• No results found

3. 1.2 Raízes do nacional na TV.

É possível perceber o poder da televisão no Brasil em vários momentos decisivos da vida política nacional. Como instrumento de produção de ficções da realidade, os canais televisivos endossam posturas políticas, chancelam ações de grupos de pressão e fazem de sua atuação um quarto poder. A ausência de uma televisão pública forte e comprometida com a emancipação cidadã coloca no colo dos empresários nacionais todo o material necessário para participar do jogo político brasileiro, influenciando decisivamente no pêndulo da balança, ilustração dessa afirmação é o recorte trazido no filme “O que é isso companheiro?” Que reproduz subjetivamente esse processo aqui tratado.

Baseado em livro homônimo de Fernando Gabeira, “O que é isso companheiro?” é um exemplo de filme brasileiro que dialoga com a formação da indústria televisiva no Brasil. Do ano de 1997 dirigido por Bruno Barreto. Passado no Rio de Janeiro, o filme é ambientado nos duros anos da ditadura civil- militar brasileira (1964-1985) e proporciona a imersão em uma ousada ação empreendida por grupos de oposição daquela época. Nele vislumbra-se o que foi o ar nefasto dos porões que fizeram desaparecer muitos oposicionistas do regime e a violência brutal com que os torturadores do Destacamento de Operações de Informações do Centro de Operações de Defesa Interna (DOI-CODI) e da Operação Bandeirantes (OBAN), obtinham suas confissões, contando com o silêncio da grande mídia brasileira, conforme relato de um executivo de televisão da época:

É uma estupidez, de qualquer forma, negar que a Globo teve a sua imagem confundida com a ditadura. Mesmo sem querer, na medida em que ela apurava o seu padrão de qualidade, em que o pior deixava de ser o melhor na programação, em que o mau gosto, o mondo cane e a apelação tornavam-se dispensáveis, tudo isso coincidia com a euforia do “milagre brasileiro”. O padrão de qualidade, o fortalecimento de uma imagem de modernidade e tecnologia, acabou cooptando, mesmo sem querer, a imagem do “Brasil Grande”, que tanto interessava aos governos da ditadura (CLARK, 1991, p. 252).

O que é isso companheiro? Interage com a realidade da televisão em sua fase inicial, mostra o processo de apoio da mídia ao regime ditatorial e o silenciamento de seus opositores, é justamente esse silenciamento que leva o grupo de companheiros a pensar uma ação que os colocasse em cartaz. Atentos ao fato de que a censura imposta ao país pelos governantes civis e militares não permite que eles estabeleçam meios de comunicação com o grande público, o qual buscam acessar para criarem comoção, novos aliados para sua causa, o apoio da opinião pública ou ainda a mobilização da massa. É assim que Marcão, interpretado pelo ator Luís Fernando Guimarães, Maria (Fernanda Torres), Fernando (Pedro Cardoso), Clara (Cláudia Abreu) e seus companheiros decidem partir para uma atitude radical, que, dando certo, proporcionaria enorme repercussão – o sequestro do embaixador dos Estados Unidos.

Subjetivamente, percebe-se no filme as relações dos grupos de mídia com a máquina ditatorial, mídia essa constituída nos anos anteriores à ditadura civil-militar caracterizada no filme e beneficiada pela proximidade com os poderosos homens no poder e a barganha feita frente a esses. No Brasil, exemplares são as histórias dos oligarcas Assis Chateaubriand e de Roberto Marinho, dois homens de comunicação, de épocas próximas, e de modos operandi muito semelhantes, que acumularam uma incalculável fortuna através da concentração de várias plataformas comunicacionais, verticalizando e controlando o acesso a informação. Essa perspectiva política da comunicação televisiva inicialmente e transmídia atual foi consagrada ao longo da formação da indústria na região se ancorando nos benefícios dos contatos políticos como analisa Manuel Castells:

É por isso que o poder político e a ordem social são baseados na eficiência do controle exercido por atores dominantes sobre o processo de comunicação, seja ele a pregação a partir de um púlpito, a linha editorial de um jornal ou a programação da televisão. Quanto maiores e mais verticais as organizações de comunicação forem, mais o envio de mensagem será concentrado, e mais o receptor da mensagem será individualizado e controlado. Esse era claramente, e ainda é, o mundo da comunicação de massa. Isso não significa que os receptores da mensagem eram/são uma audiência passiva. Na verdade, eles processam mensagens com suas próprias categorias e percepções, e eles não necessariamente chegam às conclusões que os emissores da mensagem pretendiam. Entretanto, o único material ideativo (sejam imagens, sons, texto) em que eles podem trabalhar numa escala societal, é o material processado pela mídia de massa sob o controle de seus proprietários e de burocratas (CASTELLS, 2015, p. 32).

