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A forma de fazer história na oralidade, isto é, em sociedades que ainda não utilizavam a escrita, estava pautada na memória dos indivíduos. Isso significa que não era possível separar a mensagem de seu emissor e que as histórias continham forte carga emocional, contribuindo com a consolidação de mitos. As histórias eram contadas e recontadas ciclicamente, pois até então sua permanência não estava inscrita em suportes materiais.

A forma canônica do tempo nas sociedades sem escrita é o círculo. Evidentemente, isto não significa que não haja qualquer consciência de sucessão ou irreversibilidade nas culturas orais. Além do mais, especulações importantes sobre o caráter cíclico do tempo ocorreram em civilizações que possuíam a escrita, como na Índia ou na Grécia Antiga. Queremos apenas enfatizar aqui que certo tipo de circularidade cronológica é secretado pelos atos de comunicação que ocorrem majoritariamente nas sociedades orais primárias. (LEVY, 1997, p. 83)

Mesmo após o surgimento da escrita, a narrativa advinda do pensamento oral ainda prevaleceu e muitos textos eram escritos em diálogos, como os de Platão, em um formato narrativo muito próximo da oralidade. Somente após muito tempo, gradativamente, a forma de contar histórias e fazer perdurar eventos e fatos foi se transformando em uma nova estética baseada na escrita. Desse modo, a narração foi se

15 Flusser faz uma análise mais específica sobre a questão das inscrições de textos e imagens em superfícies como forma de perpetuar eventos e transmitir conhecimento. Para o autor, as inscrições textuais e imagéticas sobre superfícies produzem um novo contato com o mundo, em que a realidade é substituída por sua representação, dada por textos e imagens. Em seus livros, encontramos algumas passagens pertinentes a este trabalho: “Instrumentos têm a intenção de arrancar objetos da natureza para aproximá-los do homem. Ao fazê-lo, modificam a forma de tais objetos.” (2002, p. 20) e “Onde quer que se descubram códigos, pode-se deduzir algo sobre a humanidade.” (FLUSSER, 2007, p. 130).

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separando do seu emissor e do momento em que aconteceu, para perdurar ao longo do tempo, agora um tempo linear.

Mas essa nova noção de tempo não foi possível somente por conta da escrita e de sua inscrição em dispositivos duráveis. Muito antes da escrita, a agricultura já permitira pensar o tempo de um modo diferente. Diante da possibilidade de previsão de plantação e de colheita a partir do clima e das marés do rio, por exemplo, o homem criou uma nova relação com o tempo, que embora cíclica, já continha a noção de previsão e sequência, típica do pensamento linear decorrente da escrita (texto).

Além da oralidade, as sociedades pré-escritas se utilizavam também da imaginação, isto é, da capacidade de criar imagens. Segundo Flusser (1986), a representação imagética permitia o registro de um momento e tinha, inicialmente, dois objetivos fundamentais: fixar a visão que é fugaz e tornar o fato acessível a outras pessoas. A incapacidade de manipular o objeto em si e, portanto, experienciá-lo fez com que o homem se apropriasse da imagem em uma tentativa de, por meio dela, transformar o real.

No entanto: dado o feedback entre gesto e consciência, tal zona imaginária vai se densificando, e vai encobrindo a circunstância ao invés de revelá-la. As imagens não mais serão utilizadas na manipulação das circunstâncias, mas inversamente: as próprias imagens serão manipuladas, na crença de que isto modificará os objetos. Imagem será confundida com circunstância, a imaginação vira alucinação, vira idolatria. (FLUSSER, 1986, p. 66)

A partir do momento em que o homem fragmentou as imagens e as dispôs em linha, um novo modelo de pensamento surgiu: o conceitual, tendo um alto grau de abstração, uma vez que não depende mais da imagem para transmitir e fixar ideias em suportes.

Se a escrita mudou profundamente a relação do homem com o mundo que o cerca por estabelecer um pensamento conceitual, a invenção da imprensa de Gutemberg catalisou o processo de separação entre emissor e receptor. Mais do que simplesmente catalisar esse processo, a possibilidade de impressão massiva contribuiu com um novo modelo de pensamento, baseado na mobilidade do livro:

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Os antigos manuscritos imitavam a comunicação oral (perguntas e respostas, discussões contra e a favor), organizavam-se ao redor do comentário de um grande texto ou propunham trechos selecionados e compilações. Foi somente a partir do século XVI que generalizaram-se as apresentações sistemáticas de uma “matéria” especializada, dividida de acordo com um plano coerente. Essas apresentações apoiam-se sobre interfaces específicas da impressão das quais já falamos na primeira parte: paginação regular, sumário, cabeçalhos aparentes, índice, uso frequente de tabelas, esquemas e diagramas. (LEVY. 2007, p. 97)

O modelo de pensamento advindo da oralidade e, portanto, baseado na narrativa de situações, se modificou para um modelo de categorização, baseado em uma nova forma de divisão, permitido pelo livro e seus elementos estruturais como códex, sumário e notas de rodapé. Assim, tornou-se possível ter acesso a conteúdos de forma não linear; bastava procurar o capítulo do livro que continha o tema desejado, sem necessidade de lê-lo por completo, ou estabelecer relações paralelas a partir das referências de nota de rodapé, que levariam a outros livros e autores.

Portanto, se a alinearidade de conteúdos parece consequência da estética informática, Pierre Levy (1997) nos mostra que, embora o modelo linear fosse o dominante, o livro já possuía uma abordagem e categorização de textos e de imagens não-linear, característica que se tornaria mais explícita com a cultura digital (GERE, 2002), em detrimento do pensamento linear. À possibilidade de exploração de conteúdos escritos e imagéticos de acordo com o interesse e a necessidade de cada usuário em um único dispositivo, denominou-se hipertexto (George Landow, 1992).

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