5.2 Temporal and spatial snow line descent in Svalbard
5.2.1 The problem of Miller at al. (2017)
5.2.1.3 Discordant ages
Ao contrário do que alguns dos observadores do século XIX pensavam (ex. Titiev e Tomás Guevara), que acreditavam que os araucanos não resistiriam a tantas tentativas de eliminação e incorporação forçada, os grupos originários dessa região do Chile mostraram no princípio do século XX que continuavam mantendo sua capacidade de adaptação e resistência (BENGOA, 2000). No ano de 1911, na cidade de Temuco, foi criada a primeira organização mapuche¸ Sociedad Caupolicán Defensora de la Araucanía, que tinha como objetivo preservar o grupo das constantes injustiças que o acometiam, além de demandar programas de defesa e educação para todos.
De 1910 até 1930, como reação ao assassinato de vários lonkos de grupos distintos, os mapuches organizaram muitas manifestações que chegaram às principais cidades da região da Araucanía (VITALE, 2000). Foi nesse mesmo período que começou a acontecer uma aproximação dos grupos originários araucanos junto aos partidos políticos, característica também observada nos outros casos estudados neste trabalho. Algumas insurreições e outras formas de exposição das demandas que
surgiram no período tinham o objetivo de recuperar a total autonomia dos povos araucanos em relação ao Estado chileno.
Esta lucha defensiva de los mapuches se expresó en la estructuración de nuevas organizaciones, de heterogénea orientación, como la Sociedad Caupolicán (1918-1938), la Federación Araucana (1916- 1939), la Unión Araucana (1926) y otras estimuladas por mapuches urbanos, especialmente profesores, ligados a partidos políticos, no sólo de izquierda (VITALE, 2000, pp. 68-69).
Porém, a Corporación Araucana representava os interesses do Partido Conservador chileno, sendo o tipo de associação que via a integração dos grupos mapuche à sociedade majoritária chilena através de uma ótica unidirecional, ou seja, através de uma espécie de assimilação que demandava a anulação das diferenças entre os grupos. A “Federación Araucana”, mais ligada a grupos de esquerda, como o Partido Comunista e a Federación Obrera de Chile, representava a manutenção das tradições indígenas. Inclusive, durante o debate iniciado com a lei de divisão das propriedades coletivas indígenas de 1927, o posicionamento desses grupos ficou claramente delimitado.
Manuel Manquilef, dirigente da Corporación Araucana, posteriormente eleito deputado pelo Partido Liberal, foi a liderança que mais pressionou pela promulgação da lei de divisão das propriedades indígenas. Devido, justamente, a esse posicionamento, que não foi muito bem visto pela grande maioria da sociedade mapuche, observamos a perda de legitimidade da associação perante os grupos e conseqüente encerramento das suas atividades. Porém, em 1934, um grupo de jovens araucanos que vivia em Temuco tomou a presidência da associação, assumindo desde o início uma postura completamente nova e divergente da dos dirigentes anteriores. Inclusive, eles foram os principias opositores da lei de divisão das terras indígenas e conseguiram que a mesma fosse derrubada no Parlamento (BENGOA, 2000).
Porém, a principal forma de expressão da vontade dos grupos organizados mapuche no princípio do século XX, impulsionada pela Federación Araucana, remonta à experiência já vivenciada durante o período colonial, que foram os parlamentos. Em 1916 ocorreu o primeiro parlamento nessa nova etapa. Naquele momento, o grupo concentrado em Temuco pediu a suspensão dos leilões das terras indígena para indivíduos externos ao grupo, além de demandar a designação de terras para 30.000 indígenas que não haviam conseguido posse de seus territórios (BENGOA, 2000).
Panguilef, a principal liderança que estava à frente da organização desses parlamentos em território Araucano, organizou um grupo político-teatral que levava às diversas regiões do Chile demandas dos grupos indígenas reveladas através de manifestações culturais. Os contatos estabelecidos nessas viagens com setores de esquerda, além de explicar o posicionamento político assumido pela Federación Araucana, criada em 1920 e liderada por Panguilef, ajudam a compor o quadro que tornou possível o aparecimento de uma postura mais extremista por parte de determinados grupos mapuche durante o período.
O ponto máximo da reivindicação do movimento liderado por Panguilef foi a tentativa de criação de uma nova república indígena independente em janeiro de 1932. O objetivo do grupo, que chegou inclusive a parcialmente atingir essa proposta com proclamação de uma espécie de república independente, foi, principalmente, deixar que os mapuches se autogovernassem e recuperassem as terras usurpadas por não-indígenas na região da Araucanía (VITALE, 2000). Porém, o projeto de criação dessa nova república foi dizimado no mesmo ano. A forte repressão ao movimento independentista encabeçado por Panguilef foi feita pelos militares que assumiram o governo através de um golpe no mesmo ano de 1932. Embora esse período de governo militar tenha sido curto, pois durou menos de um ano, ele deixou como uma de suas principais marcas a repressão ao movimento mapuche não-integracionista.