É dentro desse poder naturalizado da Ditadura da Mídia (BORGES, 2009) que busca- se fazer a luta pela reconfiguração midiática e por uma democratização dos meios, impedindo que a mesma continue sendo um partido do capital. “Os donos da mídia detêm hoje um poder

descomunal, sem precedentes na história. Passou-se o tempo das ilusões sobre esse setor, que no passado chegou a ser batizado de o quarto poder pelo papel desempenhado na fiscalização dos poderes executivo, legislativo e judiciário” (IDEM, 2009, p.15).

Esse processo pelo controle do capital midiático remete a Foucault (2016, p. 19) para quem as relações de poder não estão necessariamente no nível do direito quiçá da violência, muito menos tem base contratual ou repressiva. Suas análises mostram que a dominação capitalista não conseguiria ser mantida se fosse pautada apenas na repressão, é preciso ter o poder de instituir o regime da “verdade”. “O problema não é mudar a “consciência” das pessoas, ou o que elas têm na cabeça, mas o regime político, econômico, institucional de produção da verdade” (IDEM, 2016, p.54). No Brasil, como na Argentina esta produção de verdade está controlada historicamente por homens que barganham espaço de poder junto aos chefes do executivo nacional de sua época e que fizeram desse modo de agir uma referência para a ação política dos meios na contemporaneidade.

Nos últimos sessenta e sete anos, desde que o magnata Francisco de Assis Chateaubriand Bandeira de Mello criou a primeira emissora de televisão da América Latina, a TV Tupi de São Paulo, como braço audiovisual do grupo empresarial Diários Associados, que compreendia um oligopólio comunicacional de cadeias de rádio, jornais impressos, revistas e agência de informações, algo inédito na América Latina, profundas transformações foram presenciadas na produção televisiva em nível nacional e internacional.

Se naquele momento, como narra Morais (1994), o Brasil ganhava as páginas dos principais noticiários internacionais pelo ineditismo da iniciativa na região, “pois naquele ano só três canais de televisão funcionavam no mundo: um na Inglaterra, um na França e um nos Estados Unidos” (IDEM, p. 498), pouca coisa, ou quase nada mudou na forma dos empresários lidarem com o poder da comunicação para se assenhorar do imaginário popular, construir suas representações políticas e fazê-las lideranças de massa e, ou, no dia seguinte relegá-las ao ostracismo da falta de visibilidade e credibilidade. Todos os interesses, construções e desconstruções ascensão e queda de personalidades sempre visando angariar fundos para a sustentação do empreendimento: Lúcido é o testemunho de Walter Clark:

No caso da TV Tupi, as multinacionais faziam uma política de boa vizinhança com o Chateaubriand. Em parte, porque ele era aquele sujeito difícil, que não vacilava em denunciar as falcatruas ou meter em encrencas todo mundo que atrapalhasse o seu caminho. Era famoso e temido por isso. Mas, de outro lado, ele também era visto como um homem do sistema, um empreendedor empenhado em desenvolver a televisão, o que interessava, obviamente, aos anunciantes. Era um defensor tão apaixonado do capital

estrangeiro que, ao inaugurar uma impressora Hoe de O Jornal, batizou-a de Nelson Rockfeller. Isso tudo carreava para a Tupi o grosso das verbas de televisão (CLARK, 1991, p. 64).

