Para atingirmos nosso objetivo central neste trabalho, que é investigar os processos gerativos do comportamento verbal apresentados por Skinner (1957) em contraposição às críticas de Chomsky, precisaremos, antes de tudo, verificar a proposta do autor de análise funcional do comportamento verbal, situando-a dentro da visão skinneriana de uma ciência do comportamento. Isso porque acreditamos que compreender o comportamento verbal nos remete a vislumbrar as principais características da ciência que explica o comportamento humano de uma forma geral. Neste sentido, parece ser necessário indicar como Skinner (1957) argumentou que o estudo do comportamento verbal poderia ser concebido como científico e como sua análise do comportamento verbal se distanciaria das visões consideradas por ele como “tradicionais” da área.
Ademais, este caminho tem outra função em nosso texto. Como veremos no terceiro capítulo, as principais críticas de Chomsky apresentadas na Revisão (1959) se voltam para a proposta skinneriana da ciência behaviorista e da geratividade verbal. Sendo assim, é preciso que este texto lide com as visões de ciência e de filosofia da ciência defendidas por Skinner, para que outro de nossos objetivos seja alcançado, a saber, decidir sobre a verdade ou falsidade das críticas de Chomsky. Partiremos, então, a partir de agora, para este nosso primeiro empreendimento.
3.1 - A Ciência do Comportamento e a Análise Funcional do Comportamento Verbal: O Programa Defendido por Skinner e o Lugar do Comportamento Verbal Neste Programa
Falar sobre a ciência do comportamento é uma tarefa complexa, principalmente quando o foco recai sobre uma ciência do comportamento verbal. A dificuldade se origina de várias fontes. Em primeiro lugar, há uma multiplicidade de interpretações da obra de Skinner, o que, em certo sentido, produz entendimentos diferentes
por parte dos autores que comentam os trabalhos skinnerianos. Análises como as de Chomsky (1959, 1968/2006a; 1971) e Villalobos (1979), por exemplo, classificam a obra de Skinner como resultado de um pensamento tipicamente empirista, que, por concentrar seus esforços em análises objetivas ou “observáveis” não considera nenhum aspecto relevante da complexidade humana. Na visão destes autores, tais “análises objetivas” subjugam as capacidades humanas e transformam o indivíduo em um ser praticamente não dotado de vontade e, assim, em uma marionete do ambiente. 11 Discursos como estes proliferaram na literatura, transformando afirmações como a seguinte em afirmações corriqueiras:
A abordagem skinneriana é essencialmente periférica. Ela não leva em consideração o que ocorre na mente do indivíduo durante o processo de aprendizagem. O que interessa é o comportamento observável, isto é, Skinner não se preocupa com os processos intermediários entre o estímulo (E) e a resposta (R). (...) Ele [Skinner] simplesmente ignora as variáveis intervenientes e concentra-se no controle ou predição das relações entre variáveis de input (estímulos) e de output (respostas). (MOREIRA, 2006).
Outras análises, de cunho favorável ao texto skinneriano, ao contrário, consideram que o uso do termo “observável” na ciência skinneriana, assim como a não apresentação de elos intermediários entre estímulos e respostas, não se configura uma restrição do modelo científico apresentado pelo autor. Baseados nos argumentos do próprio Skinner, tais autores sustentaram que o modelo behaviorista skinneriano estaria construído de forma a não conceber que algo acontece “entre” um estímulo e uma resposta. Ou seja, o comportamento deve ser entendido como um objeto científico em seu próprio direito, como uma relação entre termos que não devem ser reduzido a nada mais, nem aos próprios termos que o definem (SKINNER, 1953/1965). Nada iria para além da própria relação comportamental, e sendo assim, tais aspectos não seriam apresentados porque eles simplesmente não existiriam. 12 Discursos como estes podem ser exemplificados com o seguinte trecho:
Ao contrário da filosofia da mente tradicional, que defende a existência de uma mente imaterial e inacessível, e de uma mais atual, que identifica a mente com o
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Estes aspectos serão retomados no sexto capítulo deste texto. 12
Trabalhos como os de Laurenti (2004), Lopes e Abib (2003) e Zuriff (1985), por exemplo, dentre muitos outros, discutem em pormenores estas questões e apóiam esta visão não restrita da teoria skinneriana.
cérebro, o Behaviorismo Radical pode ser considerado uma filosofia da mente na exata medida em que considera a mente como uma relação complexa, como comportamento, que não pode ser reduzido aos seus constituintes. (LOPES; ABIB, 2003).