Marcando a fase que ficou conhecida pela forte divisão das comunidades indígenas durante o século XX, especificamente nos anos 1927, 1930, 1931 e 1961, foram ditadas várias leis que visavam a dispersar as terras coletivas em porções individuais e a transferência das terras ocupadas por indígenas para não-indígenas que a fizessem produzir. Para contrapor a essas leis, durante a década de 1960, as organizações mapuche construíram uma proposta de uma nova lei indígena. Nesse momento, o Chile encontrava-se muito divido entre as forças políticas de esquerda que estavam se adensando no país e as estratégias reformistas de centro-direita que ocupavam o poder e tentavam manter-se nele. Foi no bojo desse projeto reformista que em 1967, durante um dos mandatos do Partido Democrata Cristão, foi promulgada uma lei nacional para a reforma agrária. Porém, tal reforma não beneficiava diretamente os grupos mapuches expropriados de suas terras, pois ela visava a redistribuir as terras ociosas dos grandes latifúndios para as mãos dos trabalhadores rurais permanentes, ao passo que o trabalho dos mapuches nessas terras, quando era utilizado, era primordialmente sazonal (INSTITUTO DE ESTUDIOS INDÍGENAS, 2003).
Com a vitória eleitoral de Salvador Allende, que foi presidente do Chile entre 1970 e 1973, as organizações indígenas que não se viram abarcadas pelo projeto reformista anterior, encontraram um forte ponto de apoio no novo governo de esquerda, conseguindo que uma nova lei indígena, que atendia grande parte das demandas dos grupos originários, fosse promulgada. Entre as principais determinações da lei indígena de 1972, destacamos as seguintes: restituição das terras usurpadas, educação bilíngüe, apoio técnico e financeiro para as zonas rurais ocupadas pelos grupos originários e políticas voltadas para o incentivo da organização dos grupos indígenas (HAUGHNEY, 2006).
Porém, o golpe militar de 1973 impossibilitou a aplicação da lei para uma efetiva reestruturação da política indígena no Chile. Ao contrário do que o movimento iniciado no período anterior indicava, o auge da política de divisão e a conseqüente desconsideração da lei indígena promulgada em 1972 ocorreu a partir de 1973 e perdurou durante todo o regime militar que foi instaurado no Chile. O governo de Augusto Pinochet (1973-1990) implementou políticas neoliberais e, seguindo esse novo modelo, o mercado, não mais o Estado, passou a ser visto como o fio condutor dos conflitos gerados pela modernização do país (HAUGHNEY, 2006). Inclusive, grandes conflitos contra a forma como os recursos naturais passaram a ser explorados em todo o Chile, mas especialmente na região da Araucanía, foram iniciados nesse período.
Durante a ditadura militar de Augusto Pinochet, através de decretos-lei, observamos a divisão de quase a totalidade das terras que ainda estavam sob domínio coletivo indígena. No ano de 1978, no bojo de uma série de reformas institucionais, o governo militar declarou que as terras ocupadas por indígenas deveriam ser divididas e a única titularidade reconhecida seria a posse privada do território. “Desde de su aprobación en 1978 hasta el fin del régimen militar en 1990, alrededor de 2.000 comunidades mapuche fueron divididas, dando origen a alrededor de 72 mil hijuelas individuales con un total de 463 mil hectáreas” (INSTITUTO DE ESTUDIOS INDÍGENAS, 2003, p. 162).
Em decorrência direta dessa política de estabelecimento de minifúndios para as famílias mapuches, que levou à pauperização de muitas delas, que, naquele momento mais do que nunca, estavam desprovidas da estrutura social coletiva que as organizava anteriormente26, observamos o fenômeno da migração massiva desses grupos para os
26
Nas palabras de Bengoa (2000), “La pauperización de la sociedad mapuche es la consecuencia más visible del paso al minifundismo” (p. 364).
centros urbanos do Chile. De acordo com Bengoa (2000), a migração de mapuche para as grandes cidades do Chile só começou a partir dos anos 1930 e foi impulsionada, sobretudo, pelo aumento da oferta de empregos nas regiões industrializadas do país. Mas, complementando com grande força esse processo salientado por Bengoa, está toda a questão da usurpação das terras dos grupos originários e o início das diversas leis de divisão das terras concedidas através dos antigos títulos de mercê.
De este modo, el mapuche migrante en las ciudades debe desenvolverse en la sociedad chilena, lo que le provocará ciertos conflictos de identidad étnica. El migrante traslada y porta consigo su tradición cultural, que se reproduce en un nuevo contexto, ‘lo urbano’, donde el mapuche al sentirse discriminado trata de esconder su identidad cultural (CANQUIL, 2004, p. 55).
Como veremos na próxima subseção, todo esse desenvolvimento histórico anterior é de suma importância para compreender, inclusive, porque os mapuches foram os únicos dos grupos estudados que passaram por um processo de criminalização via aplicação da lei antiterrorista. Os grupos mapuches, mesmo com a migração para a região metropolitana de Santiago, permaneceram razoavelmente concentrados na região da Araucanía. Afora a mais eficaz tentativa de aproximação com os grupos mapuches que Salvador Allende tentou empreender, não observamos na história do Chile nenhuma outra política nacional que levasse em conta as demandas pela reversão dos prejuízos históricos que os mapuches enfrentaram, atrelada ao reconhecimento de suas especificidades enquanto “nação”.