O segundo valor identificado como participante da cultura organizacional do restaurante Dalí Cocina é o trabalho(associado aos seus componentes: prazer, reconhecimento,disposição e propriedade, aqui destacados pelas declarações dos entrevistados): ações proativas estão presentese evidenciadas nas expressões ou palavras da sua proprietária, também confirmadas pelas observações não participantes. Esses aspectos culturais, em destaque, podem ser vistos por meio da Figura 9.
Figura 9– Categorias, indicadores e unidades de registro: valor do trabalho.
Categorias Indicadores Unidades de registro
Cultura organizacional
Valor das pessoas
Confiança Oportunidade
Qualificação Respeito
Valor do trabalho Reconhecimento Prazer Disposição Propriedade Valor da qualidade Controle Disposição Ética Treinamento experiencial
Valor das pessoas
Confiança Oportunidade
Qualificação Respeito
Valor do trabalho Reconhecimento Prazer Disposição Propriedade
Valor da qualidade Controle
Disposição Ética Fonte: dados da pesquisa, 2014.
As declarações da proprietária estão apresentadas, a seguir:
...É ter o sorriso no rosto... (sic-P1).
Abordar a temática do prazer no contexto organizacional significa, principalmente, discutir questões que são muito importantes dentro da organização e que estão diretamente relacionadas com o seu nível de eficiência e eficácia. Esse sorriso no rosto pode ser traduzido a relação de satisfação em estar participando e contribuindo com o crescimento daquela organização. Era comum perceber nas vezes em que o pesquisador foi ao restaurante que durante o serviço dos garçons, estes estavam sempre bem humorados e recepetivos aos seus clientes e colegas de trabalho. Vale ressaltar que a relação entre proprietária e empregados do Dalí é bastante positiva.
Isto fica mais evidente, quando perguntados, em entrevista, referente ao o que os fazia estar ali, se o salário não era muito diferente da maioria das outras organizações do mesmo segmento e muitos responderam que a satisfação de trabalhar naquele modelo de gestão era
prazeroso. A esta afirmação, some-se o pensamento de Schutz (1974),ao conceituar o prazer como um sentimento que provém da realização do potencial do trabalhador. Já Dejours (1993) entende que a atividade profissional não é só um meio de ganhar a vida, mas também uma forma de inserção social, em que aspectos psíquicos e físicos estão fortemente implicados. Dessa maneira, pode-se afirmar que a teoria de Schein (2009) quanto aos níveis de cultura estão presentes nesta organização ao que se refere ao valor prazer no trabalho, oriundo da proprietária do Dalí.
...reconheço uma boa ação profissionale valorizo verbalmente o empregado... (sic- P1).
Nessa dimensão da análise do valor trabalho, sequencialmente ao prazer vem o valor reconhecimento pelo trabalho desempenhado. A história da organização, ou do seu desenvolvimento tem muito a ver com este valor, pois é ele que retém comumente os atores no restaurante. O ato de elogiar da proprietária faz/fez com que muitos empregados sintam-se importantes e tenham a concepção de colaborarem nesse desenvolvimento, atingindo a satisfação de desenvolver sua função e a consciência de fazer parte de um grupo. Schein(2009) afirma que este é um dos princípios da Cultura organizacional, ou seja, o pertencimento de um grupo e o reconhecimento pelo líder faz com que o empregado tenha esse senso de admissão. Os entrevistados relacionam o reconhecimento do trabalho desenvolvido ao prazer.
...daí eu tinha a auxiliar que tomou a cozinha pra ela e foi fazendo tudo... (P1). [...] quando não tem a stuard quem lava os materiais são os garçons e quemlava o material da cozinha é o pessoal da cozinha mais um menino que também é cumin e está de quinta a domingo, que são os dias mais movimentados (sic-P1).
Na minha concepção, um cara só porque é gerente não possa pegar numa
bandeja? Ou limpar uma mesa?... (sic-P1).
Eu sei que ele é competente porque eu via ele (sic-P1) trabalhando e ainda mais, ele
se esforça mais do que seria as obrigações dele.
...sempre solícito entendeu? (P1).
Pelo que se percebeu, a proprietária valoriza a ação e o trabalho dos profissionais, bem como a proatividade deles.
A cultura organizacional do Dalí é um reflexo de sua proprietária, consequentemente de sua história, tal qual descrito e registrado na metodologia desta pesquisa. Ambas misturam-se de modo híbrido. Porém, perceber durante o momento da coleta de dados pela observação não participante é motivador a quem estuda a temática da cultura de organizações gastronômica.
Afinal, não é todo dia que se vê a proprietária de um restaurante limpando um chão de um estabelecimento destinado ao público da classe média. No Dalí, o pesquisador deparou-se com a proprietária executando funções que iam desde a limpeza de um chão, passando pela entrega de modo delivery, mesmo esta estando sem carro e oportunizando a satisfação do cliente em tempo record, deixando de lucrar, pois teve de pagar taxi e o custo saiu muito mais alto que o valor do produto/prato vendido. Essas ações refletem e são copiadas pelos empregados, ao desenvolverem mais do que sua própria função e entenderem, respeitando o espaço do funcionário regente do setor ao qual prestou auxílio. Toda essa disposição gera reconhecimento por parte da funcionária e que finaliza na satisfação e predominância da cultura do bem estar no ambiente de trabalho.
Gil (2008) reconhece que as organizações necessitam de empregados capazes de conduzi-las, de produzir bens e de prestar serviços competitivos. Para tanto, esperam-se por pessoas não apenas treinadas para a realização de suas atividades, mas muito mais que isso: que elas sejam capazes de se comprometerem, de irem além daquilo que o seu trabalho exige (SÁ; LEMOINE, 1999).
O comprometimento dos funcionários promove o componente da propriedade a esse valor da cultura organizacional das pessoas no Dalí. Assim sendo, os profissionais, espelhados nas competências, habilidades e atitudes da proprietária desenvolvem esse componente em prol do valor qualidade.