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O grande índice de pessoas não letradas no Brasil mobilizou a atenção de diversos pesquisadores (SOARES, 2003; TFOUNI, 1995; KATO, 1986; KLEIMAN, 1995), os quais desenvolveram estudos com o objetivo de apontar soluções para o problema. Os indivíduos que não dominavam o código alfabeto foram denominados de “analfabetos”. Em contrapartida, para as pessoas que se apropriavam das habilidades de ler e escrever, e que respondiam de maneira satisfatória às demandas sociais fazendo uso da leitura e da escrita, ainda não tinham uma denominação. Considerando que ler e escrever vai além da decifração do código alfabético e que o domínio da língua escrita requer responder às exigências que a sociedade solicita, surge então o termo letramento, referindo-

se à condição de quem não apenas sabe ler e escrever, mas cultiva e exerce as práticas sociais que usam a escrita (SOARES, 2003:56-57). O letramento focaliza os aspectos sócio- históricos da aquisição de um sistema escrito por uma sociedade (TFOUNI, 1995).

No final do século XX, o Brasil seguiu o modelo dos países desenvolvidos e passou a exigir mais dos brasileiros o uso da língua escrita não somente como forma de adquirir conhecimentos, mas também como condição para a conquista da cidadania. Foi no contexto das grandes transformações culturais, sociais, políticas, econômicas e tecnológicas que o termo “letramento” surgiu ampliando o sentido do que tradicionalmente se conhecia por alfabetização (SOARES, 2003).

No início da década de 80, os estudos acerca da psicogênese da língua escrita trouxeram aos educadores o entendimento de que a alfabetização, longe de ser a apropriação de um código, envolve um complexo processo de elaboração de hipóteses sobre a representação lingüística. A partir dessa década, nos anos posteriores emergiam os estudos sobre letramento, e com esses podemos descortinar mais precisamente esse termo tão polêmico e necessário.

Letramento é uma tradução para o português da palavra inglesa literacy, que pode ser traduzida como a condição de ser letrado. Uma pessoa alfabetizada não é necessariamente letrada. Alfabetizado caracteriza a condição de saber ler e escrever; letrado é aquele que sabe ler e escrever e responde adequadamente às demandas sociais da leitura e da escrita. Alfabetizar letrando é ensinar a ler e escrever no contexto das práticas sociais da leitura e da escrita, assim o educando deve ser alfabetizado e letrado. Esses dois processos estão diretamente ligados, embora não sejam uma mistura homogênea, ou seja, os dois processos andam entrelaçados na mesma direção.

No livro Letramento: um tema em três gêneros, Soares (2003:47) aborda o tema de maneira clara, exemplificando um adulto na condição de não alfabetizado poder ser letrado, ou seja, ele não aprendeu a ler e escrever, mas utiliza a escrita para escrever uma carta através de um outro indivíduo alfabetizado, um escriba. Neste caso, é o próprio “analfabeto” que dita o seu texto, logo ele lança mão de todos os recursos necessários da língua para se comunicar, mesmo que tudo seja carregado de suas particularidades. Magda Soares (2003:47) segue ainda dando outro exemplo de uma criança que mesmo antes de estar em contato com a escolarização, e que não saiba ainda ler e escrever, porém tem

contato com livros, revistas, ouve histórias lidas por pessoas alfabetizadas, presencia a prática de leitura, ou de escrita. E a partir daí também se interessa por ler, mesmo que seja só encenação, criando seus próprios textos “lidos”, ela também pode ser considerada letrada. As definições de letrado no dicionário Aurélio não têm relação com o sentido do letramento, que estamos tratando aqui, pois o mesmo define letrado como que ou quem é

versado em letras; erudito, iletrado que ou quem não tem conhecimentos literários;

analfabeto ou quase.

A alfabetização é uma via importante para o letramento, este entendido como sendo o uso social da leitura e da escrita e que tem um papel fundamental para que todos os indivíduos se tornem cidadãos atuantes e participantes. Letrar, de acordo com Soares (2003), significa colocar a criança no mundo letrado, trabalhando com os distintos usos de escrita na sociedade. Essa inclusão começa muito antes da alfabetização, quando a criança começa a interagir socialmente com as práticas de letramento no seu mundo social. O letramento é cultural, por isso muitas crianças já vão para a escola com o conhecimento alcançado de maneira informal adquirido no cotidiano. Enquanto a alfabetização se ocupa da aquisição da escrita por um indivíduo, ou grupo de indivíduos, o letramento focaliza os aspectos sócio-históricos de uma sociedade (TFOUNI, 1995:20). Em sintonia com Tfouni, Soares se refere à importância do letramento dizendo que:

Ao permitir que o sujeito interprete, divirta-se, seduza, sistematize, confronte, induza, documente, informe, oriente-se, reivindique, e garanta a sua memória, o efetivo uso da escrita garante-lhe uma condição diferenciada na sua relação com o mundo, um estado não necessariamente conquistado por aquele que apenas domina o código (SOARES, 1998).

Aprender a ler e a escrever implica não apenas em aprender reconhecer as letras, formar palavras ou frases, mas possibilita o sujeito, dentre outros aspectos, usar esse conhecimento para descobrir e se preparar de maneira adequada e necessária à comunicação e expressão em um determinado contexto cultural.

Kleiman (1989:18) esclarece a importância do entendimento pelo professor sobre a aprendizagem da leitura e sua interpretação. Se o professor não consegue perceber

o processo da leitura e a interpretação da mesma, essa leitura fica reduzida à manipulação mecanicista de seqüências discretas de sentenças, não havendo preocupação pela depreciação do significado global do texto. Portanto, na maioria das vezes, torna-se

importante a escola entender, apoiar ou promover a formação do professor para que ele compreenda os fundamentos teóricos e mude sua concepção a respeito de como se dá esse processo de aprendizagem da língua escrita, ou seja, da alfabetização e do letramento.

Saber ler e escrever palavras não é o suficiente para capacitar o aluno no mundo da leitura diversificada, neste caso, entende-se que surge por parte da escola a necessidade de levar aos seus educandos um processo mais amplo das práticas sociais que envolvem a leitura e a escrita. Isto é, letrar os alunos envolvidos no processo de aprendizagem, ensinando-os não somente o código lingüístico, mas preparando-os para fazer uso desses grafemas como meios sociais. O professor que busca mudanças em suas práticas de ensino oportuniza seus alunos interagirem com a sociedade. A oportunidade de aprender a ler, compreender e interpretar o que está escrito, favorece a interação do sujeito com a sociedade e o exercício da cidadania e, conseqüentemente, a sua inclusão nos diferentes aspectos da vida social. Alfabetizar letrando demanda uma prática pedagógica que considere o sujeito para além do aspecto cognoscente, visto que integra suas dimensões histórico-culturais e sociais. No item a seguir, trataremos das práticas pedagógicas do professor e das suas implicações no ensino.