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Sob as cinzas de um período bastante conturbado, o Mandato francês deixou de existir no Líbano, contudo, ainda permaneceria vivo por dois anos mais na vizinha Síria. O fato era apreciado com grande preocupação devido à proximidade latente entre os dois países e ainda haver questões a serem resolvidas por ambos. De certa forma, a identidade sírio-libanesa e a questão relativa territorialidade, dentre outras pendências, ainda viria a ser suscitada no transcorrer da história de ambos; servindo, inclusive, como motivação para o governo sírio negar com veemência a separação entre os dois territórios. Entretanto, o fato de o Líbano ter conseguido alcançar a independência não deixa de ser entendido como um elemento de fundamental importância para que a Síria a obtivesse também, porém, a trajetória política desses novos Estados seguiu caminhos distintos. A Síria viria a ter sua identidade árabe

reforçada, enquanto no Líbano a forte presença cristã ainda lutava por uma ligação mais estreita com o mundo ocidental. A partir desse distanciamento, o transcorrer dos anos favoreceu o surgimento de forças políticas, em ambos os países, que passaram a se pronunciar acerca da questão da identidade sírio-libanesa – havendo grupos pró e contra a união –, muito embora o governo sírio sempre tenha deixado claro seu entendimento de que o Líbano faria parte da Síria.

De fato, um dos grandes catalisadores da independência libanesa foi o Pacto Nacional que fora firmado entre cristãos e muçulmanos. A partir dele foi possível vislumbrar a existência de interesses comuns entre grupos religiosos distintos e, ir além ao idealizar o nascimento de uma identidade nacional comum.

Pelo menos em tese os primeiros anos de independência libanesa transcorreram com alguma calmaria, apesar de a regra estabelecida pelo Pacto Nacional gerar muitos questionamentos e suscitar a existência de favorecimentos para cristãos maronitas e muçulmanos sunitas. Esse era o argumento principal advindo de drusos e xiitas.

O Pacto Nacional, como fora apresentando anteriormente, não é um documento formal assinado entre as partes, mais se caracterizava como um tratado estabelecido na base da confiança mútua. Seus pressupostos eram conhecidos por todos e tentavam contemplar a heterogeneidade cultural reinante no Líbano.

Como pressupostos básicos do Pacto Nacional, merecem destaque: 1) o Líbano deveria buscar sua identidade própria, não mais enfatizando serem, seus habitantes, descendentes de árabes ou ocidentais; 2) apesar de o Líbano ser considerado um país árabe, e esta ser sua língua oficial, não residiria nesses fatos razão suficiente para o rompimento com o ocidente, haja vista que o intercâmbio sempre fora de grande valia e contribuiu para o progresso econômico do país; 3) por outro lado, como o Líbano é um Estado árabe, havendo qualquer agressão a outro ‘Estado irmão’, a obrigação dos libaneses seria lutar ao seu lado, contra o inimigo. Porém, caso houvesse uma luta entre Estados árabes, o Líbano deveria permanecer neutro; e, 4) os cargos públicos deveriam ser distribuídos de acordo com a proporcionalidade populacional dos grupos religiosos, entretanto, no tocante aos cargos que exigissem capacidade técnica, estes deveriam ser entregues àqueles que fossem efetivamente competentes, independentemente da fé proferida. Esse último item do Pacto sempre fora objeto de discussão, porque abria a possibilidade de que os governantes cercarem-se de partidários seus, independentemente da ‘capacidade técnica’ necessária para o desempenho da função.

A participação proporcional dos grupos religiosos nos cargos da administração pública nem sempre foi respeitada devido à própria facilitação que o acordo viabilizava por seu entendimento dúbio. Quando as minorias questionavam que não tinham participação, os maronitas – que assumiram o poder executivo – alegavam que estavam utilizado o critério de ‘capacitação técnica’, o que não podia ser contestado efetivamente, mas gerava insatisfação pelo alto grau de sectarismo político presente.

Ratificou-se, também, que a presidência seria exercida por um cristão maronita e o cargo de Primeiro-Ministro por um muçulmano sunita. Apenas em 1947, com o grande aumento populacional dos xiitas, e conseqüente maior participação na vida política libanesa, que esse grupo religioso conseguiu resguardar para si o cargo de Chefe do Parlamento.