Em qualquer um dos casos, sem que seja necessário que se tome algum tipo de partido neste momento em relação aos argumentos aqui expostos, pode-se verificar que uma discussão da visão científica skinneriana é, no mínimo, um assunto polêmico gerador de inúmeros posicionamentos diferentes. Não parece, portanto, que se possa afirmar, ao fim e ao cabo, que esta ou aquela é a ciência skinneriana. Desde que analisar a obra de uma autor seja, no mínimo, (re)interpretá-la, há sempre a possibilidade de se obter diferentes discursos em relação ao objeto de interpretação.
Em segundo lugar, a própria ciência de Skinner passou por mudanças substanciais ao longo do tempo. Por exemplo, em suas primeiras publicações na década de 1930, Skinner certamente estava muito mais ligado a resquícios do Behaviorismo Metodológico, do que na segunda metade do século XX. Por exemplo, a “invenção”, ou para alguns a “descoberta”, do comportamento operante e a introdução de uma análise do comportamento verbal são considerados como um marco do distanciamento da teoria behaviorista radical em relação aos modelos de seus predecessores behavioristas. Contudo, em suas primeiras publicações, Skinner ainda falava em termos de reflexo e denominava o que conhecemos como operante como “reflexo do tipo I” (SKINNER, 1935/1999a). Assim, o termo reflexo servia tanto para o comportamento do tipo S-R, quanto para o que hoje denominamos operante, mesmo que estes fossem tomados já naquela época como formas de comportamentos bastante distintas. Em vista disso, discutir o modelo científico defendido por Skinner requer que se compreenda o desenvolvimento de sua obra na sua totalidade. Caso essa tarefa não seja realizada, é possível que se incorra em algum tipo de equívoco conceitual. Em terceiro lugar está talvez o aspecto que gera a maior dificuldade quando se pretende apresentar o modelo de ciência de Skinner, vinculando a ele a análise do comportamento verbal: Skinner (1957) apresenta sua teoria do comportamento verbal como um exercício de interpretação baseada na descrição de princípios comportamentais resultantes de uma prática científica prioritariamente desenvolvida em ambiente controlado de laboratório e com animais não humanos que não são considerados verbais. Neste sentido, é possível que se argumente que em termos descritivos as bases científicas da análise do comportamento verbal podem sugerir tal análise, contudo podem vir a não justificá-la.
Assim, toda a tentativa de situar a análise do comportamento verbal dentro da ciência skinneriana, pode vir, em algum momento, a não se mostrar como reveladora de princípios científicos.
Essa é uma dificuldade que parece acontecer quando dois aspectos essenciais da filosofia skinneriana são avaliados: os aspectos descritivos e os prescritivos. Dittrich e Abib (2004) fizeram uma análise muito fecunda destes dois conceitos em uma discussão sobre o sistema ético da ciência skinneriana. Estes autores, comentando a filosofia moral de Skinner, afirmaram que esta tem sua função descritiva revelada quando Skinner apresenta quais as leis que regem o comportamento humano, ou seja, quando o autor descreve os fenômenos do comportamento e da cultura e, neste sentido, mostra os princípios científicos que alicerçam uma filosofia moral. Já o aspecto prescritivo desta filosofia estaria relacionado às afirmações de Skinner no sentido de inferir qual o modelo moral que seria o mais promissor, em sua concepção. Neste caso, os autores apontaram existir uma prescrição porque um valor moral deve ser compreendido apenas como um possível caminho a ser seguido, não existindo possibilidade de ele ser descrito da mesma forma que um princípio científico. A característica prescritiva, assim, apenas mostra como as leis morais deveriam ser. Os autores explicaram que supor valores morais inspirados em resultados de uma teoria científica não significa que estes sejam justificados por ela. Ora, em alguma medida, isso é exatamente o que estávamos dizendo que acontece em relação ao estudo do comportamento verbal: se quando Skinner apresenta o Comportamento Verbal, ele argumenta que os princípios do comportamento não verbal devem satisfazer também o comportamento verbal, ele apenas pode garantir o caráter prescritivo da ciência. A descrição aqui, não acontece em relação aos aspectos verbais, mas sim aos não verbais.
