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Discussion, conclusion and future directions

Box 5.6 Ecosystem accounting at municipal level

5. Discussion, conclusion and future directions

Usamos Mateus 6.2-4 no capítulo anterior a fim de expor pela primeira vez nossa leitura, que é o cerne de todo esse trabalho. Naquela primeira exposição, o texto mateano, ainda que breve, nos dava a possibilidade de explorar o tema da economia mateana de forma abrangente. Mesmo assim, a leitura de uma única passagem é insuficiente para que nossa hipótese de leitura, que pretende se aplicar a todo o evangelho, se estabeleça.

Começaremos o terceiro capítulo relembrando um dos enfoques deixados por aquela leitura, que é a maneira como o texto de Mateus relaciona seu Deus com a figura do patrono que, como vimos, ocupava no Mundo Mediterrâneo do primeiro século o topo de uma cadeia vertical de dependência de implicações sociais e econômicas. A figura social do patrono, bem presente e notável nos ambientes urbanos daqueles tempos, oferecia aos envolvidos com o discurso do evangelho um referente, um modelo concreto a partir do qual Deus, como signo, poderia ser melhor definido.54 O patrono era um sujeito detentor de privilégios, prestígio e poder; figura honrada que pareceu ideal para o autor de Mateus que a tomou como um estereótipo a partir do qual constrói o imaginário sobre sua divindade antropomórfica. Para falar de Deus o Evangelho de Mateus por vezes emprega patronos em metáforas, cria parábolas nas quais este modelo sempre exerce um papel de senhor, mostra-se detentor de riquezas, digno de honra, capaz de controlar seus clientes, de manipulá-los, de recompensá- los ou de puni-los. Mesmo quando Deus (ou o Filho do Homem) protagoniza as narrativas mateanas sem a intermediação de um patrono metafórico, vê-se que as mesmas características

54 Para o leitor que se interessar Eliana B. Malanga discutiu em A Bíblia Hebraica como Obra Aberta o

problema da significação dos deuses a partir da semiótica (2005, p. 154-163). Ela observa que Deus é um signo (seja sua representação um ícone, um índice ou um símbolo) cuja representação parte apenas de um significante, ou seja, que nasce exclusivamente de uma imagem mental desenvolvida pelo autor dessa representação. Para Deus não há referentes, não há manifestações concretas a serem interpretadas, e o imaginário, como significado, acaba servindo como única fonte para o estabelecimento do signo. Nossa suposição é a de que o autor do Evangelho de Mateus se apropria da figura estereotipada do patrono como um referente parcial para sua construção metafórica de Deus.

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lhes são atribuídas, pelo que se pode afirmar que, para o livro de Mateus, Deus é um patrono perfeito.

Como dissemos, ainda que parte dessas conclusões possam ser extraídas apenas da análise de Mateus 6.2-4, tirar conclusões a partir de uma única e tão breve passagem e as aplicar ao discurso mateano em geral seria, no mínimo, imprudência metodológica. É preciso aprofundar a pesquisa, testar com mais rigor nossas hipóteses iniciais, e para isso, outras leituras do mesmo evangelho são fundamentais. Além disso, seguimos conscientes de que nenhum texto do Evangelho de Mateus explicita a adoção desse estereótipo clientelista na construção do personagem Deus em termos tão diretos quanto gostaríamos. Estamos mesmo desenvolvendo uma leitura e vamos daqui por diante defender a plausibilidade dela, demonstrar sua aplicabilidade ao livro de Mateus como um todo. Noutras palavras, cabe a nós, teimosos leitores de textos que não nos foram diretamente destinados e que insistem em compreender o funcionamento dessa linguagem que une o imaginário religioso judaico a padrões culturais e socioeconômicos do Mundo Mediterrâneo, demonstrar quão confiável é nossa leitura que propõe que padrões clientelistas condicionaram a formação do discurso mateano.

Para tanto, uma ecolha se faz necessária: a averiguação ideal das hipóteses nos sugere a necessidade do exame de todos os textos econômicos que listamos no capítulo inicial, mas o número elevado de textos catalogados nos levaria a exceder muito os limites de tempo e espaço dessa pesquisa, o que de imediato inviabiliza esse procedimento ideal. Neste caso, duas soluções são possíveis: numa delas poderíamos examinar esses textos brevemente, superficialmente, apenas demonstrando as possíveis ligações que porventura existam entre os conteúdos desses fragmentos literários e nossa proposta de leitura mais geral. A dificuldade com essa primeira possibilidade é que a análise parcial dos textos é um processo de escolhas, onde se dá ênfase aos pontos de interesse enquanto se negligencia os demais. Assim, nosso anseio por defender nossa hipótese facilmente poderia se converter em manipulação dos textos. Por nossa experiência com a exegese bíblica, esse tipo de análise parcial não nos agrada, já que para nossos critérios tais análises não costumam transmitir muita credibilidade. A segunda solução seria essa: selecionaríamos uma amostragem limitada, mas relevante dentre esses muitos textos, e os examinaríamos com minúcias a fim de que dessa amostragem pudéssemos fazer afirmações gerais. Mesmo assim, deve-se reconhecer que se trata de escolhas: será que os textos selecionados representam de maneira fidedigna os demais que estão sendo ignorados? Será o discurso do Evangelho de Mateus é tão coerente internamente

que podemos, ao fim do exame de uma amostragem de textos, aplicar de forma segura ao livro inteiro as conclusões alcançadas?

Nossa escolha, por fim, foi pela segunda opção. Selecionaremos um número limitado de passagens e as organizaremos tematicamente em dois capítulos, onde essas amostras serão estudadas com considerável rigor exegético. Nesses capítulos procuraremos ainda dar conta das peculiaridades impostas pela própria gênese do evangelho, que conforme se acredita, tanto reeditou produções literárias anteriores (heranças do Evangelho de Marcos e da hipotética Fonte Q) quanto criou material inédito. Felizmente a própria prática exegética exigirá de nós constantes menções a outras passagens econômicas de Mateus que num primeiro momento não faziam parte dessa amostragem, e assim esperamos demonstrar que existe uma coerência discursiva no evangelho que autoriza a aplicabilidade geral das nossas conclusões pontuais.