Com a iniciativa inaugurada em 18 de setembro de 1950, o que vimos é a sofisticação dos modos e diretrizes na relação com o poder iniciado por “Chatô”, com a eleição democrática de Getúlio Vargas a partir de grande apoio de suas empresas, visando o investimento a ser liberado para a criação da TV Tupi e, outras demandas que seriam facilitadas devido à dependência de Vargas ao instrumento que o permitia se comunicar e criar boa imagem popular. Ilustrativa é a aposta de retorno feita entre os jornalistas Samuel Wainer e Chateaubriand, àquele momento seu patrão, em relação à volta de Getúlio ao poder com o apoio do grupo comunicacional, momento que “Chatô” ainda duvidava do poder de reconfiguração de imagens dos meios midiáticos e, assim, da ascensão de um Getúlio Vargas renovado imageticamente no pós-Estado Novo. Neste sentido:

[…] as urnas provaram que a razão estava com Samuel Wainer, e não com Chateubriand. Getúlio foi eleito presidente com larga margem de votos e retribuiu à altura o apoio que recebera do repórter dos Associados: sua primeira entrevista ao ser eleito foi dada com exclusividade a Samuel Wainer. Ele receberia o melhor tratamento que uma reportagem poderia merecer nas empresas de Chateubriand: dias depois Getúlio seria capa, mais uma vez, capa de O cruzeiro (IDEM. 1994 p. 515).

Outras construções e relações misturando o público e o privado nasceria daí, porém, interessa, nesse momento, fazer um breve traçado da histórica relação da mídia com o poder e apontar os processos que desse ângulo de análise proporcionaram a batalha da comunicação na contemporaneidade. Para compreender e adentrar mais profundamente nesse capítulo ao objeto investigado, necessário apresentar a dimensão do problema e a relevância brasileira junto a indústria televisiva, que representa uma das únicas e, certamente, ainda a mais significativa plataforma de informação e de entretenimento da maior parte da população local. Segundo a Pesquisa Brasileira de Mídia (2015) que verificou os hábitos de consumo de mídia pela população brasileira, encomendada pela Secretaria de Comunicação Social da Presidência da República, a televisão segue sendo o meio predominante. Nela, 95% dos entrevistados afirmam assistir alguma programação televisiva, sendo que 73% têm por hábito assistir diariamente. Os brasileiros passam em média quatro horas e trinta e um minutos por dia expostos ao televisor, de 2ª a 6ª-feira, e quatro horas e quatorze minutos nos finais de semana. O tempo gasto assistindo à televisão sofre influência do gênero, da idade e da escolaridade. De 2ª a 6ª-feira, as mulheres (4h48) passam mais horas em frente à TV do que os homens (4h12). Neste caso, os homens brasileiros de 16 a 25 anos (4h19) assistem cerca de

uma hora a menos de televisão por dia da semana do que os mais velhos, acima dos 65 anos (5h16). O televisor fica mais tempo ligado na casa das pessoas com até a 4ª série (4h47) do que no lar das pessoas com ensino superior (3h59).

O poder da plataforma televisiva e sua programação estão explícitos na pesquisa quando se identifica a relação do telespectador com o meio. As pessoas assistem à televisão, principalmente, para se informar (79%), como diversão e entretenimento (67%), para passar o tempo livre (32%) e por causa de um programa específico (19%). Não obstante, não é baixo o percentual de entrevistados que declaram ter esse meio de comunicação como uma companhia (11%) (BRASIL, 2015, p.15).

É nesse sentido que se sobressai, como aponta Moraes (2013, p. 20), as principais características do sistema midiático. Esse abusa da sua capacidade de explorar, fixar sentidos e ideologias e, interfere na formação da opinião pública e em linha predominantes do imaginário social e, “demonstra desembaraço na apropriação de diferentes léxicos para tentar colocar dentro de si todos os léxicos, a serviço das conveniências particulares”.

Desse modo que trazer relatos, cotejar bibliografia especializada e, não obstante fazer aqui um espaço de reflexão sobre o desenvolvimento e ostracismo da TV pública nesse período é importante para adentrar as causas e efeitos das ações e conflitos no campo televisivo. Ainda que o consumo da produção televisiva seja hegemônico em relação ao consumo de outras mídias, ainda tem-se um preconceito grande sobre os seus produtos, sempre sobre grande suspeição do telespectador mais crítico. Neste sentido, ainda que seja grande o relacionamento com essa mídia, academicamente, muito pouco se escreve e pesquisa sobre televisão no Brasil. Ramonet (2013) aponta:

Outra dificuldade enfrentada pelos cidadãos com respeito à credibilidade dos meios de comunicação é que eles são cada vez menos independentes. Independentes de quê? Por definição, independentes do poder político, mas, sobretudo, do poder econômico. Nestes últimos anos, os meios de comunicação entraram em crise e tiveram problemas em termos de benefícios e rentabilidade. Então, foram se vendendo, foram se integrando a grupos maiores e, por meio de fusões, adquiriram a configuração atual. Apareceram grupos midiáticos gigantes, como a News Corporation, o maior conglomerado midiático do mundo, pertencente a Rupert Murdoch (RAMONET, 2013, p. 61).

