Em geral, os avaliadores fizeram pouco uso dos campos abertos às considerações gerais sobre os imóveis para comentar a forma exterior das residências e a distribuição dos cômodos. Priorizavam o “conforto”, a “higiene”, a “segurança” e a “solidez”, entre outras questões vinculadas à localização. Além disso, poucos modelos de laudos continham um item específico para avaliação da fachada ou do “tipo e aspecto do prédio”, bem como da “distribuição em planta” e “circulação”, destacando-se nesse sentido os modelos do IAPI e do IPASE. Por essas razões, a coleta de dados para formação do Banco de Dados Empreendimentos HCUrb inicialmente não contemplou tais quesitos, os quais foram cadastrados como “outras características” de forma não sistemática. Apesar da complementação da pesquisa documental realizada, com ênfase nos processos com imagens de projetos completos constantes no acervo do Grupo de Pesquisa, as evidências aqui apresentadas e discutidas não esgotam o potencial do acervo de laudos de avaliação do INSS-RN sobre esses temas. Constituem-se, antes, como uma problematização inicial.
Na maior parte dos 77 registros inventariados, a classificação das fachadas acompanhou a especificação do modelo do IPASE, que era análoga à de outros atributos qualitativos, como conservação e insolação. A essa escala de satisfação – “boa”, “sofrível” e “má” – foram incorporados outros graus intermediários – “regular”, “moderada” e “aceitável”. Em certos casos, no entanto, a observação ficava limitada à “harmonia com a vizinhança”, aspecto que sugere uma preocupação com a estética urbana como parâmetro, elencado pelo órgão, mas à qual os engenheiros, em geral, respondiam afirmativamente196. Assim, a crítica operada dentro daquele primeiro esquema de classificação (13 casos) abre mais espaço a questionamentos.
196 Essa questão era colocada explicitamente no modelo do laudo do IPASE e era a única consideração sobre o “tipo
e aspecto do prédio”, no caso da avaliação de casas já construídas. Noutros tipos de laudos, os engenheiros avaliadores replicaram esse tipo de leitura.
164 Destaca-se inicialmente que nenhuma das propostas foi considerada “má”, sendo todas no mínimo “sofríveis”. No rol das “boas fachadas” estão incluídos, à mesma época, prédios bastante distintos, inclusive exemplares sem qualquer unidade estilística ou coerência formal, como o exemplar n. 05 da Figura 44, avaliado por Wilson Miranda em 1947, o qual apresenta, todavia, linhas simples e geométricas. Em termos de referência estilística, vale observar a sequência de fachadas de n. 06 a n. 10 da Figura 44.
Com maior ou menor grau de sofisticação e ornamentos, estas se aproximam das reinterpretações a partir da arquitetura tradicional, ora marcadas pela pluralidade de elementos e referências incorporadas ao neocolonial, próximas ao “estilo missões” ou “californiano”197, ora pela evidente simplicidade, de “aspecto agradável”. As casas desse tipo avaliadas em fins da década de 1940 foram recebidas positivamente (1947-49), enquanto as vistoriadas em 1950 passaram à categoria de “aceitável” e “sofrível” (1950), segundo avaliação de Wilson Miranda. Se tais distinções reverberavam uma mudança mais ampla no gosto ou na moda fachadista de fins da década ou a preferência do técnico por detalhes específicos – de arremate das empenas e beirais, tipo de arcada, proporções e número ou tipo de elementos decorativos –, é difícil inferir.
Outras avaliações acerca de fachadas ditas “sofríveis”, por Mário Bandeira ou Rodrigo Lopes, parecem emanar, por sua vez, questões mais vinculadas à ordem compositiva, como no caso n. 2, devido à frente de aspecto comercial, ou, no exemplar n. 03 (Figura 44), à junção de elementos neocoloniais com formas geométricas conflitantes, resultando na falta de unidade e proporção evidentes. O mesmo pode-se dizer da avaliação da fachada neocolonial que José Correia Costa qualificou como “boa” em 1955, que apresenta maior coerência compositiva e estilística.
