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Madrinha Lua (1952) — Primeiro Prêmio da Câmara Brasileira do Livro (São

Paulo) —, Montanha viva: Caraça (1959) — Medalha da Academia Mineira de Letras — e

206 Cf. SCHILLER, Friedrich. A educação estética do homem: numa série de cartas, 1990, p. 77.

207 Cf. Pasta Entrevistas. Perguntas de José Batista, [S.d.], no AEM/UFMG. Publicada no Correio da Manhã, Rio de Janeiro, 9 jul. 1966, p. 2: O poema é o vínculo entre o ser e o não-ser (AU/BHL).

208LISBOA, Henriqueta. O menino poeta . O menino poeta, 2008, p. 9-11.

209 Cf. Pasta Entrevistas (questionário com endereço da Faculdade de Filosofia Católica de BH s.d.), no AEM/UFMG.

Belo Horizonte bem querer (1972) encerram toda uma exploração do imaginário

mineiro, sua história, seus mitos e lendas, seus heróis e heroínas.

Na sinopse de Madrinha lua, na sua Trajetória poética , a escritora assim a descreve: recolhe sentimentos e características de mineiridade, advindos de leituras escolares, com a representação principalmente humana dos nossos grandes personagens históricos 210. E, sobre Montanha viva, afirma que encerra uma

interpretação do espírito cristão de Minas Gerais, encarnado nas tradições, nas lendas, na cultura humanística e no próprio meio natural do Caraça, com relevo para sua filosofia de vida 211.

A saga do Irmão Lourenço e do Colégio do Caraça foi grande inspiração para a poeta mineira, que nutria uma especial atenção pelos lugares santos, carregados de magia, austeridade e mistério. O Caraça é um monumento que foi colégio e também seminário, educandário de mentes e de almas, e que tinha às costas a grande imagem talhada pela natureza — a Serra do Caraça —, o perfil de um gigante de pedra adormecido.

Conta-nos a poeta, na introdução da obra, que é fato conhecido a aparição da Mãe dos Homens à hora da agonia de Irmão Lourenço. É exatamente esse mágico instante que ela dramatiza em três tercetos e um dístico, no poema Aparição , construído de tal forma, que quem o lê, no merecido cuidado, acaba se beneficiando:

Alguém penetrou a furto na cela escura. Alguém tocou as tábuas toscas do assoalho. Alguém se aproximou docemente do leito rude. Talvez uma fímbria de luar entre arbustos, um cálido estalido de madeira, espontâneo, a evocação de um afago materno.

Porém o lírio da madrugada descerra as pétalas, o véu da montanha torna-se diáfano,

a água de que bebem os pássaros transluz: Na alcova do ancião enfermo — toda bela, Maria. 212

210 Pasta Depoimentos (TP/HL), no AEM/UFMG. 211 Id., Ibid.

Montanha viva: Caraça ganha um novo formato, em 1977, numa edição bilíngue

— português e latim — organizada pelo Pe. Lauro Palú. O trabalho de tradução inicialmente esteve a cargo do Pe. Pedro Sarneel (1883-1963), que, impossibilitado de finalizá-la, transfere a incumbência para J. Lourenço de Oliveira (1904-1984). Com o título Mons vivus seu Mons caracensis, a obra atinge o estatuto de uma raridade em nossas letras, sob dois aspectos: primeiro, pela tradução integral em latim 213; e,

segundo, conforme postula Blanca Lobo Filho, por ser provavelmente a primeira composição poética que se aproxima de uma épica pura, escrita por uma mulher, no Brasil 214. Nesta segunda edição, Henriqueta acrescenta o poema Canção de Pedro

Sarneel , com que homenageia o amigo na passagem do primeiro aniversário da sua morte.

Uma obra que se aproxima de Mons vivus seu Mons caracensis, no que diz respeito à versão de poemas de um autor brasileiro para o latim, é Carmina Drummondiana, uma seleção de poemas de Carlos Drummond de Andrade traduzida por Silva Bélkior. Tal seleção foi publicada em livro, em 1982, por ocasião da passagem dos oitenta anos do poeta mineiro. Originalmente, o trabalho de tradução concluiu-se em 1970, perfazendo um total de 52 poemas, conforme carta de Drummond enviada para Bélkior, que se encontra publicada na revista Humboldt, edição de 1979 215.

