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Discontinuous VPCs with up

In document Signs of Colloquialization (sider 112-128)

5. Phrasal Verbs and Colloquialization

5.4. Up

5.4.2. Corpus Findings

5.4.2.2. Discontinuous VPCs with up

O Fédon tem início com a narrativa do personagem homônimo, expondo o derradeiro dia de vida de Sócrates, e, por conseguinte, sua última discussão com seus discípulos e amigos. No início do diálogo, Sócrates diz que não se aborrece e nem mesmo teme a sentença condenatória que se efetivará naquele dia, isto é, a sentença de morte a que foi condenado. Diante da perplexidade de seus interlocutores com sua reação, tranquila e até mesmo alegre, Sócrates explica que não tem razões para estar irritado e apreensivo, pois acredita que a alma

34 seja algo imortal e indestrutível, que sobrevive após a morte do corpo69. Considerando a alma imortal, o que Sócrates defende é que a filosofia, quando praticada corretamente, consiste num exercício para a morte. Nas palavras do filósofo: “... quando uma pessoa se dedica à filosofia no sentido correto do termo, os demais ignoram que sua única ocupação consiste em preparar-se para morrer e em estar morto!”70.

Símias e Cebes, interlocutores de Sócrates, têm dificuldade em compreender a postura do filósofo. Para eles, a morte é algo que se deve evitar e postergar ao máximo. Cebes, contrapondo Sócrates, levanta a concepção de que os homens são pertença dos deuses. O homem sensato, para Cebes, reconhece que os deuses velam por sua vida, e deveria desejar sempre estar na companhia destes, ou seja, viver o máximo de tempo que lhe fosse possível. Já o homem insensato, sem inteligência, acredita que pode cuidar de si próprio, desprezando a tutela divina. Para Cebes, então, é incompreensível que aquele que se dedica à filosofia aceite de bom grado a morte. Isso seria sinal de falta de inteligência e, o que é ainda pior, de falta de obediência aos deuses.

Diante dessa objeção, com a qual Símias concorda, Sócrates assume a tarefa de defender a tese da filosofia como uma preparação para a morte. O primeiro recurso que utiliza para tanto é a crença de que a alma seja essa espécie de coisa imortal, que sobrevive à morte do corpo. Considerando esta natureza da alma, Sócrates afirma ter a convicção de que o que há depois da morte do corpo é melhor para aqueles que tiveram uma vida virtuosa, caso dos que se dedicaram verdadeiramente à filosofia, do que para aqueles que viveram de forma má71. Assim, o segundo ponto para sua defesa é a crença de que a alma responde, após a morte do corpo, ao tipo de vida que levou enquanto esteve unida a este.

Neste ponto, é importante indicar que Sócrates pressupõe algumas coisas. Primeiro, o corpo e a alma são distintos. Em segundo lugar, a alma continua a existir mesmo separada do corpo. Além disso, o filósofo define o que seja a morte: “Nada mais que a separação da alma e do corpo”72

. A vida deve ser, então, o contrário, isto é, o estado em que alma e corpo estão unidos. Sócrates não compreende a morte, portanto, como o fim da existência, depois do que

69 De acordo com Sócrates, a alma é: “... antes de tudo uma coisa imortal e indestrutível, e nossas almas de fato

hão de persistir no Hades...” Phaedo, 106e-107a. PLATÃO. O Banquete, Fédon, Sofista, Político. Trad. Jorge Paleikat e João Cruz Costa. Op. cit., p. 120.

70

Phaedo, 64a. Ibid., p. 71.

71 “SÓCRATES: ...não tenho razões para estar irritado. Mas, ao contrário, tenho a firme convicção de que depois

da morte há qualquer coisa – qualquer coisa, de resto, que uma antiga tradição diz ser muito melhor para os bons do que para os maus...” Phaedo, 63c. Ibid., p. 70.

72

35 nada mais existe (como o vulgo julgava à época, vide a objeção de Cebes apontada acima). Quando o filósofo se refere à filosofia como preparação para a morte, está falando dessa morte, desse estado em que a alma existe separada do corpo. Mas por que esse estado é melhor do que a vida? Por que deve ser buscado?

