• No results found

4. THEORY

4.2. Discourse-coalition in politics

“O foco nas instituições como conceito base nas ciências sociais deu origem a uma variedade de novas abordagens institucionalistas. Não tem havido tanto interesse em

um conceito interdisciplinar, desde a revolução comportamental dos anos 1950; tema comum que favorece o debate e o intercâmbio. Os textos de Ronald Coase, Douglass North e Oliver Williamson sobre o surgimento e evolução endógena das instituições econômicas têm inspirado um movimento generalizado na economia. Na sociologia, os neo institucionalistas, principalmente John Meyer, Richard Scott, Paul DiMaggio e Walter Powell têm redirecionado o estudo das organizações ao analisar como o ambiente institucional e as crenças culturais moldam o seu comportamento. Em um deslocamento paralelo da atenção analítica, os econômico-sociólogos Neil Fligstein, Richard Swedberg e eu defendemos um novo enfoque para explicar como as instituições interagem com as redes sociais e normas dão forma e direcionam a ação econômica direta. O ponto de partida comum dessas abordagens é a afirmação de que as instituições importam e que a compreensão das instituições e suas mudanças fazem parte da agenda fundamental para as ciências sociais.”

(NEE, 2005, p. 49)

A Nova Sociologia Econômica (NSE) é abordada nessa seção com o objetivo de facilitar o entendimento do contexto macroeconômico em que a Inovação em Redes de PMEs está inserida e como ela contribui com as teorias deste campo. O primeiro passo é de forma sintética apresentar a corrente teórica em que a teoria substantiva contribui, para então expor a lacuna com a qual ela colabora. Ao explicitar alguns dos conceitos e o debate deste campo, busco também ampliar a perspectiva da relevância social e econômica das redes de PMEs no cenário atual.

Segundo Abramovay (2004), a nova sociologia econômica tem como objetivo mostrar que, nos mercados, os vínculos sociais concretos, localizados, são determinantes de suas dinâmicas e que, portanto, sua auto-regulação depende da própria maneira como a interação social ocorre: “O caráter formalmente impessoal dos mercados – tão justamente ressaltado pelos mais importantes clássicos das ciências sociais – não impede então que eles sejam construídos, na verdade, por formas concretas de coordenação, cujo estudo empírico é o

objeto principal da nova sociologia econômica”. (ABRAMOVAY, 2004, p. 56). Na

sociologia econômica, a ação econômica possui um significado que não é dado de antemão e sim construído na relação entre os atores (DiMAGGIO, POWELL, 1983). Seu principal expoente é DiMaggio, que argumenta as razões do baixo prestígio da „cultura‟ entre os

economistas, apesar da sua centralidade para todas as ciências sociais; em parte é justificado pelo próprio estilo da disciplina, que favorece modelos dedutivos parcimoniosos que usualmente atingem alto grau de abstração e generalidade; mas, há outra razão que estabelece claramente uma distância entre essa vertente da nova sociologia econômica e a nova economia institucional:

“[...] diante das anomalias das tomadas de decisão humanas, os economistas preferem a psicologia cognitiva à antropologia cultural: é muito mais fácil incorporar aos modelos de decisão heurísticos invariantes [...] do que lidar com perturbações causadas pelos esquemas culturalmente variáveis de percepção e valor.”

(ABRAMOVAY, 2004 apud DiMagio, 1994, p. 29)

O importante no trabalho de Di Maggio é sua insistência na idéia de que os modelos mentais dos atores não devem ser buscados, contrariamente ao que propõe North, nas ciências da cognição, e sim na cultura, isto é, na sociologia e na antropologia cultural. Segundo Nee (2005) os novos institucionalistas (organizacionais, economistas e da sociologia econômica) vêem as instituições como construções sociais governadas por regras e partilham definições semelhantes de instituições como sistemas interligados de regras formais e informais que facilitam, motivam e governam o comportamento social e econômico. No entanto, a sociologia econômica difere da abordagem econômica na visão de que as instituições não são apenas restrições formais e informais que especificam a estrutura dos incentivos, mas, fundamentalmente, elas abrangem arenas socialmente construídas em que os diferentes atores identificam e perseguem seus interesses. Embora os economistas reconhecem a importância da organização social informal, sua análise enfatiza o papel do Estado na aplicação de regras formais. A sociologia econômica enfatiza as normas produzidas e mantidas em grupo fechado que compõem a organização social informal nas empresas. Os vínculos em curso, interpessoais e das redes, são cruciais para a compreensão da natureza da relação entre as organizações sociais informais e as regras formais. Dito isto, mesmo sem ter usado a priori

um referencial teórico de partida, pode-se afirmar que após a construção da teoria substantiva, os resultados deste estudo se enquadram nesta corrente da nova sociologia econômica.

