Perguntada às alunas se elas notavam que influenciavam na formação integral de seus alunos, elas foram unânimes em afirmar que sim, de maneira positiva, sempre que possível. Para elas, a aula não é somente um momento de ensinar e de aprender, mas um momento em que podemos construir a mudança de atitudes, por exemplo.
Entendiam elas que suas intervenções, indo além do ensino, levavam a uma mudança de algum comportamento ou atitude ou mesmo a intervenção na aprendizagem, de forma a proporcionar melhor maneira de ensinar para otimizar o aprendizado. Estas situações levavam ao auxílio na construção da personalidade do aluno. Não raras vezes, estas intervenções em conjunto, aliadas e implicadas, ocorriam de maneira complementar, traduzindo-se em mudanças para estes alunos.
Segundo Freire (2003), a vocação ontológica do ser humano é inerente à sua condição, é a consciência do ser para si. Diferente do animal que tem o mundo um suporte do seu existir, o humano tem a consciência de ter consciência o que lhe proporciona a escolha,
interferindo no mundo. Segundo ele: “se os homens são estes seres de busca e se sua vocação
ontológica é humanizar-se, podem, cedo ou tarde, perceber a contradição em que a „educação
bancária‟ pretende mantê-los e engajar-se na luta por sua libertação” (FREIRE, 2003, p. 62).
Ensinar é mais do que instruir, é construir um mundo melhor, através da liberdade que é intrínseca à condição humana. Por isto, inúmeras vezes, conforme podemos observar na fala seguinte de uma aluna em situação de estágio, mais importante que o conteúdo que se esteja trabalhando, a atenção e a disposição de escuta para com o aluno é essencial e não se configura em perda de tempo como alguns, menos avisados, possam vir a entender:
Às vezes, é importante tu largares tudo que estás explicando, que tu estás fazendo na sala de aula, parar, pedir para eles refletirem o que eles estão fazendo naquele momento. Ver o que vai ajudar mais eles nas atitudes que eles estão tomando. E ao mesmo tempo tu tens que cuidar porque tu tens conteúdo para dar que são, que vão ser a base para eles. Só que também tu não podes ficar vagando, vagando, vagando, sem eles não estarem compreendendo, entendendo de verdade. Então é o tempo de tu conseguir conversar com teu aluno, falar, atender o aluno com dificuldades.
Entender que o conteúdo faz parte, mas em certo momento é melhor parar tudo e estimular os alunos a refletirem sobre os seus atos e uma forma de estar contribuindo na
formação integral destes alunos. Segundo o Relatório Delors (2006), o aprendizado do saber conviver, que passa primeiro por saber da existência do outro, é um exercício de tolerância e de cooperação. Ter o discernimento para poder traçar objetivos em comum, que pode ser, por exemplo, resolver situações de conflito através do questionamento do porquê da situação; esta atitude exige desprendimento. Para Delors (2006, p. 99),
os métodos de ensino não devem ir contra este reconhecimento do outro. Os professores que, por dogmatismo matam a curiosidade ou o espírito crítico dos seus alunos, em vez de os desenvolver, podem ser mais prejudiciais do que úteis. Esquecendo que funcionam como modelos, com esta sua atitude arriscam-se a enfraquecer por toda a vida nos alunos a capacidade de abertura à alteridade e de enfrentar as inevitáveis tensões entre pessoas, grupos e nações. O confronto através do diálogo e da troca de argumentos é um dos instrumentos indispensáveis à educação do século XXI.
Na formação do aluno, não somente cognitiva, muitas alunas apontaram as carências afetivas que eles trazem de casa e que elas, naquele momento professoras destes, acabam por se perder na questão de oferecer, por exemplo, afetividade. Admitem que não tratam todos iguais, alguns acabam por ser mais chegados, mas preocupam-se com os que estão afastados, questionando-se sobre como trazê-los para o seu convívio mais direto. Desta forma:
Têm alguns que eu não consigo dar carinho como eu gostaria de dar. Eu não consigo. Porque não dá, são muitos alunos. E cada um diferente. Uns carentes, uns mais, coitadinhos. É diferente. Não consigo realmente tratá-los todos iguais. Cada um com um pouquinho de diferença. (Alguns mais próximos outros mais distantes?) Ah, Ah, muitos mais próximos porque eles são mais abertos, eles correspondem tudo o que eu proponho. Então é diferente.
