• No results found

Os parâmetros que irão constituir objecto da análise nas obras para piano de Eurico Thomaz de Lima são questões de Forma, Harmonia, Aspectos Estilísticos e por último as Características Pedagógicas, cuja finalidade se prende com a averiguação dos benefícios que estas obras podem proporcionar nas vertentes técnica e expressiva e sua influência numa formação musical sólida das crianças.

A análise só incide sobre as obras para a infância que se encontram no espólio doado à Universidade do Minho, isto é, as que se encontram prontas para futura publicação estando reunidas no terceiro capítulo como referência para esta análise.

110

1. Chula do Douro

a) Forma

Em termos de estrutura, a obra adopta a forma binária. A parte A divide-se em dois períodos111: A e A’, sendo cada um constituído por duas frases. O período A’ é uma variação rítmica e melódica de A. Cada frase é composta por duas semifrases iguais. Em relação à parte B, esta possui um período com duas frases, sendo a segunda uma variação da primeira. Cada frase está também dividida em duas semifrases iguais.

b) Harmonia

A tonalidade desta obra é Dó Maior. O seu desenvolvimento harmónico é muito simples. Apenas se cinge a um movimento pendular entre os dois graus fundamentais: I e V. Isto pode dever-se ao facto de o compositor pretender, de certa forma, recriar o ambiente da música tradicional, na qual estes graus são a base de elaboração.

c) Aspectos Estilísticos - Segundo piano

O acompanhamento da mão esquerda do segundo piano recorre a um padrão rítmico típico da Chula, e também a um ostinato harmónico de V-I, como já foi referido anteriormente. A mão direita realiza um contraponto em relação à melodia do primeiro piano, mantendo, as frases a mesma estrutura e características melódicas e rítmicas do primeiro piano.

111

A nomenclatura aqui utilizada é a seguinte: um período – 8 compassos, uma frase – 4 compassos e uma semifrase – 2 compassos, as excepções serão devidamente assinaladas.

- Primeiro piano

No primeiro piano, ambas as mãos tocam a mesma melodia à distância de uma oitava na tessitura aguda (entre sol3 e fá5). Depreende-se destas características que a primeira parte se destine às crianças, por conter movimentos melódicos paralelos e um âmbito que não ultrapassa a sétima menor (Sol-Fá), não sendo necessário fazer a passagem do polegar.

d) Características Pedagógicas - Aspectos Técnicos

No primeiro piano, as duas primeiras semifrases, por utilizarem ritmos pontuados, semicolcheias e repetição de notas, tornam-se tecnicamente difíceis de interpretar pelas crianças. O segundo piano, sendo interpretado normalmente pelo professor, como se atesta na sua estreia, também pode ser destinado a crianças, devido às suas repetições formais, assinaladas anteriormente, e também pelo acompanhamento em ostinato ser acessível às crianças. Esta situação é comprovada, pelo facto de, na 3.ª audição dos Discípulos de Thomaz de Lima, no Curso da Cidade de Guimarães, esta obras serem interpretadas por duas crianças.

- Aspectos Expressivos

Salienta-se nesta composição o facto de o compositor apresentar nela traços nacionalistas, evidentes no título e, por conseguinte, no conteúdo musical. A simplicidade da música provoca uma maior proximidade entre a criança e a música tradicional e, desta forma, a criança aprende a valorizar este tipo de música, facto que é significativo e que faz parte da nossa identidade cultural.