Ainda de Montanha Viva, destacamos o poema A flor de São Vicente , em que a flor , símbolo do efêmero, sustenta uma carga semântica de ambígua grandeza, que atemoriza diante do mistério — o tremendus —, e ao mesmo tempo seduz pela magnitude da insígnia tripartida:

Do caule esguio em pendor, três pétalas — uma flor. Humildade. Simplicidade. Caridade. Ó penhor! De que maneira se há de aproximar dessa flor?

213 A obra é editada sob os auspícios do Archivum Generale Poetarum Latinorum Brasiliensium, da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Assis (São Paulo), em comemoração ao bicentenário do Colégio e Seminário de Caraça (1774). Cf. LISBOA, Henriqueta (Sarnelius et Laurentius) Mons vivus seu

Mons caracensis. Belo Horizonte: São Vicente, 1977, p. 3.

214 LOBO FILHO, 1973, p. 35.

215Cf. Poemas de Carlos Drummond de Andrade, traduzidos em latim por Silva Bélkior . HUMBOLDT. Revista para o mundo luso-brasileiro. Ano 19. 1979. Número 40, p. 7 (carta de 12 out. 1970).

O gesto suspenso em meio a um delicado tremor, entre o anelo e o receio de tocar essa flor. 216

Madrinha Lua (1952) aproxima-se do Romanceiro da Inconfidência (1953), de

Cecília Meireles, e também de Contemplação de Ouro Preto (1954), de Murilo Mendes, distinguindo-se, entre outros aspectos, como a obra que inaugurou — dentre os três —a escrita dos romances . Estes, conforme definição do autor de O romanceiro de

Henriqueta Lisboa em Madrinha Lua (1996), Paschoal Rangel (1922-2010), são poesia

popular, com temas que se encontram nas histórias que o povo conta, muitas vezes reduzidos a um puro folclore, na mistura de história real com uma mitologia nacional, com traços lírico-épicos bem acentuados 217.

Observemos alguns versos da longa Poesia de Ouro Preto , de Madrinha Lua, que traz a seguinte epígrafe de Federico García Lorca (1898- : Oh ciudad de los

gitanos! . A imagem recorrente marcada pela repetição dos versos — Ó cidade de Ouro

Preto/boa da gente morar! 218— alude a um lugar onde o tempo parou. O sentido da

visão é enfatizado e exigido desde a cena inicial poeticamente narrada, ao solicitar do leitor um modo especial de ver — ter os olhos de Marília/para cismar e cismar 219. É

pelo olhar que ele é levado a conhecer a cidade, percebendo a intensidade das cores, o formato das curvas da rua, através da janela — no aliterado verso — vendo a vida que não anda 220, enraizada na paisagem ouro-pretana:

Ó cidade de Ouro Preto boa da gente morar! Numa casa com mirantes entre malvas e gerânios, ter os olhos de Marília para cismar e cismar. Numa casa com mirantes pintada de azul-anil sobre a rua de escadinhas

que é um leque em poeira, de sândalo,

216LISBOA, Henriqueta. A flor de São Vicente . Montanha viva: Caraça, 1959, p. 173.

217 Cf. RANGEL, Paschoal. O romanceiro de Henriqueta Lisboa em Madrinha lua. Belo Horizonte: O lutador, 1996, p. 9.

218 LISBOA, Henriqueta. Poesia de Ouro Preto . Madrinha Lua, 1958, p. 53 219 Id., Ibid.

passar na janela o dia vendo a vida que não anda. [...] 221

Nas estrofes finais, é a poesia que toma o lugar da cidade, e agora, pela visão somada à audição, ver-se-ão sombras e ouvir-se-ão sons de um passado distante. Destacamos a melodia dos versos alcançada pelo predomínio do efeito sonoro causado pela consoante sibilante s em sombras/sino/sons/solo/sem , observando que o mesmo efeito também se dá por assonância nas estrofes supracitadas, em

cismar/sobre/sândalo/passar :

Ó poesia de Ouro Preto! Em cada beco ver sombras que já desapareceram. Em cada sino ouvir sons, badaladas de outros tempos. Em cada arranco do solo, batida de pedra e cal ver a eternidade em paz. Ó cidade de Ouro Preto! boa da gente morar! E esperar a hora da morte sem nenhum medo nem pena — quando nada mais espera. 222

Em carta enviada para a sobrinha Ana Elisa, em maio de 1970, Henriqueta escreve contando: Tenho novidades na área criadora: Belo Horizonte poesia , série de poemas em torno da história da cidade, lendas e aspectos pitorescos. Ofereceram-me o título de Cidadã Honorária e quero retribuir a atenção 223.

