Outra determinação da exploração sexual explicitada pelos(as) profissionais entrevistados(as) corresponde ao consumo como forma de inserção social. Nas falas que seguem logo abaixo, estas evidenciam a questão do status, da ambição e da afirmação.
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1. Eu acho que é fruto da pobreza e também da ambição em ter alguma coisa dessas que eu pensei. Elas ganharam alguma coisa em troca. Uma como a XXXXX ganhou uma máquina fotográfica, por exemplo (PROFISSIONAL 1).
2. [...] ela fez carnaval e concorreu pra rainha do carnaval e tinha coisas que as outras não tinham. E essa que a gente acabou de falar também, comiam xis, andavam num carro bom. [...] Então para elas representava um status, ter e andar num carro, ter um tênis bom (PROFISSIONAL 1).
3. [...] acho que é bem o que eu disse anteriormente, de quererem buscar recurso para comprar uma roupa diferente, um celular, ou uma maquiagem, um sapato novo, não sabendo distinguir o quanto isso é uma forma de violência pra elas (PROFISSIONAL 3).
4. Eu acho que é aquela coisa do consumo mesmo, primeiro de ter as coisas (PROFISSIONAL 6).
Na primeira fala, percebe-se que o(a) profissional identifica a pobreza como sendo uma das determinações e também a ambição de ter alguma coisa, aspecto este que se repete nas outras respostas. A questão do status e da inserção social aparece na segunda fala, quando se refere a uma adolescente que participou do carnaval e a outra que andava num carro bom. Outro aspecto que chama atenção é quando diz “tinha coisas que as outras não tinham”, trazendo implícito a questão do individualismo e da concorrência, além da possibilidade de se afirmar socialmente diante de quem não tem.
Sobre a vontade e o desejo de “ter as coisas”, faz-se necessário entender como isso se processa na sociedade capitalista, ou seja, como e porque as mercadorias em geral passam a ser tão desejadas pelas pessoas.
Marx, nos Manuscritos Econômico-Filosóficos problematiza como se constituem as necessidades no interior do sistema da propriedade privada.
Cada homem especula sobre a maneira como criar no outro uma nova necessidade para forçar a novo sacrifício, o colocar em nova dependência, para o atrair a uma nova espécie de prazer e, dessa forma, à destruição. [...] Todo o produto é uma isca por meio da qual o indivíduo pretende enganar a essência da outra pessoa, o seu dinheiro. Toda a necessidade real ou potencial é uma fraqueza que conduzirá a ave para o visco (MARX, 2006, p. 149-150).
Para a reprodução e desenvolvimento do capital, a sociedade em si precisa constantemente criar novas mercadorias e produtos, portanto, novas necessidades. Se a necessidade não for criada, a mercadoria não se realiza, ou seja, não é
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consumida. Para a sua realização a propaganda e a publicidade constituem-se em estratégias fundamentais para que a nova mercadoria passe a ser desejada por todos. A publicidade55 cumpre a função de atribuir sentido às mercadorias.
Na terceira fala, percebe-se também a influência da moda56, que desperta o desejo de aquisição de uma roupa, de um calçado novo, ou algo do gênero, necessitando para isso “buscar recurso”. Nesse sentido, se o consumo é um meio de afirmação social, as estratégias para acessar as mercadorias são diversas, especialmente quando não se tem as condições para tal, ou seja, o dinheiro. Dentre as várias estratégias contestáveis, uma delas pode ser a prostituição, ou como algumas adolescentes se referiram “sair com homens mais velhos”, não necessariamente para ganhar um dinheiro em troca, mas presentes que poderão corresponder ao seu desejo. Nesse mesmo contexto, destaca-se a fala do(a) profissional que evidencia o fato das adolescentes não reconhecerem isso como uma violência para elas. Para Hazeu e Fonseca (1998) a exploração sexual pode ser vivenciada na fase da adolescência como um exercício da autonomia, liberdade e conquista. Diferentemente do que pensam os autores acima, Meneghel et al (2009, p. 425) entende que “a prostituição não é uma expressão da liberdade sexual, mas está intimamente relacionada à violência, exclusão social, dificuldade econômica e cultura sexista e patriarcal”.
O Dossiê Violência de Gênero contra meninas (2005, p. 18) ressalta que “conviver com a violência imposta pela socialização desigual e sexista de gênero desde tenra idade faz com que as práticas abusivas sejam naturalizadas e banalizadas”. Também destaca que a naturalização e a institucionalização das relações violentas facilitam a passividade e a submissão das mulheres, das crianças e adolescentes às situações de violência sofridas, que sequer são identificadas como tal.