Consideramos, então, que, mesmo que fosse possível uma interpretação que atingisse com perfeição a proposta do pensamento de Skinner, esta, ainda assim, ocuparia muito mais espaço para ser confeccionada devido às complexidades aqui registradas do que um capítulo apenas, como o que pretendemos apresentar aqui. Sendo assim, informamos que o objetivo de analisar a ciência skinneriana e o lugar do comportamento verbal nesta ciência é um empreendimento complexo e certamente mais complexo do que o que conseguiremos executar neste texto. Contudo, buscaremos ao máximo fazer jus a obra do autor, buscando os elementos que mais tarde nos serão úteis para compreender a polêmica entre Chomsky e Skinner.
3.1.1 - Ciência e Comportamento Verbal
A ciência para Skinner (1953/1965) é, antes de tudo, “um conjunto de atitudes. É uma disposição de tratar com fatos e não com o que se possa ter dito sobre eles” (p. 12). Tratar com fatos indica, na concepção skinneriana, mais do que obtê-los: a ciência abre um novo horizonte de possibilidades ao cientista. Isso porque “a ciência fornece a sua própria sabedoria” e “conduz a uma nova concepção do assunto, um novo modo de pensar sobre aquela parte do mundo a que se dedicou” (p. 6). Tal “sabedoria” é, segundo Skinner, difícil de ser aceita pelo cientista e pelo senso comum, porque em muitos aspectos pode vir a contrariar as suas mais calorosas crenças.13
Skinner (1953/1965) considera que o trabalho sobre os fatos deve ser superior à vontade e aos desejos do cientista. Este deve ser honesto quanto à apresentação de seus dados, evitando enganar, afirmar sem provas suficientes e inventar resultados. Entretanto, salienta o autor, os comportamentos de honestidade do cientista não são característicos de sua natureza, ou melhor dizendo, não são comportamentos necessariamente emitidos apenas porque o cientista se encontra engajado em uma atividade científica. O comportamento do cientista é, como qualquer comportamento, fruto das contingências passadas e atuais do cientista. São, então, as práticas científicas que definem conseqüências suficientemente importantes para os comportamentos honestos e fidedignos: se os cientistas forem honestos quanto aos resultados encontrados, mesmo quando estes contrariam suas expectativas iniciais, a ciência avança mais rapidamente. Isso se deve ao fato de que, como lembra Skinner, a ciência deve ser entendida como uma atividade passível de replicação e, neste sentido, qualquer eventual engano, proposital ou acidental, na interpretação ou comunicação dos resultados obtidos será descoberto mais cedo ou mais tarde. 14
Mais que um “conjunto de atitudes”, Skinner (1953/1965) considera que a ciência é uma incessante busca por ordem ou, pelo menos, uma tentativa de descobri-la. Portanto, a possibilidade de uma ciência está calcada no pressuposto de que o fato analisado
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Este é um dos motivos indicados pelo autor como decisivos para que uma ciência do comportamento como a que ele propõe fosse criticada: na medida em que o comportamento passou a ser objeto de análise, muito do que se imaginou como propriedades inerentes ao comportamento desapareceram frente aos resultados científicos e, por este motivo, segundo Skinner, aceitar todas as conseqüências de se fazer ciência termina por ser um desafio. 14
Aqui podemos verificar algumas características existentes na ciência skinneriana enquanto descrição e prescrição. Afirmar que o comportamento do cientista é mantido pelas conseqüências e modelado pelas práticas científicas da comunidade é descrever tal comportamento. Decidir, contudo, quais as melhores práticas que a comunidade deve priorizar para modelar comportamentos “honestos” passa a ser parte da forma prescritiva do modelo skinneriano. Essa decisão não pode ser justificada na descrição dos eventos científicos.
seja passível de ordenação, ou seja, que por meio de um método científico exista alguma maneira de se encontrar no fato estudado algum tipo de regularidade. A busca pela ordem exige que os fatos estudados sejam também passíveis de determinação, pois não é possível que fatos que mudem caprichosamente possam, de alguma forma, apresentar uniformidade.
