Nos pressupostos do Projeto UCA está embutida a importância do desenvolvimento de competências tecnológicas e pedagógicas para que a apropriação do laptop se efetive de modo a possibilitar ao professor realizar as atividades pedagógicas usando o potencial tecnológico disponível na escola. Tais pressupostos dão sustentação a uma investigação voltada à reflexão sobre o assunto, na tentativa de organizar e analisar com propriedade as ações que estão possibilitando atingir este objetivo. Para isto, é importante analisar como o currículo da escola está organizado de maneira a integrar o uso de tecnologias e o que é necessário para que o professor desenvolva esse currículo com seus alunos e se reconheça como protagonista de sua prática.
o professor que se reconhece como protagonista de sua prática e usa as TDIC de modo crítico e criativo, voltando-se para a aprendizagem significativa do aluno, coloca-se em sintonia com as linguagens e símbolos que fazem parte do mundo do aluno, respeita seu processo de aprendizagem e procura compreender seu universo de conhecimento por meio das representações que os alunos fazem em um suporte pedagógico.
Há alguns anos, os temas relacionados ao uso de novas Tecnologias Digitais de Informação e Comunicação - TDIC no cotidiano escolar, seja nas ações administrativas ou pedagógicas, têm se constituído em objetos que subsidiam diferentes pesquisas na área de educação. Essas pesquisas incluem, necessariamente, uma reflexão densa sobre o currículo escolar, haja vista que este corpo de conhecimento (SEVERINO, 2007, p. 22) não pode excluir conhecimentos novos e estratégicos, como o são àqueles relacionados à integração da tecnologia na prática pedagógica, por exemplo.
Esses conhecimentos, hoje, são fundamentais para o indivíduo interagir com um mundo dinâmico, mutável e cheio de desafios, no qual as tecnologias mediam e possibilitam de maneira mais rápida e diversificada o acesso à cultura. E, o currículo, sendo uma “opção historicamente configurada, que se sedimenta dentro de uma determinada trama cultural, política, social e escolar” (SACRISTÁN, 1998, p.17), deve incorporar o conhecimento necessário para o indivíduo dar seguimento a sua vida (SEVERINO, 2007). Assim como a “educação é mediada e mediadora” (SEVERINO, 2007, p.67), a tecnologia também o é, e a relação tecnologias X currículo não pode ser desconsiderada.
O conhecimento tecnológico é um conhecimento estratégico da cultura para a sobrevivência em um contexto tão multifacetado como o vivenciado atualmente. Na sociedade contemporânea configuram-se novas maneiras de interação com o mundo real e virtual e se a Educação é instrumento do mundo para a continuidade da obra humana (SEVERINO, 2007), um olhar mais aguçado sobre essas novas interações que ultrapassam a relação homem X instrumento, homem X técnica, por parte daqueles que estão envolvidos com o processo educacional, é necessário para que a sobrevivência da espécie humana e do planeta não seja prejudicada.
Assim, como as tecnologias estão associadas ao processo de conhecimento e ação do indivíduo no mundo, agindo como mediadoras e participando do sistema de “reprodução da
vida” (DUSSEL, 2007), com valor real e simbólico, elas devem ser objeto de reflexão do trabalho pedagógico e, consequentemente, do currículo escolar.
No caso do Projeto UCA, uma maneira de levar o professor a essa reflexão é aproveitar os momentos em que ele realiza as atividades virtuais do curso de formação para refletir sobre o seu uso, vivenciando momentos de metarreflexão, cujos resultados são positivos por favorecer a compreensão do professor sobre o potencial, aspectos positivos e negativos de uma tecnologia, conscientizando-se de todo o processo. Depois dessa experiência pessoal ele pode pensar sobre as estratégias de uso de um recurso tecnológico em sala de aula com seus alunos, com propriedade e consciência.
Essa preocupação com o uso consciente da tecnologia pelos professores está atrelada ao fato de que o indivíduo e as instituições estão se virtualizando e dando origem a um complexo fenômeno social que desmobiliza as estratégias educacionais em prática atualmente. A sensação de impotência no ato de educar é uma constante e a prática pedagógica requer estratégias inéditas para poder atingir seus objetivos em contextos que transitam do real para o virtual. Os alunos possuem múltiplas identidades e as possibilidades de criação e expressão podem e devem se multiplicar para além da sala de aula.
