Pesquisar e refletir sobre a temática das séries juvenis mundializadas no atual contexto não pressupõe um enfoque simples e unilateral, mas a abordagem de diferentes questões envolvidas. A mídia voltada para jovens hoje apresenta, mais forte do que nunca, uma implicação internacional e convergente. A indústria televisiva mundializada tem demonstrado uma compreensão das mudanças proporcionadas por este novo cenário, e assim busca se adaptar, bem como aproveitar-se dele a seu favor.
A proposta metodológica que se esboça nesta tese, busca a estruturação do objeto por meio de sua narrativa, levando em consideração diversos aspectos que envolvem a circulação de uma produção televisiva compartilhada mundialmente. Para tanto, partimos da ideia de cultura das séries proposta por Marcel Silva (2013), que busca abarcar o fenômeno tendo em vista seus diferentes ângulos. A cultura das séries, de acordo com o autor, é uma ampliação das formas de produção e de consumo audiovisual que resulta em novas dinâmicas espectatoriais envolvendo as séries de televisão, especialmente as séries estado-unidenses.
Estas novas dinâmicas estão relacionadas a três mudanças ou evoluções fundamentais circunscrevendo a circulação cultural dos seriados. A primeira são as reconfigurações dos modelos narrativos dos mesmos que foram sendo desenvolvidas a partir dos últimos 30 anos e se tornando cada vez mais ousadas na última década. A segunda mudança diz respeito ao contexto tecnológico que permite a ampla circulação
56 Tais recursos foram utilizados na localização de episódios e situações, acompanhamento ou detalhamento
de informações relativas a personagens. Por exemplo, frequentemente eu lembrava de determinada acontecimento em uma das séries, porém não conseguia identificar o episódio, portanto recorria a estas bases de dados e posteriormente buscava a sequência nos vídeos.
das séries mundialmente. E a terceira são as novas formas de consumo que vão além do espaço da narrativa, envolvendo comunidades de telespectadores, espaços de crítica, e outros locais que expandem o consumo.
Tais dinâmicas complementam-se abrindo espaço para que as séries americanas consigam competir com o modelo televisivo estabelecido em cada região. Isto não significa suplantá-lo – pelo menos no caso brasileiro, a produção televisiva nacional ainda impera em termos de audiência e repercussão –, mas sim que estas séries de TV formam espectadores de diversas partes do mundo, muitas vezes mantendo contato entre si e formando comunidades. Esta circulação transformou as séries em um objeto cultural de referência internacional, não pensado somente para a circulação interna em seu país de origem – mesmo que este ainda seja seu principal nicho. A televisão passa cada vez mais a ter uma circulação mundializada. A complexidade de tais transformações, não à toa, contempla uma circulação midiática equivalente ao circuito cultural proposto por Richard Johnson (2006)57.
A proposta de cultura das séries de Silva (2013) observa esta conexão entre diferentes formas de consumo, levando a modificações no sistema de produção e no próprio texto midiático, e vice-versa, dentro de um contexto econômico e cultural específico, sobretudo constituído pela crescente importância da convergência entre distintas plataformas tecnológicas. Barker (2012) aponta para a necessidade de examinar os fenômenos culturais sob suas próprias lógicas, argumentando a conveniência de dispor de abordagens que interconectem dimensões econômicas, políticas, sociais e culturais.
A ideia da cultura das séries desenvolve (ou complementa) a complexidade narrativa de Jason Mittell (2012-13). Esta, como veremos mais a fundo no decorrer do trabalho, não se restringe apenas a uma forma textual de narratividade que emprega diferentes graus de organização temporal e memória, mas a diversas condições emergentes na realização dos seriados. Para analisar as séries na atualidade, Mittell utiliza um conceito de poética histórica, que situa tanto o texto quanto seu suporte, a televisão, dentro de um contexto histórico midiático específico onde “[...] inovações nas formas da mídia não são vistas como avanços criativos de artistas visionários, mas como ligação de um número de forças históricas que trabalham para transformar as normas estabelecidas com qualquer prática criativa” (MITTELL, 2012-13, Introdução, parágrafo 12, tradução
57 Tal circuito prevê que as esferas da circulação cultural, 1) produção; 2) textos; 3) leituras; 4) culturas
vividas, estão interconectadas e afetam umas a outras. Tendo especialmente em vista a produção cultural midiática que integra uma cadeia não apenas simbólica, mas também mercadológica de reprodução.
nossa)58. Assim, o contexto tecnológico cultural é, se não causa direta, fator possibilitador
do conjunto de situações que formam a complexidade narrativa. A pergunta que Mittell faz ao longo de seu livro é “como esta forma narrativa funciona?”, ao contrário de questões de pesquisa mais comuns, segundo ele, como “o que isto significa?” ou “como afeta a sociedade?”.
Neste trabalho abarcaremos esta narratividade, porém sem deixar de questionar os significados destes textos ou seu sentido social, considerando que um ponto extremamente importante desta construção de significados está na trajetória das estruturas de produção destas séries, o que inclui observar o modo em que isto funciona, conforme propõe o autor.