A ciência na concepção de Skinner começa, então, com a observação15 de fatos isolados, com a descrição dos casos particulares, e deve a partir daí, formular leis gerais que mostrem regularidade. Skinner (1953/1965) escreveu que as afirmações com “propósitos científicos deverão estar baseadas em eventos observáveis, sendo exclusivamente em tais eventos que se deve confinar uma análise funcional” (p. 36). Na medida em que a observação do caso simples deve gerar uma lei geral, então, a ciência é um conjunto de regras gerais, as leis científicas, as quais em um estágio avançado devem, segundo o autor, propor enunciados não somente sobre o mundo, mas também sobre os próprios enunciados. Estabelecem assim “um modelo do seu objeto o qual ajuda a gerar novas regras, da mesma maneira que as próprias regras geram novas práticas no trato dos casos singulares” (p. 14).
Contudo, salientamos, formular leis é também comportamento ao mesmo tempo em que seguir as leis já formuladas também o é. Neste sentido, podemos compreender que a ciência, para Skinner, tem como um importante elemento o próprio comportamento do cientista, não somente porque, como vimos, as atitudes do cientista frente aos dados obtidos são modeladas e mantidas pela comunidade científica, mas também porque “o cientista, como qualquer organismo, é um produto de uma historia única. A prática que ele encontra como a mais apropriada dependerá, em parte, desta história” (SKINNER, 1956/1999b, pp. 123-124). Assim, para Skinner, a ciência envolve tanto comportamento mantido pelas suas conseqüências, quanto comportamento governado por regras. Vejamos como isso pode ser mais bem explicado, utilizando um exemplo fornecido pelo próprio Skinner, quando ele trata
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A afirmação de uma ciência baseada em observação é bastante polêmica. Isso porque em alguns casos comportamentos não são diretamente observáveis, principalmente quando o assunto é comportamento verbal. Pensamos para resolver problemas de forma que ninguém nos ouça e falamos sozinhos sem que outros possam saber sobre o que falamos. Como é sabido, Skinner não exclui os eventos privados de sua explicação, os quais são inobserváveis pelo experimentador. Como apontou Zuriff (1985) isso é possível porque Skinner dispensou a noção de acordo intersubjetivo, que era tão grata ao Behaviorismo Metodológico e, sendo assim, o objeto de estudo behaviorista radical deixou de ser limitado aos eventos públicos. Desta forma, parece que o “caráter observável” que Skinner reclama aqui não se pontua em ocasiões analisadas nas quais o comportamento não foi observado porque foi emitido de forma privada. Acreditamos que este caráter observável diz respeito à ontologia do objeto, ou seja, à sua condição de existência. Isso porque não há nada na definição skinneriana que permita a redução do comportamento a outras entidades que sejam internas, mentais ou conceituais, possivelmente inobserváveis pelos métodos da ciência do comportamento e porque, ao fim e ao cabo, na análise de Skinner o comportamento verbal surgiu na história humana como comportamento aberto. O fato é que, para Skinner (1953/1965; 1957; 1974/1976) o relato dos eventos privados apenas se torna possível mediante o ensino público de tais descrições, ou seja, formas privadas devem ter sido ensinadas de forma aberta em alguma ocasião da história de uma cultura.
de analisar seu próprio comportamento de cientista em um texto intitulado Uma história de caso no método científico 16 (SKINNER, 1956/1999b).
