A aplicação da segunda SD, “Tratamento da água e saúde pública”, teve como objetivo discutir questões relacionadas à sustentabilidade e aos padrões atuais de produção e consumo. Tendo em vista tal propósito, até o conteúdo sobre tratamento de água não foi trabalhado da maneira tradicional, apresentando somente o tratamento convencional, mas também o sistema Wetlands, que dependendo da maneira que ocorre, pode ser considerado sustentável. Este sistema de tratamento de água não era conhecido pelos alunos.
Nos objetivos específicos, que são referentes às habilidades da área da Química e seus conteúdos, haletos orgânicos e compostos de carbono podem causar estranheza como conteúdos de 2ª série do Ensino Médio, entretanto, o próprio currículo oficial do Estado de São Paulo tem como conceito a espiral, ou seja, um mesmo conceito pode ser trabalhado em diferentes séries, em níveis diferentes, o que já acontece na disciplina de Química com os temas: modelos atômicos e os próprios compostos orgânicos, que aparecem de maneira superficial nas apostilas e conteúdos de outras séries, além da 3ª série. Destaca-se também, que no ensino contextualizado o conceito pode surgir conforme a necessidade e não conforme a sequência do livro didático.
A problematização da SD destaca o uso e importância do cloro no tratamento de água. A presença da substância na água já despertava muito o interesse dos alunos, isto, pois relataram: “a existência de água esbranquiçada na torneira”, o aumento considerável na cidade de “vendedores de filtros para retirar o cloro da água”, entre outros. Assim, considerou-se relevante discutir os malefícios que o excesso de cloro pode causar a saúde, mas também o quão pior poderia ser sua ausência, além de esclarecer possíveis mitos.
Após a leitura da problematização, as turmas assistiram ao vídeo, fizeram indagações sobre a floculação apresentada no mesmo. Na leitura do padrão de potabilidade, conforme Portaria 2.914/2011, comparações foram feitas com a resolução CONAMA , os alunos perceberam que algumas concentrações eram diferentes entre os dois documentos.
Depois, se iniciou a aula sobre o sistema Wetlands, usando como exemplo o sistema implantado na cidade de Analândia-SP, apresentado por meio de slides, com muitas imagens explicativas. Os jovens se interessaram pelo assunto,
97
indagando a respeito da capacidade do sistema, o tamanho do local e vários outros fatores referentes à sua aplicabilidade. O que deixava implícito a dúvida sobre a validade de tal sistema diferenciado para o tratamento da água.
Além de identificar alguns processos em comum entre o tratamento convencional e o Wetlands, como cloração e filtração, foi possível discutir as organizações das nossas cidades , questionar se as estruturas e padrões que criamos são os mais assertivos. Assim, ocorreu uma reflexão que permitiu uma abertura a conhecer outras propostas, perceber que existem outras formas de se fazer uma “mesma coisa”.
Na aula do laboratório, sobre clarificação da água, foi possível notar mudanças na postura dos alunos, como: preocupação e maior atenção em usar os nomes corretos das vidrarias, entender os termos presentes do roteiro da aula experimental, melhor cooperação entre os membros da mesma equipe e entre as equipes, melhor capacidade de concentração e observação durante o experimento. A parte de mais entusiasmo da atividade é a da análise do pH, devido à evidência de mudança de cor, o macroscópico sempre chama mais atenção dos alunos.
Para responder as questões discutiram nos grupos e entre os grupos, somente quando sentiam necessidade solicitavam a professora, se esforçando para serem mais autônomos.
A princípio os alunos não reconheceram a diferença de pH como um fator que pudesse afetar a coagulação, a maioria pensou na presença das substâncias usadas para alterar o pH e não no pH, isso devido às evidências macroscópicas e a relação superficial e direta feita por eles. Embora a presença das substâncias também seja um fator a se considerar, não relacionaram as mesmas com os pHs medidos. Alguns grupos inclusive ficaram na dúvida, se o carbonato de sódio não seria um coagulante, sendo necessário voltar nos conteúdos das aulas anteriores. Ainda assim, o experimento cumpriu a tarefa de discutir a importância de controle do pH em processos de tratamento de água e reações Químicas.
Na continuidade das aulas, os alunos trouxeram algumas informações pesquisadas sobre o cloro. O maior destaque foi para os efeitos tóxicos a saúde, embora não fosse essa a única informação solicitada na pesquisa, foi a única trazida por alguns alunos.
Na discussão da pesquisa o termo “trihalometanos” surgiu, sendo o gancho pra introduzir os conceitos de compostos orgânicos, funções orgânicas e
98
reações de substituição. Os alunos se envolveram nas explicações e exercícios, pois serviria para entender melhor o contexto que estava em discussão, foi possível apresentar um pouco de nomenclatura de compostos orgânicos, mas focando nos trihalometanos.
Na aula sobre os trihalometanos, a filtração com carvão ativado foi mencionada como um dos processos para evitar ou controlar a presença dessas substâncias na água, assim como, de seus percursores. Em seguida, foi realizada a aula de laboratório com o carvão ativado.