O conceito utilizado por Mittell (2012-13) que propõe reconhecer o conjunto de forças históricas por trás das formas midiáticas, remete à análise contextual de Kellner (2001), que estabelece a necessidade de relacionar um texto midiático a toda uma gama de fatores históricos, sociais e econômico-culturais. Ambas as perspectivas, compreendem que um texto midiático não é criado de forma isolada, mas sim sob diversas forças estruturais que possibilitam sua criação. O foco de Mittell está nas estruturas internas que compreendem a cultura televisiva ou uma cultura das séries com a qual se trabalha aqui.
A análise proposta por Kellner procura situar-se dentro de processos políticos e culturais mais amplos, relacionando questões de hegemonia cultural e propondo como caminho para os Estudos Culturais uma crítica multicultural e multiperspectivas que resultam no que ele chama de análise diagnóstica. As duas abordagens chamam atenção para o fato de que um texto cultural midiático, e especialmente aqui uma série de textos culturais midiáticos como é o caso dos seriados teen, abrangem mais do que seus 40 ou 50 minutos de trama disponibilizados semanalmente.
Este contexto ou conjunto de forças históricas é o que permite que a narrativa complexa tenha se desenvolvido da maneira que se apresenta hoje, e que funcione da forma como funciona. Isto engloba desde suas formas de produção e de circulação até seu consumo convergente e transmidiático, assim como a própria maneira como a narrativa é contada, quais temas são abordados e quais identidades privilegiadas. Pensando nesta
58 “[…] with innovations in media form are not viewed as creative breakthroughs of visionary artists, but
at the nexus of a number of historical forces that work to transform the norms established with any creative practice”. Citamos a versão online do livro, que não possui paginação.
interconexão da circulação cultural, este trabalho é desenvolvido de forma a contemplar estas estruturas que se interconectam na cultura das séries.
No entanto, apesar de abordarmos estas estruturas de produção e consumo convergente, nosso principal foco nesta tese é o texto narrativo dos cinco seriados selecionados e suas interconexões culturais e sociais. É na leitura do texto que encontramos suas significações, modelos de identificação, padrões narrativos etc., e uma análise formal do texto mostra-se crítica dentro de uma pesquisa midiática com base nos Estudos Culturais (JOHNSON, 2006).
Cada um dos programas, individualmente, traz uma gama de elementos distintos para compor a vida juvenil, porém nesta tese optamos por analisar os espaços em comum em que os seriados articulam as intersecções com a adolescência: a família, a escola, e os relacionamentos dentro do próprio grupo de jovens – o amor, a amizade e o sexo. Ao analisar estes espaços em comum apresentados por todos os programas também podemos ver suas semelhanças e diferenças na abordagem como gênero de forma geral. Ademais, consideramos propício abordar temáticas recorrentes como gênero e sexualidade, que são abordadas de diferentes formas nos seriados de teen drama como um todo, e também possíveis articulações de etnia e classe social. A escolha por tais temas, e não por outras questões sociais que estes seriados possam levantar, deve-se à ênfase de tais programas na identidade e autopercepção em relação à diferença (ROSS; STEIN, 2008).
Nossa análise será realizada levando em conta os pressupostos teóricos acima, especialmente partindo da perspectiva de Kellner (2001) de análise contextual, e buscando compreender o que o conjunto de textos selecionados reflete a respeito do contexto sociocultural no qual estão inseridos. Ainda que tomemos o texto com centralidade, ele não está de forma alguma isolado, mas sim é parte resultante de um conjunto de textos interconectados que influenciaram sua origem (COULDRY, 2000). Como investigamos aqui o gênero narrativo seriado, devemos tomar estas características em consideração, isto é, os teen dramas analisados são resultado das condições sociais, culturais e mercadológicas de suas épocas, mas também estão interseccionados por diversas narrativas seriadas televisivas que com o passar do tempo moldaram o gênero, não somente pela miríade de textos relativos à adolescência e à juventude que dominam a mídia desde a década de 1950. Além disso, ao compor os objetos de análise em uma linha temporal, podemos perceber o que cada um constrói sobre seus antecessores.
Ao abordar as demais bases da cultura seriada, focamos a análise na cultura convergente, abordando exemplos que partem da produção dos seriados em destaque, de
forma a mostrar como tal questão tem sido trabalhada, e também como é a resposta do público a esta atividade. Desta forma, abordamos a plataforma Twitter, uma das principais formas de conexão utilizadas pelos espectadores para falar sobre televisão, que exige um nível de engajamento não muito profundo, porém que propõe algumas questões de reflexão dentro da própria cultura convergente e das expectativas que esta traz.
Por fim, esclareço que trago minha própria experiência como consumidora de seriados mundializados – não apenas de teen drama, mas de diversos outros gêneros. Assim como Henry Jenkins que se autodenomina “aca fan”, um acadêmico fã, em
Complex TV, Mittell (2012-13) busca trazer sua experiência como espectador e fã para a
análise. Para Mittell, esta é uma forma de representar a experiência que outros consumidores possam ter ao engajarem-se em tais programas. Ao concordar com o autor, não se pretende reproduzir as diferentes experiências nem personalizá-las, mas sim reconhecer não apenas um conhecimento prévio a respeito do tema como também ilustrá- lo sob uma perspectiva de ressignificação da posição de consumidora e também fã – o que, a meu ver, não impede uma análise ou uma tomada de perspectiva crítica.