197 Para uma dis ussão so re as o dições de for ulação e disse i ação do Mission Style o Brasil o o
parte de um programa pan-americanista emanado dos Estados Unidos, com diversas matrizes de influências estilísticas livremente incorporadas, a partir do repertório tradicional ibérico, desenvolvido nas colônias, com aspectos italianizantes, entre outros, a partir do início do Século XX, cf. Fernando Atique (2007).
165
Figura 44. Avaliação das fachadas segundo graus de qualidade (1945-1963)
Exemplar n. 01. Caixa 02, pasta 11
End. Av. Rio Branco, 865, Cidade Alta
Exemplar n. 02. Caixa 67, pasta 598
Rua dos Caicós, 1235, Alecrim “Fachada regular”
Avaliador: Mário Raposo Bandeira, 1945. IAPI “Fachada sofrível” Avaliador: Mário Raposo Bandeira, 1946. IAPI Exemplar n. 3. Caixa 65, pasta 579
End. Rua Machado de Assis, 1415, Alecrim
Exemplar n. 4. Caixa 61, pasta 546
Tv. Agostinho Leitão, Alecrim “Fachada sofrível”
Avaliação Rodrigo Lopes, 1947. IAPI. “Fachada simples, aceitável” Avaliação Wilson Miranda, 1946. IAPI Exemplar n. 5. Caixa 67, pasta 599
End. Rua professor zuza,nº 256, C. Alta
Exemplar n. 6. Caixa 57, pasta 506
- End. Rua Olinto Meira, S/N, Alecrim
“Fachada Boa”
Avaliador: Wilson Miranda, 1947. IAPI.
“Fachada Boa”
Avaliador: Wilson Miranda, 1947. IAPI.
166
Figura 44. Avaliação das fachadas segundo graus de qualidade (1945-1963) - continuação
Exemplar n. 07. Caixa 28, pasta 266.
End. Rua Ceará Mirin, nº 288, Cidade Alta
“Aspecto exterior agradável”. Avaliador: Wilson de Oliveira Miranda, 1949. IAPB Exemplar n. 08. Caixa 37, pastas 332-333
End.: Rua Joaquim Fabrício, Petrópolis
Exemplar n. 09. Caixa 17, pastas 158 e 159
End.: Rua Ceará Mirim, 698, Tirol “Fachada boa”
Avaliação: Wilson Miranda, 1949. IAPB
“Fachada aceitável”
Avaliador: Wilson Miranda, 1950. IAPB Exemplar n. 10. Caixa 44, pasta 396
End.: Rua Assú, 708, Tirol.
“Fachada sofrível”. Avaliador: Wilson de Oliveira Miranda, 1950. IAPB
167
Figura 44. Avaliação das fachadas segundo graus de qualidade (1945-1963) - continuação
Exemplar n. 11. Caixa 31, pasta 290
End.: Rua Jundiaí, s/n, Tirol.
Exemplar n. 12. Caixa 32, pasta 299.
End. Avenida Hermes da Fonseca s/n, Tirol. “Tipo e aspecto bom”
Avaliação: José Correia Costa, 1955. IPASE “Fachada Boa” Avaliação: Nilson Rocha de Oliveira, 1952. IAPI. Exemplar n. 13. Caixa 25, pastas 235 e 236
Rua Jaguarari, n. 1403, Alecrim.
“Fachada moderada”. Avaliação: Wilson de Oliveira Miranda, 1963. IAPB.
Fonte: Acervo Digital do HCURB referente aos processos do INSS das pastas e caixas assinaladas.
Outro tipo de rótulo foi sistematicamente utilizado por Wilson Miranda e Rodrigo Lopes para qualificar a fachada de casas de baixo padrão, com uma porta e janela de frente e erguidas sobre o alinhamento da rua, mesmo quando incluíam certa elaboração ornamental, como frisos ou molduras em relevo (Figura 45). Nem boas, nem más, essas fachadas eram “simples”, “pobres”, “modestas”, “comuns”, vistas como um retrato das contingências econômicas a que sua produção estava condicionada198.