2. Valsa (1948)

a) Forma

Esta obra adopta a forma ternária. Na parte A, o primeiro período é repetido duas vezes, sendo este, por sua vez, composto de duas frases idênticas, modificando-se apenas a parte melódica do último compasso. As semifrases, também são idênticas no ritmo, mudando apenas as notas em função da harmonia. O segundo período é formado por 12 compassos, em duas frases desiguais. A primeira obedece ao padrão clássico de quatro compassos, a segunda, no entanto, comporta 8 compassos, devido ao prolongamento derivado do desenvolvimento do motivo rítmico da obra: 2 colcheias e duas semínimas. A parte B é bastante mais pequena; apenas possui um período de 9 compassos. A primeira frase é formada por duas semifrases semelhantes, diferenciadas apenas no fim, pelo facto do acorde ser alterado para a sétima da Dominante de Lá Maior. A segunda frase possui 5 compassos, sem diferenciação de semifrases, uma vez que vai desenvolvendo um motivo de colcheias no segundo piano na mão direita, e por isso há a necessidade de alongar para se efectuar a transição de novo para a parte A, a qual é repetida integralmente, sem algum tipo de modificação.

b) Harmonia

A tonalidade base da obra é Dó Maior. Mesmo que a parte central comece na base harmónica de lá menor, nunca é afirmado pela relação de V-I e, no final, após uma série de passagens cromáticas no baixo, modula a Mi menor, para depois regressar à primeira parte em Dó Maior com um acorde de sétima da dominante com 5.ª aumentada. De facto, ao nível harmónico é mais sofisticada que a anterior, pois utiliza várias passagens cromáticas, acordes alterados, modulações passageiras no interior das frases e encadeamentos

harmónicos pouco habituais na harmonia tonal, conferindo à obra momentos musicais muito mais variados e interessantes.

c) Aspectos Estilísticos - Segundo piano

Em relação ao acompanhamento, no primeiro período da parte A, o ritmo da valsa é claramente enunciado pelo segundo piano; todavia, no segundo período, ele esbate-se um pouco na primeira frase, pois a mão esquerda harpeja espaçadamente os respectivos acordes, enquanto realiza a melodia com a mão direita enriquecida com algumas notas do acorde. Na segunda frase, nos dois primeiros compassos, há uma polirritmia derivada da circunstância de no primeiro piano se manter a acentuação ternária reforçada por uma indicação do autor, enquanto que no segundo piano, a mão esquerda acentua de dois em dois, mudando momentaneamente o compasso para 3/2 ou 2/4. Esta passagem causa alguma surpresa, pois até este momento o ritmo tinha sido claramente marcado e sentido. Parece afectar de tal forma a música que até ao final desta parte e da parte intermédia o segundo piano não utilizará o acompanhamento típico da Valsa.

Quanto à relação entre os dois pianos, existe uma certa variedade de combinações: melodia acompanhada – primeiro período da parte A, e primeira frase da parte B, ecos e troca de temas – primeira frase do segundo período da parte inicial e na segunda frase da parte intermédia, contraponto – primeiros dois compassos da segunda frase do segundo período da parte A, ostinatos melódicos nos últimos 6 compassos da parte A, e ostinatos rítmicos e melódicos na segunda parte.

- Primeiro piano

O primeiro piano é claramente destinado à criança. Apresenta semelhanças com a música anterior em certos aspectos. Ambas as mãos tocam o mesmo, à distância de uma oitava; todavia isto é somente válido para a parte A, porque na seguinte, na primeira frase, as melodias desenrolam-se à distância de uma sexta e, no final de cada semifrase, os ritmos para cada mão são diferentes enquanto que na segunda frase as mãos tornam a evoluir à distância de oitava.

d) Características Pedagógicas - Aspectos Técnicos

Poderá haver algumas dificuldades técnicas na interpretação da parte B, mas o compositor teve o cuidado de utilizar um âmbito melódico reduzido – de 5.ª perfeita para a mão esquerda e 6.ª menor para a mão direita – pelo que não exige saltos nem passagem do polegar, o mesmo sucedendo no resto da obra. Existe também a situação da polirritmia apontada anteriormente, mas nesta passagem a melodia evolui por graus conjuntos e descendentemente, facilitando a sua interpretação.

