Considerando que os textos por nós analisados constituem-se espaços em que ressoam e reverberam vozes “históricas” advindas de um domínio da memória, e que essas vozes se entrecruzam no discurso construindo novos sentidos, trazemos para nossas discussões as abordagens entretecidas nas noções de
história e memória, a partir da perspectiva da teoria dialógica bakhtiniana.
Nesse sentido, Bakhtin argumenta que o objeto de discurso do falante não se torna pela primeira vez objeto do discurso em um dado enunciado. O objeto já está ressalvado, contestado, elucidado e avaliado de diferentes modos e se torna, inevitavelmente, um palco de encontro com opiniões de interlocutores (imediatos) ou com pontos de vista, visões de mundo, correntes, teorias, etc. “Um dado falante não
115 é o primeiro a ter violado o eterno espaço do universo; não é um Adão bíblico só relacionado com objetos virgens ainda não nomeados, aos quais dá nome pela primeira vez” (BAKHTIN,1979/2003, p. 295-300).
Ainda a esse respeito, o autor ressalta três aspectos: todo dizer não pode deixar de se orientar para o “já-dito“, ou seja, todo enunciado é uma réplica que filia- se a enunciados anteriores; todo dizer é orientado para a resposta, isto é, o enunciado espera continuamente uma réplica, presumindo-se sempre um auditório social; todo dizer é internamente dialogizado, ou seja, é heterogêneo, é articulado por múltiplas vozes sociais. Ressalta, ainda, que, em cada momento de sua existência histórica, a linguagem é grandemente pluridiscursiva e que “isso se deve à coexistência de contradições sócio-ideológicas entre presente e passado, entre diferentes épocas do passado, entre diversos grupos sócio-ideológicos, entre correntes, escolas, círculos, etc.”(BAKHTIN, 1963/2002, p. 98).
Corroborando essas ideias, Brait (2003) menciona, em diferentes momentos, as questões das interrelações discursivas que perpassam a história e a memória na construção de sentidos do enunciado concreto:
[...] seja qual for o lugar assumido para olhar o pensamento bakhtiniano, a ideia do diálogo, enquanto estrutura enunciativa e enquanto forma dialógica constitutiva da existência das atividades da linguagem, atravessa o campo de visão e desdobra as possibilidades do ver, incluindo incessantemente a
história e a memória na cena de produção de sentidos e de seus efeitos
(BRAIT, 2003b, p. 29).
Nesse sentido, entendemos que as atividades do sujeito - na sua condição de sujeito múltiplo - e sua inserção na história, no social, no cultural, pela linguagem, é que permitem a constituição dos sentidos. Esses fatores possibilitam o estabelecimento de um diálogo entre os já-ditos e o novo, em um movimento em que ideias são relembradas, retomadas, reassimiladas, reformuladas, compartilhadas, rejeitadas, criticadas...
Entendemos que são movimentos semelhantes a essesque fazem com que a
linguagem permaneça viva e crie uma espécie de memória coletiva e social que se mantém em processo de constante transformação. Esses aspectos confirmam as abordagens de Bakhtin sobre a “vida do gênero”, quando esse autor analisa a obra de Dostoiéviski e diz que o gênero “sempre conserva os elementosimorredouros da
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archaica”24 e que essa archaica só se conserva no gênero devido à sua renovação e à sua atualização permanente. Nas palavras do autor:
O gênero é e não é o mesmo, sempre é novo e velho ao mesmo tempo. O gênero renasce e se renova em cada nova etapa do desenvolvimento da literatura e em cada obra individual de um dado gênero. Nisto consiste a vida do gênero[...]. O gênero vive do presente mas sempre recorda o seu passado, o seu começo. É o representante da memória criativa no processo de desenvolvimento literário.[...] (BAKHTIN, 1963/2002, p. 106).
Além disso, o autor explica que, na obra dostoieviskiana, a combinação de gêneros tem suas raízes na remota Antiguidade [...] remonta a um passado remoto, às próprias fontes da literatura européia (idem, p. 105). Para o filósofo russo, “quanto mais alto e complexo é o grau de evolução atingido pelo gênero, tanto melhor e mais plenamente ele vive o passado (BAKHTIN, 1963/2002, p. 121).
Consideramos que os termos utilizados por Bakhtin, tais como: “renasce”, “renova”, “recorda” (por nós destacados na citação) e “continuidade” (destacado pelo próprio autor), demonstram bem o papel da memória na construção do enunciado concreto e na produção dos sentidos.
Amorim (2009), ao estudar o papel da memória na cultura contemporânea e suas implicações para a educação, articula conceitos bakhtinianos tanto para discutir a respeito dos impactos ocasionados pelas principais tecnologias da memória – a escrita e a informática - na cultura e no posicionamento dos sujeitos, como para averiguar a diferença de lugar que ocupa a memória nas culturas tradicionais e pós- modernas.