198 Essa leitura foi identificada primordialmente nos laudos do IAPI, órgão cujo laudo delimitava um campo aberto
168
Figura 45. Avaliação de fachadas do Alecrim por meio do IAPI entre 1946 e 1947
Wilson de Oliveira Miranda Caixa 64, pasta 574
R. Alípio Bandeira, 67
Caixa 61, pasta 546
Tv. Agostinho Leitão
Caixa 45, pasta 407
Rua dos Paianazes, 1564 “Em harmonia com as casas
vizinhas, do mesmo tipo, simples de taipa” (1946).
“Simples, aceitável” (1946) “Pobre com hierarquias” (1947).
Rodrigo Lopes (1947) Caixa 68, pasta 602 Vila Gomes Caixa 2, pasta 13 Vila Regis Caixa 30, pasta 277 Rua Soledade “Simples e modesta” “Fachada simples” “Fachada simples”
Fonte: Acervo Digital do HCURB referente aos processos do INSS das pastas e caixas assinaladas.
Outra categoria estranha à escala inicialmente apresentada indicava tão somente que a fachada – ou a construção de maneira geral – era de “tipo”, “estilo” ou “aspecto” “moderno”. Esse termo era então empregado no sentido de atual, contemporâneo. Tal postura poderia expressar, por um lado, certa omissão sobre a qualidade do desenho, ou, por outro, a tendência de se identificar o que está “na moda” como bom a priori, e independentemente de suas características intrínsecas. As fachadas reunidas sob esta designação tanto apresentam elementos do repertório formal Art Déco, como do tipo chalé ou bangalô, que decantavam referências diversificadas do chamado “neocolonial” combinado ao “missões” – já comentado –, sobretudo em fins dos anos 1940, até
169 aqueles que apontavam claramente para a apropriação do léxico modernista199, no início dos anos 1950. Mesmo com a chegada dos anos 1960, identifica-se, no entanto, o reconhecimento de edifícios mais próximos à leitura do Art Déco como “modernos” (Figura 46).
Figura 46. Fachadas “modernas” segundo avaliações imobiliárias de 1946-1961
Caixa 69, pasta 614
R. Auta de Souza, 275, Cidade Alta
Caixa 26, pasta 249
R. Prudente de Morais, 614, Tirol “Fachada moderna, simpática”
Avaliação: José Ribeiro da Silva, 1946. IAPI “Fachada moderna” Avaliação: Wilson Miranda, 1946. IAPI Caixa 65, pasta 582.
Rua Sul, 154, Ribeira
“Estilo do prédio: moderno”
Avaliação: Gentil Ferreira, 1947. IAPC.
Fonte: Acervo Digital do HCURB referente aos processos do INSS das pastas e caixas assinaladas.
199 A expressão “estilo funcional”, utilizada para nomear popularmente esta tendência, fazia-se mais presente nos
processos em documentos cartoriais, como minutas e escrituras de compra e venda, ou certidões de averbação de imóvel.
170
Figura 46. Fachadas “modernas” segundo avaliações imobiliárias de 1946-1961 - continuação
Caixa 01, pasta 08
Rua Campos Sales, S/N, Tirol.
Caixa 08, pasta 81
Rua Presidente Quaresma, n. 719, Alecrim “prédio em estilo moderno”, “fachada
boa” Avaliação: Wilson Miranda, 1952. IAPI.
“Moderna, de platibanda”
Avaliação: Moacyr Maia, 1955. IPASE Caixa 42, pasta 382
“Fachada Moderna”
Avaliação: Milson Dantas, 1961. IPASE
Fonte: Acervo Digital do HCURB referente aos processos do INSS das pastas e caixas assinaladas. Ainda que se considere a limitação dos avaliadores em se expressar mais livremente pelo teor e objetividade dos laudos, esse quadro – obviamente fragmentado – parece delinear uma tímida inserção dos profissionais no escopo do debate especializado do campo da arquitetura à época. Neste, ganhava corpo a crítica aos “estilos” ditos historicistas em prol da defesa de uma “Nova Arquitetura”, pautada nas premissas éticas e estéticas do Movimento Moderno desenvolvido – por diferentes caminhos – entre os profissionais brasileiros, e que fizera sua primeira aparição na capital potiguar ainda nos anos 1930, e, de maneira mais corrente, a partir dos anos 1950. Nesse sentido também indica a denominação “estilo moderno cúbico” pelo avaliador Sebastião Medeiros, em 1947, a uma obra que não tinha qualquer traço do chamado “estilo funcional”, nem as linhas geometrizantes mais próximas ao Art Déco, que poderiam justificar o termo. Num momento em que diversas linguagens em disputa configuravam um quadro mais plural, essa
171 avaliação constitui um indício do distanciamento entre o repertório desse engenheiro, pelo menos, e o discurso renovador no campo das vanguardas na arquitetura (Figura 47).