À parte a gama de diferenças existentes entre os grupos religiosos libaneses, para a questão da representatividade política foi possível estabelecer com bastante clareza – para que houvesse governabilidade – as bases em que se daria a disputa pelas vagas no Parlamento. Para a eleição dos parlamentares criou-se uma fórmula bastante sofisticada para os padrões da época. O país foi dividido em múltiplas zonas eleitorais e assegurou-se determinada quantidade de cadeiras no Parlamento para muçulmanos e cristãos – respeitando o que fora acordado no Pacto Nacional, ou seja, a proporção de 6 para 5 em favor dos cristãos. Ocorre que muitas dessas zonas eleitorais eram compostas por grupos confessionais mistos e, para que seus representantes conseguissem vagas no Parlamento era necessário que houvesse o apoio recíproco das comunidades religiosas, ou seja, muçulmanos poderiam necessitar de votos cristãos para elegerem um parlamentar local, ou vice-versa. Isso se deve ao fato de que dentro das zonas eleitorais o voto poderia ser feito de duas maneiras: 1) através de uma cédula em que contivesse candidatos de diferentes religiões e seitas, os quais estariam concorrendo de forma independente; ou, 2) em cédulas que contemplassem apenas um grupo religioso.

Diante da opção de escolha das cédulas, o votante analisava o panorama eleitoral nacional e verificava como estava sendo formado o Parlamento, depois optava por aquela que suprisse suas necessidades – regionais ou de seu grupo religioso. Quando havia uma pequena participação dos representantes locais, podia-se votar em parlamentares de outra religião, mas que assegurassem a representatividade da região (zona eleitoral) no Parlamento, o que, em princípio, garantiria investimentos sociais e econômicos. Em tese a fórmula buscava fomentar a integração política entre as diversas comunidades religiosas e distribuir o poder de maneira proporcional à população de cada zona eleitoral. (Salibi, 1988: 186-7) Para o momento que foi criado, o sistema eleitoral se apresentara como bastante complexo e sofisticado, contudo, fora assimilado e, mesmo com as reformas subseqüentes, mantém a mesma base.

Por outro lado, mesmo considerando que a intenção do sistema eleitoral possa ter sido gerar a interação entre os vários grupos religiosos em prol do fortalecimento da representatividade de sua região, o fato recorrente, e que tornou-se facilmente perceptível, é que somente as lideranças locais (zaim) conseguiam eleger-se e fortalecer seu poder, ratificando, assim, a velha estrutura ‘feudal’.

Se, num primeiro momento, o Pacto Nacional viabilizou a independência do Líbano, as amarrações propostas por ele acabaram por gerar insatisfação. Principalmente por parte dos muçulmanos, que se viam limitados politicamente, uma vez que as diretrizes da nação estavam sendo traçadas pelos maronitas, que asseguraram para si o Poder Executivo.

A tensão não tardou a manifestar-se e o Líbano passou a viver um período de fortalecimento (talvez, renascimento) do sistema partidário. Em verdade, muitos partidos políticos já existiam desde final do século XIX, contudo, sua atuação estava limitada à questão relativa à inserção do Monte Líbano no panorama pan-arabista reinante à época. O novo perfil dos partidos políticos que estavam despontando dizia respeito às questões locais e à maneira com que a política interna estava sendo desenvolvida. Questionava-se, sim, e com veemência, os privilégios maronitas. Esse é o caso do primeiro partido druso que alcançou atuação em âmbito nacional, o Partido Progressivo Socialista, fundado em 1949 e comandado por Kamal Jumblatt. Líder controverso – árduo defensor dos ideais da Esquerda, contudo, detentor de prestígio alcançado graças ao sistema ‘feudal’ libanês (concentrador de poder junto às famílias e elitista) –, entretanto, reconhecido por sua capacidade intelectual e que conseguiu abarcar seguidores de outros grupos religiosos.

Concomitantemente ao desenvolvimento de uma oposição partidária, os maronitas também passaram a fortalecer-se. É o caso emblemático da transformação da milícia falangista (Kata’eb) no Partido Social Democrata; fato ocorrido em 1949, sob a liderança de Pierre Gemayel. Seu idealizador, que esteve na Alemanha durante os Jogos Olímpicos de Berlim (1936), demonstrou-se admirado com a disciplina alemã e idealizou a implementação de uma organização que tivesse uma estrutura similar no Líbano, conforme relatou a Robert Fisk, em entrevista no ano de 1982:

When I was in Berlin then, Nazism did not have the reputation which it has now (…) Nazism? In every system in the world, you can find something good. But Nazism was not Nazism at all. The word came afterwards. In their system, I saw discipline. And we in the Middle East, we need discipline more then anything else. (2001: 65)

