Durante a pesquisa de campo, me dispus ir ao presídio por cinco quartas-feiras para observar como é a vida da Instituição num dia de visita. Em todas elas me acomodei no saguão de entrada o qual me possibilitou um panorama privilegiado, pois ao sentar-me próximo à mesa onde fica o chefe de segurança pude ter uma visão do portão de entrada, do saguão, do jardim que vai em direção à cozinha e principalmente uma visão privilegiada da sala de revista onde as agentes femininas estão dispostas lado a lado para averiguar tudo o que as visitantes levam consigo. Durante todas as minhas visitas de observação mantive os olhos e os ouvidos bem atentos, já que este é um lugar onde se fala pouco, ouve-se tudo, vê e observa- se tudo, regra aprendida com os apenados durante as entrevistas de campo e que muito me ajudou durante toda a minha pesquisa de campo.
As quartas-feiras é o dia da visita íntima, onde as respectivas esposas, companheiras ou namoradas dos apenados, devidamente cadastradas vão visitá-los. Não é permitida a entrada de menores de dezesseis anos, salvo se for casada com o recluso visitado. O horário de visita é das 8:00 hs da manhã até as 16:00, sendo permitido entrar ou sair em qualquer momento, desde que seja apenas uma vez e que a visitante esteja dentro desse respectivo horário. Não existe um local diferenciado para a visita íntima, a mesma é feita na própria cela do apenado, ou seja, cada apenado faz da sua cama uma “cabana” envolvendo-a na parte de cima e nas laterais com lençóis e cobertores de forma que ao sentar-se ou deitar-se na cama ninguém possa vê-lo. Assim, a visita é recebida. Os colegas de cela que não recebem visita não podem permanecer e nem entrar na cela durante o horário de visita, ficam nos respectivos corredores dos pavilhões até o término desta. Isso também vale para as visitas aos domingos, dia de visita familiar.
A movimentação de entrada e saída acontece no decorrer de todo o dia, sendo mais concentrada na parte da manhã, pois normalmente as visitantes levam o almoço para os seus companheiros, o qual é permitido pela instituição e revistado pelas agentes femininas. Na parede de fronte as mesas de revista têm dois cartazes que diz:
Quarta-feira
– Somente o almoço e 2 litros de refrigerante
– Obs: a partir do dia 27 de maio de 2009 está liberada a entrada de verduras em pequena quantidade.
Existem algumas regras que devem ser cumpridas a risca para adentrar a Instituição, principalmente nos dias de visita. As visitantes não podem entrar com blusas de alça, mini saia, shorts, sapatos escuros, tênis, sapatos fechados ou sapatos de salto tipo plataforma. Quanto à exigência das roupas é uma medida para evitar atentado contra os bons costumes, vindo principalmente daqueles apenados que não recebem visitas, porém, existem as regras específicas criadas por eles que devem ser respeitadas como é o caso da regra de conduta em relação às visitas de outrem, os que ousam desobedecê-las após o término da visita “as contas” serão acertadas. Em relação ao tipo de calçado permitido é recomendável que seja chinelos tipo havaianas ou sandálias tipo rasteiras desde que não sejam pretos, esses cuidados são para evitar que objetos sejam colocados ou escondidos nos solados dos sapatos ou na parte interior destes.
As mulheres que adentram a instituição compreendem as mais variadas faixa etária, casadas ou não, grávidas ou não algumas comparecem assiduidamente todas as quartas-feiras. As suas características pessoais simples e humildes denunciam a classe social da qual pertencem. Pude observar que o tratamento dispensado a elas nem sempre é cordial principalmente por parte dos agentes masculinos os quais normalmente abrem o portão para que elas possam entrar ou sair, já as agentes femininas mesmo as mais sérias não as tratam com tanto desdém. Como dito anteriormente, as visitantes podem ficar quanto tempo quiserem desde que estejam dentro do horário permitido. Às 15h30min toca-se a sirene, um barulho ensurdecedor, este é para alertar que o horário de visita está próximo ao seu término, às 15h45min mais uma vez a sirene é tocada, ou seja, restam apenas quinze minutos de visita e finalmente as 16:00 horas a sirene é tocada pela última vez, sinal de que a visita acabou.
Pude observar durante a saída das visitantes que ao irem embora as expressões faciais são as mais variadas possíveis, umas saem alegres e sorrindo, outras chorando, algumas expressando uma feição triste, outras com ar de preocupação e algumas ainda com ares de normalidade ou cara de paisagem. É muito comum as mulheres saírem com os seus cabelos
molhados, subtende-se que tomaram banho sozinha ou com o seu companheiro. Diante da especificidade da visita é algo muito normal, porém, pude observar que dentre alguns agentes masculinos essa observação é passiva de piadinhas entre eles e falta de respeito para com as mulheres, devido os comentários serem depreciativos e os olhares dispensados a elas serem debochados e insinuosos. Existe uma falta de respeito muito grande, principalmente porque a maioria delas são mulheres casadas e mãe de família, porém, para eles pelo fato do companheiro ser um apenado eles acham que elas não devem ser tratadas com dignidade e com respeito. Esta situação evidencia o quanto o estigma de presidiário se estende também à família do apenado, inclusive aos filhos que vão à visita do domingo.