Figura 47. Prédio avaliado como de “estilo moderno cúbico” para o IAPC, 1947
Fonte: Acervo Digital do HCUrb referente ao processo do INSS, caixa 27, pasta 254.
As várias tendências formais identificadas quase que concomitantemente como “modernas” reforçam, no entanto, a perspectiva de que eram vistas como parte de um conjunto de respostas contemporâneas ao problema da arquitetura residencial. Vale, nesse sentido, salientar que os exemplares elencados se aproximavam, não obstante, pela economia e sobriedade de ornamentação, tipo de implantação e presença de elementos como terraços sob arcadas. Supõe-se que estes recursos, apesar de integrantes do repertório eclético, representavam, em versões mais sóbrias, ar novidadeiro face a outras tipologias, remanescentes no espaço urbano e reproduzidas nos setores mais pobres, nas casas “comuns” e “simples” anteriormente identificadas.
Avaliador dos institutos a partir dos anos 1960, quando já havia uma produção modernista mais consolidada na cidade, o Dr. Kleber de Carvalho Bezerra exprimiu postura semelhante em entrevista realizada para o projeto de pesquisa. Ao ser questionado sobre as casas modernas do período em que exercia avaliações imobiliárias, afirmou:
(...) Eu confesso a você que eu nunca me interessei muito pela arquitetura, talvez eu tenha vindo me interessar mais depois de engenheiro. Nunca fui muito detalhista, não me interessava. Dentro da arquitetura, o que eu achava era se era bonito ou não era bonito, na minha opinião.200
172 A questão é colocada em termos de juízo de gosto, em princípio, particular, mas que reverbera certamente acepções partilhadas coletivamente. Ao comparar casas do período assinadas pelo mesmo projetista – Arialdo Pinho, conhecido renovador da arquitetura local –, uma que considerava bonita e outra não, acrescentou: “depende de certas coisas. (...) Talvez o terreno e o nível da construção”. Sobre a casa que considerava melhor, disse ainda: “Era outro [estilo], mas não tão diferente, porque cada arquiteto desse tem um estilo próprio dele (...), mas era uma casa muito maior, (...) de primeiro andar, uma casa ampla, com um terraço grande na frente”. Para além das semelhanças, 201inferidas no tal “estilo próprio”, sobressai uma noção de beleza referenciada no porte, na relação com o terreno e no padrão construtivo.
Nessa leitura, os “detalhes”, associados ao campo de interesses específicos da arquitetura, tinham pouca importância, prevalecendo o que, para ele, era o essencial. O engenheiro articula um discurso que, de certa forma, se aproxima daquele que ancorava as tendências renovadoras da própria arquitetura, em seu combate ao supérfluo. Além disso, o Dr. Kleber menciona um elemento importante do repertório modernista residencial em processo de apropriação e difusão à época, os amplos terraços de frente, abertos para a rua. Reconhece, ainda, um salto de qualidade com a chegada dos arquitetos eminentemente modernistas, Moacyr Gomes, João Maurício Miranda, Daniel Holanda, Ubirajara Galvão e Manoel Coelho da Silva, responsáveis por trazer “mais de perto a arquitetura para Natal”.202
No que dizia respeito às plantas, a distribuição “má” aplica-se a casos muito específicos, julgados entre 1947 e 1948, por Rodrigo Lopes. Eram moradias sem recuos frontal ou lateral, com uma sala de frente, um único quarto sem abertura exterior, passagem lateral e sala de jantar com cozinha e/ou varanda de fundos (Figura 48). As demais configurações inventariadas foram então tidas como “boas” ou, no mínimo, “regulares” e “sofríveis”. Não são, todavia, evidentes as características que distinguem esses dois grupos, sobretudo em se considerando a quantidade de variáveis que poderiam influir na análise das condições de “higiene, conforto e liberdade” que as casas deveriam oferecer, conforme especificava as instruções do laudo do IPASE.
