As raízes europeias da Ciência da Informação podem ser encontradas no Instituto Internacional de Bibliografia – IIB, como já referenciado por Otlet e La Fontaine, que teve seu nome alterado para Instituto Internacional de Documentação (IID), vindo a transformar-se em Federação Internacional de Informação e Documentação (FID), e nos Estados Unidos, onde os indícios, também antigos, se concretizam em 1937, com a criação do American
Documentation Institute (ADI), motivado pelos novos métodos de reprodução de documentos,
destacando-se a microfilmagem de documentos (FREIRE; FREIRE, 2010).
Pode-se, ainda, admitir que a Ciência da Informação (CI) teve seu surgimento, a partir da necessidade que a sociedade enfrentava em ter uma ciência que estudasse as propriedades da informação bem como os processos de sua construção, comunicação e uso.
Segundo Le Coadic (1996, p. 19-20), esse surgimento se deu sob tríplice influência: “Desenvolvimento da produção e das necessidades de informações científicas e técnicas; Surgimento do novo setor industrial das indústrias da informação; e Surgimento das tecnologias eletrônicas e fotônicas da informação”.
Diante disso, observa-se que, atualmente, o objeto da CI não é mais o mesmo da Biblioteconomia (biblioteca e livros), da Museoconomia (museu e seus objetos), da Documentação (centros de documentação e documento) e do Jornalismo (indústrias da informação e comunicação), mas sim, a informação.
Com isso, constata-se que a CI emergiu no âmago da revolução científica e tecnológica seguinte à Segunda Guerra Mundial. Nesse momento, um número cada vez maior de pessoas preocupava-se com a criação e utilização de um número enorme de informação científica e técnica, trazendo juntamente com esse fato, ou seja, com a explosão informacional nessas duas áreas, uma preocupação quanto aos métodos e dispositivos de controle bibliográfico, bem como com a disseminação da informação.
Fazendo um adendo, com relação ao problema da explosão informacional, Saracevic (1996, p. 42-43) cita o artigo de Vannevar Bush, onde Bush identificou o problema da explosão informacional (o irreprimível crescimento exponencial da informação e de seus registros, em particular em ciência e tecnologia), sugerindo como solução para combater o
problema usar as incipientes tecnologias de informação, propondo uma máquina “O MEMEX”, incorporando a capacidade de associar ideias, que duplicariam os processos mentais artificialmente.
Segundo Barreto (2007), Vannevar Bush pode ser considerado o pioneiro da Ciência da Informação e 1945, sua data de surgimento, pela publicação do seu artigo. Bush indicou uma mudança de paradigma para a área de informação em ciência e tecnologia, que envolvia: seus profissionais, suas ferramentas de trabalho e falta de condições teóricas para embasar a representação da informação para processamento, armazenagem e recuperação. Ainda conforme o autor, Bush introduziu a noção de associação de conceitos ou palavras para a organização da informação, pois este seria o padrão que o cérebro humano utiliza para transformar informação em conhecimento; e indicou que os sistemas de classificação e indexação existentes à época eram limitativos e não intuitivos. Disse ainda, que os processos para armazenar e recuperar informação deveriam ser operacionalizados por associação de conceitos “como nós pensamos”.
Além de Vannevar Bush (com seu Memex), outros cientistas notáveis na história da CI foram: Otlet, pioneiro da Ciência da Informação, internacionalista e visionário (como já citado); Ranganathan, indiano, especialista em classificações; Bradford, pai da famosa lei do mesmo nome, e Brookes, seu exegeta (LE COADIC, 1996, p. 80).
Pode-se fazer referência à importância de Ranganathan, pela criação das cinco leis da Biblioteconomia, que ficaram conhecidas como as Cinco Leis de Ranganathan, que são vistas e discutidas tanto na visão conceitual, quanto nas questões de aplicações práticas pela interpretação destas leis por vários autores da literatura internacional. Recordando as cinco leis: Livros são para o uso; A cada leitor seu livro; A cada livro seu leitor; Economize o tempo do leitor; Uma biblioteca é um organismo em crescimento. Em seu artigo “A modernidade das cinco leis de Ranganathan”, Figueiredo (1992) comprova a modernidade das leis, ao afirmar que até hoje, ainda podem servir de fonte para o estabelecimento de uma filosofia para a Biblioteconomia, de base para uma atuação eficiente do bibliotecário e como elemento essencial para o processo de planejamento e avaliação de serviços e sistemas de informação de qualquer nível. Nesse sentido, Rajagopalan e Rajan (1984 apud FIGUEIREDO, 1992), fizeram uma interpretação dessas leis, deduzindo, a partir delas, o que chamam de “cinco leis da Ciência da Informação”. O ponto de maior importância e relevância desta reinterpretação é que as cinco leis são centralizadas no uso e no usuário da informação. Assim, eles enfatizam essa modernidade reescrevendo as cinco leis como sendo: A informação é para o uso; A cada usuário sua informação; Cada informação a seu usuário;
Economize o tempo do usuário – e o seu corolário: economize o tempo dos cientistas da informação; Um sistema de informação é um organismo em crescimento.