55 Por meio da publicidade, pretende-se que o consumidor vislumbre uma similaridade entre o produto
e o significado cultural que transporta, de modo que se passa a atribuir ao bem de consumo um sentido que existe no mundo culturalmente instituído. Por meio dos bens que cercam as pessoas, inferimos seu status social e as distâncias hierárquicas que nos aproximam ou afastam (GUERRA, 2010, p. 49).
56 Guerra (2010, p. 53) refere que a moda é outra importante estratégia de transferência de
significados as mercadorias. “A moda tem uma relação imbricada com esta nova configuração social baseada no consumo.
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Além disso, Serpa (2010) chama atenção para o fato de que pode haver um distanciamento da realidade das adolescentes com o que tem sido discutido pelas instâncias governamentais, não governamentais e pela sociedade.
[...] avanços com a conquista de novas leis e novas concepções sobre essa realidade ainda não conseguem atingir a adolescente que está diretamente vivenciando essa realidade. A forma como elas entendem o que fazem está coerente com a relação de troca estabelecida pelo capitalismo. Isso, de fato, pode dificultar o entendimento do estar explorada, pois o ganho financeiro adquirido com essa experiência permite sustentar o desejo de consumo, tão mantido e defendido pelo capitalismo (SERPA, 2010, p. 35).
Se o acesso a determinadas mercadorias, serviços e lugares representa status,
os pobres, do mesmo modo que as elites e a classe média descobriram que na sociedade contemporânea o consumo ostensivo é um meio de afirmação social e de definição de identidade. A identidade na Modernidade é um meio manipulável de realização da pessoa. Cada um é o que parece ser e não o que é “de fato” (MARTINS, 2002, p. 37).
Leal (2013a, p. 5) também corrobora que há uma expansão da ideia do consumo como meio de inserção social, estilo de vida e status57. Os meios de comunicação e informação veiculam “valores e princípios de uma sociedade de marcas”, de uma sociedade que se afirma pelas coisas que tem e consome, verificando-se assim uma relação coisificada entre as pessoas. O fato do acesso as mercadorias e serviços se dar de uma forma desigual fortalece “relações de discriminação de classe, de estilos urbanos e comportamentos socioculturais, capazes de despolitizar as diferenças e recriar respostas violentas e bárbaras para os conflitos”.
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“Transformam a prática do consumo numa espécie de afirmação de identidade burguesa, de “liberdade” e de “inclusão social” do cidadão, despolitizando a crítica de algo absolutamente desigual, híbrido e contraditório, que são as relações de consumo na sociedade capitalista contemporânea” (LEAL, 2013a, s/p,).
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Novos referenciais são construídos pelos apelos de marketing, de consumo, de expressão da libido e do prazer, do indivíduo, da competitividade, da solução do conflito pela força do “herói”, principalmente através da TV. [...] Essas referências apelam a um agir massificado, substituindo a imagem de si, a construção de sua identidade de sujeito, pela imagem de marca. Ao invés de se colocar como sujeito de relações sociais significativas afetivas, familiar ou socialmente, as pessoas se colocam como portadoras de uma marca, seja Nike, Benetton, Mercedes, Coca-Cola ou outra qualquer (FALEIROS, 1998, p. 13-14).
Serpa (2010, p. 35), ao analisar o processo de aproximação de adolescentes à prática da exploração sexual, abordando como elas percebem essa prática e quais elementos fizeram parte desse processo, também evidencia que a exploração sexual está atrelada a possibilidade de ter acesso ao consumo, não só em relação aos bens materiais, mas também a locais que lhe proporcionassem lazer: “Aí eu fui de carro com ele e com a minha irmã. Fomos para um bar para tomar cerveja e nos divertirmos bastante (Participante A, 17 anos)”.
A autora ainda refere que “ao relacionar a prática a uma possibilidade de aquisição financeira, relatam sentimentos de contentamento por favorecer o acesso ao que desejam como roupas, diversão, drogas, etc.” (SERPA, 2010, p. 35).
O Relatório da CPMI (2004) destaca que não somente crianças e adolescentes pobres percebem na exploração sexual a possibilidade de acesso ao consumo. “A necessidade desenfreada do consumo de bens e serviços de alto custo financeiro e o impulso de responder a isso pode levar à exploração sexual das próprias adolescentes das camadas médias que buscam realizar o desejo de consumo” (ROSÁRIO, 2004, p. 28-29).