Naquela ocasião, Skinner (1956/1999b) disse que foi baseando-se nos estudos deixados por Pavlov ─ e em regras do tipo “controle suas condições e você verá ordem” (p. 104) ─ que construiu um primeiro aparato para realizar pesquisas com infra-humanos, com o objetivo de encontrar ordem nos dados obtidos pelo método experimental. Após seus primeiros resultados e alguns problemas com o controle do comportamento dos animais, Skinner mudou sua população de sujeitos, de ratos bebês, para ratos adultos, e construiu um novo equipamento para solucionar os problemas encontrados. Com os resultados das novas pesquisas, o autor foi desenvolvendo novos aparatos experimentais. Não é de nosso interesse argumentar sobre cada mudança nos aparatos desenvolvidos pelo autor, devido, principalmente, ao espaço e ao tempo que tomaríamos de nossos leitores, queremos apenas mostrar que o comportamento do cientista estava, neste estágio, sendo controlado pelas suas conseqüências imediatas. Os novos resultados geravam novas contingências que podiam, agora, controlar novas respostas. Ao final de várias mudanças nos equipamentos, Skinner chegou ao aparato que hoje comumente denominamos “caixa de Skinner”, um aparato simples, quando comparado aos aparatos iniciais, e que funcionava de maneira eficaz para o estudo do comportamento. Durante a construção deste aparato, o autor encontrou variáveis que serviam como ordenadoras dos dados, as quais serão descritas ainda neste capítulo. Assim, a forma de ordenar os dados do comportamento, passou a ser tida como uma lei geral que funciona para os novos experimentos e, atualmente, para os novos cientistas, como uma regra.
Neste exemplo podemos encontrar três características da ciência skinneriana comentadas por Abib (1993) e que, segundo este autor, mostram alguns aspectos inovadores da visão skinneriana de ciência. Em primeiro lugar, a ciência, para Skinner pode ser entendida como um conjunto de regras que propiciam a ação efetiva. No nosso exemplo, vimos que por meio das regras já estabelecidas por Pavlov, por exemplo, Skinner construiu um aparato e deu início a seus experimentos com infra-humanos na busca por ordenação dos dados do comportamento. Em segundo lugar, o conjunto de regras da ciência não é perfeito na descrição que realiza das contingências, ou seja, as regras são inexatas ao descreverem as contingências que as geraram. No exemplo acima, o aparato construído foi modificado inúmeras vezes até tornar-se útil na obtenção de dados ordenados. E por fim, como terceira
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característica, é o trabalho do cientista que corrige as regras inexatas e as aproxima das contingências descritas. Como vimos, foi sob controle das conseqüências atuais do seu comportamento que Skinner pôde, em nosso exemplo, mudar os aparatos de forma a aperfeiçoar a obtenção dos dados.
Dito isso, podemos começar a delinear como Skinner sugere que deva ser a ciência do comportamento. Primeiramente, podemos imaginar que uma ciência do comportamento deve lidar com eventos passíveis de ordenação e determinação. E de fato é o que acontece: o comportamento assume na visão skinneriana o lugar de objeto científico em seu próprio direito, ou seja, não redutível a qualquer outra entidade, seja ela neural, mental ou cognitiva, porque se considera que seja ordenável e determinável. Depois, podemos também concluir que a ciência do comportamento deve, para Skinner (1953/1965), estar “dentro das fronteiras de uma ciência natural”, como a descrita até o momento, pois, para ele, “nós não podemos assumir que o comportamento tenha propriedades particulares que requeiram métodos únicos ou uma espécie particular de conhecimento” (pp. 35-36).
A função da ciência do comportamento, segundo o autor (SKINNER, 1953/1965), seria a de esclarecer porque as pessoas se comportam da forma como se comportam, ou seja, ela deve descobrir as causas do comportamento. Contudo, a busca de causas dentro da ciência do comportamento é uma busca pelas variáveis das quais o comportamento é uma função. O efeito para o qual se procura uma causa é denominado “variável dependente” e as condições das quais o comportamento é função denomina-se “variável independente”. Isso significa dizer que Skinner não se utiliza a noção de causa em um sentido trivial, onde um evento A é responsável, inexoravelmente, pela ocorrência de um evento B. Procura-se na ciência do comportamento, por relações funcionais entre as variáveis, onde a ocorrência de uma ocasiona ou muda a probabilidade de ocorrência da outra. 17 Ou seja, o cientista do comportamento procura avaliar a probabilidade de que um organismo se comporte de uma determinada maneira em uma determinada situação.