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1. Introduction

6.0 Discussion

Objetivamos mostrar a relação e, ao mesmo tempo, as diferenças entre o conceito de enunciação em Benveniste e Guimarães. Uma das diferenças marcantes dos estudos de Guimarães e Benveniste é a noção de enunciação. Apresentamos a enunciação em Benveniste, para diferenciá-la de como Guimarães a concebe e nos posicionarmos na forma como a relacionaremos com nosso objeto de pesquisa: a escravidão.

A enunciação em Benveniste (2006) parte da proposta de introduzir uma distinção na forma de ver o funcionamento e emprego das formas linguísticas, que para ele são

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consideradas pelo ângulo da nomenclatura morfológica e gramatical. Benveniste (2006) entende que as condições de emprego das formas não são idênticas às condições de emprego da língua, propõe, então, o estudo do fenômeno da enunciação, entendida como: “este colocar em funcionamento a língua por um ato individual de utilização” (Benveniste, 2006, p. 82).

A definição de enunciação de Benveniste coloca no centro o locutor, do qual a enunciação deriva, este locutor é entendido como o que toma a língua como instrumento, o que se marca em caracteres linguísticos. Para a compreensão da escravidão, o locutor e o funcionamento da língua são fundamentais, mas não os compreenderemos exatamente como em Benveniste. Pois compreender o locutor como uma centralidade pode ofuscar alguns elementos que constituem a significação da escravidão. Benveniste (2006) se propõe a definir a enunciação no quadro formal de sua realização. Tenta esboçar, no interior da língua, os caracteres formais da enunciação a partir da manifestação individual que ela atualiza (Benveniste, 2006, p. 83). E neste quadro formal: “Depois da enunciação, a língua é efetuada em uma instância de discurso, que emana de um locutor, forma sonora que atinge um ouvinte e que suscita uma outra enunciação de retorno” (Benveniste, 2006, p. 84). Esta relação discursiva é importantíssima, contudo não abordaremos a escravidão somente com uma concepção de discurso como a descrita por Benveniste, e nem mesmo de locutor. Não abordaremos o discurso, pois estamos tratando de enunciação, contudo a perspectiva de discurso que podemos associar a nosso trabalho é a da análise do discurso pechetiana, que como um de seus principais aspectos, entende discurso, a partir de Pêcheux (1969) como efeitos de sentidos entre locutores.

Na concepção de Benveniste (2006), na enunciação, a língua se acha empregada para uma certa relação com o mundo e o locutor mobiliza a língua e dela se apropria devido à sua necessidade de referir pelo discurso, e para o outro, há a possibilidade de co-referir, portanto, Benveniste (2006) assevera que “A referência é parte integrante da enunciação” (Benveniste, 2006, p. 84).

Para tratar de como é significada a escravidão, a referência pode ser explorada, mas não desta forma como o que estabelece certa relação com o mundo. Mas a referência constituída no simbólico e por meio do qual os textos são produzidos, no caso, os textos dos jornais, os textos dos sites. Benveniste (2006) considera que o ato de enunciação introduz aquele que fala em sua fala, cria-se então uma referência interna. E esta situação vai se manifestar por um jogo de formas específicas que coloca o locutor com uma relação constante

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e necessária com sua enunciação. Há, então, a emergência dos índices de pessoa, (a relação eu-tu) que se produz na e pela enunciação. E os pronomes pessoais, demonstrativos, constituem “indivíduos linguísticos” (Benveniste, 2006, p. 85) que nascem da enunciação, são constituídos por este acontecimento individual.

Aqui, outra diferença com diversos reflexos teóricos entre o conceito de acontecimento de Benveniste e de Guimarães. Se para Benveniste o acontecimento é um ato individual do locutor que se apropria da língua numa situação, para Guimarães, o acontecimento é enunciativo, é elemento fundamental de seu conceito de enunciação o qual se dá por acontecimentos enunciativos que se constituem da língua, do sujeito, das temporalidades e do real. Embora reconheçamos a importância da noção de acontecimento em Benveniste, trabalharemos com a noção de Guimarães. Em relação ao jornal O Abolicionista, o temos como um acontecimento enunciativo, sua publicação inscreve dizeres possíveis no espaço de enunciação da vigência legal da escravidão, no Brasil, pois acena para a temporalidade presente em 1880 da vigência da escravidão, ao mesmo tempo, que traz o memorável de sua não existência no Brasil, e apresenta a futuridade da abolição. Vejamos o título do jornal:

Recorte 2

(O Abolicionista, Rio de Janeiro, 1 de novembro de 1880, p. 1)

Ter o nome O Abolicionista inscreve o jornal na história dos dizeres sobre a

escravidão e constitui seu sentido em relações simbólicas e constitui sujeito, o locutor

abolicionista; o subtítulo “Órgão da sociedade brasileira contra a escravidão” constitui os integrantes dessa sociedade abolicionista, mas não são sujeitos que se apropriam da língua, são sujeitos constituídos por ela. Uma língua que tem um real, uma memória de dizer, que regula o fato de existir jornal, de existir sociedades especificadas no português brasileiro, de existir o nome escravidão e divisões na língua: dizeres da não escravidão, dos defensores da escravidão, dos contra a escravidão. Além de constituir o locutor abolicionista também

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constitui o alocutário leitor do jornal, e também os favoráveis à escravidão e os escravizados. São dizeres que ao invés de fazer uma relação com o mundo, constituem o mundo nas relações simbólicas da língua.

Ao conceber a enunciação engendrada por acontecimentos enunciativos concebidos desta forma, Guimarães (2005c) valoriza a língua e em parte age como em Benveniste (2006), mas desfaz a noção de um ego tido como centro da enunciação e sua ligação com as formas temporais, consequentemente, com sua regência da temporalidade. Em Benveniste (2006) o tempo fundamental é o presente, cuja forma coincide com o momento da enunciação. A temporalidade é produzida na e pela enunciação. O presente é considerado a origem do tempo.

Já para Guimarães (2005c), no acontecimento enunciativo, há um jogo de temporalidades, em que o acontecimento significa pela relação com o passado, a memória de sentidos, o memorável que todo acontecimento traz a tona, assim como apresenta uma latência de futuro.

Para Benveniste (2006), o que, em geral, caracteriza a enunciação é a acentuação da relação discursiva com o parceiro, seja este real ou imaginado, individual ou coletivo. Isto expõe o quadro figurativo da enunciação. Consideramos que há relação discursiva com o parceiro, na enunciação, e Guimarães (2005c) embora não fale de relação discursiva fala de cena enunciativa. Algumas das diferenças estão na forma de conceber o parceiro, o locutor, o discurso e a enunciação. Vejamos como se dá a relação eu-tu, para Benveniste e Guimarães, por meio dos conceitos de subjetividade e de sujeito.

1.2. A subjetividade em Benveniste: o locutor como consciência por contraste.

Nosso objetivo é mostrar como Benveniste caracteriza a subjetividade, como consciência por contraste, e introduzir a complexidade com que a semântica aborda a questão do sujeito. Segundo Benveniste, a enunciação, como forma de discurso, coloca duas “figuras” igualmente necessárias, uma, origem, a outra, fim da enunciação. É a estrutura do diálogo. Duas figuras na posição de parceiros são alternativamente protagonistas da enunciação. Estas figuras da enunciação, para Benveniste, são as subjetividades. Benveniste (2005) propõe a noção de discurso como “a linguagem posta em ação - e necessariamente entre parceiros” (Benveniste, 2005, p. 284). Para este autor, é na linguagem que o homem se constitui como