Voltando ao surgimento da Ciência da Informação, Wersig e Neveling (1975) apontaram que o desenvolvimento histórico da CI se deu porque os problemas informacionais modificaram sua relevância para a sociedade e que, nos dias atuais, transmitir o conhecimento àqueles que dele precisa se torna uma responsabilidade social, e esta pode se constituir no específico fundamento da CI.
Seguindo a linha de pensamento de Wersig e Neveling, pode-se observar que a Ciência da Informação fica inserida no campo das ciências sociais, uma vez que se preocupa com o esclarecimento de um problema social que é a informação, e volta-se para o ser social (o indivíduo) que procura informação.
Ainda nesse contexto, cita-se Pinheiro (2005, p. 38) quando afirma:
Como Ciência Social que é, a Ciência da Informação apresenta singularidades próprias de seu objeto de estudo, por si só, de acentuado grau de abstração e complexidade e pela subjetividade que perpassa o ciclo de transferência da informação, aí compreendida a geração de conhecimento, a sua subsequente representação em informação, por sua vez organizada, processada, recuperada, disseminada, disponível na Internet e utilizada, num ininterrupto processo-moto contínuo.
Admitindo a subjetividade da CI, verifica-se que é uma das características das ciências sociais, pois segundo Santos (1998), a Ciência Social será sempre uma ciência subjetiva e não objetiva como as ciências naturais, tendo que compreender os fenômenos sociais a partir das atitudes mentais e do sentido que os agentes conferem às suas ações, para o que se torna necessário utilizar métodos de investigação e mesmo critérios epistemológicos diferentes dos correntes nas ciências naturais, métodos qualitativos em vez de quantitativos, com vista à obtenção de um conhecimento intersubjetivo, descritivo e compreensivo.
Tendo como objeto de estudo a informação, e a informação sendo necessária nos mais diversos campos do conhecimento, a característica da interdisciplinaridade se torna essencial, uma vez que existem relações entre a CI e várias outras áreas científicas. A CI, então, se configura como uma interdisciplina, um novo campo de conhecimento onde colaboram entre si a Psicologia, Linguística, Sociologia, Informática, Matemática, Lógica, Estatística, Eletrônica, Economia, Direito, Filosofia, Políticas e as Telecomunicações.
Nisto se inserem as características gerais da CI e Saracevic (1996, p. 42) aponta três características que a constituem: “a interdisciplinaridade, a ligação inexorável com a
tecnologia da informação e a participação ativa e deliberada na evolução da sociedade da informação”.
Quanto à interdisciplinaridade na CI, Saracevic (1996) enfoca as relações interdisciplinares entre a CI e quatro campos, a saber: Biblioteconomia, Ciência da computação, Ciência cognitiva (incluindo inteligência artificial – IA) e Comunicação. Segundo o autor, é óbvio que outros campos também mantêm relações interdisciplinares com a CI, mas nenhum as desenvolveu de maneira tão pronunciada e significante como esses quatro.
Dado que a CI tem múltiplas disciplinas que colaboram com ela, então, ela é frequentemente citada tanto como uma área interdisciplinar quanto multidisciplinar na teoria e na prática. Em seu artigo, Holland (2008) cita Rogers et al (2003, p. 4-5) quando assinala que a interdisciplinaridade visa obter novos conceitos, métodos e referenciais teóricos através da fusão de conceitos, métodos e estruturas provenientes de diferentes disciplinas. A pesquisa enfatiza uma fusão capturando com a exigência de integração novos conhecimentos ou métodos que são explicitamente intencionados, através da junção de uma variedade de componentes de disciplinas distintas. Já a pesquisa multidisciplinar visa desenvolver novos conhecimentos através da adaptação e modificação de conceitos existentes, métodos e estruturas teóricas através da adaptação e alteração dos atuais conceitos, métodos e estruturas dentro de uma disciplina e ocasionalmente, pedindo emprestado a outras.
Dizer que a Ciência da Informação é caracterizada por sua natureza interdisciplinar não é mais novidade, contudo, estudos recentes têm observado que a CI se insere no contexto de ciência moderna, onde o novo modo de produção de conhecimento envolve diferentes mecanismos de gerar conhecimento e de comunicá-los. Muitos atores vêm de diferentes disciplinas e especialidades das áreas nas quais o conhecimento é produzido. Esses aspectos demonstram a característica transdisciplinar na CI e para compreender melhor estas questões Souza (2007a) examina o significado de disciplinaridade, multidisciplinaridade, interdisciplinaridade e transdisciplinaridade.
