Certamente, tal introdução já fora muito visitada e, por este motivo mesmo, é também palco de muitas controvérsias. Não por menos, é aqui que as abstrações razoáveis aparecem com um tratamento mais sistemático embora não resolutivo. Como se trata de um texto que Marx não publicara, não esboça uma estrutura definitiva, apresentando porém uma inigualável riqueza no que se refere a um tipo de “padrão de cientificidade” alcançado ao longo de décadas de estudos acerca da economia política e da sociedade capitalista, sobretudo no que diz respeito à forma mesma de realizar a investigação.
A aproximação muito grande entre Marx e Hegel, conforme aquela dada por Lukács na obra de juventude338 e mesmo uma proximidade mais acanhada embora persistente em textos posteriores339, suscita a existência de um silogismo – universal, particular e singular – no interior das reflexões marxianas. Descortinar o caráter desta forma silogística significa também colocar em evidência que relação afinal tal forma apresenta frente às abstrações razoáveis e, com isso, adquirir os elementos importantes para a matéria aqui tratada.
A primeira questão a ser colocada em pauta é, portanto, o entendimento sobre as abstrações
razoáveis. O ponto de partida precisa ser aquela própria Introdução de 1857340
surgimento do chamado Critical Management Studies e também acerca das inúmeras impropriedades a respeito das questões ligadas ao Marx e que também estão na base mesma de sua constituição. Quer dizer, o desenvolvimento dessa linha de estudos, incluindo aí as linhas de Knights e Willmott, deve-se às críticas feitas ao Braverman e a equívocos teóricos de grande monta acerca das aquisições marxianas. Braverman é, apesar de tudo, superior às coisas que apareceram na Inglaterra depois dele.
inacabada, na qual o próprio termo é colocado mediante parâmetros de procedimentos investigativos ou certo padrão de cientificidade das problemáticas no desenrolar das matérias tratadas no
337
Partes desse subtópico foram apresentadas no Colóquio International Marx-Engels em 2009. 338
História e consciência de classe, op. cit. Mas também Tragtenberg em Burocracia e ideologia, op. cit. 339
Introdução a uma estética marxista. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1978. 340
manuscrito igualmente inacabado, isto é, nos próprios Grundrisse, mas também nos textos posteriores.
Na introdução em questão, Marx parte da discussão sobre a produção e indica o bem conhecido procedimento ficcional, as robinsonadas, por meio das quais Smith e Ricardo explanavam a respeito do homem isolado que produz, calcula, organiza, que, em verdade, “trata-se /.../ de uma antecipação da ‘sociedade’ burguesa (bürgerlichen Gesellschaft), que se preparava desde o século XVI, e no século XVIII deu larguíssimos passos em direção à sua maturidade. Nesta sociedade”, diz Marx, “da livre concorrência, o indivíduo aparece desprendido dos laços naturais que, em épocas históricas remotas, fizeram dele um acessório de um conglomerado humano limitado e determinado”341. Quer dizer, esta sociedade burguesa esboça um maior desenvolvimento da humanidade se comparada às formas anteriores. Ocorre que esta antecipação dada pela economia política não é posta como “resultado histórico, mas como ponto de partida da História, porque o consideravam como um indivíduo conforme a natureza – dentro da representação que tinham de natureza humana –, que não se originou historicamente, mas foi posto como tal pela natureza”342.
Está em jogo nesses apontamentos iniciais o entendimento da determinação de uma dada formação social e uma dada configuração da produção em seu interior, adequadamente, correspondente. A crítica de Marx recai sobre o entendimento geral da economia política de que aquele indivíduo social da sociedade da livre concorrência e, igualmente, uma produção correspondente à livre concorrência, é o indivíduo e a produção equivalentes para todas as formações sociais, de maneira que todas as formações sociais passadas encontram sentido na sociedade da livre concorrência, do indivíduo isolado, ou que os caracteres da sociedade do indivíduo isolado são caracteres da própria natureza humana. O procedimento da economia política, então, passa a ser o de especificar as condições necessárias para toda produção – a
produção em geral –, elevando à generalidade, à universalidade as condições da produção de
uma sociedade da livre concorrência, do indivíduo isolado. “Esta ilusão”, diz Marx, “tem sido partilhada por todas as novas épocas, até o presente”343.