“A economia é social pelos seus inputs, sejam estes subvenções, bens coletivos e públicos, sistema social de inovação, engajamento de empregados para além do contrato de trabalho ou, ainda, coletividades locais que aportem capital social, dotações institucionais e dotações culturais. Ela o é também por outputs, que não são apenas bens e serviços produzidos, mas também exterioridades, tais como empregos, desenvolvimento de coletividades, relação com a natureza qualidade de vida etc. Além disso, a NSE acrescenta que a economia é social pelo fato de o mercado constituir tanto uma forma institucional e organizacional como uma construção social. Enfim, a coordenação das atividades econômicas e da circulação de bens diz respeito ao mercado, à hierarquia e a governanças baseadas num nível elevado de engajamento social. Como é o caso das associações, das redes, das alianças, das comunidades e coletividades as mais diversas.”

(LÉVESQUE, 2007, p. 57)

O estudo de Lévesque (2007), ao abordar as contribuições da NSE para repensar a economia no sentido de desenvolvimento sustentável, estabelece quatro hipóteses de partida, que a meu ver expressam bem a base da NSE no contexto das redes de PMEs: 1) a NSE busca diferenciar-se daquela que separa economia da sociedade, distinta da sociologia marxista, revertendo o determinismo econômico da sociedade em prol de uma determinação social da economia, ou seja, a economia como totalidade; 2) a NSE surge num contexto de grandes transformações, num período de “destruição criadora” de Schumpeter (1985), em que o neoliberalismo dá sinais de que requer intervenções sociais, mesmo sem ter contribuído para a reabilitação da sociedade civil, sem eliminar, a necessidade de regulação das instâncias governamentais. Essa grande transformação é composta por vetores que representam ameaças e oportunidades para repensar o desenvolvimento econômico. Tais vetores são: crítica social e ambiental; globalização associada a uma „financeirização‟, trazendo novas inter-relações entre o local e o global; o avanço da tecnologia de informação e comunicação; e o aumento de riscos; aqui se enquadra a explicação para intervenções políticas e incentivos do governo para o desenvolvimento das APLs; 3) A terceira hipótese diz respeito ao lugar dos atores na

mudança social; a ruptura entre ciência e valor é questionada em nome da diversidade dos mundos e dos repertórios, as relações entre o econômico e social são reconfiguradas, e seu conteúdo é redefinido; e 4) a NSE supõe que a maioria de suas abordagens, mesmo que bastante diversificadas entre si, sejam pertinentes para melhor repensar e compreender a economia como objeto sociológico.

Granovetter (1985) é identificado como um dos principais autores da NSE (SWEDBERG, 2003; MARTES, 2009), inspirado em Berger e Luckmann (2000) com a construção social dos mercados e em Harrison White (1981) com as redes, Granovetter estabeleceu três postulados para a análise da economia: toda ação econômica é uma ação social; a ação econômica é socialmente situada; e as instituições econômicas são construções sociais. O enraizamento (embeddedness) das ações econômicas nas relações sociais (poder, sociabilidade, amizade, aprovação, confiança) é variável crítica para a tomada de decisão dos agentes econômicos e coloca em novos trilhos a discussão sobre as preferências e a racionalidade. Granovetter (1985) ajusta o conceito de inserção social proposto por Polanyi (2001), ao considerar que nas sociedades primitivas a economia estaria plenamente inserida nas relações sociais e na sociedade moderna a economia estaria inteiramente descolada das relações. Uzzi, Gillespie (2002) e Granovetter (1985) demonstram que as relações de amizade e de família intervêm de maneira decisiva no quadro relacional e institucional das empresas contemporâneas, onde as relações imersas socialmente garantem a articulação diferenciada entre os agentes no mercado, proporcionando vantagens nas negociações. Pois, se confia mais naqueles com quem já se teve uma relação no passado que tenha gerado confiança

Outro ícone da NSE é Neil Fligstein (2001), que desenvolve uma visão sociológica da ação com base no interacionismo simbólico e define o conceito de habilidade social, que diz respeito à habilidade dos atores motivarem e induzirem a cooperação de terceiros a tomarem parte em uma ação coletiva. O conceito de habilidade social explica a tendência de se manter

os padrões institucionalizados, derivado da ação de atores de grupos dominantes que defendem a manutenção do status quo e ao mesmo tempo abre a possibilidade para que atores sociais hábeis produzam quadros culturais completamente novos para seus campos por meio da construção de identidades e de comprometimento que unem o grupo. Pois, a “NSE engaja- se num esforço ecológico que se preocupa menos em tomar o poder do Estado e mais em mudar os comportamentos cotidianos e realizar uma série de micro rupturas, ou ainda, uma revolução molecular que jamais se completará” (LÉVESQUE, 2007).