Dois anos mais tarde é publicado, em 1972, Belo Horizonte bem querer, cujo teor a Autora sintetiza em poucas palavras: é um painel de revivescência dos primeiros e pitorescos episódios da capital mineira, descritos com amenidade 224. No prefácio do

livro, ela acentua dizendo: De acordo com a minha intenção, de natureza coloquial, Belo

Horizonte bem querer é um poema simples e carinhoso 225.

221LISBOA, Henriqueta. Poesia de Ouro Preto . Madrinha Lua, 1958, p. 53. 222 Id., Ibid., p. 57.

223 Pasta Correspondência Pessoal (LISBOA, Henriqueta) cópia da carta enviada à Ana Elisa Gregori, em19 de maio de 1970.

224 Pasta Depoimentos (TP/HL), no AEM/UFMG.

Revela-nos a poeta, no seu ensaio Poesia: minha profissão de fé , que, quando menina, se debruçava sobre Histórias da terra mineira, de Carlos Góes, com enlevo maior do que sobre contos de fadas e de príncipes 226, e que reconhecia em Minas

Gerais o seu lugar, o lugar adequado à sua índole, à sua condição psicológica:

Eu só podia ter nascido em Minas. Caso contrário, sairia andando pelo Brasil até encontrar o meu berço, a minha estrutura, o reconhecimento da minha índole, as raízes das minhas possíveis virtudes e prováveis defeitos: Minas, nem sempre estimulante à vida intelectual, no entanto propícia ao recolhimento dos líricos. 227

Belo Horizonte bem querer é um único poema escrito em série — poema de

ressonância épica —, dividido em vinte e oito partes, no qual a poeta conta em versos a história da cidade de Belo Horizonte. Baseando-se nos relatos de antigos cronistas, Henriqueta tece, desde os primeiros atos, a trama da conquista, até chegar ao esplendor da urbe moderna do século XX. Ao despertar nossa memória visual, evocando simbolicamente a forma de um coração , conjuga reminiscências de ordem olfativa e tátil na última estrofe, com a delicada maestria de quem sabe orquestrar diferentes sensações num único gesto:

[...]

Uma cidade segue o ritmo ágil ou tosco dos homens. Fala pela voz de criaturas imperfeitas e insatisfeitas. Cresce das mãos dos operários canta pelo timbre dos poetas define-se no porte dos guias espairece no afã dos atletas

explode na estridência das máquinas. A expressão de uma cidade é múltipla. A beleza de uma cidade é instável. Sua grandeza é limitada

à fronteira mesma das cousas. Uma cidade se assemelha às outras porém se a amamos é única: tem a forma de um coração traz nosso aroma predileto

226 Cf. LISBOA, Henriqueta. Poesia: minha profissão de fé. In:______. Vivência poética, 1979, p. 20.

227Entrevista concedida a Edla van Steen, Henriqueta, unida aos homens e a Deus, pela poesia . In: BERNIS, Yeda Prates (Org.) Henriqueta Lisboa: Rosa plena. Edição especial do Suplemento Literário Minas

é a paina do travesseiro

em que repousa a nossa fronte. Belo Horizonte bem querer. 228

É importante destacar que Paschoal Rangel, em estudo já citado, no capítulo sobre os romanceiros e o Brasil, arrola, além dos trabalhos antes referidos, vários outros, entre eles nomes como João Cabral de Melo Neto (1920-1999), com O Rio ou

relação da viagem que faz o Capibaribe de sua nascente à cidade do Recife (1954), Stella

Leonardos, com o Romanceiro de Anita e Garibaldi (1977), e inclui, entre os romanceiros, não só a obra Madrinha lua, de Henriqueta Lisboa, mas também Montanha viva: Caraça e

Belo Horizonte bem querer.

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