341 Ibid., p. 109. / Ibid., p. 19. 342 Ibid., p. 109-10. / Idem. 343 Ibid., p. 110. / Ibid., 19.
À primeira vista, estas linhas iniciais indicam a impropriedade, não apenas de alguns economistas políticos, mas também da própria categoria “produção em geral”, mantendo uma qualidade negativa imanente, pois tal categoria não sobrevive à constatação de que
quando se trata, pois de produção, trata-se da produção em um grau determinado do desenvolvimento social, da produção dos indivíduos sociais. Por isso, poderia parecer que ao falar da produção em geral seria preciso quer seguir o processo de desenvolvimento e suas diferentes fases, quer declarar desde o primeiro momento que se trata de uma determinada época histórica, da produção burguesa moderna, por exemplo, que propriamente constitui o nosso tema.344
Mediante a constatação de que toda produção é uma produção determinada, de uma formação social específica, pareceria necessário mostrar ponto a ponto as fases de desenvolvimento ou estabelecer, de antemão, que se trata tão somente da produção moderna a matéria tratada. “Mas todas as épocas da produção têm certas características comuns, certas determinações comuns”345, retruca Marx ao trazer a resolução da natureza da categoria “produção em geral” na sequência:
A produção em geral é uma abstração, mas uma abstração razoável [verständige Abstraktion], na medida em que evidencia a efetividade do que é comum, fixa e poupa a repetição. Esse caráter geral, contudo, ou este elemento comum, que se destaca por meio da comparação, é ele próprio uma multiplicidade articulada [ein
vielfach Gegliedertes], em diversas determinações divergentes [in verschiedne Bertimmungen Auseinanderfahrendes]. Alguns desses elementos comuns pertencem
a todas as épocas, outros apenas são comuns a poucas. Certas determinações serão comuns à época mais moderna e à mais antiga. Sem elas não se poderia conceber nenhuma produção /.../.346
Esta resolução não é ponto de inflexão para a suposta impropriedade da categoria “produção em geral”, mas a confirmação de que se trata de uma abstração, um produto da objetividade subjetivada, e, de forma alguma, uma abstração arbitrária, na medida em que permite sublinhar e precisar traços comuns do efetivo, do realmente existente. Trata-se, pois, de uma categoria que expressa coisas reais e nisso se sustenta a sua razoabilidade, porquanto não se trata de uma abstração arbitrária, livre, desconexa, pura. Esta abstração, produzida pela comparação do heterogêneo, forma ou é propriamente, conforme indicado, “uma multiplicidade articulada”, isto é, um complexo e são as condições sem as quais nenhuma produção seria possível, nem as antigas, nem as mais modernas.
344 Idem. / Ibid., 20. 345 Idem. / Idem. 346 Ibid., p. 110-11. / Ibid., 20-1.
Mais adiante, a tematização da “produção em geral” enquanto uma “abstração razoável”, isto é, aquilo que expressa o comum por comparação entre as diferentes formas de produção, constituindo, em si, um conjunto complexo de determinações, divide, não por acaso, a atenção com os elementos particularizados da produção. Em um momento autorreflexivo, Marx escreve que “Se não existe uma produção em geral”, nem nos termos da economia política e, enquanto abstração, nem pode ser algo puramente do próprio real, “também não pode haver produção geral”, pois, continua Marx, a “produção é sempre um ramo particular da produção – por exemplo, a agricultura, a pecuária, a manufatura, etc. –, ou ela é totalidade”347. E aqui se distingue a produção enquanto uma totalidade, a totalidade da produção de uma dada formação social, de um lado, e os diferentes ramos da produção que formam a totalidade no interior de tal formação. “Mas”, diz Marx ao titubear na autorreflexão, “a Economia Política não é tecnologia. Será preciso desenvolver em outro lugar (mais tarde) a relação entre as determinações gerais da produção, num dado grau social, e as formas particulares da produção”348, quer dizer, especificar as condições e os elementos gerais da produção numa dada formação social e como estão relacionados aos momentos particulares da produção, aos diferentes ramos da produção, em uma formação social determinada, em uma dada sociabilidade.