Na atividade do laboratório uma boa parte dos estudantes disse que o carvão ativado “dissolvia melhor” ou que tinha “maior capacidade de filtração”. O conceito de adsorção era novo para os alunos, portanto, foram orientados a pesquisar a respeito após o experimento para a discussão na próxima aula.
A água usada no experimento não foi descartada no ralo, foi armazenada em grandes baldes e bacias, para se estimar a quantidade de água usada de forma direta naquela aula. A turma C se mostrou mais preocupada que a turma D nessa questão, inclusive tentando economizar na hora de lavar a vidraria usada, a turma C contabilizou 30L e a D 45L de água.
Na discussão do experimento do carvão ativado, os alunos identificaram a menor intensidade da coloração e do odor artificial no suco filtrado com carvão ativado, mas mesmo com a pesquisa sobre adsorção estavam confusos sobre o fenômeno, conceituando adsorção como “o ato de tirar o corante”, “o carvão reagiu com o corante”. A professora aprofundou então o conceito de adsorção em uma aula dialogo-expositiva, usando uma apresentação de slides.
Após o tema adsorção, os baldes e a estimativa de água gasta de forma direta na aula foram lembrados. Em cada turma, 1L de água foi usado para fazer o suco, o restante foi gasto na limpeza da vidraria e materiais usados, por meio desta abordagem o conceito de pegada hídrica foi introduzido.
Os alunos demonstraram interesse pelo assunto e mencionaram não conhecê-lo, um aluno exclamou: “Que legal professora, você que inventou isso?” Evidenciado nunca ter escutado nada sobre o assunto.
Na sequência das aulas, os alunos visitaram o site water footprint na sala de informática, exploraram suas informações, a pegada hídrica de diferentes produtos e calcularam sua pegada hídrica, em média o resultado foi de 1737,24 m3/ano por pessoa. Durante a atividade os estudantes refletiram sobre a quantidade
99
de água necessária para produzir produtos de seu cotidiano, também discutiram sobre as informações referentes às pegadas hídricas nacionais de diferentes países, relacionando com sua cultura e modelo social.
A visita técnica na estação de tratamento de água foi dividida em dois momentos: o primeiro momento, na própria escola, onde foi feita uma palestra sobre o tratamento de água da cidade e a empresa responsável; o segundo foi à visitação no córrego Santa Gertrudes, com supervisão da técnica em Química responsável pelo tratamento da água do córrego.
A palestra foi realizada por dois funcionários da empresa, que não aparentavam ter formação na área de Química, o conteúdo foi simples, o foco era uma divulgação e exaltação da empresa, cunho publicitário. No momento em que foi aberto para dúvidas dos alunos, estes fizeram perguntas que já tinham anotado durante suas pesquisas realizadas nas aulas das SD, por exemplo, sobre a origem da água não apresentada na conta de água. Os funcionários não souberam responder o porquê da ausência dessa informação na conta de água, os mesmos confirmaram que seria importante conter tal dado na conta.
Um dos funcionários alegou que a cidade possuía fontes de captação diferentes, além do córrego existiriam vários pontos de captação de água subterrânea, poços espalhados pela cidade, fato que não foi mencionado durante a palestra. Os alunos indagaram então sobre a localização desses poços, se eram próximos às caixas d’água dos bairros, novamente os representantes da empresa não tinham condições de esclarecer as indagações.
Um aluno perguntou se o surto de virose ocorrido na cidade em 2015 teria relação com a água, isto, pois na palestra a virose foi citada como exemplo de doença de veiculação hídrica e o ano de 2015, ano de obras feitas pela empresa na cidade, o que explica a relação feita pelo aluno. Novamente não houve um esclarecimento para a pergunta.
Percebeu-se assim, que os profissionais da palestra estavam bem desconfortáveis com as indagações consistentes e postura crítica apresentada pelos alunos. No encerramento da atividade, um dos funcionários lembrou que uma vez no ano fica disponível um relatório detalhado online, com as informações corretas sobre a captação da água e os parâmetros de qualidade, porém não conseguiu encontrar este relatório e nem explicar como acessá-lo.
100
que a água do córrego ali tratada abastecia somente a área central, os demais bairros, que correspondem ao da maioria dos alunos, é abastecido com água subterrânea. A estação era bem pequena, mas permitiu a visualização e reconhecimento de cada etapa do tratamento convencional de água trabalhada em sala de aula.
Diante das novas descobertas, um grupo de alunos sentiu a necessidade de divulgar as informações sobre a água no município e se perguntou como fazer isso, surgiu então a ideia de fazer um blog. A professora apoiou a ideia e sugeriu de envolver todos os alunos das duas turmas além dos demais assuntos desenvolvidos nas aulas no final das SD.
FIGURA 3.13 - Palestra com profissionais da empresa responsável pelo tratamento de água e saneamento (arquivo pessoal da autora, 2016).
101
FIGURA 3.14 - Experimento 1 no laboratório (arquivo pessoal da autora, 2016).
FIGURA 3.15 - Experimento 2 no laboratório (arquivo pessoal da autora, 2016).
102