge Seveiano Ribeiro. Havia também os mais jovens, como Ro­ meiro Neto e Stélio Galvão Bueno; havia um rábula, chamado João da Costa Pinto, com quem esreei no júri. Dali, daquele salão-coredor, saiu a Sociedade Brasileira de Ciminoloia, que

foi idéia do Roberto lira, saiu também a

Reista de Direito Penal.

O júri inha uma importãncia muito rande e teve um peso enorme na minha formação. Quase todos os dias havia um júri, e eu, como repórter, assisia, via os advogados, alguns compe­ tentes, ouros racos ... Quando eu achava que a defesa não esta­ va muito bem-feita, fazia comigo mesmo um julgamento e, com uma certa vaidade, dizia: ''Acho que faço melhor ... " Eu sempre invocava uma frase do Tobias Barreto, que havia lido naquela época: "Quando me julgo, envergonho-me; quando me com­ paro, orgulho-me." Eu dizia isso e achava que faria melhor ...