Até este ponto, está claro que Marx se encontra às voltas com a produção em geral enquanto “abstração razoável”, conjunto complexo de determinações que dizem respeito a todas as formas de produção, pois não haveria produção sem tais condições e, ao mesmo tempo, às voltas com a diferenciação da produção no interior de uma formação social determinada, em ramos diversos da produção que, por sua vez, são particularidades mas que formam uma unidade, uma totalidade. Nas linhas seguintes, Marx coloca de maneira plenamente consciente esses elementos. “Finalmente”, diz ele, “a produção também não é apenas uma produção particular, mas é sempre, ao contrário, certo corpo social, sujeito social, que exerce sua atividade numa totalidade maior ou menor de ramos da produção”349. De volta à autorreflexão, afirma, “Também não é este o lugar adequado para tratar da relação que existe entre a apresentação científica e o movimento real. Produção em geral. Os ramos particulares da produção. Totalidade da produção”350
347 Ibid., p. 111. / Ibid., p. 21. . 348 Idem. / Idem. 349 Idem. / Idem. 350 Idem. / Idem.
Deixando de lado a distinção entre a apresentação científica, isto é, uma forma expositiva, e o movimento real, o importante neste momento, porém, é tomar a distinção feita entre essas “grandes categorias”. De um lado, a produção em geral enquanto abstração razoável, complexo de determinações, que constitui o comum, por comparação, entre as diferentes formas de produção nas diferentes formações sociais e, ao mesmo tempo, é independente em relação à particularidade de cada formação isoladamente. De outro lado, tem-se a inexistência de uma “produção geral”, mas há, ao revés, a produção enquanto particulares distintos, ramos específicos da produção. E, de outro lado ainda, a totalidade que formam essas particularidades enquanto ramos da produção, totalidade que é precisamente a produção em uma dada formação social com um dado grau de desenvolvimento. Estas grandes categorias, porém, ainda não estão ordenadas adequadamente. Os momentos autorreflexivos dão prova de que esses elementos serão retomados.
Na sequência do texto, especificamente no tópico 2 da introdução, existe uma passagem que gera uma grande confusão, pois se retira dali a conclusão de que Marx buscava um silogismo meramente como um momento da lógica. Tudo isso porque aparece em uma das traduções mais divulgadas dos Grundrisseque
Produção, distribuição, troca e consumo formam assim um silogismo com todas as regras: a produção é o termo universal; a distribuição e a troca são o termo particular; e o consumo é o termo singular com o qual o todo se completa. Nisto há sem dúvida um encadeamento, mas não é superficial.351
A princípio, coloca-se assim que Marx considera o silogismo como adequado, como se ele estivesse precisamente em busca de um ou outro encadeamento puramente formal e tivesse encontrado aqui uma resolução não superficial. Mas as indicações feitas até aqui mostram que a universalidade e a particularidade não são elementos de um silogismo puramente abstrato, mas estão diretamente ligadas à tematização da produção em geral, às formas sociais determinadas, aos ramos da produção dessas formas sociais.
É preciso, em adição, considerar que no início deste tópico Marx já indica com todas as letras que “Antes de aprofundar a análise da produção, é necessário considerar as diferentes rubricas
351
Introducción. In: Elementos fundamentales para la crítica de la economía política. v. 1, Mexico: Siglo Veintiuno, 1987, p. 9.