Essa suspeição gera indisposição para compreender o fenômeno, seja fruto da forma de condução e manipulação a ela associada, escândalos, corrupções e golpes consagrados desde a televisão comercial, ao mesmo tempo em que o providencial silenciamento e inviabilização financeira da TV pública impedem sua ascensão e maior circulação entre o público consumidor. Retornando a Morais (1994), esclarecedora é a passagem sobre a compra

da TV Cultura de São Paulo, fundada pelo industrial Cândido Fontoura e aquela época parte do Grupo Diários Associados que buscavam liquidez financeira. Sobre a venda desse canal que estava no pacote de outras emissoras e jornais a serem vendidos ele diz que:

Neste caso houve uma particularidade. O comprador era o governo estadual (que a transformou em estação cultural e educativa), e os diretores dos Associados conseguiram enfiar no contrato de venda uma cláusula marota: para evitar que um novo concorrente viesse a disputar o minguado mercado publicitário, exigiram que, nas mãos do estado, o canal 2 jamais exibisse anúncios (IDEM, IBIDEM, p. 677).

Essa “particularidade”, como chama Morais sobre cláusula imposta ao Estado paulista para adquirir a TV Cultura, foi incorporada a regulação do que chama-se hoje de TV pública, educativa, universitária ou comunitária. Incorporou-se a lei de rádio difusão pública a regulação onde o estado não pode afetar o mercado.

A cláusula impetrada pelo magnata Chatô, como era chamado, o proprietário do oligopólio midiático que com seu capital se expandia e concentrava nas mesmas mãos todas as etapas e consequências rentáveis dos processos tecnoprodutivos que ajudava a fomentar, tinha vistas a garantir o maior domínio possível sobre a cadeia de fabricação, processamento, comercialização e distribuição dos produtos e serviços.

Entra-se assim na era da moderna comunicação concentrada e mercantilizada, com as empresas objetivando a sedução de um número cada vez maior de pessoas, “os meios de comunicação dispersaram sua identidade política, pois seu objetivo não é mais um grupo definido política ou ideologicamente. Eles pretendem seduzir o conjunto dos cidadãos, desvirtuando ou ampliando sua linha editorial” (RAMONET, 2013, p. 54). Porém, foi com a ascensão de Roberto Marinho, com suporte do escandaloso acordo com o grupo estadunidense Time-Life que esse modelo de concentração se profissionalizou e expandiu no Brasil.

Nascida a partir do controle inicial do grupo estadunidense, como atesta o relato de seu principal executivo dos anos iniciais, Walter Clark, a Globo viria, anos depois ser o referencial do considerado padrão de qualidade da TV brasileira, inclusive sendo referência na TV Brasil, a quem deveria ser seu ponto contrário e fora da curva dos padrões comerciais hegemônicos51.

A TV Globo estava no ar desde 26 de abril de 1965. Era a emissora mais moderna e bem equipada do Rio, embora pequena em comparação com as

51 Exemplo dessa afirmação é que o principal jornal da emissora pública, nos anos iniciais da TV Brasil, O

Repórter Brasil, só era fechado quando os editores imediatos e sua chefia assistiam a cabeça (chamadas) do Jornal Nacional e se certificavam que o jornal público estava próximo ao oferecido pela TV Globo. Outro ponto importante, é que na redação da TV pública as televisões espalhadas pelo espaço ficavam 24 horas sintonizadas na TV Globo ou na Globo News.

concorrentes. Tinha um prédio especialmente construído para abriga-la e um conjunto de câmeras e aparelhos de videoteipe que tiniam de novos. Mas os seus primeiros meses de operação não foram felizes. Ela gastou muito dinheiro e não faturou nada. Mudou várias vezes a direção comercial [...] A Globo não tinha um grande problema de programação, a minha especialidade, embora também não pudesse alardear aos quatro ventos que possuía as melhores atrações da TV brasileira nem que elas estavam arranjadas da melhor forma possível, nos horários adequados. O Montoro, entretanto, insistiu com a Globo que só aceitaria o convite se eu fosse junto. Assim, eles acabaram atirando no que viram para acertar no que não viram, porque eu me dispus a conversar. Tivemos o primeiro contato com a Globo através do Joe Wallach, assessor do Roberto Marinho. O Joe era um americano de origem judia, baixinho, simpático e bem humorado, que tinha chegado ao Brasil como parte do acordo da Globo com o grupo Time-Life. Era o representante do Time-Life no negócio, o elo de ligação com Marinho. (CLARK, 1991, p. 158-159).