Assim sendo, esse conhecimento tecnológico, que se transfigura em competência digital e, mais que isso, em competência pedagógico-digital, mais do que nunca, “surge como uma estratégia da existência” (SEVERINO, 2007, p.40) para o professor enquanto indivíduo e enquanto profissional, imprimindo novos sentidos a sua prática. Ainda que Severino (2007, p. 12), ao afirmar que “só o conhecimento poderá esclarecer-nos e apresentar significações para redirecionar nossa prática, mediadora da existência”, não estivesse fazendo referência específica ao conhecimento tecnológico, é possível inferir que a competência pedagógico- digital aparece como peça-chave na atualidade e item importante a ser incluído em políticas públicas para educação, sendo imprescindível para a “realização da vida”5 (DUSSEL, 2007) em todas as suas dimensões.
5 Na obra intitulada “20 Teses de Política”, Dussel (2007) utiliza este termo para abordar as condutas complexas que cada indivíduo cria para reproduzir sua vida. São formas concretas de se criar, reproduzir e desenvolver a vida. Ao longo da obra, conclui-se que a política deve estar voltada à realização da vida.
Cabe lembrar que o conceito de competência digital está sendo construído por diversos pesquisadores; neste trabalho está sendo analisado a fim de subsidiar estudos sobre competências para lidar com as questões do universo tecnológico e a relação deste com o currículo escolar. Não é meramente uma habilidade técnica para utilizar uma ferramenta tecnológica com o fim estritamente instrumental. Por esta razão, a preferência pelo termo competência pedagógico-digital e, não, por competência digital.
Nesse sentido, a competência pedagógico-digital é necessária não só para o professor ter domínio do contexto onde sua prática se realiza, mas também para que sua prática possibilite ao aluno o desenvolvimento de competências dessa natureza e compreenda o espaço onde constrói sua história. Essa competência torna-se um viés importante para uma prática pedagógica que se relaciona com a postura do professor e que, atualmente, necessita utilizar formas diferenciadas de socialização e linguagens para dinamizar o processo de aprendizagem de seus alunos.
Por essa razão, a apropriação das tecnologias por professores, o uso de tecnologias como ferramentas pedagógicas e de gestão foram e continuam sendo alvo de investigações, mas, agora, necessitam acrescentar mais um elemento que é a concepção de competências pedagógico-digitais no currículo escolar e nos cursos de formação de professores, questões intimamente relacionadas. Muitos alunos e professores encontram-se, hoje, em situação semelhante, quando o assunto é competência para compreender as nuances do mundo digital. Mesmo aquele aluno, cuja vida para além do espaço escolar está repleta de oportunidades de acesso à internet, necessita de respaldo para saber lidar com um mundo tão contraditório e mutável.
Discute-se, portanto, o currículo oficial, assim denominado por ter sido estabelecido por autoridade governamental. E, uma vez estabelecido, está apto a ser transformado. O currículo, notoriamente um espaço de poder, é alvo de uma reflexão que pode ser viabilizada a partir de instrumentos legitimados por um espaço virtual democrático; um espaço democrático para discutir um corpo de conhecimento democrático que possibilite o questionamento do uso de novas tecnologias e sua influência na modificação de formas e conteúdos curriculares que mediarão a existência humana. Não é por acaso, que Santomé (2003, p.40, apud PARASKEVA; OLIVEIRA, 2006) afirma que “Um currículo democrático, entre outras características, deve fazer com que os garotos e as garotas saibam que os diversos
grupos de trabalhadores, de adolescentes, de homens e de mulheres resistem, defendem e reivindicam seus direitos.”
Desse modo, e considerando mais uma variável na mão do aluno e do professor – o laptop educacional – há de se repensar em novas estratégias curriculares, que se coadunem com os desafios postos por esta e demais fatores do contexto educacional e social. Justifica- se, portanto, a reflexão posta nesse item sobre a contínua transformação do currículo e da tecnologia com reflexos diretos na formação de professores, um aspecto muito presente nos estudos de Almeida (2010), e que de algum modo sugerem a necessidade de o professor desenvolver novas competências, apropriando-se pedagogicamente das tecnologias existentes na escola. Segundo Almeida (2010).
currículo e tecnologias se interferem e se imbricam em seu desenvolvimento [...] e que a integração de ambos supõe integração de distintos campos de conhecimentos, integração de conteúdos, linguagens, experiências, estratégias pedagógicas, [...] extrapolando esta integração para além de mídias e tecnologias.
No tópico a seguir, pretende-se instigar uma reflexão sobre o professor enquanto sujeito no contexto digital, que exige dele uma atitude cada vez mais crítica e reflexiva diante de sua prática.