Uma vez tomada a decisão de pesquisar o grupo, refleti sobre como apurar os dados para visibilizar o que eu relacionei à Educação Ambiental Dialógica. Devia ser de forma a não interromper a dinâmica do grupo. Os dados deveriam vir a mim naturalmente dentro do ser parte do grupo, sem que eu assumisse o papel de “espião” ou o grupo se tornasse mero informante formal para meu objetivo individual.
Confesso que, inicialmente, não fui atrás de literatura em busca de métodos e metodologias que pudesse aplicar à realidade. Em primeiro lugar queria conviver observar, participar, intervir, dialogar, sentir para que os depoimentos se aproximassem mais da realidade.
O que entendo por conviver? Não é acompanhar e observar por um determinado tempo, ou participar até certo prazo, é ser parte constituinte do grupo e ter uma história com o grupo. Na convivência eu estou no e com o grupo, observando os outros e me observando, ouvindo, valorizando o saber dos parceiros, participando, intervindo, me engajando, dialogando.
Enquanto à metodologia já sabia que não queria aplicar fichários ou fazer entrevistas estruturadas ou semi-estruturadas. A coleta de dados tinha que fluir através de conversas que as pessoas desenvolviam e que de vez em quando eu direcionava com certas perguntas acerca de temas específicos, como a história e trajetória do grupo, questões ambientais e educação e a relação afetiva que mantém.
Na maioria dos casos não precisei direcionar muito porque os temas já estão presentes no grupo, como por exemplo, a história e trajetória, os objetivos do grupo, seu futuro, sua relação com o meio ambiente, educação e a relação afetuosa das pessoas, saúde e violência no bairro, preocupação com a vida dos moradores da área.
Nas conversas as pessoas se lembram de seu passado; da relação com o meio ambiente e o saber adquirido nessa relação, que é ligado à história de vida; da origem do grupo, sua trajetória; expressam como o grupo se entende, qual sua perspectiva, isso também é tema constante porque as integrantes do grupo gostam de se lembrar como tudo começou, tanto individualmente como coletivamente, promovendo de vez em quando encontros em que o grupo se reflete no ontem, no hoje e no amanhã. A afetividade se manifesta tanto na fala quanto na interrelação das pessoas.
No decorrer dessas formas de conviver/pesquisar, ia para os encontros pensando em coletar dados, mas não com o intuito de transformar o estar juntos em debates sobre a
pesquisa. Também não separei encontros do grupo e encontros específicos da pesquisa para evitar o risco das pessoas se sentirem obrigadas a responder qualquer coisa. Tentei ser pesquisadora como parte do sujeito pesquisado, observando, participando, dialogando, fazendo anotações e pedindo ao grupo para me auxiliar nas gravações filmadas e na foto- documentação.
Como ninguém questionava ou pedia informações acerca do desenvolvimento da minha pesquisa, de vez em quando lembrava para o grupo que estava escrevendo este trabalho para a faculdade e que as anotações e gravações serviam para tanto. Em uma ocasião, levei uma cópia do que tinha escrito para que pelo menos conhecessem o título da Tese e perguntei o que podia significar para elas, tendo como resposta que ao não se fazer algo por e com amor, por exemplo, o trabalho - já que o grupo discursava naquele momento sobre o desemprego e o papel da educação - não haveria perspectiva, não teria sentido.
Aproveito o tema em discussão e relembro que estou fazendo um trabalho na faculdade sobre o grupo. Pela primeira vez mostro o que já apresentei na segunda qualificação e digo que o que está sendo falado nesse encontro é importante e vai entrar no trabalho. Peço Edna ler o título do trabalho “Sem amor não há perspectiva: O grupo de Mulheres das Goiabeiras e a Educação Ambiental Dialógica”. Pergunto o que esse título pode significar para ela.
Edna: Eu digo assim, porque está falando aqui sem amor não há ... porque a gente tem que fazer o que a gente gosta, para mim eu acho assim. Eu tenho amor pelo que eu gosto então eu tenho que fazer o que eu gosto. O que é perspectiva?
Eu: É como dizer sem amor não tem jeito, não tem futuro.
Edna.: É isso mesmo é isso que eu estou dizendo, para a mãe. A mãe diz vai fazer faculdade, essas coisas. (...) A mãe fica dizendo assim: “vai procurar uma
faculdade”, pra que adianta? Têm muitos que tem faculdade é cursinho é não sei o
que mais, depois fica trabalhando como zelador, como auxiliar de cozinha e ta satisfeita o que é que adianta? Já vi também pessoas que é analfabeta tem um emprego melhor e tem uma coisa maior do que quem é empresário, quem tem cursos, tem todas essas coisas. (...) Tendo o suficiente para você viver, tanto par você comer, tanto para você pagar suas coisinhas bem diretinho ta o suficiente. Pra que esse monte de dinheiro que você vai morrer e não vai levar nada mesmo. (...) Eu sabendo o suficiente que dá para arranjar meu trabalho e ganhar o meu dinheirinho certinho está bom de mais. Prefiro ser assim mesmo (vídeo-gravação 3.06.2014).
Foi nessa trajetória que registrei e transcrevi os momentos partilhados, de onde reporto que certas técnicas foram menos uma escolha do que um emergir a partir da convivência: observação participante; entrevistas abertas; o grupo como técnica; caderno de anotações; oficina; análise de documentos da associação; registro de fotografias e vídeos; e as atividades do GMG.
A observação participante no GMG me possibilitou olhar para as relações, práticas e gestos não ditos em entrevistas, como também foi a linha de costura da flutuação da minha condição como participante-pesquisadora.
[...] a observação participante é uma tentativa de colocar o observador e o observado do mesmo lado, tornando-se o observador um membro do grupo de modo que vivam e trabalhem dentro do sistema de referencia dos observados (BARROS, 2008).