201 Em entrevista concedida à autora em 14 de abril de 2014. 202
173
Figura 48. Amostra de plantas-baixas consideradas boas ou bem distribuídas (1945-1960) Caixa 17, pasta 154
Octávio Tavares, 1945. Cidade Alta, IPASE.
Caixa 26, pasta 249
Wilson Miranda, 1946. Tirol, IAPI. Caixa 17, pastas 158 e 159
Wilson Miranda, 1950. Tirol, IAPB.
Caixa 53, pasta 470
Moacyr Maia, 1953. Tirol. IPASE. Caixa 34, pasta 310
Antônio Ramos Tejo, 1957. Alecrim. IPASE.
Caixa 52, pasta 462
Milson Dantas, 1958. Petrópolis. IPASE Caixa 17, pasta 156
Kleber Bezerra, 1960. IPASE. Tirol
Caixa 48, pasta 383
Kleber Bezerra, 1960. Tirol. IPASE.
174 Além do programa, número e dimensão dos cômodos, posição de cada peça em relação ao conjunto e forma de interligação entre os espaços, poder-se-ia considerar ainda o local, a data e o engenheiro avaliador. Apesar disso, pode-se observar que peculiaridades como a presença de salões – provavelmente comerciais –, banheiros voltados para o exterior e áreas de serviço situadas na parte frontal da casa (caso de projeto apresentado em 1952), foram restritos ao tipo classificado como “sofrível”.
A despeito da crescente tendência à criação de espaços de circulação articulando setores funcionais, a permanência de quartos abertos diretamente para as salas não interferiam na classificação positiva dada aos projetos dos anos 1950 e início dos anos 1960. No início desta última década, entretanto, as plantas consideradas “boas” já não contavam com intercomunicação entre os quartos, sugerindo que esse tipo de arranjo se tornara, mais generalizadamente, obsoleto. As pistas aqui extraídas das avaliações de imóveis no que diz respeito à visão dos técnicos sobre questões formais e funcionais da arquitetura residencial dos anos 1940 a 1960 apontam para duas conclusões. Primeiro, não há evidências de que tais profissionais estivessem alinhados, ao menos num primeiro momento, à “causa” modernista de maneira mais programática. Ao contrário, reconheciam valores nas expressões arquitetônicas que lhes eram concorrentes, contemporâneas ou simplesmente habituais no cenário da construção à época – julgando-as “boas”, “simpáticas”, “agradáveis”, “modernas”. Entretanto, parece também importante considerar que, em linhas gerais, esses profissionais aprovavam a tendência de simplificação e desnudamento ornamental que ganhava espaço com a desvalorização dos elementos decorativos “supérfluos” e a emergência de noções de conforto cada vez mais vinculadas às inovações técnicas, à higiene, à privacidade e à segurança – das estruturas e das instalações –, qualidade de acabamento e facilidade de manutenção do prédio; valores esses de que estavam impregnadas as fichas de avaliação imobiliária.
Há de se ponderar que essas considerações – limitadas ao universo de fragmentos colhidos num pequeno conjunto de laudos –, não são necessariamente representativas das acepções particulares dos indivíduos encarregados, em diferentes momentos e contextos, de proceder essas avaliações. Como foi possível averiguar, havia dissonâncias entre os técnicos, como as que se evidenciavam na comparação entre as avaliações de Rodrigo Lopes e Wilson Miranda entre 1946 e 1947.
Além disso, parte dos engenheiros mencionados casualmente foram autores de um número reduzido de laudos pesquisados, datados de um período específico, à medida que outros são
175 signatários de uma quantidade maior de documentos, elaborados ao longo de um período mais longo. É preciso reconhecer, portanto, que a amostra dá pistas, mas não permite generalizações acerca das experiências de vida, das concepções e ideias com que se familiarizaram, como e com que tipo de interesses, sobretudo em se considerando a multiplicidade de posições que ocuparam dentro do campo profissional, as redes de relações sociais no qual se inseriram, as especificidades de formação e suas origens familiares. Sem tencionar adentrar a seara das biografias ou trajetórias profissionais, apresenta-se, no item seguinte, os resultados de uma pesquisa exploratória acerca desses agentes, que visa, sobretudo, apontar elementos para investigações futuras.
