Este estudo buscou, em primeiro lugar, relativizar uma imagem cristalizada acerca da comparação entre dois grandes romancistas que mereceram incontáveis estudos de uma vasta fortuna crítica: aquela de que os escritores deveriam ser estudados separadamente, ou, ao menos, de que deveria ser reconhecida sua diferença fundamental no percurso de ascensão e formação do romance moderno português. Como demonstramos, os escritores compartilham determinadas visões e perspectivas a respeito do público leitor oitocentista, bem como de suas demandas e necessidades, a ponto de sugerirmos que o par Eça e Camilo poderia ser, doravante, analisado a partir da ótica de um percurso similar nos inícios de sua carreira, no qual a diferença que tanto se busca observar em suas obras pode ser mais radicalmente afirmada com relação à França que entre os próprios escritores.
Assim, é lícito afirmar que Eça e Camilo, ou Camilo e Eça, já que a despeito de sua incontornável separação buscamos aproximá-los num percurso relativamente semelhante, de modo que o par que houvemos de formar não tem precedência ou desigual importância, contribuíram igualmente para a formação e ascensão do romance moderno português, mas não somente: também foram ícones fundamentais para a solidificação de um romance original, autônomo e independente, que embora apresentando pontos de contato com o romance francês, aspecto dificilmente contornável, também trouxeram uma evidente faceta crítica. Assim, ressaltamos que os escritores deixaram, definitivamente, um importante legado que deve ser compreendido e valorizado em sua relevância histórico-cultural, pois que foram, ao lado de Júlio Dinis, os grandes romancistas modernos portugueses.
Para tal análise, realizamos um percurso introdutório a respeito da literatura e cultura francesas e sua reiterada hegemonia no século XIX, buscando privilegiar, no entanto, novas perspectivas assentes num comparatismo cultural de base policêntrica e descentralizadora; em seguida, traçamos um estudo analítico do romance-folhetim no século XIX, suas variadas vertentes e seu percurso evolutivo, relacionado às modificações do leitorado francês, da imprensa francesa e da própria literatura como meio de entretenimento.
Após observar o contexto de surgimento do romance-folhetim francês e de sua evolução, passamos a uma estreita comparação entre os romances Les Mystères de Paris, de Eugène Sue, e Mistérios de Lisboa, de Camilo Castelo Branco, buscando ressaltar as diferenças que se interpõem no caminho dos romances franceses em direção a Portugal, sublinhando, dessa forma, o posicionamento crítico do indivíduo interpretante.
Verificadas as importantes dessemelhanças entre os romances de Sue e Camilo, passamos ao não menos original romance de Eça de Queirós e Ramalho Ortigão, modelo híbrido e amplamente paródico, no qual buscamos demonstrar a desconstrução que se realizou de um modo de ficção bastante popularizado na época: o fait divers.
Por fim, ao aproximar os dois escritores nos inícios de suas carreiras, quando o influxo da literatura francesa era particularmente hegemônico e fazia-se amplamente vigente em Portugal, buscamos comprovar que seus percursos foram pontuados de inúmeras semelhanças e que podem ser lidos através de particularidades histórico-literárias que nos permitem, com efeito, afirmar que constituíram um movimento coletivo de afirmação do romance português e de sua índole crítica.
Finalizamos nossas investigações, portanto, do percurso que leva o romance francês a aventurar-se em terras portuguesas reafirmando a autonomia do sistema literário português frente ao francês, lembrando ainda que estivemos a tratar de grandes mestres (na periferia) do sistema, e que, por isso, certamente prescindam de outras considerações.
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