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“Antes de tudo, algo vivo quer dar vazão à sua força” (NIETZSCHE, 2008, p. 330).

Eis aí, nesta força primeira, a vontade de poder.

Nietzsche chamou de vontade de poder à força de afirmação da vida em todo o seu esplendor. Tal força é um fluxo intenso de energia que estimula a vontade de agir, através da força e da coragem de aprender (NIETZSCHE, 2003).

A força de afirmação da vida é um pressuposto fisiológico para Nietzsche. Esta força irrompe nos músculos, nos nervos, nos centros do movimento, afirmando a vontade de viver. Sem o fluxo desta potência vital o sujeito não se torna o que é (NIETZSCHE, 2003; 2008).

A vontade de poder, por sua potência lúdica, é o que leva o sujeito a se reinventar constantemente e se afirmar enquanto criador. Quem potencializa a voz desta vontade no exercício de constituir a si mesmo abre caminho para um movimento experimental de criação de si que, em última análise, é um movimento irredutível a qualquer sujeito (NIETZSCHE, 2003).

O movimento experimental de criação de si é o jogo de criação gerado pela potência vital do corpo. Este jogo de criação só é possível devido à sua força de afirmação, que vem a sustentar um exercício experimental de construção de si guiado pelo prazer e, porque não, pela ousadia, de se autocriar (NIETZSCHE, 2003).

Somos todos mobilizados por este movimento de criação de si, sem o qual não nos tornamos sujeitos. A diferença está no grau de permissão que atribuímos a esta potência vital e primeira, tão comumente entorpecida pelos imperativos morais e políticos que tentam ofuscar esta vontade criadora, em função de domínios outros que nada dizem ao corpo – ou seja, à sua fisiologia – mas agem em seu silenciamento.

2.1. A força do silenciamento: uma potência contra a vida

Na obra Genealogia da Moral (1998), Nietzsche chama este silenciamento de renúncia de si e justifica a adesão dos homens a este movimento entorpecente na oposição entre dois domínios: o psicológico-moral e o fisiológico.

O primeiro é formado por dois domínios: o psicológico e o moral. Enquanto o domínio moral estende sobre os indivíduos um conjunto colossal de valores e regras que formam um sistema de estimações que diz respeito às “condições de vida de um ser” (NIETZSCHE, 2008, p. 153), o domínio psicológico garante a subserviência do ser a estas estimações – imperativos morais. Para sustentar seus domínios, a psicologia opera uma espécie de “emparedamento por temor” (NIETZSCHE, 2008, p. 170). O principal operador do domínio psicológico-moral, na

leitura de Nietzsche (1998), é a religião.

Quando se condiciona a existência sob o domínio psicológico-moral provoca-se uma obstrução fisiológica que impede (ou melhor, dificulta) o reconhecimento das forças criadoras do homem. Tal sentimento de obstrução é hipnotizador e reduz o sentimento vital – que vigora no domínio fisiológico – a seu nível mais baixo.

Como efeito, o indivíduo abre mão de si para se enquadrar como unidade anônima na comunidade. A condição de sua existência, sob a malha gregária – que o ata ao outro passando por cima de si – precisa fazer valer esta renúncia de si, sem a qual não se instala o domínio psicológico-moral.

A renúncia contra os mais fundamentais pressupostos da vida não é promovida sem um rigoroso treinamento, que visa amortecer as sensibilidades, em função de uma atividade maquinal reguladora dos modos de vida. A este rigoroso treinamento, que investe contra a vida, Nietzsche chamou de ideal ascético. Sem a operacionalização deste ideal no âmbito social, não seria possível sustentar a rebelião do domínio psicológico-moral contra o domínio fisiológico (NIETZSCHE, 1998).

O entorpecimento do homem é o resultado desta rebelião contra a vida. A força dominante deste entorpecimento é tal que o homem acaba por acreditar que nenhuma força criadora resta em seu ser próprio. Mas será que o homem acredita de fato nesta ausência da força criadora em si?

