Apresentação
O presente texto está inserido em uma pesquisa que aborda a saúde dos escravos nos séculos XVIIIe XIXno trânsito atlântico. Para tanto são
utilizados textos médicos (de médicos e/ou cirurgiões), tratados de me- dicina traduzidos para o português ou que circularam no império portu- guês, inventários e testamentos localizados inicialmente no Brasil, exames de corpo delito (autos da devassa, Minas Gerais, século XVIII). Trabalha-
-se com a hipótese de que diante da importância da mão de obra escrava desenvolveu-se todo o conhecimento voltado para a preservação e ma- nutenção da saúde dos trabalhadores escravos.
A base inicial da pesquisa está referenciada em Minas Gerais (Brasil) mas trata-se de uma produção que circulou por outros países (metrópoles e colônias) que lançaram mão do trabalho escravo. Há desse modo pos- sibilidade de acompanhar como conhecimentos voltados especifica- mente para a manutenção e preservação da população escrava foram pro- duzidos em outros regiões e locais. É o caso do conjunto de colônias portuguesas e da colonização dos Estados Unidos da América que sus- tentou parte da economia colonial com a utilização da mão-de-obra es- crava (Savitt 2002, 7). Cada uma dessas colônias apresenta uma série de especificidades, mas há um ponto em comum vinculando-as.
Nesse ponto é necessário observar que as colônias portuguesas na África tornam-se espaços de pesquisa privilegiada para o tema.1No Brasil, 1 Nos Estados Unidos, ao longo do século XIX, há uma profusão de textos que visam
de modo geral, trabalha-se pouco com as colônias portuguesas na África. Quanto ao contexto da América Central a situação é bem distinta. Há pesquisas desenvolvidas na área, especialmente a partir de centros aca- dêmicos norte-americanos.
A historiografia que aborda a escravidão tem sofrido mudanças im- portantes nas ultimas décadas. Essas mudanças direcionam-se basica- mente em dois caminhos (Marquese 2004, 10) o primeiro apoiado nos estudos econômicos (Economic History); o segundo nas análises culturais especialmente a história cultural do trabalho. Independentemente das contribuições que os dois caminhos apontam, observa-se inúmeras pos- sibilidades de investimentos analíticos nos séculos de vigência da escra- vidão em diversos espaços do novo mundo.
O fato é que, privilegiando a história cultural do trabalho e suas va- riações, há uma gama de temas possíveis de serem trabalhados no que se refere à saúde dos escravos. Desde a forma como os senhores se organi- zaram para manter e preservar a saúde dos seus escravos – e, consequen- temente, preservar o capital investido – passando pelo modo como a própria população escrava lidava com os temas da saúde na situação de cativeiro. A partir desses possíveis recortes abre-se uma série de possibi- lidades. Em que medida há um esforço do império português, especial- mente ao longo do século XVIII, em definir medidas de atenção e cuidado
com a saúde dos povos das colônias? Esse possível esforço poderá ser avaliado em termos da legislação, e da permissão e viabilidade de circu- lação de textos abordando temáticas da saúde nas colônias.
Considerando o volume de recursos empatados com a mão-de-obra escrava no Brasil ao longo de todo o processo de escravidão, faz-se ne- cessário investigar os cuidados destinados a manter a saúde desta popu- lação. Há que observar que estas preocupações não se limitam à manu- tenção do plantel de escravos, mas relacionam-se também às transações com escravos. O valor do escravo, enquanto mercadoria, está diretamente relacionado a sua saúde. Escravos com boas condições de saúde atingem no mercado um preço distinto dos que estão fisicamente combalidos. A gradação do valor irá contar, entre outros aspectos, com a análise da saúde do escravo por parte dos responsáveis pela sua comercialização. Uma leitura visual irá ocorrer diante do corpo escravo entre os que co- mercializam a mão de obra e – tanto por parte daqueles que vendem
Há também a circulação de uma série de textos para os pais de família e como lidar com a saúde dos seus filhos. A ideia de que cada um poderia ser o seu próprio médico é pre- sente e difundida na América do Norte no século XIX.
como daqueles que compram – irão ser observados aspectos como idade, sexo, condição dos dentes, pele, peso, altura, cor, entre outros. Em alguns casos há médicos que se especializaram em atender a população escrava. Entre eles Reinhold Teuscher, alemão de origem, que defendeu a tese «Algumas observações sobre a estatística sanitária dos escravos nas fazen- das de café» em 1853. Teuscher escreveu a tese para validar seu diploma no Brasil e foi responsável pelo cuidado de 925 escravos de cinco fazen- das de café em Cantagalo, Província do Rio de Janeiro. Há outros que se especializam em analisar o estado de saúde do escravo para comprar ba- rato, tratar e vender com lucro. Neste caso a medida para realizar o «bom» negócio é saber avaliar bem o estado de saúde do escravo e saber intervir para contornar problemas de saúde (Leite 1996, 163). Há também a si- tuação contrária, quando os senhores são acusados de abandonarem seus escravos exatamente por estarem doentes. Kidder e Fletcher, viajantes ci- tados por Leite, registram protestos no Rio de Janeiro quando a popula- ção revoltava-se contras alguns senhores que abandonavam seus escravos ou concediam-lhes liberdade quando já estavam velhos ou adoentados (Leite 1996, 163).
Na descrição dos viajantes, a presença do religioso e do médico para os conjuntos de escravos está presente. Mawe informa que «cada esquadra possui seu capelão e seu médico» (Leite 1996, 163). Não fica claro quem eram os médicos. Mas podem ser considerados médicos aqueles que se dedicavam aos afazeres da cura sem necessariamente possuírem diplomas de cirurgião ou médicos. Por outro lado encontramos a informação con- trária: ausência de médicos. A descrição de Freireyss de como eram trans- portados os negros prelos traficantes lista uma série de problemas que debilitavam a saúde dos escravos e ao final afirma que: «não se pode negar, todavia, que a maior parte sucumbe por falta de cuidados e bons médicos» (Leite 1996, 166).
Todas estas informações indicam que há um conjunto de conheci- mentos produzidos, sistematizados e disponibilizados para os cuidados da população escrava.
Entre as fontes que nos indicam esta preocupação encontram-se os relatos dos viajantes, os manuais destinados ao cuidado dos escravos, as teses defendidas nas academias para finalização do curso de medicina com temas específicos da saúde dos escravos, como também o relato da presença de médicos, cirurgiões e práticos dedicados, em especial, aos cuidados da saúde da população escrava.
Não se pode deixar de considerar toda uma dimensão religiosa relativa aos cuidados com o corpo. São as preces, as promessas, os ex-votos, as
missas e missais, as procissões que compõem o espaço de crença e fé nos poderes transcendentais. Neste conjunto incluem-se as simpatias e as pa- lavras mágicas. De alguma forma estas comunicações com o além con- tribuem para que os doentes e seus próximos estabeleçam processos de intermediação entre a doença e a saúde. Ou seja, o entendimento do campo da medicina nos séculos XVIIIe XIXdeve ser compreendido de
uma forma bastante ampla, onde as concepções de saúde de doutos e práticos e da população em geral formam uma miscelânea de práticas e conceitos que em alguns momentos se superpõem e em outros se dis- tanciam.