5.4 OS ENGENHEIROS AVALIADORES
Como bem apontara o engenheiro-arquiteto Rubens Porto (1938), o problema da aplicação das reservas dos institutos na moradia também perpassava a atuação de profissionais capacitados para fiscalizar, vistoriar e avaliar as edificações construídas ou a construir como patrimônio da Previdência Social. Por todas as cidades onde os institutos atuaram de forma mais sistemática, foi necessário formar a rede de técnicos aptos a exercerem essas atividades. Em Natal, identificou-se 24 nomes, a partir do Banco de Dados do HCUrb, relacionados por ordem cronológica dos registros no Quadro 04. Nesse item buscou-se esboçar, em linhas gerais, a inserção desses personagens no campo profissional da engenharia, em constituição na cidade de Natal à época, pontuando traços relativos à origem e formação, de modo traçar um perfil do grupo. Vale salientar que não foram encontrados estudos específicos sobre essas figuras, mesmo as que tiveram maior projeção política na historiografia local. Evidencia-se que ocupavam, em geral, espaços privilegiados tanto no serviço público como no empreendimento privado.
Pelo vulto da produção, destaca-se Wilson Miranda como principal avaliador, responsável por 43% dos laudos inventariados. Ele foi também o único cuja atuação se deu ao longo de todo o período estudado. Evidencia-se ainda a contribuição de outros 10 profissionais, os quais parecem ter se dedicado à atividade em espaços temporais mais curtos ou esporadicamente. Eram engenheiros civis que desempenhavam outras funções principais e, em paralelo, prestavam assistência técnica aos processos prediais das instituições de previdência, como se pode ver a partir do Quadro 05, no qual estão sistematizados os dados gerais levantados sobre cada profissional.
176
Quadro 4. Avaliadores de Imóveis dos institutos e caixas de previdência (1944-1977)
Profissionais Data dos registros Nº Ano
principal Inicial Final
Octávio Tavares 13/11/1944 03/05/1948 16 1947
Mário Raposo Bandeira 26/07/1945 16/12/1946 10 1946
Wilson de Oliveira Miranda 29/08/1945 19/06/1969 159
Rudol Langes* 29/09/1945 30/09/1945 1 1945
José Ribeiro da Silva* 09/08/1946 27/08/1946 2 1946
José Alves Ferreira* 23/08/1946 24/08/1946 1 1946
Rodrigo Lopes 04/03/1947 17/10/1947 18 1947
Sebastião Medeiros 06/10/1947 20/04/1950 4 1949
Gentil Ferreira de Souza 21/12/1947 31/08/1952 13 1950
Luiz Noya Volfzon 17/06/1949 05/10/1950 16 1950
Moacyr Maia 22/07/1949 10/03/1955 32 1953
Ivan Gonçalves 05/12/1951 05/12/1951 1 1951
Nilson Rocha de Oliveira 18/07/1952 03/02/1963 6 1952-53 Carlos Cabral de Andrade 29/10/1952 03/09/1953 4
Fernando Cysneiros 12/03/1953 12/03/1953 1 1953
José Antomar Ferreira de Souza 18/04/1955 12/11/1958 3
José Correia Costa 11/05/1955 27/08/1956 12 1955
Edilson Medeiros da Fonseca 25/07/1955 30/08/1955 2 1955
Antônio Ramos Tejo 27/11/1956 21/06/1960 8 1957
Milson Dantas 30/11/1956 02/02/1961 18 1958
Milton Dantas de Medeiros 15/10/1957 06/08/1959 4 Kleber de Carvalho Bezerra 29/07/1960 15/02/1973 36 Cícero Marques de Figueiredo* 22/04/1977 22/04/1977 1
Marcelo Cabral de Andrade SI SI 1
Total** 13/11/1944 22/04/1977 369
* Profissionais de formação não identificada. Os demais são engenheiros.
** Em 19 registros no Banco de Dados, embora não constassem informações do laudo, foi possível identificar o