Também, no período pós-independência que o, já citado, Partido Nacionalista Sírio de Antun Saadeh alcançaria maior evidência, haja vista que contava com o segundo maior número de integrantes – perdendo apenas para a Falange – e tentava viabilizar seu projeto de unificação entre Líbano e Síria a qualquer custo. Assim, em 1948, temendo que o Partido pudesse implementar seus planos, o governo libanês perseguiu e prendeu suas lideranças. De certa forma, a ação governamental não foi suficiente e, no ano seguinte seus militantes tentaram chegar ao poder através de um golpe de Estado. Sem conseguir efetivar seus planos, o Partido – agora SSNP (Syrian Social Nationalist Party, Partido Social Nacionalista Sírio) –, tornou-se ilegal e Saadeh acabou sendo preso e executado. Contudo, o legado de Saadeh não se encerraria nesse momento e o partido voltaria a ter grande importância no transcorrer da história libanesa, como poderemos perceber, mais detalhadamente, ao abordarmos a estrutura política e eleitoral do país32.

Com a nova situação política emergente no Líbano, que, em tese, estaria vivendo um momento democrático, os governantes passaram a ser mais cobrados e questionados pelas lideranças políticas de oposição. Essa nova postura advinha do fato de que, muitas vezes, não havia unanimidade nem dentro da própria comunidade maronita, o que a deixava suscetível a fortes críticas e, até certo ponto, instável.

As ações assumidas pelo governo Khouri, apesar de terem ajudado a extinguir o Mandato francês sob o Líbano, na seqüência, já deixaram de agradar a totalidade da população libanesa. Esse fato

explicitava-se através da reação dos líderes regionais – impondo fortes críticas à presidência –

32 Mais detalhes sobre Saadeh ver: ADJAMI, Fouad. The Dream Palace of the Arabs. New York: Vintage

e, no revide do governo, reprimindo fortemente seus oposicionistas. Também, há de salientar que os privilégios destinados aos cristãos na administração estatal voltaram a ser objeto de críticas enfáticas. Contudo, um acontecimento internacional abalou o governo Khouri, qual seja, a criação do Estado de Israel, em 1948.

A ligação entre maronitas e os sionistas não era recente, e já vinha estreitando-se desde 1920, quando fora assinado o Tratado de Cooperação entre a Organização Sionista e representantes da Comunidade Maronita. Essa ligação pode ser analisada a partir de uma tentativa de buscar similaridades entre as trajetórias dos povos cristão e judeu, inseridos numa região predominantemente muçulmana. Uma união que teria a intenção de autopreservação das minorias, como apregoava-se. Esses laços foram sendo estreitados através das lideranças maronitas, tanto religiosas quanto políticas, fato que não era muito bem aceito pelos muçulmanos libaneses e provocava suspeitas.

Diante da indefinição com relação ao destino do Estado libanês, no que tange a sua identidade, os maronitas trataram de estreitar, ainda mais, seus laços com o movimento sionista e apoiavam abertamente a criação do ‘Lar Nacional Judeu na Palestina’. Essa relação tinha outros vieses, conforme nos apresenta Kirsten E. Schulze, professora de História Internacional da London School of Economics.

In the 1930s, the Maronite Church became actively involved in deepening relations with the Jewish community in Palestine in an attempt to formulate an alliance against Islam. Fear of loss of ethnic and religious identity in a "vast sea of Muslims" led to the concept of a natural alliance between ethnic and religious minorities. This concept was embraced by both the Maronite Church and the emerging Yishuv (Jewish population of Palestine). Indeed, Maronite Patriarch Antun Arida pursued a general partnership and Maronite politician Emile Eddé envisaged a political and even military union. When Eddé became president of the Lebanese Republic in 1936 he was presented by the Yishuv with a draft Treaty of Friendship.

A further manifestation of the budding minority-alliance was President Eddé's support of the Peel Commission report in 1937, which recommended the creation of a Jewish state in Palestine. In 1946, Arida went to Jerusalem where he signed an agreement on behalf of the Maronite Church with Chaim Weizmann on behalf of the Yishuv. This agreement reciprocally recognized the Jewish demand for independence in Palestine and the independent "Christian character" of Lebanon. A year later, in 1947, the Maronites' recognition of a Jewish state motivated the Maronite Archbishop of Beirut, Ignace Mubarak, to submit a memorandum to the United Nations supporting the creation of a Jewish state in Palestine.

The relationship between the Maronites and the Yishuv evolved around several concepts, the most important of which was the notion of a "natural" alliance between Israeli Jews and Lebanese Christians. (1997)

Devido às relações muito próximas entre a comunidade maronita libanesa e os sionistas, em 1948, quando houve a declaração de guerra – parte de seus vizinhos árabes (Síria, Jordânia e Egito) – contra o recém-criado Estado de Israel, a situação política, interna, do Líbano tornou-se bastante delicada.