Dessa relação de sociedade com empresários estrangeiros, denunciada por seu principal concorrente, Assis Chateaubriand (MORAIS, 1994, p. 667), tempos depois, seria aberta uma Comissão Parlamentar de Inquérito para averiguar as verdadeiras relações de Roberto Marinho e os interesses do capital internacional no Brasil, porém, essa já no governo civil-militar apoiado pela empresa carioca, pouco de sólido pôde ser apurado sobre o caso. Fica o registro de seu ex-diretor executivo:

A participação do Time-Life no desenvolvimento da TV Globo é um desses mitos persistentes que contribuem talvez para o brilhareco de algumas carreiras políticas, mas que seguramente não explicam como e por que a Globo chegou aonde chegou. O testemunho que posso dar sobre isso hoje, tantos anos depois de afastado de lá e já sem nenhum compromisso com as pessoas que ficaram, é de que o Time-Life ajudou, mas não teve a mais remota responsabilidade, direta ou indireta, no que foi construído ali. A TV Globo, gostem ou não seus inimigos, é resultado do talento e do esforço de seus profissionais. Venceu a custa de muito trabalho, muita reflexão, muita vontade de fazer televisão de melhor qualidade, competente, moderna. [...] A associação com a Globo só foi formalmente desfeita em 1969. Foi o fim de uma série de equivocos, que começou junto com o próprio negócio. Roberto Marinho só se tornou sócio do Time-Life por indicação de Carlos Lacerda, que era amigo de Andrew Hiskell, chairman do grupo Time, desde que, durante uma crise política, ele se refugiou em sua casa, nos Estados Unidos. Foi Lacerda, então, que chamou a atenção dos americanos para aquele jornalista, amigo do capital estrangeiro, e que o avalizou como um bom sócio no Brasil. Depois desse gesto gentil, entretanto, os dois brigaram irreversivelmente. Roberto faltou a Lacerda no apoio que ele esperava para as eleições de 1965 e a amizade dos dois acabou (CLARK, 1991, p.167- 168).

Fato é que os meios de informação e comunicação apresentam-se na contemporaneidade cada vez mais sofisticados. O acesso ao conhecimento foi ampliado com o surgimento da internet e de todo o impacto promovido pela revolução tecno-cientifica

informacional do final do século XX, e a possibilidade ainda mínima para a maioria da população global de navegar mundo afora, ou mesmo, trazê-lo, virtualmente, para o lar. A alteração do processo da chamada comunicação de massa é fruto dessas mudanças que proporcionaram o avanço da técnica. No Brasil é crescente o número de usuários que se utilizam de outras plataformas digitais para assistir a conteúdos anteriormente privilegiados pela exclusiva emissão televisiva, e, também, cresce o número de usuários de outras plataformas como o celular que conectado a internet utilizam-nas para assistir de novo modo a velha televisão. Conforme atesta a pesquisa da SECOM (2015):

Praticamente a metade dos brasileiros, 48%, usa internet. O percentual de pessoas que a utilizam todos dos dias cresceu de 26% na PBM 2014 para 37% na PBM 2015. O hábito de uso da internet também é mais intenso do que o obtido anteriormente. Os usuários das novas mídias ficam conectados, em média, 4h59 por dia durante a semana e 4h24 nos finais de semana – na PBM 2014, os números eram 3h39 e 3h43 –, valores superiores aos obtidos pela televisão. O uso de aparelhos celulares como forma de acesso à internet já compete com o uso por meio de computadores ou notebooks, 66% e 71%, respectivamente. O uso de redes sociais influencia esse resultado. Entre os internautas, 92% estão conectados por meio de redes sociais, sendo as mais utilizadas o Facebook (83%), o Whatsapp (58%) e o Youtube (17%) (BRASIL, 2015, p. 7).

Dentro do jogo do capital, na busca por formação de consumidores, objetivo da televisão comercial e, emancipação cidadã, a princípio, proposta associada a televisão pública, a televisão que acessamos majoritariamente, o modelo comercial predominante no Brasil e