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Quero ter aguém com quem conversar. Alguém que depois, não use o que eu disse contra mim. Russo (1986)

O projeto Leve Supra Cena foi algo que me ensinou a olhar para o teatro e para o que está em minha volta de uma maneira inovadora. Cada professor desenvolveu algo diferente com os alunos, e que com certeza, cada pesquisa foi muito importante para o resultado final, o Dispa-se.

Um tema trabalhado por nós foi a Leitura de Espaços. A princípio achei o tema vago, pois não havia entendido a real proposta dessa pesquisa que o professor Hugo tinha o interesse de desenvolver. Até então, eu nunca tinha parado para fazer uma relação entre teatro e espaço, nem de espaço com qualquer outra coisa. Mas na verdade essa relação é feita por nós a todo momento. Em cada espaço que estamos habitando fazemos uma leitura automática, e que essa leitura fica evidente e clara na maneira como agimos e pensamos em relação aquele espaço. Durante toda a oficina notei algo que é sempre falado nas minhas aulas de sociologia na escola, o fato de que o meio influencia o indivíduo, e o espaço faz parte desse meio.

Umas das aulas o professor Hugo trabalhou com a gente sobre ponto de vista. Essa aula foi pra mim de grande importância, pois me ajudou a ver como devo lidar com as pessoas que estão em minha volta e para com coisas que frequentemente ocorrem na nossa sociedade. As disputas pela verdade já vem acontecendo há séculos, tanto no âmbito científico quando no individual, cada ser humano busca a dita, verdade. Muito dos conflitos sociais (ou todos), dos mais simples aos mais complexos, ocorrem por conta de que os indivíduos querem impor a sua verdade sobre o outro. Mas o que a aula sobre ponto de vista tem a ver com tudo isso? Aquela aula mostra que existem várias verdades, e que cada uma delas só existe por conta do ponto de vista de cada um que está analisando.

Está sendo muito complexo tentar entender tudo que o teatro significa e traz consigo. Mas tive duas aulas que foram de extrema importância para o meu entendi- mento do que é Teatro. As aulas na rua. O teatro está presente e pode estar presente em todo lugar. A única coisa que vai determinar isso, sãos nossos objetivos. Algumas

vezes o espaço criado pelas pessoas, pode se tornar opressor em relação a aqueles que não se encaixam nos padrões já estabelecidos. Isso ficou bem claro no exercício com o mendigo, onde o único espaço que ele pôde ficar foi naquele que não tinha mais ninguém, não podendo ir além da rua. Quando está no “lugar de alguém” ele é um incômodo para as pessoas, tornando visível apenas no momento em que virou esse incômodo.

Algo interessante que ocorreu no Leve Supra Cena foi que realizamos as aulas em vários espaços diferentes: sala de aula, rua, auditório, teatro de arena e Parque da Cidade. O legal é que tínhamos que nos moldar de acordo com os limites físicos estabelecidos por cada ambiente. Por exemplo: Ensaiamos a peça inteira no auditório (local onde apresentamos a peça), e teve um dia que ensaiamos o mesmo espetáculo no teatro de arena, um lugar bem menor do que o que estávamos habituados. Ensaiar lá foi muito ruim, pois o nosso espetáculo, da maneira como ele foi estruturado, não condizia com o ambiente em que estávamos. Caso tivéssemos apresentado o Dispa- se no teatro de arena, com certeza teria sido outro espetáculo, já que o ambiente influencia muito na peça, tornando-se intimidador ou acolhedor.

O Dispa-se foi fruto de um processo maravilhoso e surpreendente. E que para ter acontecido do jeito que aconteceu, muita coisa foi envolvida. Cada conversa, cada anotação, cada dia de aula, cada briga, cada um dos momentos felizes que tivemos antes do espetáculo ajudaram a montá-lo. Entender as propostas dos professores foi algo fundamental nos dias que estávamos apresentando, pelo menos pra mim. Não só nesses dias. Até hoje as coisas trabalhadas durante o processo estão presentes no meu dia a dia e nas minhas observações individuais.

Figura 22 – O militante: Fotografia do espetáculo Dispa-se

Fotografia da plateia - Autor desconhecido

diferente da dos outros personagens. Não tinha um lugar que o personagem estava, como, por exemplo, uma casa, um salão ou em um show. O militante estava apenas no palco, do jeito que o palco estava, lidando com os objetos do jeito que eles eram. Meu personagem trabalha no espaço psicológico, onde o objetivo dele era estar na mente de cada pessoa que o assistia falando, tentando impor o ponto de vista dele sobre determinada situação que tinha acontecido.

Uma das cenas que realizamos no nosso espetáculo também foi feita na rua em forma de exercício. Duas coisas tão iguais em sua essência que foram completamente diferentes. Foi a cena do regador. Na rua houve uma certa estranheza das pessoas. Algumas foram grossas e outras gentis, mas com certeza teve estranheza. Já no espetáculo, as pessoas não tiveram aquela reação, porque o ambiente em que estavam submetidas era de acordo com o que estava acontecendo ali. Mas por qual motivo na rua as pessoas tiveram uma estranheza do que estava acontecendo e no auditório não? Porque o espaço rua (físico, social e psicológico) não foi constituído com esse objetivo. Nada impede o espaço de ser moldado, já que os espaços são mutáveis.

O espaço faz parte do teatro, sem ele não haveria essa arte tão maravilhosa e fabulosa. Ele é algo de fundamental importância, que influencia tudo o que acontece no teatro. É algo básico, mas ao qual não dão tanta atenção. Porém esta lá, sempre lá, ditando as coisas, moldando quem está nele, e sendo moldado pelos mais ousados. Vivemos no espaço, fazemos parte dele: Eu, você e o teatro.