Para Souza (2007a), enquanto a interdisciplinaridade pode ser provada com um elenco de quatro ou cinco disciplinas, a abordagem transdisciplinar permite à CI interagir com todos os campos do conhecimento, contribuindo com o seu arcabouço teórico e prático. Para a autora, a CI pode encontrar na abordagem transdisciplinar, uma forma de melhor trabalhar seu objeto de pesquisa que é a informação, com metodologias que atendam às suas características de ciência pós-moderna que exige novos procedimentos de pesquisa, que vão além das abordagens tradicionais da ciência.
Com relação à característica da ligação inexorável com a Tecnologia da Informação, Cronin (2008) afirma que as dimensões socioculturais do conhecimento e da natureza socialmente integradas de Tecnologias de Informação e Comunicação (TICs) são, e até certo ponto sempre foram, integrantes da base teórica da Ciência da Informação, sendo esta uma afirmação facilmente confirmada pela literatura publicada.
Depois de falar tanto em Ciência da Informação, cabe ressaltar que alguns artigos registram, oficialmente, a denominação Ciência da Informação, como de fato um termo estabelecido, no início da década de 1960, a partir de uma definição que surgiu como resultado dos trabalhos realizados no quadro das conferências realizadas em outubro de 1961 e abril de 1962, do Georgia Institute of Technology no Estado da Georgia, nos EUA e que foi apresentada como:
Ciência que investiga as propriedades e o comportamento da informação, as forças que governam o fluxo da informação e os meios de processamento da informação para um máximo de acessibilidade e uso. Os processos incluem a geração, disseminação, coleta, organização, armazenamento, recuperação, interpretação e uso da informação. (SOUZA, 2007a, p. 77)
Um comentário importante merece ser destacado acerca da definição citada: a autora Souza (2007b) pontua que nesta definição é relevante observar a importância dos métodos de processamento da informação contextualizados no estudo do fenômeno da informação visando o alcance dos objetivos de acesso ao conhecimento registrado para assimilação e uso pelos usuários de sistemas de informação.
Em 1968, Borko escreve um artigo clássico intitulado Information Science: what is
it?, no qual formula mais uma definição de CI, tendo semelhança com a que foi formulada no Georgia Institute of Technology:
CI é a disciplina que investiga as propriedades e o comportamento da informação, as forças que governam seu fluxo, e os meios de processá-la para otimizar sua acessibilidade e uso. A CI está ligada ao corpo de conhecimentos relativos à origem, coleta, organização, estocagem, recuperação, interpretação, transmissão, transformação e uso de informação. Ela tem tanto um componente de ciência pura, através da pesquisa dos fundamentos, sem atentar para sua aplicação, quanto um componente de ciência aplicada, ao desenvolver produtos e serviços. (BORKO, 1968, p. 3) Comparando-se as duas definições, observa-se que Borko enfatiza duas características a mais com relação à CI, que são os componentes de ciência pura e aplicada. Encerrando as definições de CI, cabe ainda citar a definição de Saracevic (1996, p. 47):
A CIÊNCIA DA INFORMAÇÃO é um campo dedicado às questões
científicas e à prática profissional voltadas para os problemas da efetiva comunicação do conhecimento e de seus registros entre os seres humanos, no contexto social, institucional ou individual do uso e das necessidades de informação. No tratamento destas questões são consideradas de particular interesse as vantagens das modernas tecnologias informacionais.
Segundo Souza (2007b), esta definição não só evidencia a importância da CI como suporte profissional e de investigação frente à ‘avalanche de conhecimento’, como indica a atenção e necessidade devidas à ‘revolução’ tecnológica, cada vez mais marcante a partir da segunda metade do século XX.
Fazendo um adendo quanto às modernas tecnologias informacionais comentadas na definição, Barreto (2007) evidencia que são exatamente essas novas tecnologias de informação que modificaram aspectos fundamentais da condição da informação e também da condição da sua distribuição. Estas tecnologias intensas modificaram a qualificação de tempo e espaço entre as relações do emissor, com os estoques e os receptores da informação. Para ele, quando se fala em novas tecnologias de informação, se pensa de imediato no computador, na telecomunicação, mas na verdade, as reais modificações que essas tecnologias de informação trouxeram ao ambiente foram uma nova forma de lidar com a relação informação e conhecimento e as modificações relacionadas ao tempo e ao espaço de sua transferência.
Encerrando esse tópico, novamente é dada ênfase ao objeto de estudo da ciência da informação afirmando que é exatamente o estudo das propriedades gerais da informação (natureza, gênese, efeitos), ou ainda, mais especificamente, a análise dos processos de construção, comunicação e uso da informação e a concepção dos produtos e sistemas que permitem sua construção, comunicação, armazenamento e uso (LE COADIC, 1996, p. 26).
Nesse ínterim, após a descrição apresentada, observa-se que a informação é a força vital da ciência e que sem a informação a ciência não se desenvolve e, logo, deixa de existir. Sem a informação, não existiria pesquisa e consequentemente, também não existiria conhecimento. Portanto, o capítulo segue fazendo uma análise da relação intrínseca entre informação e conhecimento, e essa relação como elemento impulsionador do progresso social.