Essa autora, ao refletir sobre essas noções, chama de memória do objeto àquela dimensão da memória que está na cultura e em seus objetos, à memória do gênero dostoieviskiano que “renasce”, “renova”, “recorda”. Explica que é essa
memória que perpassa as relações intersubjetivas e as constitui, ao mesmo tempo
em que é atualizada por estas. A memória coletiva ou memória do objeto não está
nos sujeitos, mas para não se perder ela precisa estar entre eles: precisa do elo que
cada sujeito representa com sua participação na cultura.
A esse respeito, a autora rememora as palavras de Bakhtin (1979/2002, p. 395): “o objeto das ciências humanas é o ser expressivo e falante. Esse ser nunca coincide consigo mesmo e por isso é inesgotável em seu sentido e em seu
24 Segundo nota de Paulo Bezerra, tradutor de Problemas da Poética de Dostoiéviski (BAKHTIN,
1963/2002, p.106), archaica aqui é entendida “no sentido etmológico grego como Antiguidade ou traços característicos e distintos dos tempos antigos”.
117 significado”, e sintetiza: “o objeto das ciências exatas, como todo objeto de discurso e de conhecimento é um objeto falado e o das ciências humanas, além de ser falado, é um objeto falante” (AMORIM, 2004, p. 19). A autora enfatiza que:
[...]todo objeto de discurso e de conhecimento é portador de memória, pois ao ser falado é, antes de mais nada, já falado por outros que vieram antes de mim. Ao tocá-lo e ao dispô-lo como objeto, coloco em cena imediatamente um universo discursivo que eu atualizo, revivo e retransmito aos que me ouvem, ou seja, mesmo que ele não seja especificamente discursivo, como é o objeto das ciências humanas, mesmo que ele não seja feito de palavras, meu discurso sobre ele somente faz sentido, ou pelo menos, um sentido pleno e denso, na relação com os outros discursos que o habitam.(AMORIM, 2009, p.12)
Além disso, Amorim ressalta que os estudos sobre a memória, nessa perspectiva da teoria bakhtiniana da linguagem e da cultura, traz consequências importantes para as questão do “ato de criar”. Nas palavras da autora:
Criar não é dar livre expressão a um suposto gênio individual ou deixar agir a inspiração. A criação em Bakhtin supõe duplamente a memória coletiva. Do lado do leitor ou ouvinte, face ao objeto criado por mim, porque ele inscreve o que crio em uma cadeia discursiva e assim confere sentido ao objeto. E do lado do próprio criador que cria sempre no diálogo com outros. Para ouvir e fazer ouvir minha voz em um enunciado-objeto é preciso ouvir e fazer ouvir as vozes que nele falam. Não há, de acordo com a perspectiva
bakhtiniana, criação sem repetição.(AMORIM, 2009, p.12)
Diante dessas abordagens, fica evidente que memória, segundo a teoria dialógica, não diz respeito a registros mecânicos, lembranças ou recordações que temos do passado: fatos, acontecimentos, pessoas. Não se trata de uma memória individual, psicológica, mas de uma memória coletiva, social, que se atualiza na enunciação e possibilita que qualquer discurso já produzido se torne objeto de retomadas, repetições e transformações de saberes: possibilita a junção do já-dito (o velho) e o que ainda está por dizer (o novo). O passado que vive na memória coletiva se fará presente em novos e diferentes discursos de diferentes esferas.
Nesse sentido, o discurso jornalístico sobre as cotas - objeto de nosso estudo – faz circular discursos que são assimilados, reformulados e transformados, evidenciando a memória coletiva que possibilita recuperar os já-ditos, a história e os sentidos. E isso acontece em um processo ininterrupto de interação verbal.
Outras abordagens que julgamos merecer uma reflexão em nossa pesquisa dizem respeito aos aportes teórico desenvolvidos por Émile Benveniste na construção de uma teoria da enunciação.
118 Ainda que os estudos desse autor considerem a enunciação como o ato
individual de pôr a língua em funcionamento e que esse ato converte a língua em
discurso e tem como produto o enunciado (BENVENISTE, 1970/1989), suas abordagens constituem um avanço para os estudos da linguagem, já que possibilitam uma maior compreensão dos aspectos formais de funcionamento da interação humana.
Benveniste parte de reflexões a respeito do nível linguístico operado por Saussure – o da língua – e define o seu campo de atuação, considerando que as condições de emprego das formas da língua não são idênticas às condições de emprego da língua. Propõe, então, o estudo do nível da língua em uso – o do discurso (BENVENISTE, 1970/1989).
