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1 INTRODUCTION

1.5 Discursive strategies for the construction of national character in sports reporting…

1.2.1. Neuroticismo

O neuroticismo, no modelo dos Cinco Grandes Fatores, refere-se ao nível crônico de desajustamento e de instabilidade emocional. As pessoas com elevados níveis de neuroticismo experienciam padrões emocionais associados a um desconforto psicológico causado por aflições, angústias e sofrimentos bem como elevada autocrítica e impulsividade, ansiedade, depressão, hostilidade e vulnerabilidade (McCrae & John, 1992).

O modelo dos Cinco Grandes Fatores, também conhecido como “Big Five”, é uma versão moderna da Teoria de Traço e aparece como um consenso emergente entre os teóricos de traços. Considerando esse modelo, a personalidade é constituída por cinco traços, entre eles o neuroticismo. Os demais traços são: extroversão, abertura para experiência, amabilidade e consciência. O modelo dos cinco grandes fatores de personalidade, por sua abrangência, pareceu-nos mais adequado para embasar este trabalho.

No modelo teórico de McCrae e Costa (1999), os cinco traços ou dimensões da personalidade são como tendências básicas com uma base biológica. Tais dimensões da personalidade não são influenciadas diretamente pelo ambiente, mas influenciam o autoconceito e as adaptações características do indivíduo e, por sua vez, estão associadas às atitudes, objetivos pessoais etc. Dentro desse modelo, os traços de personalidade permanecem estáveis ao longo do tempo.

A origem do modelo dos cinco grandes fatores de personalidade está relacionada com a análise de instrumentos tradicionais de personalidade (16PF, MMPI etc.), cujas soluções fatoriais apontavam sempre para os mesmos cinco fatores, independentemente da teoria que seus autores utilizavam. O NEO-PI-R (Costa & McCrae, 1992) pode ser citado como o principal instrumento de personalidade utilizado no mundo, tendo como base o modelo dos cinco grandes fatores. No Brasil, Hutz et al., (1998) identificaram 64 marcadores de traços com bons resultados de fidedignidade e validade fatorial.

Existem muitas aplicações do modelo dos Cinco Grandes Fatores, incluindo as áreas de escolha de carreira, diagnóstico de personalidade e psicopatologia e decisões sobre o tratamento psicológico. Altos índices de neuroticismo revelam pessoas mal-humoradas, insatisfeitas, com emoções negativas constantes, perturbação psicológica, autoestima reduzida e expectativas pouco realistas (Pervin & John, 2004).

Conforme Hutz e Nunes (2001), pessoas com altos níveis de neuroticismo são mais propensas a vivenciar sofrimento emocional, ideias dissociadas da realidade, ansiedade excessiva, dificuldade para tolerar frustração e respostas de coping mal adaptadas. Adicionalmente, apresentam baixa autoestima e prejuízos em seu bem-estar psicológico, o que, por sua vez, pode aumentar sintomas depressivos e comportamentos de risco ligados ao suicídio (Ito, Gobitta & Guzzo, 2007).

Muitos estudos consideram que as estratégias de enfrentamento (coping) podem ser divididas em três dimensões (Cox & Ferguson, 1991): enfrentamento com foco no problema; enfrentamento com foco na emoção e enfrentamento pela evitação cognitiva ou comportamental. A forma de enfrentamento considerada mais eficiente focaliza os problemas e promove a implementação de planos de ação. Todavia, pessoas com altos níveis de neuroticismo utilizam mais as estratégias de enfrentamento com foco nas emoções e evitação, consideradas menos funcionais (McCrae & Costa, 1986).

Rondina et al., (2007), em trabalho sobre as características psicológicas associadas ao comportamento de risco de fumar tabaco, apontaram que os fumantes tendem a ser mais extrovertidos, ansiosos, tensos, impulsivos e com mais traços de neuroticismo e psicoticismo, em comparação a ex-fumantes e não fumantes. Em outra pesquisa sobre o tema, Maciel e Yoshida (2006), altos índices de neuroticismo e depressão estavam presentes em pacientes ambulatoriais dependentes de álcool.

Dessa forma, os pacientes que se queixam muito de doenças físicas e que constantemente procuram os serviços de saúde também apresentam sintomas típicos do traço neuroticismo, tais como ansiedade, hostilidade, depressão, impulsividade e vulnerabilidade ao estresse (Stone & Costa, 1990). Isso quer dizer que o neuroticismo amplia as queixas somáticas relatadas pelos pacientes, mas não há evidências de que tenha influência direta nos problemas de saúde (Matthews & Deary, 1998).