Fez olhar amplamente o grupo para o acompanhar, me ajudou a estar junto, fortalecer o conviver, a convivência, como também a reconhecer os temas espontâneos das conversas. De modo que:
[...] supõe a interação pesquisador/pesquisado. As informações que obtém, as respostas que são dadas às suas indagações, dependerão, ao final das contas, do seu comportamento e das relações que desenvolve com o grupo estudado. (...) A observação participante implica saber ouvir, escutar, ver, fazer uso de todos os sentidos. É preciso aprender quando perguntar e quando não perguntar, assim como que perguntas fazer na hora certa (p. 303). As entrevistas formais são muitas vezes desnecessárias (p. 304), devendo a coleta de informações não se restringir a isso. Com o tempo os dados podem vir ao pesquisador sem que ele faça qualquer esforço para obtê-los (WHYTE in VALLADARES, 2007).
Com entrevistas abertas dei enfoque aos temas que, espontaneamente revelados pelo grupo, passaram a ser tratados de maneira mais pontual. Se deram em torno de grandes temas como “o grupo”, “o ambiente” e “a afetividade”, e ocorriam no interior das relações, durante os encontros do GMG, tomando café, nas reuniões, durante as atividades etc.
Na medida das minhas perguntas, que eram geradas sempre considerando minha participação no GMG, buscava destacar as dimensões positivas do próprio grupo, através da descoberta e valorização dos saberes que têm. Assim a entrevista aberta foi “o instrumento da análise da enunciação que se apóia na dinâmica da entrevista e nas figuras de retórica como a metáfora, o paradoxo facilitam a interpretação e a compreensão” (PAULILO in BARROS, 2008).
Incorporar as atividades do grupo como técnica desta pesquisa permitiu aglutinar opiniões, contradições, conflitos, concordâncias, etc, geradas no interior das relações e experiências, viabilizando o saber sobre o coletivo, como também possibilitou momentos de educação mútua, através da partilha de saberes.
Dessa maneira, as atividades desenvolvidas pelo GMG, envolviam e geraram tanto informações do grupo sobre si, como ajudaram a entender o seu potencial de agir e transformar sua realidade na sua dimensão coletiva. Foram ações desenvolvidas pelo grupo que aproveitei para colecionar dados, a saber: as reuniões semanais; as oficinas de artesanato;
o projeto ponto de leitura; as reuniões de memorização da história; e, a recuperação da horta comunitária.
Essas atividades desenvolvidas compõem a pesquisa engajada também, pois tanto foram ações do grupo, como ações que incentivei como pesquisadora. Por exemplo, o Ponto de Leitura, projeto cultural para promover uma pesquisa sobre a história da comunidade e que foi assumido por algumas mulheres do grupo, eu inclusive, surgiu enquanto eu já era pesquisadora.
A produção de um vídeo sobre a história da comunidade, que foi resultado desse projeto, foi uma ação construída pelo grupo, que em si não é uma técnica de pesquisa, ela é uma ação desenvolvida pelo GMG, mas acabou sendo uma técnica incorporada para a pesquisa, pois com esse material tracei a história da origem da comunidade de Goiabeiras e o seu contexto sócio-ambiental.
Os encontros que o grupo promoveu para memorizar a história e refletir sobre o presente e futuro do GMG foram atividades do grupo, que mesmo assim me serviu como coleta de dados, pois foi uma atividade em que eu participava e estava lá também como pesquisadora. Então, aquela atividade pode ter um sentido para além da pesquisa sobre as participantes, mas existe uma intencionalidade minha.
Foi incorporando na pesquisa o GMG, que se insere na Associação Movimento em Defesa da Vida dos Moradores de Goiabeiras e Adjacências (MDVGA), que tive acesso aos documentos institucionais da associação de moradores, que traziam ainda mais informações acerca do contexto ambiental do grupo, tais como registros históricos e depoimentos de moradores.
Também produzi fotografias que funcionaram como registro do grupo enfatizando os temas que emergiram ao longo da pesquisa e da vivência, e que são reveladoras dos momentos de solidariedade e afetos do grupo, servindo como acervo imagético das realizações do GMG.
Nesse processo, elaborei um caderno de anotações, o qual iniciei devido a falta de gravador, visando anotar o que o grupo fazia e as conversas que tinham nos encontros semanais. Sem me ater à minha reflexão sobre o acontecido e o dito, os registros resultantes serviram como parte do banco de dados da Tese.
Nesse conviver/pesquisar, promovi duas oficinas. Uma em que levei várias fotos apresentando a natureza na sua amplitude vegetal, animal, humana e paisagística, pedindo que escolhessem algumas e explicassem o porquê da escolha, buscando revelar os significados que o grupo projetava a partir das imagens na sua relação com a natureza.
A outra oficina foi direcionada para conhecer melhor e refletir sobre a história, memória e a trajetória do grupo, onde as pessoas podiam se expressar oralmente ou através de desenhos e escritas.
As duas oficinas que promovi ajudaram na produção de dados na medida em que focavam nas representações que as participantes apresentavam questões e dialogavam em torno dos sentimentos relacionados à natureza, à memória e ao futuro do grupo, projetados em desenhos, escritos e falas.
Diante do exposto, o emergir dessas técnicas resultaram da tentativa de profundo e verdadeiro diálogo com a realidade pesquisada, em uma relação mútua de produção de sentidos, de um lado a projeção de uma pesquisadora e seu lugar no grupo, e, não de outro, mas do mesmo lado, os desejos do grupo, que conjugados em diálogo, elaboraram tanto os elementos para esta Tese, quanto e mais importante o existir do grupo.
3.3 Do ser participante ao pesquisar participando – Os momentos da transformação