A partir do momento em que se aceita colocar as ciências da gestão no interior da reflexão econômica, a sociologia econômica se encontra muito próxima desta “ciência da ação” organizacional, e logo da reflexão sobre a ação coletiva (HATCHUEL, 2001). O mercado é um „espaço de encontros‟, no sentido de que as interações concretas entre os indivíduos estão no centro das iniciativas (STEINER, 2006).

Figura 26– Sociologia Econômica e Teoria Econômica

Fonte: STEINER, 2006.

Steiner (2006) explica que a NSE se interessa pela origem dos fenômenos mercantis, ela dirige sua atenção para as instituições nas quais está mergulhada a relação mercantil, ou seja, as instituições que a tornam possível. A emergência dos mercados, sob o enfoque da sociologia econômica, na qual os fatores relacionais, políticos, culturais etc., intervêm largamente na construção social dos mercados paralelamente a fatores propriamente

econômicos, pois a relação mercantil é inseparável da organização social que a torna possível (vide figura 26).

Segundo Smith-Doerr e Powell (2005), o papel das redes na economia tem despertando grande interesse, porém há falta de coerência com respeito à terminologia, definição e operacionalização dos estudos das redes. Duas linhas principais são usadas para abordar os estudos de redes: 1) associando a Sociologia e a Teoria Organizacional (TO) – que emprega a rede como um dispositivo analítico para explicar as relações sociais, seja dentro delas, nas suas inter-relações ou no ambiente das organizações; e, 2) Redes como governança – que é mais interdisciplinar e prescritiva, que aborda a visão de redes como forma de governança das relações entre os atores econômicos. Estas abordagens tem dois conjuntos de literatura que foram desenvolvidas de forma independente com pouca troca e interação, mas apresentam como pontos de convergência: 1) Base conceitual para os termos imersão ou enraizamento (embeddedness), conectividade e reciprocidade; 2) as redes para ambas são estruturas de oportunidade e fontes de restrição; e, 3) ambas empregam uma agenda analítica para ligar redes a um contexto social mais amplo. Em comum as pesquisas sobre redes no contexto social tem: 1) a visão da Identidade que é construída através do estabelecimento de múltiplos papéis; passa a indicar pontos de contato de interação com outras pessoas e os diferentes tipos de interações apropriadas para as pessoas ocupando diferentes posições; 2) a autonomia, uma rede pode ser formada fora da rede de interdependências – não há limites/ fronteiras entre vida pessoal e profissional, e que na prática as pessoas atuam para reforçar as relações sociais a que pertencem e nem tanto o bem-estar organizacional. Portanto, a Identidades são forjadas de forma porosa, das relações diversificadas na qual estão emaranhadas negócio, amizade e reputação. Segundo os autores, a ironia é que foi atribuída maior importância à estrutura das relações entre atores do que às propriedades dos atores,

sendo que a posição na rede foi assumida como se fosse a própria propriedade e a centralidade na rede como característica fundamental, mas isso depende do contexto:

“A orientação analítica por trás desses programas de pesquisa enfoca as relações entre as unidades, em vez de classificar as unidades em categorias com base em atributos. Mas, apesar do foco comum nas associações (linkages), aglomerações e padrões de reciprocidade e assimetria, surpreendentemente tem havido pouca „fertilização cruzada‟ intelectual.”

(SMITH-DOERR, POWELL, 2005, p. 391)

Portanto, a recomendação dos autores é que para remediar esta „falha‟ é necessário trazer nas pesquisas da rede o estudo sobre forma e conteúdo dos laços, buscando a parcimônia nas teorias e com o uso de métodos de estudo sistemáticos para que os resultados e os links sejam possíveis e transferíveis; e, sobre as pesquisas de formas de governança nas redes, que estas sejam mais orientadas para processos, gerando insights de como os laços são criados, porque eles são mantidos e quais são fluxos de recursos gerados por esses links e quais conseqüências eles geram. Por fim, Smith-Doerr e Powell (2005) apontam três temas que despontam como relevantes para o campo (redes e vida econômica) na abordagem da NSE: 1) Morfologia e Demografia – a primeira explora se os padrões para a formação de rede: diferem entre países, variam de acordo com a indústria e quanto à governança. Quanto à demografia das redes, estudos de perfil quantitativo sobre tamanho, forma, direção dos laços e métodos para mensurar o seu escopo; 2) Dinâmica das Redes - estudos sobre os processos da rede, como o indivíduo deve retribuir um favor, como as expectativas variam entre os diferentes links, o efeito dos tipos de recursos dos atores, captura dos efeitos da aprendizagem e difusão entre os laços e como utilizar os laços de efetivação para promover a integração e trocas na rede; 3) Falhas na Rede - como expectativas comuns melhoram o fluxo de informação na rede, quando os laços geram inércia e paroquialismo, sobre os limites da diversidade e da habilidade de adaptar às mudanças circunstanciais.