Como estabelecia o Pacto Nacional e, devido ao Líbano fazer parte da Liga Árabe, sua obrigação seria lutar ao lado dos demais países árabes contra Israel, contudo, Khouri optou por não participar militarmente da guerra, restringindo-se a posicionar-se ao lado dos árabes. A atitude de Khouri gerou fortes críticas de parte da população muçulmana libanesa. O resultado final do conflito entre árabes e israelense também foi significativo, haja vista que, finalizada a guerra – que estendeu-se de 15/05/194833 (um dia após a decretação do Estado de Israel) a meados de 194934, ocasionando a vitória esmagadora dos israelenses –, também houve uma alteração significativamente da realidade libanesa com a entrada de mais de 170.000 refugiados palestinos no sul de seu território.

A governabilidade do Líbano ficou fortemente abalada devido à pressão que parte da população libanesa passou a exercer sobre o governo à medida que a entrada dos refugiados acarretava problemas sociais e empobrecimento – principalmente dos xiitas, que mais sofriam com a presença palestina no sul do Líbano – e, também, devido a Khouri, cada vez mais, transformar seu governou num sistema altamente sectário, deixando, inclusive, de considerar

o poder dos zuama35. Por conseqüência desses fatores, acusações de corrupção e

favorecimentos políticos passaram a tornar-se freqüentes.

O resultado imediato dessa repulsa por Khouri evidenciou-se durante o ano de 1952, quando formou-se uma aliança inesperada entre Kamal Jumblatt (druso, líder do Partido Socialista Progressivo), Camille Chamoun (maronita, embaixador que estava servindo no Reino-Unido) e Emile Bustani (parlamentar eleito em 1951 e conhecido pelo sucesso nos negócios, o que o tornara um milionário) na recém criada Frente Social Nacional (SNF)36.

33 A citada data corresponde à saída dos exércitos britânicos da Palestina, delegando a responsabilidade pelos

acontecimentos futuros à ONU, contudo, os atritos entre judeus e árabes já vinham se alastrando desde novembro do ano anterior (1947), quando fora votada, na Assembléia Geral da ONU, a divisão da Palestina e, na seqüência, rejeitada pelos árabes.

34 Durante o ano de 1949, conforme o Estado de Israel conseguia derrotar seus oponentes, armistícios iam sendo

assinados. Em 24 de fevereiro de 1949 foi assinado o armistício com o Egito; em 23 de março, com o Líbano (Ras-el-Nakura); em 3 de abril, com a Jordânia; e em 20 de julho, com a Síria. Assim, após 15 meses de luta, Israel não apenas garantiu a sua existência como nação soberana no Oriente Médio, rechaçando os exércitos inimigos, mas também assumira o controle sobre uma área de cinco mil quilômetros quadrados, superior àquela que lhe fora concedida pelas Nações Unidas.

35 Líderes regionais dos clãs, plural de zaim. Personalidades que deveriam dar suporte ao governo. 36 Mais convencionalmente conhecida pela sigla em inglês SNF (Social Nacional Front).

Essas lideranças uniram-se, deixando de lado suas divergências, em prol de por fim aos ‘abusos’ de Khouri.

Ainda em 1952, na cidade de Dayr al Qamar, Chamoun conclamou a população local a protestar contra Khouri, levando mais de 50.000 pessoas às ruas. A situação do governo estava insustentável, e só veio a se agravar com a adesão de Pierre Gemayel ao grupo dos insatisfeitos. Gemayel era o líder do Partido Falangista (Kata’eb) e exercia seu poder junto às comunidades de Beirute Oriental e do Monte Líbano.

Apesar da evidente rejeição que Khouri estava sofrendo da parte de quase todas as lideranças políticas libanesas, ele não aceitava renunciar ao mandato. Sua situação no governo tornou-se insustentável quando, em 11 de setembro de 1952, a SNF convocou uma greve geral que assumiu proporção nacional. Khouri, para impedir que lhe fosse aplicado um provável golpe de Estado, ordenou que o general Fuad Shihab, chefe do Exército, marchasse contra os grevistas. Shihab recusou-se a cumprir a ordem alegando tratar-se de “um assunto político”, portanto, não sendo da alçada militar. Por fim, Shihab manteve-se neutro no desencadear dos acontecimentos, fato esse que iria proporcionar-lhe vantagens no futuro.

Khouri conseguiu manter-se no poder até 18 de setembro de 1952, quando não mais suportou a pressão e renunciou. Todo o movimento que levou à renúncia do presidente passou a ser tratado pelos historiados como “Rosewater Revolution” devido a sua característica pacifista e congraçamento entre grupos religiosos que sempre atuavam de forma antagônica.