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literature review

5. Discussion and future research directions

O contingente de tipologias de entrevistas e pesquisas é imenso e suas denominações podem variar bastante de autor para autor. No caso desta pesquisa em particular a meta foi a busca de uma abordagem suficientemente rigorosa e balizada em certas especificidades e, ao mesmo tempo, com uma relativa abertura a certo nível de tergiversação, permitindo que surjam novas problemáticas a partir dos depoimentos. Isto é, dando liberdade às informantes para desenvolverem suas impressões sem a rigidez formal e a especificidade da aplicação de um questionário, por exemplo. Justamente por conta disso, a dinâmica que me pareceu adequada para se discutir as acepções e impressões do filme Wall-E foi o grupo focal. Cabe fazer alguns apontamentos sobre a natureza desse método.

52 Maria Cecília de Sousa Minayo (2010) situa o grupo focal como uma categoria de

Pesquisa em Grupo. A autora salienta a necessidade de se trabalhar com grupos homogêneos

e afirma que, “para serem bem-sucedidos”, os grupos focais “precisam ser planejados, pois visam a obter informações, aprofundando a interação entre participantes, seja para gerar consenso, seja para explicitar divergências” (2010, p.269). Ademais, segundo Minayo (2010, p.270), “do ponto de vista operacional, a discussão nos grupos focais se faz em reuniões com um pequeno número de informantes (seis a doze). A técnica exige a presença de um animador e de um relator.”. No meu caso, fiz o papel tanto de animador quanto de relator.

O objetivo de utilizar o grupo focal como instrumento de coleta de dados é deixar o depoente bastante livre para, a partir de provocações pertinente ao filme Wall-E, falar acerca de impressões sobre a obra. Terá, esse filme de alguma maneira interferido, por assim dizer, na trajetória de subjetivação ecológica das informantes? É possível identificar trechos do filme mais ou menos passíveis de mexer com a sensibilidade das espectadoras? Que potencialidades educativas elas percebem na película?

Baseei-me na análise prévia dos questionários aplicados no evento que mencionei, realizado na Faculdade de Educação da PUCRS, e numa aula de Sociologia da Educação dessa mesma instituição para criar algumas questões abertas que deram margem a respostas abrangentes justamente com o objetivo de permitir às entrevistadas que discorressem sobre motivações e emoções diversas quando indagadas sobre sua relação com o cinema, com o meio e com seus hábitos ecológicos e quando provocadas a sentir/pensar com o auxílio da obra fílmica selecionada ou trechos específicos dela. Logo, alguns itens da entrevista advieram, como salientei, das respostas dos questionários, mas a finalidade da pesquisa obviamente transcende a contemplação desses itens. Cabe pontuar ainda que o principal quesito que foi deliberado a partir dos questionários foi justamente a escolha do filme a ser utilizado na pesquisa e discutido no grupo focal. As cinco participantes do grupo viram o filme antes da realização do encontro com um intervalo que variou de uma semana a um dia antes da reunião do grupo. O encontro foi realizado no dia 17 de junho de 2013 na sala 350 da Faculdade de Educação da PUCRS. A sala foi disponibilizada pelo Programa de Pós- graduação em Educação dessa instituição, ao qual está pesquisa e, eu, o pesquisador, estamos vinculados.

Embora o foco do assunto fosse a produção de semânticas ambientais por parte da película, nas questões abertas que elaborei de antemão, busquei velar essa intencionalidade. O

53 objetivo era perceber se esse assunto surgiria naturalmente quando a conversa se iniciasse ou se esta enveredaria para a discussão de alguns temas variados, mas que de algum modo se relacionam com o meio ambiente e/ou integram o debate sobre essa problemática. Refiro-me a assuntos tais como: a noção de sustentabilidade, o viés ambientalista militante, a tecnologia, as relações humanas, o cuidado com lixo, a saúde humana, etc. Quero agora me ater ao esclarecimento da natureza do instrumento escolhido para o levantamento de dados.

Uwe Flick (2008, p.125) didaticamente expõe um quadro comparativo entre algumas categorias de entrevistas. Por meio dele esclarece que a entrevista focal é utilizada para a “avaliação de estímulos específicos (filmes, textos, media)” e detém seu foco nos sentimentos. A divergência em relação a meu escopo reside no fato de que a entrevista focal, segundo Flick (2008), parte de perguntas estruturadas e busca uma especificidade maior no que diz respeito à recepção do estímulo por parte do entrevistado. Parece mais apropriado, no meu caso, partir de tópicos e deixar em aberto as possibilidades de abordagem das informantes.

Por outro lado, é claro que o fato da discussão se dar em grupo pode orientar o foco da conversa para outros temas indesejados e, dessa maneira, faz-se imprescindível o papel do animador. De qualquer maneira, creio que já se pode notar a pertinência do grupo focal para dar conta da abordagem específica a que quero me ater.

Além disso, há de se estar atento ao fato de que a pesquisa com grupo focal em alguma medida fabrica determinada circunstância mais ou menos propícia para o surgimento de determinada natureza de discurso. Ou seja, o rumo da conversação porventura contribui para o nascimento espontâneo de uma grande narrativa, uma narrativa dominante, o que pode ter sua gênese, por exemplo, na presença de um indivíduo com certa loquacidade persuasiva que acerque a opinião dos demais sujeitos da sua. No início da conversa com o grupo, notei que uma das participantes monopolizava a discussão e, sobretudo, se desviava bastante do assunto se atendo, por exemplo, a sua paixão pelos filmes da Walt Disney Company. Em momentos como esse, é preciso ter sensibilidade para corrigir o rumo do diálogo e fomentar a participação dos outros sujeitos nele envolvidos.

É necessário, portanto, estar atento a esse tipo de possibilidade e, uma vez incumbido da animação do grupo focal, “inibir os monopolizadores da palavra” (MINAYO, 2010, p.270). O nascimento de uma espécie de discurso dominante pode se dar também por meio de certas falhas na condução do diálogo por parte do animador. Ou seja, do mesmo modo que o animador deve prestar atenção para que não haja “monopolizadores da palavra”, ele mesmo

54 não a pode monopolizar, bem como deve cuidar para não induzir a opinião e os posicionamentos de seus interlocutores.

Ademais, uma vez que o intuito foi identificar as camadas de enunciação que se respaldam em argumentos mais ou menos sensíveis e dada muitas vezes a dificuldade dos sujeitos de individualmente encontrarem as palavras mais precisas para expressarem, sobretudo, sentimentos e percepções sensíveis, me parece que a discussão em grupo, neste caso, foi bastante favorável.