distinção do tempo linguístico de outras noções de tempo, ou seja, a singularidade do tempo linguístico está relacionada ao exercício da fala. O discurso inaugura o momento exato da enunciação.
É o ato de linguagem que gera o agora da fala. O tempo presente é que indica a contemporaneidade entre o evento narrado e o momento da narração. O agora é
reinventado a cada vez que o enunciador enuncia, e a cada ato de fala instaura-se um tempo novo.
(T18-F1) O Espelho
Se quer seguir-me, narro-lhe; não uma aventura, mas experiência, a que me in- duziram, alternadamente, séries de raciocínios e intuições. Tomou-me tempo, desânimo, esforços. Dela me prezo, sem vangloriar-me. Surpreendo-me, po- rém, um tanto à-parte de todos, penetrando conhecimento que os outros ainda ignoram. O senhor, por exemplo, que sabe e estuda, suponho nem tenha ideia do que seja na verdade - um espelho? Demais, decerto, das noções de física, com que se familiarizou, as leis da óptica. Reporto-me ao transcendente. Tudo, aliás, é a ponta de um mistério. Inclusive, os fatos. Ou a ausência deles. Du- vida? Quando nada acontece, há um milagre que não estamos vendo. (ROSA,
1988)
O sujeito desta narrativa convida o leitor a participar de um exercício lógico sobre a experiência do tempo presente através do reexo do espelho. Se quer seguir- me, narro-lhe; não uma aventura, mas experiência,(...) Essa conguração genérica se insere no que a Literatura aceita como discurso da narrativa. O tempo presente inaugura o ato de dizer, mas diz uma representação de experiência (se quer seguir- me, narro-lhe) que dá o caráter ccional do texto.
O texto (T18-F1) traz um enigma: a classicação que o linguista faz entre o tempo do discurso e o tempo da narrativa. Isso porque, quando nada acontece, há um milagre que não estamos vendo, ou seja, presente e passado podem estabelecer uma hibridização na ordem da temporalidade ccional, cuja fronteira, instituída entre discurso e narrativa, carece de correção, exatamente se exibilizarmos as marcas temporais da narrativa postas pela linguística da enunciação, mais precisamente dialogando com o pensamento de Benveniste (1989).
Na narrativa, considera-se o pretérito a marca do recuo ao passado, tornando- se o tempo canônico da narração. A narrativa que Benveniste opõe ao discurso pode-se chamar de "enunciação histórica", que se caracteriza como narrativas dos acontecimentos passados, ou seja, os fatos ocorridos num certo momento do tempo, sem qualquer intervenção do locutor na narrativa (RICOEUR, 1995, 113).
(T18-F2) Havia pouca gente na livraria àquela hora, logo depois de abrir, e apenas uma pessoa estava examinando a bancada de livros. Dois outros clientes vascu- lhavam os CDs, e um vendedor ajudava o dono do sebo a trazer os livros do depósito. Reconheci logo que a pessoa diante da bancada era o professor Lopes Neto, de quem eu fora aluno no Instituto de Filosoa e Ciências Sociais. Ele dava aula sobre o Brasil colonial e sobre a história dos livros e da imprensa. Não era a primeira vez que nos encontrávamos, já que tínhamos em comum o hábito de percorrer, com bastante frequência, os sebos do centro da cidade, desde a Praça Tiradentes até a Cinelândia.(SüSSEKIMD, 2005)
Podemos, portanto, observar na gura abaixo como no estudo de Benveniste cada modo de enunciação tem seu sistema de tempo:
Figura 4: Tempo da narrativa e tempo do discurso
Esse quadro explicita a denição linguística de tempo, demarcando o tempo da enunciação e o tempo do enunciado, ou seja, salienta os marcadores temporais próprios do discurso T18-F1 e os tempos denidores da narrativa T19-F2.
Segundo Paul Ricoeur (1995, 112-113), a narrativa não pode excluir o presente sem excluir as relações de pessoa: eu-tu; o aoristo2 é o tempo do acontecimento, fora
2É uma forma do verbo indo-europeu bem ilustrado pelo grego e pelo sânscrito. Marcado por de-
sinências especícas de pessoas e de número, apresenta-se em grego seja com um inxo "s"associado à raiz (aoristo sigmático ou aoristo primeiro), ou com uma raiz sem inxo e muitas vezes de grau reduzido. O aoristo opõe-se ao imperfeito e ao presente e ao pretérito, que apresentam a ação em desenvolvimento ou como acabada; o valor aspectual do aoristo é o de uma ação independente de uma relação com o sujeito da enunciação (o aoristo é indeterminado em relação ao tempo da ação); é a forma não-marcada do aspecto em grego. Exprime a ação chegada a seu termo (aoristo propriamente dito ou resultativo), ou a ação em seu início (aoristo ingressivo ou incoativo), ou
da pessoa e do narrador. Este verbo desprovido da experiência pessoal do tempo não deixa de marcar a possibilidade da coincidência do acontecimento com o tempo do discurso T18-F1 - reporto-me ao transcendente.
Essa relação mimética entre tempo do verbo e tempo vivenciado não pode esta- belecer uma oposição entre discurso e narrativa, mas ressaltar, sobretudo, o papel do discurso na própria narrativa. Tal como o sujeito (T18-F1) diz tomou-me tempo ex- plicita uma concordância entre tempo linguístico e experiência de tempo no mundo. Com efeito, a narrativa traz um duplo problema no seu processo de discernimento entre a enunciação e o enunciado, que em Benveniste se entende como entre discurso e narrativa, que é, por um lado, o das relações entre o tempo da enunciação e o tempo do enunciado e, por outro, o da relação entre esses dois tempos e o tempo da vida e da ação (RICOEUR, 1995, 114). Problema este que o linguista francês
não tem como foco do seu estudo, por causa da sua perspectiva teórica que está no âmbito da subjetividade da linguagem. Portanto, partimos para o estudo de outros teóricos, que possam explicitar o jogo do tempo na literatura de cção.