Entendendo por enunciação o ato de “colocar em funcionamento a língua por um ato individual de utilização”, BENVENISTE (1965/1989, p.82) explica que, cada vez que o locutor se apropria da língua e a põe em funcionamento, produz um ato novo e como tal irrepetível. Essa irrepetibilidade deve-se ao fato de que categorias fundamentais em enunciação - tempo, espaço e pessoa - jamais podem ser as mesmas. Se a forma material da língua é sempre a mesma, a experiência enunciativa não pode realizar-se duas vezes da mesma maneira: é sempre única. Antes da enunciação, a língua não é senão possibilidade de língua. Depois da enunciação, a língua é efetuada em uma instância de discurso que emana de um locutor, forma sonora que atinge e que suscita uma outra enunciação de retorno (BENVENISTE, 1970/1989, p. 83)
O autor enfatiza que é na linguagem e pela linguagem que o homem se constitui como sujeito porque só a linguagem fundamenta na realidade, na sua realidade, que é a do ser, o conceito de ego. A linguagem é a possibilidade da subjetividade pelo fato de conter sempre as formas linguísticas apropriadas à sua expressão; e o discurso provoca a emergência da subjetividade - capacidade que o locutor tem de se propor como sujeito (BENVENISTE, 1958/1995).
Nesse sentido, a consciência de si mesmo só é possível se experimentada por contraste: eu não emprego eu a não ser dirigindo-me a alguém, que será para mim um tu. Essa condição de diálogo é que é constitutiva da pessoa, pois implica reciprocidade – que eu me torne tu na alocução daquele que por sua vez se designa por eu. A linguagem só é possível porque cada locutor se apresenta como sujeito, remetendo a ele mesmo como eu no seu discurso. Assim, só a língua - assumida
119 pelo homem que fala e sob a condição de intersubjetividade - torna possível a
comunicação linguística. Não há subjetividade sem intersubjetividade
(BENVENISTE, 1970/ 1989).
Benveniste considera que na enunciação existe uma correlação de
personalidade, que opõe as pessoas eu/tu à não-pessoa ele, e uma correlação de subjetividade, interior à precedente e opondo eu a tu. Assim, não basta definir a
categoria de pessoa em termos de presença/ausência do traço de pessoalidade, mas é necessário concebê-la em termos de subjetividade. O “eu” é pessoa subjetiva; o “tu” é apenas pessoa. Poder-se-á, então, definir o tu como a pessoa não subjetiva, em face da pessoa subjetiva que eu representa: e essas duas “pessoas” se oporão juntas à forma de “não-pessoa” (BENVENISTE 1946/1995, p. 225; BENVENISTE, 1965/1989).
Além disso, o autor estabelece diferenças entre os pronomes: uns pertencem à sintaxe da língua, outros são característicos das “instâncias do discurso” - atos discretos e cada vez únicos pelos quais a língua é atualizada em palavra por um locutor. As formas tradicionalmente chamadas pronomes pessoais e demonstrativos são consideradas como indivíduos linguísticos, “de formas que enviam sempre somente a indivíduos, quer se trate de pessoas, de momentos, de lugares, por oposição aos termos nominais que enviam sempre e somente a conceitos” (BENVENISTE, 1956/1995, p. 85).
A respeito do “não-eu” implícito em “nós”, o autor alega que é suscetível de receber dois conteúdos precisos e distintos, mesmo quando a predominância de “eu” for muito forte. “Nós” se diz de uma maneira para “eu + vós” e de outra para “eu + eles”. São as formas inclusiva e exclusiva que diferenciam o plural pronominal e verbal da primeira pessoa. Se é inclusivo, possibilita diferentes interpretações sobre quem está incluído. Se é exclusivo, faz pressupor as fronteiras marcadas no processo de interação.
Dessa forma, “nós” caracteriza-se morfologicamente como uma palavra plural, mas semanticamente comprometida com a enunciação. Fora do plural ordinário, tem-se dois empregos opostos, não contraditórios. De um lado, o “eu” se amplifica por meio de “nós” numa pessoa mais maciça, mais solene e menos definida: é o “nós” de majestade. De outro lado, o emprego de “nós” atenua a afirmação muito marcada de “eu” numa expressão mais ampla e difusa: é o “nós” de autor ou de
120 orador. Uma consideração é certa: “nós” marca a presença do sujeito enunciador (BENVENISTE, 1956/2005).
A respeito da organização dos tempos verbais, Benveniste (1946/ 1995) cita como exemplo os tempos de verbos franceses que se distribuem em dois sistemas distintos e complementares, os quais manifestam dois planos de enunciação diferentes: o da história e o do discurso.
A enunciação histórica, hoje reservada à língua escrita, caracteriza a narrativa
dos acontecimentos passados. Trata-se da apresentação dos fatos advindos em um
certo momento do tempo, com utilização de formas de “terceira pessoa”, sem nenhuma intervenção do locutor na narrativa. A intenção histórica imprime à língua a sua temporalidade específica.
A partir dessas reflexões, entendemos que embora a teoria enunciativa benvenistiana se diferencie das abordagens desenvolvidas por Bakhtin e o Círculo - para quem a enunciação está intrinsecamente associada à situação extraverbal, ao universo sócio-histórico - podemos levar em conta que essa perspectiva abre caminho para o estudo do sujeito no discurso, já que possibilita trabalhar a materialidade linguística que configura textos e discursos: constitui um conjunto significativo para a compreensão das reações existentes entre língua, enunciação, discurso, sujeito, subjetividade, intersubjetividade e diálogo (BRAIT, 2001, p.37-50).