Sócrates observa como o verdadeiro filósofo não se preocupa com questões relacionadas ao corpo, tampouco se dedica a satisfazer os desejos deste. Aquele que é verdadeiramente um filósofo dirige suas preocupações ao que diz respeito à alma, e se dedica ao cuidado desta. No que concerne ao conhecimento, algo parecido acontece. O modo mais seguro de se alcançar o conhecimento é quando a alma está o mais afastada possível da sociedade com os sentidos, de suas interferências. Nas palavras de Sócrates:

SÓCRATES: Quando é, pois, que a alma atinge a verdade (τῆς ἀληθείας)? Temos de um lado que, quando ela deseja investigar (σκοπεῖν) com a ajuda do corpo qualquer questão que seja, o corpo, é claro, a engana radicalmente. SÍMIAS: Dizes uma verdade.

SÓC.: Não é, por conseguinte, no ato de raciocinar (λογίζεσθαι), e não de outro modo, que a alma apreende (γίγνεταί), em parte, a realidade de um ser (τι τῶν ὄντων)?73

No mesmo sentido, em outro ponto, Sócrates afirma:

SÓCRATES: Além disso, por todo o tempo que durar nossa vida, estaremos mais próximos do saber (εἰδέναι), parece-me, quando nos afastarmos o mais possível da sociedade e união com o corpo (μηδὲν ὁμιλῶμεν τῷ σώματι μηδὲ κοινωνῶμεν), salvo em situações de necessidade premente, quando, sobretudo, não estivermos mais contaminados por sua natureza, mas, pelo contrário, nos acharmos puros de seu contato...74

Pela definição de morte, não há momento em que a alma esteja mais separada do corpo do que neste estado. É nesse sentido que Sócrates afirma que a filosofia é essencialmente uma preparação para a morte75. Quando separada do corpo, a alma pode conhecer sem intermédio dos sentidos, que estão sempre sujeitos a falhas e equívocos76. Durante a vida, é impossível à alma investigar sem a interferência do corpo. A condição de estar vivo é justamente a união da

73 Phaedo, 65b-c. Ibid., p. 72. 74

Phaedo, 67a. Ibid., p. 74.

75 “SÓCRATES: ...estão se exercitando para a morrer todos aqueles que, no bom sentido da palavra, se dedicam

à filosofia.” Phaedo, 67e. Ibid., p. 75.

76 Aqui, Sócrates pressupõe que a alma exista separada do corpo mantendo sua atividade racional. O filósofo só

36 alma e corpo. Logo, o que aquele que busca o verdadeiro conhecimento (o filósofo) deve fazer durante a vida é afastar-se o máximo da sociedade com os sentidos (através das atividades da alma, o raciocínio e o pensamento), mas tendo sempre em vista que seu objetivo é atingir o estado de separação entre alma e corpo, isto é, a morte. Por isso a verdadeira filosofia, para Sócrates, é um preparar-se para tal.

Percebemos, aqui, o caráter epistemológico da tese da filosofia como preparação para a morte. A busca pela separação da alma em relação ao corpo orienta-se pela natureza do verdadeiro conhecimento, que não é alcançado pelos sentidos. Isso se coaduna com a compreensão da filosofia como purificação, abordada no capítulo anterior. Sendo uma preparação para a morte, a filosofia é uma prática ascética, ou seja, de purificação. Além do caráter epistemológico, a tese da filosofia como preparação para a morte também assume um viés moral. Sócrates aponta, não só no Fédon, a importância de se cuidar da alma, que é o mesmo que cuidar de si77. Assim, a filosofia não se resume a uma atividade intelectual, mas é também um constante cuidar daquilo que é o mais essencial do homem, isto é, sua alma. A busca pela separação da alma em relação ao corpo também é, então, moral: só separando-se do que é causa de males o homem pode purificar-se, tornando-se virtuoso.

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