que os economistas põem a seu lado”352. Após esboçar tais rubricas em uma ideia geral, sintetiza-a no silogismo presente entre os próprios economistas, qual seja, e agora de forma adequada:
Produção, distribuição, troca, consumo formam, portanto, um autêntico silogismo [regelrechten Schluß]; produção, a universalidade; distribuição e a troca, a particularidade; consumo, a individualidade, expressando o todo conjuntamente. Isso é certamente um encadeamento, mas superficial.353
Trata-se, pois, de uma constatação de que existe realmente um silogismo no interior dos procedimentos e de uma avaliação negativa da forma como tal silogismo aparece na ideia geral entre os economistas políticos em relação à produção, pois, embora reconheçam acertadamente a existência de relações, colocam-nas de maneira superficial. E isso contrasta com o que, linhas à frente, Marx especificará no que se refere a tais relações, isto é, que “O resultado a que chegamos não é que a produção, a distribuição, o intercâmbio, o consumo, são idênticos, mas que todos eles são elementos de uma totalidade, diferenças dentro da unidade”354. Há aqui, portanto, não a resolução de um silogismo, mas a constatação de que não apenas, como antes, os ramos particulares da produção formavam uma totalidade, mas, agora, também os diferentes elementos/momentos – produção, distribuição, etc – formam uma unidade internamente diferenciada. E, assim, fica evidenciado que não se trata de um silogismo puramente formal, mas da resolução que coloca diferentes elementos sociais da produção, os elementos do amplo processo de produção em um conjunto relacionado, que no interior dos próprios Grundrisse receberá a denominação geral de modo de produção, retomando alguns elementos já presentes na Ideologia Alemã; uma abstração que constitui um conjunto complexo de determinações e reciprocidades entre elementos diferenciados, particulares, e que expressa, portanto, movimentos reais, processos da própria realidade. O modo de produção possui estatuto geral, universal, para uma formação social determinada e, assim, os elementos constitutivos e relacionados reciprocamente aparecem como particularidades em uma unidade.
Fica então cada vez mais claro que existem, no interior das reflexões marxianas, abstrações razoáveis diferenciadas em termos de grau. Inicialmente, a abstração produção em geral, por abarcar as condições sem as quais não haveria qualquer produção e, neste esteio, independer
352
Introdução, op. cit., p. 113. / Einleitung, op. cit., p. 24. 353
Ibid., p. 114. / Ibid., p. 25. 354
de uma ou de outra formação social particular, encontra-se em um grau mais elevado, por assim dizer. De outro lado, a abstração que expressa o conjunto dos elementos/momentos sociais da produção – produção, distribuição, troca, consumo – se relaciona ou expressa uma sociedade determinada, uma totalidade específica e, assim, encontra-se, por sua vez, em um grau menos elevado, mas de forma alguma elas estão plenamente separadas ou são pertencentes ao plano das determinações puramente formais.
A qualidade ou a atribuição que as abstrações recebem pode ser esclarecida acompanhando o tratamento dado a elas no esboço que Marx fizera sobre o método da economia política no tópico 3 da introdução conforme se segue.
Se, como anteriormente, a abstração razoável de maior grau fora determinada por expressar relações reais e ao mesmo tempo poupar a repetição, precisamente porque expressa o conjunto mais ou menos completo das similitudes que se especificam por comparação, e se a abstração não tão independente quanto a primeira e, por isso, “relativa” a determinada formação social, é colocada como um conjunto, como uma unidade das particularidades de determinada produção, o caráter de “cientificidade” se exaspera por meio do tratamento que tais abstrações recebem enquanto categorias nas elaborações deste tópico sobre o método da economia política.
Marx, porém, não parte sua análise das abstrações razoáveis indicadas, mas do valor negativo que as abstrações arbitrárias apresentam. “A população”, diz ele, “é uma abstração, se desprezarmos, por exemplo, as classes que a compõem. Por seu lado”, continua, “estas classes são uma palavra vazia de sentido se ignorarmos os elementos em que repousam”355. Abstrações de valor negativo não expressam coisas reais, não formam categorias adequadas, não são razoáveis, porquanto as relações efetivas não são exprimidas tais como são, mas de modo adverso.
