O motor deste estudo foi investigar as relações, que poderia sem exageros chamar de contraditórias, entre universidade e sociedade. Instituição historicamente agregadora de imenso capital simbólico, nela se mesclam nobreza e mundanismo, distinção e ostracismo, vanguardismo e conservadorismo, entrincheirados em um ambiente com regras e ritos próprios. Das inúmeras frestas através das quais a investigação sobre o universo acadêmico se torna possível, escolhi a formação inicial de professores, através dos cursos de Licenciatura, como um terreno fértil em que essas relações se mostram mais claramente ligadas ao “mundo real”.
Algumas das razões dessa escolha já foram aqui apontadas, mas a ela agrego um aspecto diretamente ligado às expectativas midiáticas e às próprias demandas internas dos chamados grupos de resistência acadêmicos: a necessidade imperiosa de pensar a democratização do espaço universitário.
São pelos clamores da “democratização” que se vem exigindo da universidade pública a abertura de seus espaços e o redesenho de seu perfil. Por conta dessas demandas, incluem-se hoje em sua pauta de discusões a expansão de vagas, os sistemas de representação, as políticas compensatórias (as cotas étnicas ou sociais, por exemplo) e o redesenho da pesquisa e extensão. Mas é igualmente através das exigências
legítimas por democratização que o chamado sistema produtivo investe seus ardis sobre a universidade, impondo-lhe uma agenda mercantilizada de prestação de serviços, cuja conseqüência mais imediata é o acirramento dos mecanismos predatórios da competição aberta, institucionalizados em parâmetros avaliativos extensos e naturalizados como justos. Nunca antes nesse país as estatísticas ocuparam espaço tão vital na engenharia acadêmica.
Atender às demandas do capitalismo globalizado pressupõe redefinir as condições concretas de sua produção e reprodução. Internamente, os mecanismos de cooptação parecem ter sido absorvidos pelos grupos proeminentes e, por isto mesmo, dependentes de vultosos aportes de capital, e a meritocracia naturalizou-se como critério democrático de distribuição de bens simbólicos e materiais.
A distribuição e ampliação de vagas na universidade intensificada na última década do século passado, em especial através dos cursos noturnos, não poderia escapar desse ambíguo significado de democratização. Se, por um lado, responde a reivindicações justas e legítimas de atendimento a segmentos excluídos das benesses da educação superior pública, especialmente dos trabalhadores e segmentos menos favorecidos da população, por outro lado deve ser canalizada para o atendimento das demandas mais prementes do mundo produtivo.
As Licenciaturas se inserem muito bem nessa função. De um lado, atendem a necessidades de qualificar os quadros docentes necessários a atuar na escola, suprindo uma carência notória de pessoal, em especial nas áreas das chamadas ciências duras. De outro, torna a função docente como uma fatia dos bens acadêmicos ofertada preferencialmente aos estratos sociais menos privilegiados, cumprindo, assim, a dupla função perversa de reprodução dos lugares sociais no interior da academia e atendimento às demandas do capital (pela qualificação da mão-de-obra abundante na escola média).
a. No significado que a universidade tem de responsabilidade social, democratização e construção de cidadania que foi priorizado na implementação das Licenciaturas noturnas, nos moldes em que foram concebidas;
b. No tipo de conhecimento científico produzido, difundido e valorizado em um Instituto de Ensino e Pesquisa e nas correlações de força existentes entre dois campos epistemologicamente distintos, porém correlatos, já que têm a Ciência Química como área de interseção: o da formação de pesquisadores e profissionais da área científica, no Bacharelado, e o da formação docente para o Ensino Médio e Fundamental, na Licenciatura;
c. Na apropriação das retóricas do “novo” como uma realização conservadora de um projeto transformista, de favorecimento político e material e cooptação intelectual;
d. Na procura de relações entre esses elementos e os interesses dos setores políticos nacionais e internacionais alinhados no atendimento das demandas do capital.
Os objetivos desta pesquisa se concentram em:
1. Identificar como foi gestado o processo de implementação da Licenciatura Noturna em Química na UFRJ e as demandas a que veio atender;
2. Localizar os elementos que permitam traçar o esboço de uma cultura institucional hegemônica na Licenciatura, através dos embates concorrenciais entre os agentes e as instituições envolvidas no processo;
3. Apontar as estratégias de transferência de capitais simbólicos entre campos epistemológicos distintos, como o científico e o educacional, e o significado que isto ganha na realização de um projeto em a Educação se configura como moeda de troca para consolidação de grupos hegemônicos na universidade.
Os objetivos apontados têm como cerne a preocupação minha em compreender as relações ambíguas mantidas entre a universidade e a sociedade, entre produção
intelectual e reprodução do capital, e de que forma a universidade intervém na escola, na qualidade de donatária dos conhecimentos tidos como válidos.
Algumas hipóteses de trabalho emergiram do conjunto das questões propostas, visando a atingir os objetivos desta tese. São hipóteses que vão se adensando na medida em que me confronto com o material empírico examinado e as informações contidas no extenso rol de publicações sobre formação docente, discutidas nos capítulos seguintes.
1. A partir da implantação do curso de Licenciatura Noturna, articula-se um sentido pragmático paro campo pedagógico, que deve tornar viáveis as justificativas do “novo” projeto de curso;
2. Na implementação das Licenciaturas Noturnas científicas, a UFRJ assume os interesses politicos dos Institutos de pesquisa, sendo negligente ou descartando as considerações da Faculdade de Educação;
3. A Educação foi tomada como moeda de troca para consecução de um modelo de formação que tivesse função de proteger os interesses dos grupos hegemônicos na estrutura institucional.
Identifico, nas correlações de força travadas na academia, em que está posto em jogo mais que a defesa de um ponto de vista epistêmico e teórico (a distribuição de poder e, principalmente, de recursos está ali presente todo o tempo), um transformismo que faz com que o discurso acadêmico incorpore elementos dos discursos tipicamente pedagógicos, com o intuito de dar foros de legitimidade à sua intervenção na formação do licenciando. Percebo-o, diferentemente de um processo salutar de compartilhamento de funções e responsabilidades, como estratégia clara transferência de capital simbólico, visando a privilegiar politica e materialmente o campo científico.