Reservoir Description and Discretization
3.4 Discretization of the Reservoir Descrip- Descrip-tion
De acordo com Foucault (1992, p. 46), a função autor é uma das formas de existência do sujeito, é característica do modo de existência, de circulação e de funcionamento de alguns discursos no interior da sociedade. Para o filósofo (op. cit, p. 45):
Um nome de autor não é simplesmente um elemento de um discurso [...] ele exerce, relativamente ao discurso, um certo papel: assegura uma função classificativa. Um tal nome permite reagrupar um certo número de textos, delimita-
106 Ver GRANGEIRO, C.R.P. Discurso religioso: vox Dei ou vox homini?. Boletim da Associação Brasileira de Lingüística. Vol 26. p 540 a 542, 2001.
los, seleciona-los.” [...] em suma, nome de autor caracteriza um certo modo de ser no discurso, indica que ele não é um discurso cotidiano, indiferente, flutuante e passageiro, imediatamente consumível, mas que se trata de um discurso que deve ser recebido de certa maneira e que deve, em uma cultura, receber um certo estatuto.
Isso quer dizer que, quando o sujeito assina o seu nome próprio, esse nome significa dentro do contexto no qual está inserido. No do folheto analisado, a recepção do discurso levará em conta que “Abraão” é cordelista, xilógrafo, professor universitário, funcionário do Memorial Padre Cícero etc. Tais elementos criam grades de significações que cerceiam o dizer, o que Foucault vai chamar de um “modo de ser no discurso” (1992, p. 45).
O poeta é autor de inúmeros cordéis sobre temas políticos, com suas respectivas xilogravuras. Em diversas outras eleições e momentos políticos de Juazeiro, do Ceará e do Brasil, lançou folhetos, a maioria com esse tom de sátira, de crítica derrisória, tanto no aspecto verbal como nas xilogravuras, dentre os quais: Lozart e Ormando no pais dos
xeleléus, quando eram candidatos a prefeito Dr. Mozart Cardoso de Alencar e Orlando
Bezerra; Encontro de um xeleléu com o anjo da guarda, quando determinada figura política de Juazeiro era, nas palavras do poeta, o “xeleléu-mor” da família Bezerra, que dominava a política na Região do Cariri; A mudança do nome de Juazeiro do Norte para Juazeiro do
Padre Cícero, posicionando-se contra essa proposta do então vereador João Barbosa; O elefante branco, quando de uma eleição em que o então candidato a prefeito do PDT Carlos
Macedo, criticou a construção de obras faraônicas realizadas em Juazeiro chamando-as de “elefante branco”, ao que a oposição o acusou de chamar a estátua do Padre Cícero de “elefante branco”; Encontro de Tasso Jereissati com os três coronéis, folheto “de encomenda” em que defende o então candidato a governador; Ciro toma. Ciro goma; Ciro
soma? em que critica o então governador Ciro Gomes por cobrar muitos impostos; e o mais
recente: O casamento de Dona Aurora com o Cão-beba, satirizando a união política do atual prefeito de Juazeiro Dr. Raimundo Macedo, nascido em uma cidade próxima a Juazeiro chamada Aurora com o PSDB, partido que governou o Estado até 2006 e cujo centro administrativo chama-se CAMBEBA.107
O poeta é autor, ainda, de mais de uma centena de folhetos, versando sobre temas diversos. Sobre o tema “mulher”, tem A evolucão da moda e a sabedoria da mulher
através dos tempos; Trágico romance de Angela Diniz e Doca Street, O direito que a mulher tem, vários sobre o Padre Cícero: Quando o Padre Cícero chegou a Juazeiro,
Respeitem o Padre Cícero etc e inúmeros “cordéis de ocasião”108 como O sexorais de Bill
Clinton: o presidente namorador e Mônica Levinsky; Ana Paula: a jovem que se rifou para ir morar em São Paulo; O homem que deixou a mulher para viver com uma jumenta na Paraíba.
A dimensão de sátira política do folheto de cordel não é exclusiva dessa expressão cultural. Ela é próxima das chamadas “cantigas de escárnio”, praticadas na Idade Média e mesmo de poemas de autores como Gregório de Matos e de Bocage.109
Assim, passando por diversas funções que o sujeito pode ocupar, após desdobrar- se em vários, o sujeito do folheto assume a função-autor, hipotecando seu nome próprio à enunciação e colocando-se no âmbito do político, como um porta-voz: “falei foi a voz do povo”, aquele que faz parte, ao mesmo tempo, do povo, mas que tem um “excedente de visão”, o que o torna capaz de “pedir a atenção” do “eleitor” que agora já não é mais “pequeno”, “humilde”, agora já é eleitor consciente, capaz de escutar e entender a voz do seu porta-voz:
Fique sabendo o povo Do Padre Cícero Romão Eu escrevi este verso Para pedir atenção Do eleitor consciente
Quem assina é Abraão. (grifos nossos).
(F1, p. 08)
O mecanismo de legitimação do discurso político reside, justamente, no fato de não ser o sujeito candidato, nem ser “político”, de estar “fora dos partidos”, o que o colocaria numa posição de neutralidade, causando um efeito de discurso verdadeiro (aquele em que hipoteca o seu próprio nome): o meu discurso não é ideológico pois estou “fora dos partidos”.
Estou fora dos partidos Porque deles abusei Devido tanta mistura Certa distância guardei (...)
(F2, p. 01)
O sujeito se coloca, pois, numa posição de exterioridade dos partidos para poder enunciar as falas “políticas”, hipotecando, para tanto, a sua função-sujeito-autoria, o seu próprio nome, colocando-se, também, como “porta-voz” do povo. Uma distância relativa,
108 Cordéis baseados em fatos reais.
109 Ver BATISTA, M. F. B. M. O romanceiro tradicional popular: origem e permanência no Nordeste do
visto que está modalizada pelo “certa” distância. Relativa também porque o termo “distância dos partidos” soa até como ironia, visto que todo o discurso do folheto aponta para uma “tomada de partido” bastante nítida.