Muitos estudos têm relacionado o neuroticismo com a vulnerabilidade ao estresse (Matthews, Mohamed & Lochrie, 1994; McCrae & Costa, 1986). As pessoas que apresentam níveis elevados de neuroticismo percebem o mundo como ameaçador e perigoso, o que aumenta a vulnerabilidade ao estresse, bem como sintomas depressivos e de ansiedade.

Nesse contexto, Matthews e Deary (1998) mostraram que os processos cognitivos de pessoas com níveis mais elevados de neuroticismo são disfuncionais e que a tendência ao estresse desses sujeitos está relacionada, principalmente, a estados afetivos de raiva, irritação, ansiedade e falta de confiança. Adicionalmente, o neuroticismo também está associado positivamente com estilos de avaliações pessimistas das situações, problemas de relacionamento e comportamentos de risco de alcoólatras e dependentes químicos. Segundo Lazarus (1991), os processos cognitivos associados ao estresse estão associados, basicamente, a avaliações que os indivíduos fazem de determinada situação e às formas de enfrentamento que utilizam. Quando uma pessoa avalia que uma situação está fora de controle, (situação

arriscada) o estresse pode ser desencadeado. Se as estratégias de enfrentamento da situação avaliada como negativa são ineficientes, podem ser desenvolvidos problemas de saúde e comportamentos disfuncionais.

1.2.2. Neuroticismo e comportamento de risco

Teorias contemporâneas salientam a importância de traços de personalidade na influência de comportamentos de risco. Os traços de personalidade representam características individuais que são relativamente estáveis ao longo do tempo. Diversas pesquisas apresentam que os traços de personalidade que estão diretamente associados com as condutas arriscadas. Algumas reconhecem a importância do neuroticismo (Auerbach et al., 2007; Cooper, Wood, Orcutt & Albino, 2003) e outras o consideram irrelevante para a compreensão da tomada de decisão sobre o risco (Zuckerman & Kuhlman, 2000).

As pesquisas conduzidas por Zuckerman (1994, 2000) e Zuckerman e Kuhlman (2000) apresentam como hipótese central a existência de uma personalidade universal associada aos comportamentos de risco. Os resultados desses estudos apontam sempre na direção de que os traços de personalidade ligados à busca de sensações e impulsividade exercem forte influência na emissão dos comportamentos de risco. Nesse contexto, o traço de personalidade ligado à busca de sensações é caracterizado pela procura de sensações e de experiências novas, variadas, complexas e intensas, mesmo que para isso o sujeito precise assumir riscos de natureza legal, social, financeiros e mesmo à sua saúde. A impulsividade, por sua vez, é compreendida como tendência para entrar em situações rapidamente, em resposta a estímulos com potencial de recompensa, não havendo planejamento nem consideração de punições ou perdas de recompensas potenciais. A combinação desses dois traços é o que define o traço mais amplo, denominado busca impulsiva por sensações. Vale mencionar que o neuroticismo

não foi considerado traço de personalidade relevante para os comportamentos de risco nessas pesquisas.

Por outro lado, diversas pesquisas indicam que o traço de personalidade neuroticismo está associado ao aumento em comportamentos de risco bem como a elevados níveis de afetos negativos (Cooper et al., 2000; Vollrath, Torgersen & Alnaes, 1995). Esses estudos indicam que indivíduos com altos níveis de neuroticismo apresentam dificuldades de analisar riscos potenciais em longo prazo. Essa associação entre as ações de risco e esse traço de personalidade pode ser explicada, em parte, pelas características das pessoas que possuem altos níveis de neuroticismo. Tais indivíduos tendem a ter ideias dissociadas da realidade, baixa tolerância à frustração, afetos negativos, baixa capacidade de controle dos impulsos, baixa autoestima e respostas de coping mal adaptadas (Nunes & Hutz, 2002).

Resultados semelhantes aos de Cooper et al., (2000) foram encontrados por Auerbach et al., 2007. Esses pesquisadores investigaram comportamentos de risco em 141 universitários, especificamente relacionados a práticas sexuais inseguras, agressividade, desacato a regras e normas, comportamento autodestrutivos e abuso de álcool e drogas. Os resultados demonstraram que indivíduos com altos níveis de neuroticismo e déficits em regulação emocional apresentavam maior engajamento em comportamentos de risco, além de aumento do número de sintomas de depressão e de ansiedade. O papel das estratégias de regulação emocional adaptativas também foi descrito e considerado relevante para a diminuição de comportamentos considerados arriscados.

Nesta pesquisa, a escolha do traço neuroticismo justifica-se pela existência de instrumento validado para a realidade brasileira (Hutz & Nunes, 2001), bem como pelos resultados das pesquisas anteriormente mencionadas que o consideraram como traço de personalidade relevante nos comportamentos de risco (Auerbach et al., 2007; Cooper et al., 2000).