Nietzsche insiste: “possuímos em nós uma descomunal massa de força latente”

psicológico-moral aposta na passividade do homem, para poder se erigir, indolente, sobre ele. Ora, esta aposta é também uma vontade de poder, mas ela está longe de afirmar a vida (os imperativos fisiológicos), antes disto procura por discípulos crentes que escorem suas vidas miseráveis na ordem devida por ela instalada.

Para fugir desta aposta que deprime a vida é preciso olhar para além dos parâmetros que comumente conseguimos enxergar sob o foco do olhar entorpecido. Porém, esta ousadia não se faz gratuitamente, é preciso uma boa dose de coragem e curiosidade, sem as quais não se arranca tudo aquilo que impede a afirmação da vida. Pela busca desta coragem Nietzsche vocifera: “que se devolva ao homem a coragem para os seus impulsos naturais”

(NIETZSCHE, 2008, p. 87).

O homem corajoso pergunta: “o que se pode?” E só então, atento à potência que dele

emerge, aceita se perguntar: “o que se deve?”(NIETZSCHE, 2008, p. 87). Assim, o homem

que ousa dar ouvidos à sua vontade de poder encontra a real medida do dever na expressão de sua vontade.

2.2. A vontade de poder como vida

A vontade de poder é a vontade de sempre mais: “é essencial um ansiar por mais poder” (NIETZSCHE, 2008, p. 350). Nesta ânsia por mais poder se luta para se alcançar o

possível e ir além daquilo que é atual.

Por sua natureza, a vontade de poder aponta para uma vontade de ultrapassagem: “em

todo vivente pode mostrar-se claramente que ele tudo faz para não se conservar, mas sim se tornar mais” (NIETZSCHE, 2008, p. 349).

Esta vontade de ultrapassagem, este “poder-ser-de-um-outro-modo” (NIETZSCHE, 2008, p. 195), é um esforço de superação, sem o qual o indivíduo não afirma sua vontade de existir. A noção de vida como um constante vir a ser, em Nietzsche, surge desta concepção da vontade de poder: “imprimir no devir o caráter de ser – essa é a mais elevada vontade de poder” (2008, p. 316).

A vida como vontade de poder é compreendida como vontade de durar, de crescer, de entender e intensificar a vida: “ter e querer ter mais, crescimento, em uma palavra – isso é a própria vida” (NIETZSCHE, 2008, p. 88).

Em Assim Falou Zaratustra (2007), Nietzsche coloca esta relação entre vida e vontade de poder ao pontuar que só há vontade onde há vida. Ora, a vida é o campo, no qual a vontade germina, mas não seria o corpo o solo, onde a vida inscreve seu viver? Se assim for, não há vontade de poder sem o solo fértil que a acolhe e a impele ao broto: a vida.

A vontade de poder não pode perder de vista a vida. O ponto de partida da vontade de poder é o corpo e a fisiologia. Só deste ponto “ganhamos a correta representação da espécie

de nosso sujeito-unidade [...]. Com esta representação entendemos como surgem e perecem continuamente unidades e como não cabe eternidade ao sujeito” (NIETZSCHE, 2008, pp.

263-264).

A vontade de poder, portanto, assegura a força de criação do homem, mas, ao mesmo tempo, o alerta de sua finitude. Justamente por saber de sua essência finita a vontade de poder quer ir avante, apropriando-se do que encontra pelo caminho, não para fortalecer-se imperiosa e indolente, mas para intensificar a vida (NIETZSCHE, 2008).

Ao se apropriar do que encontra pelo caminho, o indivíduo cria e recria para si seus modos de ser. O corpo é o solo fértil onde esta lúdica criação se movimenta. Sendo assim, o corpo em movimento dá testemunhos da potência de invenção de si.

Ora, se é o corpo em movimento que coloca-nos em contato com o poder de criação em nós, cabe uma verificação mais atenta deste movimento. Para tanto, reclamamos pela imersão da teoria na experiência de movimento.