- Aspectos Expressivos

Se na obra anterior a criança começa a valorizar mais o património popular português e as suas possibilidades de integração na música erudita, neste caso será a sua variedade e os múltiplos efeitos a conquistar a sensibilidade infantil, quer pela riqueza do acompanhamento, quer pelo desenvolvimento melódico e rítmico, induzindo os mais pequenos a uma descoberta da música contemporânea de forma progressiva.

3. Valsa (1949)

a) Forma

Em relação à forma, apresenta duas partes, no entanto não se encontram claramente diferenciadas, pelo que esta análise poderá considerar-se discutível. Devido aos longos valores das notas que compõem a melodia no primeiro piano, por uma questão prática, os períodos, frases e semifrases podem ser convertidos para o dobro dos compassos normalmente admitidos para cada um deles. Utilizando este método, a música divide-se então em dois períodos, o primeiro com dezassete compassos e o segundo com dezasseis. No primeiro período, encontram-se duas frases de oito compassos, tendo a segunda mais um compasso para se encadear com o segundo período. As frases estão compostas por duas semifrases de 4 compassos cada, exceptuando a última pelo motivo assinalado anteriormente. No segundo período, também temos duas frases de oito compassos com duas semifrases em cada uma, mais perceptíveis, quer pela natureza da melodia quer pela mudança de acompanhamento verificada na primeira semifrase do segundo período. Toda esta estrutura se repete duas vezes, e como acaba em aberto, numa sétima da dominante, torna-se necessário uma espécie de coda para finalizar. Neste caso a coda é composta por um período de doze compassos, com duas frases de seis compassos cada e uma coda de três compassos no final.

b) Harmonia

A tonalidade da obra é Dó Maior. A ausência de partes claramente distintas, nota-se também na harmonia, que apenas apresenta modulações passageiras pelo quinto, quarto, sexto e segundo grau respectivamente. Tal como a música anterior, também apresenta ao

nível harmónico encadeamentos fora do vulgar, acordes alterados, de nona, passagens cromáticas e ambiguidade entre os modos maior e menor.

c) Aspectos Estilísticos - Segundo Piano

Na maior parte da obra o acompanhamento que o segundo piano efectua é característico da Valsa. A excepção que se verifica acontece no início do segundo período, na primeira semifrase, em que ambas as mãos repetem um ostinato rítmico, melódico e harmónico, acontecendo o mesmo no primeiro piano, constituindo uma certa novidade no discurso musical e renovando o interesse pela obra. Nesta música, verifica-se uma predominância da melodia acompanhada, havendo dois momentos em que existe polifonia entre os dois pianos: no final do primeiro período e início do segundo.

- Primeiro Piano

Também nesta obra, o primeiro piano é destinado à criança. Apresenta as mesmas características da música anterior, mas a sua execução é mais fácil. Os valores longos da maior parte da música, mínimas pontuadas, o facto de as duas mãos estarem à distância de oitava e não ultrapassarem a distância duma quinta perfeita, confirmam esta afirmação. Na coda existe uma situação que poderá resultar numa certa dificuldade, pois o primeiro piano fica sozinho por dois compassos, uma vez que nesses dois compassos o segundo piano não toca. Esta situação acontece duas vezes e confere à obra uma nota de interesse na parte final, surpreendendo mais uma vez de forma positiva os ouvintes. Na cadência final as duas mãos encontram-se separadas a uma distância de décima menor.

d) Características Pedagógicas - Aspectos Técnicos

Existe uma dificuldade ou mesmo uma debilidade na composição da Coda uma vez que nos dois compassos em que criança tem que sustentar a nota sol em duas mínimas pontuadas ligadas, ter que realizar uma contagem mental de seis tempos. Portanto a utilização desta música beneficia a aquisição desta competência de uma forma gradual e fácil.

- Aspectos Expressivos

Mais uma vez o compositor pretende envolver a sensibilidade musical da criança na música erudita apresentando uma linguagem conservadora salpicada por algumas novidades que renovam o interesse pela obra por parte do público.

RELATERTE DOKUMENTER