Mas sentem o peso da responsabilidade de contribuir para melhorar, deixar um pouco de si para auxiliar na formação de seu aluno:
Tu sabes que até o final, até o final do estágio tu tens que ter passado alguma coisa de bom tua para o aluno. Então tu tens este desafio que passar alguma coisa boazinha que tem para eles. É um desafio, um grande desafio. E quando tu te depararas com aquelas crianças completamente revoltadas, completamente transtornadas, o teu desafio é muito maior ainda porque tu tens que ajudar aquelas crianças a melhorar. Eu vejo assim.
Estas falas evidenciam o jogo complexo que se estabelece na aula, visto que as redes de intersubjetividade vão se formando através de um distanciamento/aproximação que leva à
construção. Segundo Delors (2006, p, 158): “A entrada na escola de alunos com grandes
dificuldades no ambiente social e familiar impõe novas tarefas aos professores para as quais
eles estão muitas vezes mal preparados” e também segundo o mesmo (2006, p. 158):
Quanto maiores forem às dificuldades que o aluno tiver de ultrapassar – pobreza, meio social difícil, doenças físicas, mais se exige do professor. Para ser eficaz terá de recorrer a competências pedagógicas muito diversas e a qualidades humanas como a autoridade, empatia, paciência e humildade.
Este por certo é o quadro que as alunas se deparam em seus estágios curriculares, realizados na sua totalidade em escolas de vilas de Viamão, onde o poder aquisitivo da população é realmente baixo.
E, deparando-se com as atitudes de seus alunos, as alunas se questionam com relação as suas próprias atitudes. O que pode ser adequado e/ou necessário fazer frente à determinada situação, no surpreendente clima de sala de aula? As atitudes nas situações inusitadas se tornam desafiantes para elas, que acabam aprendendo a lidar com as incertezas. Segundo uma delas:
A parte teórica foi bem passada para mim. O que eu tenho que passar para eles. Acho que é mais cada situação que aparece para ti porque, por mais que tu tentes se preparar para tudo, todas as situações, tu nunca vai conseguir. E sempre vai ter alguma coisa que vai ser surpresa para ti numa sala de aula, sempre. Disto não tenho dúvidas. Sempre vai aparecer um desafio a mais que tu não espera.
E na fala de outra:
Eu achava que ia encontrar uma coisa e aí cheguei e foi totalmente diferente, aconteceu um monte de coisas. (Como tu achavas que seria?) Sei lá, eu achava que fosse mais fácil tanto o curso e o estágio e aí era muita coisa, muita mãe na porta. Aquilo lá sufocava a gente e eu ficava lá meio com vergonha porque estava recém começando. Então muda bastante. Na época da Prática de Ensino eram duas pessoas ajudando e ali, no mestágio, tu te vês sozinha, a sala grandona. Até uma professora minha me disse, aqui na Escola, que eu era muito pequeninha e que eu sumia entre os alunos. Mas eu conduzo bem eles.
O aprender a conviver, saber decidir pelo melhor nas situações cotidianas é um dos saberes que precisamos exercitar e a sala de aula é um laboratório de aprendizagem destes saberes. Integra no micro espaço o que é geral. Enfrentar o ambiente que não é o mais favorável para empreendermos a aprendizagem é uma constante que levamos ao longo de nosso fazeres; as alunas deparando-se com crianças em que as condições sociais não são as
mais favoráveis, acabam por aprender a lidar com um universo de situações apresentadas por aquelas crianças e não precisam se sentir culpadas de não conseguirem, por vezes, amenizar estas situações com seu trabalho e olhar atentos:
Nós começamos o curso com quase quarenta e finalizamos com vinte e uma. (Por que tu achas que desistiram?) Porque é um desafio fazer o magistério. Tu cansa, porque nos dois primeiros anos tem que ficar manhã e tarde aqui e provavelmente elas se depararam com aquela rotina de sala de aula e viram que não era um mar de rosas como aparentava. Que tu vais encontrar alunos com problemas psicológicos, emocionais, crianças com fome na sala de aula muitas vezes como lá na Escola Açorianos tem, as crianças chegam com fome, querendo saber que hora é o lanche. Então acho que elas não tiveram um emocional assim forte para enfrentar, se deparar com aquilo tudo e continuar.
A convivência não deve nos levar a pactuar com estas situações de ordem social, econômica e política que acaba por nos confrontar com as dificuldades de toda ordem espelhadas nas crianças, mas é uma situação que deve nos levar a compreender o outro, como nos alerta Morin. Somente no ambiente da Escola que as alunas puderam aprender estas situações, confrontando estas com os saberes teóricos adquiridos; um diálogo surdo, com elas próprias.