Como um meio de controlo social, medicalização é agora muito mais difusa do que anteriormente, uma vez que uma variedade de agentes, não apenas médicos, mas também outros atores (como a indústria farmacêutica, seguradoras grupos de pacientes, estado, etc.) encontram-se envolvidos na aceitação de valores ideológicos que subjazem ao processo de medicalização (Suissa e Collin, 2007).
De acordo com Angel (2000 in Conrad e Leiter, 2004), em 1999 a indústria farmacêutica foi o setor mais lucrativo nos Estados Unidos, com um retorno de 18,6% sobre a receita. A indústria farmacêutica tem uma longa história na prescrição de medicação de marketing e, ao longo dos últimos anos aumentou substancialmente o seu investimento na publicidade direta ao consumidor. “As empresas farmacêuticas afirmam que publicidade direta ao consumidor tem uma função educativa, os consumidores ficam melhor informados, incentivando-os a consultar seus médicos sobre os sintomas e opções de tratamento, permitindo ao paciente fazer melhores escolhas” (Bonaccorso e Sturchio 2002; Lyles 2002 in Conrad e Leiter, 2004:161). No entanto, Moynihan, Health e Henry (2002 in Coveney et al., 2011) têm sido particularmente críticos das ações das empresas farmacêuticas, acusando-as de ‘mercantilização da doença’ e de, intencionalmente ‘vender doenças’ na busca de maiores margens de lucro. A publicidade direta ao consumidor incentiva os indivíduos a agir como consumidores informados pedindo a seu médico um determinado produto ou um possível diagnóstico para sua condição. Igualmente, a internet é um facilitador para os potenciais utilizadores que possam aceder a produtos farmacêuticos sem a necessidade de estar com o médico, demonstrando assim como a medicalização pode ocorrer através da aplicação de uma solução médica para problemas, sem o envolvimento direto de profissionais médicos.
O papel dos médicos também tem vindo a ganhar contornos distintos. É “privilégio” de um médico prescrever um medicamento e, quando o fazem, é porque, na sua opinião, a droga irá ser um tratamento eficaz para o problema do paciente. No entanto, com a publicidade direta ao consumidor por parte das empresas farmacêuticas, o papel do médico é alterado, prejudicando a autoridade dos médicos relativamente aos medicamentos a prescrever. Os consumidores (ou potenciais) estão mais ativos na decisão da medicação.
Numa primeira fase a indústria farmacêutica dirigiu a sua abordagem e estratégias promocionais aos médicos. Foi assim que o uso de serviços e produtos biomédicos foi, em grande parte, determinado. A compreensão desta situação por parte dos grupos financeiros que instalaram o cuidado gerenciado, gerou estratégias de contenção de gastos baseadas no controlo do uso de serviços e tratamento. A partir destas mudanças na administração de coberturas médicas, o complexo médico-industrial, especialmente a indústria farmacêutica, iniciou uma série de estratégias para reestabelecer sua liderança na concetualização do processo saúde-doença-atenção no mercado de saúde. Através de diferentes fins comerciais,
37 a indústria farmacêutica utilizou diversos mecanismos para estabelecer uma relação direta com os potenciais usuários de seus produtos (Iriart e Ríos, 2012).
O aumento de crianças diagnosticadas com PHDA parece correlacionar-se com as estratégias que o complexo médico-industrial, especialmente a indústria farmacêutica, concebeu para contrariar as reformas que o capital financeiro desenvolveu, a partir da década de noventa, com a sua entrada como administrador de programas de saúde e planos de cobertura de atenção médica. Estas reformas incrementaram-se em primeiro lugar nos Estados Unidos e logo se expandiram a inúmeros países da América Latina, Ásia e Europa (Iriart e Ríos, 2012). A PHDA na população infantil é um marcado em expansão onde a indústria farmacêutica tem apostado fortemente.
De acordo com Conrad (2007) o comportamento problemático das crianças e os problemas adjacentes a esta condição constituem um mercado em ascensão para as drogas psicotrópicas, nomeadamente a Ritalina, que é hoje sobejamente conhecida para ‘tratar’ o défice de atenção nas crianças. Para o autor, quaisquer que sejam os benefícios ou riscos na toma dessa medicação, tornou-se um grande negócio para a indústria farmacêutica e, nos Estados Unidos, estas drogas são já o maior tipo de medicação tomada pelas crianças, chegando mesmo a ultrapassar os antibióticos e medicamentos para a asma. Tendo como referência o contexto Canadiano, onde a hiperatividade é um fenómeno altamente medicalizado, muito deste trabalho de medicalização é rotineiramente levado a cabo por profissionais não médico, nomeadamente professores, educadores e psicólogos que identificam, avaliam e administram medicação a “crianças problemáticas”. São estes os profissionais que primariamente identificam os comportamentos das crianças como problemáticos, chamando a atenção dos progenitores em que estes se sentem pressionados e persuadidos a recorrer a ajuda médica, mesmo não notando qualquer anomalia no comportamento do seu filho.
Nos Estados Unidos, por exemplo, existe uma aliança entre a indústria farmacêutica e certas associações de pacientes, pais e/ou familiares com o intuito de trocar informação sobre a PHDA, em que a indústria farmacêutica coloca especial ênfase nas estratégias de marketing dirigidas aos usuários e/ou organizações de familiares e a comunidade educativa. Existe uma tentativa da indústria farmacêutica se aproximar dos âmbitos educativos e, de acordo com Faraone et al. (2010:496-7), existem três modalidades estratégicas que os laboratórios implementam na comunidade educativa. Em primeiro lugar, agentes dos laboratórios que, juntamente com, ou através de especialistas médicos, se dirigem à escola e realizam palestras com gabinetes psicopedagógicos; a segunda estratégia concentra-se na elaboração de informação destinada especialmente a professores. Nestas brochuras estão inseridos alguns ‘conselhos’ para os docentes acerca da PHDA e medicamento a utilizar; por fim, a difusão das drogas disponíveis no mercado em revistas pedagógicas, para docentes e psicopedagogos. Temos assistido a uma mudança de estratégia e abordagem da indústria farmacêutica no que diz respeito à PHDA. Como primeiro interlocutor e interveniente da indústria farmacêutica surgiu o médico, pois é ele quem diagnostica e prescreve o medicamento; em seguida, os
progenitores foram inseridos nesse plano, com uma abordagem direta e ilustrativa de ‘um final feliz’ com Ritalina; por último, o foco concentra-se nas escolas, pois são os professores que chamam a atenção dos pais para o comportamento indesejado, irrequieto e perturbador na sala de aula. “A análise do TDAH permite transparecer como certas manifestações da vida das crianças são pensadas como doença, síndrome ou sofrimento e ilustrar o modo em que a indústria farmacêutica reconstitui estas configurações em termos de ganância” (Faraone et al., 2010:497).
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