Segundo o filósofo e crítico de literatura inglês Terry Eagleton (1991), a moderna crítica europeia, tem sua origem nas lutas burguesas e liberais dos séculos XVII e XVIII contra o Estado absolutista, que objetivaram o fortalecimento da esfera pública, do julgamento crítico, do intercâmbio público de opiniões.
Neste momento, a crítica dos textos era exercida de forma não especializada, pelos “comentaristas culturais” ou ainda, pelos “estrategistas culturais” que eram designados como tais em função de seu bom conhecimento de vários domínios do saber e não necessária e exclusivamente por serem reconhecidos como especialistas em literatura e em escrita literária.
Ao crítico de então, cabia transitar descompromissadamente pelas fronteiras das múltiplas linguagens e práticas sociais – sem distinguir um material ficcional e não ficcional, um ensaio moral e uma anedota – e convidar seu público leitor a participar da atividade crítica. O crítico assume, a partir de um pacto social, a posição de porta-voz da sociedade (ou de parte dela) procurando desintegrar o consensualismo da esfera pública de então, difundindo, catalisando e reciclando discursos.
O autor afirmar que, no decorrer do século XVIII, alguns acontecimentos como o crescimento e a aceleração da produção literária, a queda do patrocínio literário, a
Página 57 ascensão dos livreiros, a popularização do livro e da técnica de impressão, bem como a
ampliação do mercado leitor devido à emergência de uma classe média interessada na leitura, possibilitam o crescimento de periódicos literários e uma certa institucionalização da profissão do ‘escritor’ e do crítico literário, concomitantemente. Nesse tempo, também começam a surgir discussões por parte da classe dominante sobre quem deteria o direito de falar, de se expor, de exercer a atividade crítica, de posicionar- se política e, por isso, publicamente. Emergem, assim, questionamentos e asserções sobre a necessidade de domínio da linguagem comum e sobre a posição que deve ser ocupada pela pessoa comum frente a política.
Nessa época, membros da classe dominante lutam por manter exclusivamente para si a posição de representantes legítimos da sociedade, sustentando o discurso de que eram os únicos capazes de falar com racionalidade e em uma língua e em uma norma linguística comuns e legitimadas socialmente, isto é, sem o uso de dialetos e de expressões regionais variadas. Desse modo, as pessoas em geral, por não dominarem essa língua e/ou essa norma linguística, não poderiam exercer a crítica e a política.
A crítica literária, que idealmente fora concebida para circular de forma independente, de modo a não servir de instrumento econômico e político, passa a assumir posicionamentos políticos, de acordo com os interesses econômicos e ideológicos privados dos editores. Esses críticos, apesar da constituição, já nesse tempo, do profissional das letras, não eram ainda profissionais especializados em literatura, mas exerciam funções liberais como a de advogados, políticos e economistas. Desfaz-se, nessa ocasião, a ideia da crítica como uma prática de consenso cultural, para tornar-se um mecanismo de relativa disputa por poder político.
No século XIX, emerge a figura do que Eagleton (1991) chamará de ‘sábio’, isto é, o crítico que, diante da crise e da suspeita do comprometimento de sua prática com interesses políticos e econômicos, precisa propagar a ideia de que estabelece uma posição de imparcialidade em relação ao que comenta, e que considera as opiniões compartilhadas por seu público alvo, de modo a garantir a seu pronunciamento uma dada autoridade. Para isso, passa então a se manifestar de forma mais dogmática e autovalidante. Sua influência de outrora, primeiro como detentor de uma racionalidade iluminada, como juiz e administrador de normas, em seguida como estrategista e catalisador cultural e, posteriormente, como figura política e como principal intermediário entre a obra e o público, passa aos poucos a ser transferida para os artistas.
Página 58 Machado de Assis, no Brasil, é um exemplo dessa afirmação da profissão e
dessa transferência do exercício da crítica que passa a ser assumida por artistas, nesse período. Conforme se lê no Diário do Rio de Janeiro, ainda no ano de 1865, Machado de Assis compreendia a atividade da crítica literária como uma profissão, que exigia do crítico duas condições principais: ciência e consciência. Além disso, o crítico deveria deixar de lado a imaginação e breves resumos sobre as obras, para ater-se à meditação profunda sobre o que lê, aplicando as leis da poética para encontrar até que ponto a imaginação e a verdade dialogam na produção literária, de maneira que as conclusões do crítico serviriam tanto à obra concluída como àquelas ainda em constituição. Segundo o autor:
Exercer a crítica afigura-se a alguns que é uma fácil tarefa, como a outros parece igualmente fácil a tarefa do legislador; mas, para a representação literária, como para a representação política, é preciso ter alguma coisa mais que um simples desejo de falar à multidão. (MACHADO DE ASSIS, 2011, p. 7)
Trata-se, assim, de um novo crítico, incumbido de instruir e reinventar a esfera pública, diante da dispersão dos públicos e da alienação provocada pela lógica do mercado: o “homem de letras”, um acadêmico, não exatamente ainda um especialista, mas sensível às exigências públicas será o perfil desse novo crítico. Ligado tanto à postura autoritária do sábio quanto à prática do consenso própria aos jornalistas do século XVIII, este profissional buscou formar a opinião pública, com algum sucesso, situando-se entre a classe letrada e as forças de mercado, exercendo uma crítica mais moral que intelectual.
O tradicional “homem de letras” perde progressivamente público à medida que as universidades começam a atuar como centros de pesquisa e a atividade teórica dentro dos estudos literários começa a crescer, exigindo a especialização do profissional, para manter sua legitimidade. A academicização da crítica oferece-lhe suporte institucional e, por conseguinte, restabelece-lhe o vigor e a atenção, em troca, a crítica perdia seu relação política e socialmente ativa. O século XX é marcado, assim, no contexto da crítica, pela mudança de público, pelo deslocamento da grande classe média para a pequena elite, restrita ao interior da academia.
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