Neste ponto, Marx faz a distinção entre os dois métodos. Por um lado, partindo da “população, teríamos uma representação caótica do todo, e através de uma determinação mais precisa, através de uma análise, chegaríamos a conceitos cada vez mais simples”. Por outro lado, “Chegados a este ponto”, de determinação mais precisa, “teríamos que voltar a fazer a
355
viagem de modo inverso, até dar de novo com a população, mas desta vez não com uma representação caótica de um todo, porém com uma rica totalidade de determinações e relações diversas”. “O primeiro”, diz Marx, “constitui o caminho que foi historicamente seguido pela nascente economia” e, mais adiante, “O último método é manifestamente o método cientificamente exato”. No caso do “primeiro método, a representação plena volatiza-se em determinações abstratas”, no caso do “segundo, as determinações abstratas conduzem à reprodução do concreto por meio do pensamento. Por isso”, afirma Marx, “é que Hegel caiu na ilusão de conceber o real como resultado do pensamento que se sintetiza em si, se aprofunda em si, e se move por si mesmo” por meio de abstrações arbitrárias. Porém, o “método que consiste em elevar-se do abstrato ao concreto não é senão a maneira de
proceder do pensamento para se apropriar do concreto, para reproduzi-lo como concreto
pensado. Mas”, conclui ele, “este não é de modo nenhum o processo de gênese do próprio concreto”356. Quer dizer, parte da apropriação do efetivamente existente, elevando-se do abstrato ao concreto, mas de modo algum o concreto é engendrado porque é pensado. Persiste aqui a questão do ser social exposta antes.
Diante desses apontamentos gerais, desponta-se o caráter das abstrações enquanto ponto de partida para a investigação, mas abstrações razoáveis que guardam ou expressam relações reais e, partindo delas, encontrar o conteúdo real como uma rica e diversa miríade de relações. Deste ponto de vista, “A mais simples categoria econômica, suponhamos, por exemplo, o valor de troca, pressupõe a população, uma população produzindo em determinadas condições e também certos tipos de famílias, de comunidades ou Estados. O valor de troca”, arremata Marx, “nunca poderia existir de outro modo senão como relação unilateral, abstrata de um todo vivo e concreto já dado”357. O valor de troca é, pois, uma abstração razoável que expressa o diverso, expressa relações entre os homens, mas relações que são reais, concretas e anteriores à categoria que as expressam, categoria engendrada nessas próprias relações. “O concreto é concreto porque é o conjunto de muitas determinações [es die Zusammenfassung
vieler Bestimmungen], isto é, unidade do diverso”358
356
Ibid., p. 122-123. / Idem.
, de tal maneira que as categorias, enquanto abstrações razoáveis e enquanto totalidade de particularidades, expressam o complexo de determinações que o próprio concreto é em si mesmo, isto é, aqui aparece aquela resolução estabelecida em 1843 em relação à filosofia hegeliana, resolução segundo a qual a
357
Ibid., p. 123. / Idem. 358
efetividade possui logicidade própria e que, pela especulação, restringe-se às coisas da lógica. Esta efetividade não é dada pelas coisas diretamente, como o valor de troca, mas pelas relações mesmas sobre as quais essas coisas repousam, ou seja, as relações sociais são o ponto de partida e também de chegada da razoabilidade. “Por isso o concreto aparece no pensamento como o processo da síntese, como resultado, não como ponto de partida”359, pois, por meio das categorias se tenta reproduzir o concreto no pensamento, ainda que o concreto “seja o ponto de partida efetivo”360 para as categorias; o contrário, talvez concordasse o próprio Marx, seria “mistificação panteísta”, conforme suas críticas à filosofia especulativa apresentadas antes. Quer dizer, as categorias se produzem a partir do próprio mundo efetivo e são abstrações que ganham razoabilidade à medida que expressam relações reais, relações sociais neste mesmo mundo sensível361.
Marx deixa algumas indicações mais específicas nessa direção, por exemplo, em relação à categoria trabalho. O “trabalho parece ser uma categoria muito simples”, diz ele. “E também a representação do trabalho neste sentido geral – como trabalho em geral – é muito antiga. Entretanto”, interdita, “concebido economicamente nesta simplicidade, o ‘trabalho’ é uma categoria tão moderna como o são as relações que engendram esta abstração”362, isto é, o trabalho geral, abstrato, indiferenciado, cujas qualidades individuais necessariamente desaparecem e, enquanto trabalho geral, passa a ser a fonte da riqueza, produtor do valor de troca na relação com o capital. Enquanto categoria, “trabalho em geral” expressa essa relação social, nesta condição social objetiva. Não pode ser por outro motivo que “o curso do